Por que não devemos temer Lula?

Posted on 23/06/2017. Filed under: Finanças |

É absolutamente inequívoco que Joesley sabe muito contra Lula e outros políticos, mas limitou-se, por enquanto, ao que atinge Temer, Aécio e satélites do PT e PMDB. Até Cunha está “jogando no ventilador”, confessando encontros suspeitíssimos (Cunha, Joesley e Lula em março de 2016? É assustador) provavelmente para forçar o STF a rever o acordo de delação.

É um tiro que pode sair pela culatra, pois se Joesley se julgar traído pela justiça brasileira, certamente fará um acordo semelhante nos EUA e entregará cada mísero detalhe da corrupção que ajudou a montar e irrigar.

Temer e seu ministro da justiça podem até estar torcendo por isso, mas um bilionário acuado, com 95% dos segredos ainda não revelados, e tentando manter seu negócio nos EUA, poderá deixar metade dos políticos brasileiros sem poder pisar em solo americano, quiçá sair do país. Rato acuado enfrenta leão.

É bom esses tupiniquins de colarinho branco lembrarem que o petrolão só explodiu depois que a auditoria independente da Petrobras se recusou a assinar o balanço, com receio das represálias violentas que poderiam sofrer nos EUA. É sujeira demais para pouco tapete, não será indolor.

Voltando a Lula

Mas, pelo que vejo, a principal vertente das teorias sobre a motivação de Janot e Fachin é a que estes estariam preparando o terreno para uma antecipação das eleições, dando espaço para Lula se candidatar. E pelo histórico medonho de Fachin de apoio ideológico ao PT e à Dilma Rousseff, não tiro o mérito da teoria.

Mas ninguém deveria ter medo de Lula candidato em eleições diretas, nem agora, nem em 2018 e nem nunca mais. Seus seguidores fiéis, aqueles que votariam nele mesmo se fosse filmado estuprando uma criança, talvez consigam um piso de 15% a 20% em majoritárias nacionais, mas Lula precisaria de mais, e não tem de onde tirar. Explico.

Lula é um ilusionista, um prestidigitador. Lula só funciona quando consegue emplacar um sistema de propaganda para disseminar as narrativas que lhe convém. E isso não depende só dele, depende, e muito, das circunstâncias.

Em 1989, 1994 e 1998 ele tentou isso. Como o representante dos trabalhadores (mesmo sem trabalhar), contra a elite, contra a Globo, contra o sistema financeiro, contra os EUA etc.. Deu completamente errado, perdeu primeiro para um neófito combatente de funcionários públicos abastados (marajás) em 1989, depois perdeu para o Plano Real em 1994, que tinha poucos meses de implantação e ninguém sabia se iria dar certo, e em 1998 para uma mínima sensação de bem-estar e riqueza, produzida pela queda da inflação, pelo frango a R$ 1,00 e pelo dólar baixo (artificialmente). E essas duas últimas, perdeu no primeiro turno.

Em 2002, 2006, 2010 e 2014 conseguiu sucesso na construção de narrativas. Mas as circunstâncias foram mudando. Muito.

Em 2002 iria perder a eleição, até que alguém resolveu forçá-lo a assinar uma carta de compromisso com a estabilidade. E, como não é burro, narrativas à parte, ao ser eleito continuou com a austeridade, quase que de forma intocada, durante 6 a 7 anos, no período mais longo sem crises, internas e externas (salvo o soluço do mensalão), da história recente do país.

Lula teve a faca e o queijo nas mãos para organizar o país de forma a manter seu grupo no poder por mais 30 anos. Não faltaram propostas, inclusive, e principalmente, de petistas em quem ele confiava, para mirarmos o déficit nominal ZERO.

Mas Lula é escravo da narrativa. Para ele, o mundo que facilita o discurso é mais interessante do que o mundo real. E ele se perdeu da realidade entre 2008 e 2010, ao assumir a narrativa da marolinha e conduzir todo o futuro do Brasil para “provar”que a crise não nos atingiria.

Repetiu as políticas de Andreazza e Delfim no início da década de 1980, quando expulsaram Mário Henrique Simonsen do governo e convenceram os militares de que conseguiríamos nadar da contramão da austeridade mundial. Tivemos uma década perdida lá, aqui teremos, possivelmente, 2 décadas perdidas.

Tudo para manter a narrativa triunfalista de PACs, Pré-sal, política contracíclica, MCMV, bolsas, revolução cultural, universidade para todos (Lula viaja até hoje no jatinho do dono da Kroton), Indústria Naval forte, Crédito farto para todos e muita retórica bonita que causou desarranjo fiscal severo nas contas dos governos. O Rio de Janeiro é só o primeiro a mostrar os efeitos mais devastadores desse desarranjo.

Os adversários.

A eleição de Dilma em 2014 nos remete a outro problema que garantiu a Lula ser eleito e manter seu sucessor, mesmo em situações adversas. Os adversários. Não vou tratar da fragilidade intelectual e moral de Aécio, Alckmin, Serra e outros, mas apenas demonstrar que eles não representam, em absoluto, os valores básicos dos brasileiros.

Dizer que o brasileiro gosta de governo grande é uma meia-verdade, pois gostar de receber benesses dos governos não é privilégio do brasileiro. Quando a Suíça fez um referendo sobre um salário mínimo a ser pago pelo governo de 6.000 euros por mês, 60% da população foi contra. Mas tinha 40% querendo a mamata. Não é privilégio de brasileiro querer um quinhão do orçamento público.

Existe o outro lado também, a parte do brasileiro que ODEIA o governo e o Estado. É a parte do brasileiro que tenta empreender, que tem que deixar 50% de sua renda em impostos, que não consegue andar nas ruas sem medo, que detesta políticas frouxas contra criminosos, que fica anos esperando uma cirurgia de catarata, que paga 3 vezes mais caro por bens acessíveis a todos em países desenvolvidos, que leva 30 anos para ter esgoto tratado, 20 anos para ter um metrô só esperando até que os políticos possam dividir a propina etc.

O brasileiro médio tem muito mais motivos para detestar um estado intrometido e musculoso do que para adorá-lo. Principalmente se não estiver nas castas privilegiadas.

Além disso, o brasileiro é, em sua maioria, um povo conservador, de modos simples e pensamento direto. Essas sofisticações de esquerda (PSDB é de esquerda, enrustida, mas é) funcionam como poesia econômica, mas o povo não entende nada disso. E não entende porque não é para entender mesmo, pois não faz sentido algum.

Para que ter medo de Lula em 2018?

Lula vai precisar adotar um discurso para 2018. Como ele vai conciliar o estado de completa destruição orçamentária do Brasil com sua narrativa de salvador da pátria?

Uma coisa é certa. O discurso incendiário de 1989 não o levará nem para o segundo turno. Mirar no sistema financeiro, nos rentistas, na renegociação da dívida, na baixa dos juros na marra, no aumento do gasto público, aumento de concursos etc., não funcionou NUNCA para Lula, mesmo quando poderia funcionar.

Esse discurso é inviável por conta de uma característica simples do cálculo financeiro. Investidores compram “valor presente de fluxos futuros”, se há uma perspectiva de que um candidato lhes tirará esse fluxo futuro, ou o reduzirá bastante, tudo se refletirá HOJE. Isso significa que praticamente TUDO vai explodir. Juros nas alturas (juro não é vontade política, é resultado de leilão), dólar em 6 reais, calotes generalizados nas dívidas das empresas e risco iminente de calote na dívida mobiliária interna. A semelhança com 2002 não será mera coincidência.

E esse desastre não vai esperar para acontecer em 2022, mas ocorrerá já em meados de 2018, bastando Lula ter alguma chance e os adversários continuarem fraquíssimos como foram em outras eleições.

Outro ponto, com esse discurso quem vai financiar o partido e a campanha? Os sindicatos de metalúrgicos da Alemanha Oriental, o ouro de Berlim, os petrodólares de Chávez, os pesos cubanos, as contas bloqueadas com o dinheiro da corrupção ou Jack Sparrow?

Ou será que Lula reencarnará o “paz e amor” e defenderá as reformas da previdência e trabalhista, a austeridade, o respeito aos contratos e a redução do gasto público?

Fica difícil de saber em que situação ele perderia mais votos, se assumindo o discurso de sua militância ou traindo seus devotos.

De novo,  os adversários.

Outra questão nova em 2018 serão as narrativas de contrapropaganda e os interlocutores.

Nunca houve debate político no Brasil, apenas diferentes matizes da mesma verve totalitária de esquerda, sempre em direção ao massacre dos direitos dos indivíduos em nome de um INEXISTENTE direito do povo e da coletividade. Direito da coletividade é um eufemismo teórico que serve apenas ao propósito de impor severas restrições aos direitos dos indivíduos. No Brasil esse modelo imperou e proliferou, principalmente a partir da constituição de 1988, aquela que garantia os direitos na canetada.

Isso acabou. Esse debate político monocromático, em 50 tons de vermelho, acabou. Haverá discurso para todo gosto em 2018. Desde aqueles fortemente armamentistas, que já em 2003 no estatuto do desarmamento representava 70% dos brasileiros, hoje talvez atinja 80% ou mais, até os radicalismos antiestatais.

Todos esses discursos são melhores e mais aderentes à verdadeira característica do povo brasileiro do que as narrativas de Lula.

É tolice achar que o brasileiro é de esquerda só porque curte receber dinheiro do estado. Ele pode curtir e ser de direita. Mas todos se encontram no mesmo lugar, detestam burocracia, detestam pagar impostos excessivos, detestam impunidade, odeiam a bandidagem e consideram os serviços públicos péssimos e muitíssimo piores do que os serviços privados.

Quem acompanhou os debates em SP viu que João Dória foi atacado com todas as falácias clássicas da esquerda, procuraram elitizá-lo, ele aceitou de bom grado, criticaram sua casa de milhões, ele disse que era dinheiro de trabalho, nada colou, saiu de 2% para a vitória no primeiro turno, CONTRA SEU PRÓPRIO partido, ou boa parte dele.

É improvável que Lula vença os debates com suas antigas armas, seja com Dória, Bolsonaro ou derivações, sem a proteção do esgarçado kevlar do politicamente correto.

De que adianta chamar alguém de armamentista, militarista etc., se ele se assumir assim, defender suas posições e estiver em consonância com grande parte do eleitorado?

Lula, e seus postes, precisam de um borra-botas da esquerda enrustida, acuado, para vencer. Foi assim com Alckmin, Marina, Aécio, Serra etc.

Se as pessoas não acharem loucura os discursos agressivos contra a bandidagem, não adianta invocar estatuto de direitos humanos ou o ECA para combater o discurso, só vai perder voto.

Se as pessoas não acharem loucura a privatização em massa, a redução do estado, a redução de privilégios de castas de servidores, não vai adiantar falar em estado grande, em grandes campeões nacionais, em investimento público, só vai perder voto.

Entendam que não é Dória ou Bolsonaro que representam a mudança, mas o reconhecimento de que não se combate propaganda com teses de doutorado e dados oficiais, propaganda se combate com técnicas de comunicação e, principalmente, com a criação de narrativas mais fortes, mais verossímeis do que a narrativa imposta pelo adversário.

Muitos candidatos já perceberam isso. Lula não está preparado para atacar valores capitalistas e ver o oponente agradecendo o ataque e exaltando os mesmos valores. Lula está acostumado a pseudo-capitalistas envergonhados. Esses também estão extintos. O PSDB, salvo Dória ou similares, não tem a menor condição de emplacar um quarto lugar com seus clássicos, inodoros e insípidos “cabeças brancas”.

E se tudo der errado e Lula ganhar?

Aí teríamos uma noção do que teria sido sua vitória em 1989. Em 2019 pegaria um país completamente esfacelado, insolvente e com uma dívida interna praticamente impagável.

Sei que o leitor não costuma ter intimidade com o orçamento público, mas pode acreditar, nunca houve momento mais terrível do que o atual. São previsões de déficits colossais por 3 ou 4 anos seguidos, e nem essas metas horríveis estão sendo cumpridas.

A expectativa otimista, mesmo com a reforma de previdência, é de que não haverá nenhum centavo livre para investimento público já em 2024. Essa é a otimista, mas é bem provável que o choque orçamentário venha bem mais cedo.

Lula vai enfrentar isso com papo furado?

É provável que ocorra tudo de novo se ele vencer em 2018. Impeachment ou renúncia em 2 anos, talvez eleições antecipadas, agora com um discurso radicalíssimo ANTI-estado, demissões em massa de servidores, isso se não formos ainda mais para trás, e buscarmos a saída em uma nova constituição.

E essa nova constituição será radicalmente ANTI-estado, por um motivo simples, não haverá estado, apenas diarreia orçamentária e pobreza.

Em resumo, uma derrota de Lula, o evento mais provável, representaria o fim ordeiro e concatenado de uma era, o fim de uma experiência sociológica de esquerda que deu errado, em praticamente todos os seus aspectos. São 30 anos da Constituição-cidadã e o país é uma grande merda. Deu errado, muito errado.

Já uma vitória de Lula seria o fim, desordenado e caótico, dessa mesma experiência ideológica, porém o país que se reconstruirá a partir dessa mudança ainda é uma incógnita para mim. Apostaria numa secessão controlada, com quase extinção do nível federal, criação de Estados ou regiões com constituições soberanas, leis próprias etc. Acho que a federação não sobrevive.

A esquerda, tal como foi concebida no Brasil, acabou. Lula é apenas uma decisão sobre como querem ser enterrados, se em caixão fechado, sem expor o odor mortis, ou com missa de corpo presente, a empestear o Brasil, novamente, com o cheiro de ideias mortas há pelo menos 3 décadas, e que nem deveriam ter nascido.

O inimigo agora é Temer, se vencer a queda de braço com a sociedade, sairá poderosíssimo. O melhor para o país seria um outsider eleito presidente indiretamente, dando todo apoio à lava-jato até as eleições de 2018.

Esqueçam Lula. É um passado que já não serve mais.

 


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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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