O Brasil de 2018, o papel do BNDES e a Compra da National Beef pela Marfrig

Posted on 17/04/2018. Filed under: Finanças |

Um dos principais problemas da política industrial e econômica dos governos brasileiros, antes mesmo de Lula e Dilma, sempre foi a definição da participação e do papel do BNDES.

Até que ponto a participação do banco nos negócios privados seria saudável, tanto para o desenvolvimento dos mercados, quanto para a proteção do orçamento público?

Como o BNDES é um banco de fomento, cujo objetivo principal não é o lucro, mas o desenvolvimento da política de investimento do Governo Federal, não há uma racionalidade clara e objetiva a seguir. Veja o que está no Estatuto do Banco:

Art. 3º O BNDES é o principal instrumento de execução da política de investimento do Governo Federal e tem por objetivo primordial apoiar programas, projetos, obras e serviços que se relacionem com o desenvolvimento econômico e social do País.

 Art. 4º O BNDES exercitará suas atividades, visando a estimular a iniciativa privada, sem prejuízo de apoio a empreendimentos de interesse nacional a cargo do setor público.

Quando o objetivo é o lucro, as finanças falam mais alto e raramente um ente privado age de forma irracional ou inconsistente.

Mas o “interesse nacional”, o “desenvolvimento econômico e social do país” e a “política de investimento do governo” têm racionalidade atrelada ao sistema ideológico do próprio governo, que nem sempre foi favorável ao desenvolvimento do mercado e ao capitalismo.

Nem na era FHC, apesar das privatizações que, assim como hoje, ocorreram mais por questões de falência orçamentária, do que por crença na superioridade de gestão e de decisão da iniciativa privada.

A crença no Estado como principal fomentador de crescimento econômico

Aqui no Brasil a crença no papel agigantado do Estado é muito enraizada, está tanto nos mais pobres quanto nos mais ricos, isso faz com que o Brasil tenha uma elite pouco empreendedora, mas muito bem relacionada.

Nem sempre CEO´s e CFO´s, dirigentes de grandes empresas, são escolhidos por sua capacidade de realização técnica no trabalho, mas (para alguns setores), pelo trânsito com os donos do poder, do sistema legislativo, e do orçamento público.

Em países altamente coletivistas como o nosso (que desprezam o sucesso individual), a elite política se mantém criando bolsões de dependência para os pobres, ligados às políticas públicas de cunho social, e sistemas de dependência dos ricos, ligados às políticas de financiamento e participação em obras, concessões e parcerias públicas.

É do interesse do nosso sistema político ter à mão tanto os mais pobres, quanto a elite empresarial.

Só uma pessoa muito ingênua poderia olhar o país nos últimos 15-20 anos e não perceber que esse sistema de dependência retroalimentada do orçamento público, e das decisões de governo, praticamente determinou quem deveria ou não vencer na economia nacional.

Está aí a Lava-jato que não me deixa mentir.

O interesse público em uma economia liberal de mercado é medido de outra forma

O interesse público deveria ser o resultado que se obtém ao permitir que todas as pessoas ajam livremente, de acordo com seu melhor interesse, dentro das leis, regras, cultura e ética de uma sociedade.

Ou seja, a melhor expressão do interesse público não é o que um burocrata ou um líder coletivista dizem, mas o efeito da interação individual, em plena liberdade e dentro da lei e da boa governança.

Esse é o “preço de mercado” do melhor status possível de relacionamento social.

O coletivista não entende assim, crê que o interesse público não é atingido pela plana e livre interação entre interesses individuais, mas pela política pública coletiva (que ele próprio vai definir, claro).

São visões de mundo diversas. No Brasil imperou (e impera) o direito coletivo sobre o direito individual. E por isso os indivíduos perderam vários graus de liberdade a partir da Constituição Federal de 1988, em prol do direito de algumas coletividades sem personalidade jurídica (ás vezes até inexistentes mesmo), mas socialmente organizadas.

Na sociedade, esse coletivismo é altamente opressivo para o indivíduo, inclusive para aqueles a quem se pretende “proteger. E na economia, esse coletivismo é desastroso.

Não é à toa que países altamente dirigistas em suas economias, países antimercado e contra o livre empreendimento, acabam empobrecendo e levando sua população à fome.

Menosprezam a inteligência de milhões de agentes econômicos racionais, e prestigiam a “intelligentsia” de um grupo dirigente (que às vezes mal sabe escrever e fazer conta).

E assim foi por aqui. Grandes empresas brasileiras viveram sob os auspícios e subsídios do orçamento público. Precisaram se submeter à racionalidade de um grupo dirigente, em detrimento do verdadeiro interesse público (dentro de uma visão liberal).

Enquanto durou esse orçamento, bateram recordes de produção e de valor de mercado, quando o orçamento acabou, voltaram à dura realidade. Mercado reprimido e renda baixíssima.

Aqueles salários elevados de 2008 a 2014 eram puramente efeito do excesso de dinheiro público na economia, nenhuma relação com produtividade e geração de riqueza. O resultado foi eloquente nos PIBs de 2014, 2015 e 2016.

Foi uma onda fake que o governo entendeu ser aquela que faria de nós um país desenvolvido.

Como eram uma sucessão de decisões irracionais tomadas por meia dúzia de burocratas, fatalmente daria errado, pois o governo NUNCA será capaz de reproduzir “em laboratório” o interesse público/comum genuíno, pois esse só é atingido pelo indivíduo agindo em liberdade na direção de seu interesse pessoal, dentro da lei e da governança.

Acabou o orçamento

Falei da Marfrig no título, para celebrar uma mudança significativa na forma de nosso empresariado fazer negócio. Não vou analisar a compra, nem a posição da Marfrig, isso não interessa para esse texto.

Vou celebrar que uma Companhia brasileira se tornou uma das maiores do mundo com financiamento de um banco estrangeiro, sem qualquer ajuda do governo brasileiro.

Alvíssaras!

Com o BNDES tendo que devolver centenas de bilhões de reais ao Tesouro Nacional, o estoque disponível para financiamento tem enfraquecido.

Isso abre espaço para a racionalidade corriqueira das finanças corporativas. Os entes se unem para defender os interesses dos acionistas e dos credores (que também têm acionistas). E não há qualquer debate sobre inclusão, justiça social, setor estratégico, campeões nacionais, campanhas políticas etc., apenas valor presente líquido, taxa de retorno e custo de oportunidade.

Simples e objetivo, como deve ser. Riqueza não se gera com irracionalidade. A realidade é muito cruel com quem é inconsistente e incoerente, em termos de finanças corporativas.

Recado ao governo!

Se o governo quer equilibrar o desequilíbrio natural das relações humanas (a natureza é assim, desigual), que permita aos indivíduos agirem no interesse próprio, de sua família ou de sua sociedade empresarial, dentro da lei e de um sistema de governança virtuoso (esse é um bom papel para o governo, promover esse ambiente virtuoso).

Assim esses indivíduos gerarão a riqueza que o governo sonha em distribuir, mas não sabe gerar.

Orçamento público robusto requer desenvolvimento econômico e geração de riqueza.

Que os próximos governos permaneçam longe da tentação de dirigir a economia e substituir a racionalidade dos interesses individuais pelo direcionamento conveniente de verbas estatais.

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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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