Europa e EUA vão parar de imprimir dinheiro? Só acredito vendo…

Posted on 15/04/2022. Filed under: Finanças | Tags:, , , |

Que acompanha meu canal no YT sabe que venho alertando para uma armadilha “japonesa” em que EUA e União Europeia estão se metendo desde 2008.

O Japão foi o primeiro país a brincar de sustentar seu crescimento com dinheiro público e juro zero, que significa, na prática, que o banco central imprime dinheiro e encharca os bancos com capital barato e de baixo risco.

Isso trouxe o cenário de crescimento baixo e juro real negativo que o Japão enfrenta há 30 anos, porém garantiu o status de país rico e desenvolvido.

Por que o Japão conseguiu brincar disso?

Obviamente só quem pode brincar disso é quem tem moeda forte e participação relevante no comércio internacional, o que é o caso do Japão desde os anos de 1980. A moeda japonesa tem participação maior no comércio e nas reservas internacionais do que a participação do PIB japonês, o que lhe garante estabilidade monetária em relação ao Euro e ao Dólar. Como se vê nos gráficos abaixo.

Além disso, o Japão brincava disso sozinho, portanto o mundo pouco sentia. Agora a situação mudou, com mais gente tentando fazer o mesmo desde, pelo menos, 2008.

Dá para todo mundo brincar de imprimir dinheiro sem parar?

Observe esse gráfico com a evolução dos balanços dos bancos centrais do G4, desde 2008.

Esse é um tipo diferente de “impressão de dinheiro”. O gráfico mostra o tamanho dos ativos que estão nos bancos centrais desses países. Esses ativos são comprados pelos próprios bancos centrais a partir de impressão de dinheiro/títulos que são trocados com os bancos e o sistema financeiro. Para manter os juros negativos ou próximos de zero, os bancos centrais precisam inundar o mercado financeiro e bancário com títulos de alto nível. É demanda e oferta de dinheiro. Quando tem muito, as pessoas só tomam crédito se for baratíssimo.

Após 2008, os balanços dos bancos comerciais foram dilacerados pelas baixas contábeis de recebíveis diversos, principalmente imobiliários. Havia um medo de que o sistema quebrasse e não houvesse mais liquidez para emprestar a quem precisa. A solução encontrada foi recomprar trilhões de dólares e euros desses bancos, retirando títulos menos líquidos e mais arriscados e adicionando títulos públicos de alto nível. Com esse “saneamento”, os balanços dos bancos ficaram robustos e eles puderam emprestar para evitar o colapso do sistema financeiro.

E com o excesso de capital (esse dinheiro injetado pelos bancos centrais é no sistema financeiro, não é dinheiro para gasto público, mas para empréstimo), tivemos esse boom de investimentos e empréstimos baratíssimos ao setor produtivo e ao consumidor.

A aposta dos dirigentes era de que esse excesso de dinheiro geraria inflação, porém eles estavam errados, e aparentemente até hoje não entenderam o porquê. Excesso de capital não gera excesso de demanda no fim da fila do consumo, mas bem antes disso gera excesso de investimentos, redução de custos de capital das empresas, aumento da concorrência (pois qualquer um pega dinheiro barato) e, consequentemente, redução de custos. Enfim, não gerou inflação, apesar dos trilhões emitidos.

Perceba que a coisa estava em certo equilíbrio até a COVID, quando os bancos centrais passaram a imprimir ainda mais, em grande parte para financiar, indiretamente, o déficit gerado pela parada das economias e o gasto público.

Perceba que o FED passou a comprar muitos títulos de longo prazo do Tesouro Americano. Isso foi feito provavelmente, para retirar esses títulos do mercado e abrir espaço para o governo emitir diretamente ao público e captar para bancar os déficits da COVID. Uma estratégia para evitar que o marcado não tivesse interesse nas novas captações. Mas, ainda assim, uma estratégia marota de criar uma riqueza falsa a partir de um interesse falso dos players do mercado.

O dinheiro que gera inflação chegou em 2020.

Até a COVID os bancos centrais ainda pareciam se preocupar com o excesso de liquidez, buscando reduzir as compras mensais de ativos dos bancos e subir os juros, mas isso foi por água abaixo com a pandemia.

As elevações na relação dívida/PIB nos países desenvolvidos oscilou entre 15% e 30%. Isso não é dinheiro dos bancos centrais, é dinheiro captado pelos tesouros nacionais e, em sua maioria, gastos durante a Pandemia, tanto com custos de saúde (os EUA pagaram tudo para todos) quanto com auxílios e benefícios. E muita coisa ainda continua sendo paga e os gastos continuam altos.

Esse dinheiro é inflacionário, pois gera consumo direto na ponta, tanto pelas pessoas quanto pelos governos. E fica ainda mais inflacionário num ambiente em que as cadeias de suprimento e produção simplesmente pararam.

A guerra na Ucrânia e a inflação

Em tese, após a COVID (que ainda é um flagelo em várias partes do mundo, a China hoje, 15/04/2022, está em lockdown, por exemplo) as linhas de suprimento poderiam voltar ao normal e, pelo menos, aumentar a oferta de bens no comércio mundial, porém veio a guerra e todo o quadro mudou.

A guerra está causando um choque nas commodities, de preço e de oferta, que provavelmente demorará muito tempo para retornar, se é que retornará. A previsão para o futuro imediato é de queda brutal no comércio de fertilizantes e possível falta de produtos agrícolas nos próximos meses.

Além disso, as sanções impostas à Rússia estão forçando um retrocesso na globalização, com possível retorno do comércio ideológico entre blocos de países. Comércio ideológico é quando o que vale principalmente é a questão geopolítica e não a econômica. E o prejuízo potencial disso é incalculável.

Principalmente se essa ideologia chegar ao mercado de moedas. E aí chegamos ao nosso ponto.

Por que os países ricos se importariam com a inflação, se basta imprimir dinheiro e entupir os países exportadores de dólares e euros?

Essa é a questão principal. Até a primeira década dos anos 2000, a maioria dos países emergentes tinha problemas com balança de pagamento e pouquíssimas reservas em moeda forte. Praticamente todos os choques econômicos foram em função de quebradeira cambial nesses países.

Isso mudou radicalmente. A maioria dos países exportadores hoje tem excesso de reservas, bem mais do que o necessário para transacionar no comércio internacional e garantir o fluxo de capitais. Esses excessos de “impressão de dinheiro” nos países ricos acabaram parando nos balanços dos países emergentes, que hoje têm trilhões de dólares de reservas e, em tese, não precisariam mais ser entulhados com phony money.

A riqueza desses países ricos é garantida, em grande parte, por emitirem papéis que todos aceitam. É claro que produzem e exportam muito, mas sem a capacidade de imprimir dinheiro aceito por todos, a riqueza seria muito menor. Veja o caso das dívidas soberanas de Portugal, Itália, Grécia e Espanha há alguns anos. Se não estivessem denominadas em Euros, os países teriam quebrado em nível semelhante ao que acontecia com os emergentes na década de 1990, e com os próprios países europeus periféricos antes da zona do Euro.

E esses países vão continuar ricos enquanto puderam brincar com a impressorinha de dinheiro e todos aceitarem o papel que sai de lá. Isso é certo. E eles sabem disso.

Imagine, por exemplo, que os EUA precisem aumentar o orçamento de guerra em 3 trilhões de dólares, isso elevaria os custos de commodities associadas, que eles pagariam apenas imprimindo mais dinheiro. Mas e se o vendedor exigir bens reais, ou limitar a aceitação de dólares? Impensável há alguns anos.

Mas é possível que esse poderio monetário dos países ricos seja revertido?

Essa parte do texto é exploratória. É território não mapeado. Eu realmente não sei e vou fazer um brainstorming com os leitores.

O mundo mudou demais nos últimos 30 anos, há novas tecnologias, os países ricos chutaram o balde monetário e nem fingem mais de austeridade. Aquela pregação do FMI morreu. Difícil saber o que vai acontecer. Mas uma coisa parece certa, os países ricos ficaram viciados em imprimir dinheiro e não sabem como voltar atrás. Enquanto era só o Japão brincando disso, ok, agora com 50% do PIB mundial entrando na brincadeira, a coisa muda de figura.

Em pleno abril de 2022, com a maior inflação dos últimos 30 anos, a presidente do BCE, Christine Lagarde, está fingindo que o problema nem é com ela. Disse que a inflação atingiu um topo e vai cair sozinha. Pronto. Fazer nada. Nada de aperto monetário, austeridade ou parar de bombear riqueza fake nos balanços dos bancos. O Fed também está vendo a maior inflação desde o segundo choque do petróleo e tentando controlar com promessas de alta de juros. Um dia, quem sabe, subir 0,5%. E mesmo assim os títulos de 30 anos estão pagando apenas 3% ao ano, com inflação próxima de 10%. Capaz da inflação de 2 a 4 anos retirar metade da rentabilidade real esperada para o título em 30 anos.

Enquanto isso os países que não contam com essa impressora infinita, aumentam os juros significativamente, como o Brasil.

Mr. Smith e Mrs. Elizabeth vão brincar até que alguém consiga fazer a música parar. E como isso poderia ser feito?

Criptos?

Realmente não sabemos como parar a música, mas alguns caminhos, bem conturbados, poderiam ser imaginados, como, por exemplo, parte do comércio internacional começar ser feito com uma criptomoeda com algoritmo anti-inflacionário.

Calma, isso não tem nada a ver com bitcoin, apenas com a tecnologia de criar uma representação monetária de uma cesta de moedas que oscilaria levando em conta a disciplina fiscal dos países.

Certamente os países ricos não participariam disso, e provavelmente até iriam à guerra comercial contra essa iniciativa. As sanções econômicas aplicadas à Rússia são verdadeiramente um ato de guerra. Se os EUA pararem de proteger a Arábia Saudita, poderá provocar uma guerra.

Na verdade, as sanções impostas à Rússia podem ter acelerado a ideia de uma moeda não passível de sanção. Para a Rússia, Euro e Dólar perderam muito a utilidade. Como moeda de troca imediata ainda valem, mas como reserva, não valem nada, pois a qualquer momento podem ser confiscadas (grande parte já foi). E esse tipo de ação retira boa parte da fidúcia (confiança) da moeda fiduciária.

Um movimento parte ideológico, parte monetário e parte de autopreservação contra o poderio monetário dos países ricos, poderia criar uma moeda de troca internacional, entre os países participantes, com algoritmo não inflacionário, ou seja, as relações de troca com outras moedas oscilarão, em relação à nova unidade monetária, de acordo com a disciplina fiscal dos países, e suas inflações relativas.

A China poderia aportar yuan, a Rússia rublo e a Índia rupia, transformando aquele aporte em unidades monetárias de curso da nova moeda entre o grupo econômico. Não só os países poderiam acessar, mas principalmente os exportadores/importadores.

A esfera de influência econômica da China beira 80 países, dos mais pobres do mundo, que poderiam participar diretamente disso. Bem como o bloco ideológico antiamericano do Oriente Médio e em parte da América Latina.

Possível é, e nem muito difícil seria.

A Rússia, por exemplo, passou a pedir para ser paga em rublos, mas isso é bem difícil de dar certo. O contrário teria mais chance de funcionar. Se a China começasse a exigir que suas compras sejam pagas em yuan, os exportadores vão acabar, eventualmente, aceitando, ou perdendo esse mercado insubstituível. E de uma hora para outra a moeda já passaria a representar 20% do trânsito monetário no comércio internacional.

Difícil não é, mas a questão é essencialmente geopolítica. Os países ricos totalmente endividados e confiantes de que sua riqueza será mantida, pois podem imprimir papel e comprar carne da Argentina e cobre do Chile, provavelmente vão lançar uma guerra comercial violenta contra o bloco ideológico/monetário e o empobrecimento do mundo será sem igual, nível segunda guerra. Provavelmente isso entregará todos os avanços econômicos da globalização. Todos.

Outra opção para a queda desse poderio monetário, seria o fim da globalização e início de uma guerra fria comercial.

Se os movimentos atuais não gerarem uma guerra quente mundial, ainda não está claro que esse desfecho não esteja no radar, uma possibilidade é de retorno ao comércio ideológico da época da guerra fria, em que parte do mundo não conversava monetariamente.

Ocorre que o bloco emergente é hoje bem mais influente do que o bloco comunista da época.

A visão dos emergentes é bem mais ideológica/religiosa do que o que se encontra nos países ricos, que são cada vez menos religiosos, cada vez mais pós-modernistas, cada vez menos racionais e mais consumistas. As medidas contra as mudanças climáticas, por exemplo, deixaram Europa e EUA reféns não só da produção de energia do exterior, como também da incrível necessidade de extração de matéria-prima para dar conta de tantas baterias e de tanta infraestrutura inteiramente nova.

Uma recessão prolongada, com falta de produtos e empobrecimento rápido da população, sem esperança real de melhoria no médio prazo, seria encarado pela maioria esmagadora dos países emergentes e pobres como nada muito diferente do que já vivem, ou dos riscos aos quais sempre estiveram submetidos.

Para países com forte viés ideológico e controle de sua economia e de sua população, o nacionalismo e o sentimento de pertencimento podem fazer com que o povo aceite uma redução nos seus padrões de vida sem grande ruptura social. Na verdade, a maioria dos países não está em situação confortável e pouca coisa mudaria. Os ventos da globalização pararam de ventar há alguns anos, e só quem imprime dinheiro está se safando.

Porém é bastante incerto o que aconteceria nos países ricos, em termos políticos, se afundassem numa recessão e passassem a não mais comandar o movimento ideológico mundial (democracia representativa, livre comércio, organismo multilaterais, pautas de gênero, raciais e ecológicas etc.).

Não surpreenderia o surgimento de líderes nacionalistas e populistas prometendo enfrentar o inimigo externo. Na verdade, nacionalistas e populistas já estão crescendo bastante na Europa e isso pode trazer um revés incontornável para as pautas identitárias, verdes e globalistas (tudo aquilo que pretende se tornar uma ideologia global dominante).

Qual o cenário imediato menos dramático?

Penso que seria uma conjunção do seguinte:

  • Fim da guerra na Ucrânia, qualquer que seja a concessão necessária.
  • Fim das sanções à Rússia e fim da retórica ameaçadora dos EUA. A Janet Yellen advertiu todos os países que ficarem neutros na guerra. Neutros. Isso é uma ameaça infundada e um sinal preocupante.
  • Fim da COVID, ou que se torne uma doença como outra qualquer.
  • Retorno imediato das cadeias produtivas.
  • Europa e EUA começarem a reduzir seriamente seus balanços, aumentar os juros para patamares normais e acabar para sempre com o quantitative easing (essa praga que viciou o sistema financeiro).
  • Todos os países relevantes dançarem a mesma música, a da austeridade monetária e fiscal.

Mas também acho que não deve acontecer nada disso. É wishful thinking.

A aposta dos países ricos não parece ser essa, creio que nenhum desses cenários está considerado (talvez o fim da COVID). O que eles estão esperando é que tudo permaneça mais ou menos na mesma, e que a inflação ceda em algum momento, para que possam continuar imprimindo dinheiro. É esse o grande plano.

Para isso dar certo e eles poderem voltar a imprimir dinheiro sem que ninguém note, não é possível que a riqueza falsa criada nos últimos anos continue e ainda se amplie com mais dinheiro impresso. Deveria haver um empobrecimento generalizado nesses países. Não dá para, do patamar de riqueza em que estão, no preço dos ativos reais e de bolsa, eles continuarem a imprimir dinheiro nesse nível e a inflação mundial arrefecer. Além de tirarem o espaço de consumo de outros países que precisam se desenvolver.

Os ajustes no mercado de renda fixa

Uma parte dessa perda já está em andamento, o mercado de títulos de dívida está colapsando, fazendo desaparecer mais de 2,5 trilhões de dólares em valor. E os juros subiram, porém não fazem cócegas na inflação, portanto a perda real é ainda maior.

Mas isso é ainda bem pouco, e para ser duradouro os juros precisam subir e ficarem altos.

O ajuste cambial

Existe a questão cambial. Não é possível passar anos imprimindo dinheiro sem controle e esperar que esse dinheiro seja cada vez mais valorizado. É o contrassenso econômico mais evidente no mundo hoje.

Para resolver isso, a inflação deveria durar o suficiente para que parte da riqueza fake gerada pela impressão de dinheiro fosse reduzida e ficasse em linha com a produtividade dos países. Inflação é isso, um lembrete de que não somos tão ricos.

Para que haja espaço para novas emissões, seria necessário uma forte perda de valor das moedas fortes em relação às moedas dos principais exportadores, pelo menos. E isso até pode acontecer, mas será acelerado se houver um movimento coordenado de exportadores para forçar a diversificação monetária. Isso implicaria em inundar o mundo com dólares e euros de volta, o que poderia fazer as moedas perderem valor.

Isso pressionaria demais a inflação local nesses países, que teriam realmente que subir os juros, pois caso contrário ninguém financiará seus déficits, porém, em um segundo momento, tornaria esses países mais competitivos no mercado internacional. Seria até saudável no médio prazo.

Os ajustes nos ativos reais e nas ações

Além da queda nos preços dos ativos de renda fixa e da queda no poder de compra da moeda causada pela inflação, também é necessário desinflar o preço dos ativos reais.

O mercado imobiliário está sofrendo com a alta dos juros para empréstimos de 30 anos, pressionando o mutuário americano. A questão é que esse mutuário tem a imagem de 2008-2010 bem firme na cabeça, e sabe que uma quebradeira geral no mercado, poderia acabar beneficiando-o no médio prazo com o derretimento dos valores dos imóveis e o refinanciamento de dívidas com grande redução nos principais.

O americano que estiver pagando muito pela hipoteca, e vendo o imóvel desvalorizar, deve estar, nesse momento, torcendo por um novo colapso.

Com relação às ações, estamos vendo ainda preços muito altos, mas isso é principalmente devido ao crescimento das Big Techs, que ganham demais com a infraestrutura de nuvem e serviços. Isso realmente disparou no mundo pós-COVID.

Muitas empresas, assim como no Brasil, já estão 50% mais baratas do que no auge, algumas perdendo muito mais, principalmente no varejo.

O que pode pressionar significativamente as ações vitoriosas é o custo de energia e de matéria prima. Mais do que isso, se houver escassez de semicondutores ou comércio ideológico de lítio, terras raras e outros elementos importantes para o desenvolvimento tecnológico, não será nem uma questão de preço, mas uma questão de não conseguir comprar mesmo.

E isso é muito sério. Enquanto escrevo, a China faz manobras perto de Taiwan, em resposta à visita provocativa e desnecessária de Nancy Pelosi, que nem é chefe de estado.

Com a China controlando Taiwan, o lucro das Big Techs vai estar quase inteiramente dependente do que a China entender necessário vender. 90% dos semicondutores mais avançados são produzidos em Taiwan.

Enfim, o que vai acontecer é….

Não faço ideia, mas não me parece que as soluções serão as mesmas de sempre. Não me parece que empurrar com a barriga para ver onde vai dar seja uma solução plausível dessa vez, ainda que seja exatamente o que o FED e o BCE aparentam fazer nesse momento.

Relendo tudo o que escrevi, para fazer esse longo artigo de opinião, seria leviano se não dissesse que a primeira coisa que me vem à cabeça é GUERRA. Não sei se a terceira guerra mundial, uma guerra econômica protecionista ou um retorno gradual ao comércio ideológico e geopolítico da guerra fria.

A resposta dos países ricos à guerra na Ucrânia, cancelando a Rússia e fazendo ameaças diretas aos países neutros, provocando a China em Taiwan e o Paquistão com participação na queda do primeiro ministro, dão a impressão de que querem que o clima esquente de fato. Consigo pensar em alguns motivos para serem beneficiados com esse clima quente. Seriam:

  • Aumento do gasto militar para mais de 2% do PIB na Europa e 6% nos EUA.
  • Corrida armamentista também nos emergentes.
  • Cortina de fumaça para que ninguém questione a impressão desenfreada de dinheiro.
  • Alguém para culpar pela inflação mais alta dos últimos 40 anos. Não podiam culpar as medidas contra COVID, pois foram propostas por eles mesmos. Os EUA já chamam de “inflação do Putin”.
  • Motivo para imprimir mais dinheiro sem prestar contas (gastos militares).
  • Enfraquecer militarmente a Rússia, destruindo suas formas de financiamento e aproveitando os 600.000 homens treinados pela OTAN na região de Donbass nos últimos 8 anos para infligir grandes perdas militares.

Para dar certo, tem que combinar com os russos. E com os chineses, indianos, árabes etc.

E o Brasil?

O Brasil está sendo pressionado nesse momento, pela OMC, a aumentar a oferta mundial de alimentos. E também recebeu indiretas da Janet Yellen por ter ficado em cima do muro.

Fiquei um pouco preocupado com as sanções aplicadas à Rússia, até então inimagináveis, como o congelamento de bens no exterior, de reservas e perseguição a empresas russas. Se fazem isso com o Brasil a gente volta 50 anos.

E, infelizmente, os países ricos já alertaram que esse tipo de sanção poderá ser usado contra países “negacionistas do clima”, “anti-democráticos” etc., ou seja, podem ser usados contra qualquer país que não se alinhe à ideologia dessa democracia pós-moderna que é praticada nos EUA e na Europa. O Brasil já é alvo disso e a coisa pode apertar no futuro.

Para o Brasil o ideal seria que ambos os lados ficassem suficientemente fortes para que não fôssemos forçados a nada. Ou fracos e receosos de ampliar crises econômicas e militares. De qualquer forma, o que ficaria ruim para nós seria virarmos marionete de interesses estrangeiros explícitos. Hoje já somos um pouco assim, com políticos alinhados ideológica e financeiramente com interesses diversos, desde chineses a europeus.

Infelizmente o Brasil é visto apenas como ativo estratégico, o interesse pelo bem estar do nosso povo é zero.

Enfim, é o momento econômico mais delicado do pós-guerra, e os impressores de dinheiro fazendo cara de paisagem. A ver o que vai acontecer.

Ler Post Completo | Make a Comment ( 4 so far )

O fim do capitalismo? Tem gente se esforçando para isso, e não são marxistas.

Posted on 02/04/2018. Filed under: Finanças, Matemática, Política | Tags:, , |

Nesse breve vídeo falo daquela que é, provavelmente, a maior e mais perigosa disfunção da história do capitalismo moderno.

A atuação dos bancos centrais está colocando em risco todo o sistema capitalista, distorcendo as relações de risco e retorno e comprometendo a poupança das gerações futuras.

Os 3 elementos.

O capitalismo precisa de 3 elementos básicos para existir. Na verdade, na presença desses 3 elementos ele surge naturalmente. Sempre foi assim, e sempre será.

Precisa de respeito ao contrato de proteção à propriedade privada, precisa de respeito ao contrato de proteção à livre iniciativa e, mais importante, precisa de escassez.

É isso mesmo, sem escassez, não há capitalismo. Não há por que nos organizarmos para produzir se todos têm o que precisam, a qualquer tempo e a qualquer hora.

Como os marxistas querem acabar com o capitalismo?

Não é o tema desse vídeo, mas os marxistas seguem uma profecia do fim do capitalismo, onde haverá uma sociedade em que todos trabalham o que podem, e recebem o que precisam. Se eu posso 10 vezes mais e preciso 10 vezes menos, minha recompensa será 100 vezes menor que o meu trabalho. E o homem da profecia marxista estará feliz com isso.

Como esse homem não existe, os sistemas baseados na filosofia marxista entendem que precisam mudar a humanidade. Como querem algo anti-natural, acaba-se por praticar atrocidades nas populações sob regimes marxistas. Mudar o homem na marra, essa é a solução para acabar com a escassez. Se ninguém quer nada, não há escassez, portanto não há capitalismo. Simples (e sangrento) assim.

Se fosse uma religião eu poderia entender, mas como sistema político-social-econômico, acaba se tornando altamente opressivo.

Já o capitalismo busca acabar com a escassez produzindo mais, melhor e mais barato. Demora, mas um celular já custou 50.000 dólares e hoje está nos bolsos de moçambicanos e senegaleses paupérrimos.

Os bancos centrais acabaram com a escassez de capital. E isso é PÉSSIMO para o capitalismo.

Veja no vídeo abaixo.

 

Ler Post Completo | Make a Comment ( 9 so far )

O que ninguém nos conta sobre o recorde nas bolsas e nos ativos de risco.

Posted on 06/10/2017. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , |

Retórica nuclear entre EUA e Coreia do Norte, retornos baixíssimos com dividendos, risco político no governo Trump, terrorismo mundial, ascensão do fundamentalismo, tensões geopolíticas no oriente médio, furacões, terremotos, ufa!, e as bolsas só sobem, praticamente sem volatilidade.

O que está acontecendo?

Por que ativos de risco NÃO se comportam como tal, ou seja, apresentando oscilações significativas diante de riscos mensuráveis, plausíveis e até quando se manifestam, de fato, as catástrofes?

É o que vou tentar responder.

Claro que vou tentar tratar por um prisma que ninguém tratou, ou que pouca gente tratou, uma vez que os principais analistas e economistas não chegam a um consenso sobre essa nova exuberância irracional nos mercados.

Ao final deste artigo, acredito eu, ficará demonstrado que há uma gigantesca disfunção nos mercados financeiros e de capitais, em todo o planeta. Vamos explorar esse tema, ver suas causas e elaborar esboços de solução. A ver.

Em artigo traduzido pelo jornal Valor Econômico, publicado em 25 de setembro de 2017, o professor Robert Shiller, prêmio Nobel de economia e um economista influente que previu a bolha imobiliária americana, demonstrou que o seu indicador de “preço-lucro corrigido ciclicamente (Cape)” estava acima de 30 no mercado americano, um forte indicador que as ações estariam sobreprecificadas (caras).

Além disso, o índice VIX, que mede a volatilidade no mercado estaria em níveis anormalmente baixos, e por tempo demasiado. Ele não se arriscou a dizer que estamos em uma bolha nos ativos de risco.

Alan Greenspan, que cansou de avisar sobre a exuberância irracional antes do crash de 2008, diz hoje que temos um risco significativo no mercado de renda fixa (dívida soberana e de empresas). Mas ninguém sabe quando e se vai estourar, nem ele.

No Brasil é ainda mais interessante. Em 11 de setembro último a revista exame publicou um estudo da economática mostrando que o dividend yield no Brasil (retorno com dividendos) era o MENOR desde 1995, apenas 1,34%. A julgar que em 1994 nem tínhamos moeda, é provável que seja o menor retorno da história. E estamos no recorde da bolsa.

Em outro artigo recente, Armínio Fraga relatou que ninguém consegue entender bem os motivos para que o crescimento econômico, com baixíssimas taxas de juros, não tenha gerado inflação mais alta. Ao que tudo indica, o Fed só não sobe as taxas de juros, por que a inflação está consistentemente abaixo das metas. Já está mudando, sinalizando entender que as taxas de juros baixas não vão levar a inflação para a meta.

Mas eu acho que não é tão difícil entender, se formularmos hipóteses diferentes

Ninguém se questiona sobre a natureza da taxa de juros, o motivo de sua existência e quais os fundamentos que deveriam guiá-la.

Tratamos apenas de relações de causa e efeito já padronizadas e predefinidas nos livros e finanças e economia. Porém, creio, não será a dinâmica dos fluxos de interesse pelo dinheiro (oferta e demanda de liquidez) que vão nos ajudar a entender a incrível disfunção que vive hoje o mercado de ativos financeiros em todo o planeta.

As taxas de juros não foram invenções da teoria financeira, na verdade a teoria financeira modelou e deu dinamismo à mediação QUE SEMPRE EXISTIU entre o interesse de poupadores e investidores. Essa negociação entre quem quer consumir/investir hoje e quem quer adiar esse consumo/investimento é muito anterior à teoria financeira. Desde que alguém topou ceder 10 vacas por um ano, para receber 11 vacas no futuro, já havia sensibilidade a taxas de juros, a matemática só permitiu registro, leitura e ampliação da complexidade.

E como a demanda e oferta de liquidez são resultado de uma interação humana, devem atender aos interesses de ambas as partes, ou seja, se me proponho a abrir mão de consumo por 30 anos, esse sacrifício atual deve atender meus interesses de consumo no futuro, bem como ao interesse do investidor/empreendedor no momento.

A racionalidade média dos agentes econômicos funcionou muito bem em todas as eras, mesmo quando ainda não se dominava técnica para cálculo de juros compostos. Funcionou ainda melhor com o desenvolvimento de técnicas para cálculo de valor presente de ativos complexos como derivativos, por exemplo.

Mas, hoje, não funciona mais. Não atende os interesses dos investidores/poupadores de curto ou de longo prazo. A teoria financeira continua existindo, as fórmulas e os cálculos continuam valendo, mas a realidade das finanças mundiais deixou de mediar corretamente os interesses de poupadores e investidores/empreendedores e, se nada for feito, poderá passar décadas destruindo valor de aposentadorias da geração atual e das próximas.

Mas o livre mercado não deveria regular esses interesses, ajustando o preço dos ativos?

Sim, correto. O problema é que há entidades gigantes e irracionais agindo de forma deliberada contra o equilíbrio natural dos preços dos ativos.

Antes de falarmos dessas entidades, vejamos os motivos pelos quais a realidade dos preços dos ativos, nos dias de hoje, NÃO ATENDE mais à racionalidade dos poupadores (aqueles que cedem o capital) e dos investidores/empreendedores (aqueles que usam o capital para dar retorno futuro aos poupadores). Eles continuam investindo por não haver opção, mas os objetivos racionais não serão atingidos.

Importante ressaltar que poupador, neste texto, é aquele que oferece capital hoje, para consumir no futuro, estamos falando APENAS de longo prazo, que é, em essência, o capital usado para investimento não especulativo. Investidor/empreendedor é aquele que toma o capital e usa em projetos não especulativos agora. Ambos não são atendidos pela realidade financeira atual. Veremos a seguir.

As taxas de juros, conforme já sugerido, devem refletir o preço de equilíbrio entre poupadores e investidores, oferta e demanda de capital.

O problema é que o interesse de poupadores deve se materializar em prazos que não devem exceder 30 a 35 anos, pensando em formação de patrimônio para aposentadoria.  É razoável crer que após engrenar a vida profissional, quando se melhora o salário ou se atinge um nível médio na carreira, entre 25 e 35 anos de idade, a expectativa do poupador (que abre mão de consumo hoje para garanti-lo no futuro) e de passar de 25 a 35 anos investindo para acumular capital de aposentadoria. Ninguém se programa para investir por 55-60 anos para conseguir se aposentar. Não cabe na expectativa de vida (life span) humana média.

Essa é uma realidade que se verifica individualmente, mas principalmente em fundos de pensão. As “contas” atuariais dos fundos sempre levam em consideração, um acúmulo por 25, 30, 35 anos, uma aposentadoria (retiradas) a partir dos 60-65 anos, com sobrevida de 25 a 30 anos. Isso não é por acaso, reflete a expectativa de vida das pessoas, capacidade produtiva por faixa etária etc.

Digo tudo isso para lembrarmos que as taxas de juros PRECISAM servir a esse objetivo dos poupadores. São centenas de milhões ao redor do mundo (a considerar os que fazem qualquer tipo de previdência, ultrapassa a casa do bilhão com certeza, dada a poupança privada de 50% da renda na China).

Com relação aos investidores/empreendedores (tomadores do capital), cada projeto deve apresentar a maturação e o retorno nos períodos planejados. Uma concessão governamental deverá dar o retorno esperado no prazo da concessão, um projeto altamente arriscado deverá apresentar seu retorno (ou prejuízo) num prazo de 5 anos. Em todas as áreas há uma expectativa de retorno e de taxas de juros, dentre de um prazo razoável. Ninguém investe racionalmente em retornos previstos para 80-100 anos.

O que diz a teoria financeira?

Vivemos uma era de juros baixíssimos e até negativos. E isso cria sérios problemas para toda a teoria e prática financeira com as quais estamos acostumados. Pior do que isso, afasta as finanças da necessidade prática da indústria de fundos de pensão e da realidade de poupadores de longo prazo. E também atrapalha investidores/empreendedores, por outros motivos.

A ver.

A aposentadoria possível

Pensemos em uma taxa de juros real da ordem de 3,5% ao ano, a partir de instrumentos de renda fixa de baixo ou baixíssimo risco, algo que era possível, num passado não remoto, nos títulos de países desenvolvidos de médio e longo prazo.

Com essa taxa, um indivíduo poderia acumular 20% de sua renda anual, por 35 anos, e conseguir se manter por mais 25 anos EXCLUSIVAMENTE com o dinheiro acumulado para a aposentadoria.

Ou seja, sem correr riscos em outros ativos, um conjunto de instrumentos de renda fixa seria suficiente para que ele próprio cuidasse de sua aposentadoria (ou que seu fundo de pensão o fizesse).

Correndo um pouco mais de risco, investindo em dívida privada + dívida soberana, há 10 ou 15 anos seria possível obter 5,5% ao ano em termos reais (apesar de que, se a renda subir, também subiria o aporte, de forma que o impacto de uma inflação baixa não seria tão significativo).

Nessas condições, sem ainda correr riscos excessivos, poupando 20% da renda anual por 26 anos apenas, seria possível viver com a mesma renda (efetivamente utilizada) pelos 26 anos seguintes.

Aos que consideram poupar 20% da renda “impossível”, vale lembrar que já deixamos 11% ao INSS, e a soma de décimo-terceiro e adicional de férias já significam outros 11,1%. Não é impossível e já é uma realidade para muita gente. Em termos mundiais, nem se fala, é até baixo esse percentual. O problema no Brasil é que a maioria das pessoas confia sua aposentadoria EXCLUSIVAMENTE ao governo, de forma que não formamos poupança e nem cultura de autonomia financeira.

A aposentadoria impossível

A realidade atual das taxas de juros torna quase impossível acumular dinheiro para se aposentar, com risco baixo, dentro de um prazo razoável ou com índice de poupança racional.

Vejamos.

Peguemos uma taxa de 1,5% ao ano, lembrando que alguns títulos soberanos de países europeus atingiram taxas NOMINAIS negativas para prazos de 10 anos, e menores que 0,5% para 30 anos.

Com essa taxa de 1,5% ao ano, acumulando 20% da renda anual por 35 anos, o dinheiro acumulado duraria APENAS 12 anos.

Para garantir que o montante acumulado dure 25 anos, seria necessário acumular dinheiro por 55 anos!!!!!!!!!!!!!

Essa realidade NÃO FAZ SENTIDO e NÃO ATENDE a realidade dos poupadores de longo prazo, menos ainda dos fundos de pensão. Não há fundo de pensão que exija investimentos por 55 anos para começar a pagar a aposentadoria. Ninguém investiria nisso.

Essa falta de retorno dos ativos menos arriscados vai exigir das pessoas MAIS poupança e menos consumo.

Para se aposentar com 35 anos de contribuição, seria necessário poupar 32% da renda anual, um sacrifício de consumo bem mais significativo do que os 20% de nossos exemplos iniciais.

A aposentadoria no infinito

Os juros negativos são uma distorção da realidade financeira, uma disfunção, uma anomalia que afasta a racionalidade mínima necessária para toda a teoria econômico-financeira funcionar.

Há menos de 1 ano estimava-se haver cerca de US$ 15 trilhões investidos a juro zero ou negativo. Isso é quase 20% do PIB mundial. Diante dessa realidade toda a estrutura teórica desmorona. Não é à toa que as políticas monetárias não funcionam e que ninguém consegue explicar como taxas de juros persistentemente baixas não levam as pessoas a consumir e elevar a inflação.

Juro positivo tem efeito de amplificar o capital investido, juro negativo tem efeito de IMPOSSIBILITAR atingir determinadas cifras.

Vejamos o desastre se nossas economias para a aposentadoria fossem investidas em juros negativos. Coloquemos 0,5% negativos ao ano.

OBSERVAÇÃO: Se o leitor pensou que bastaria deixar o dinheiro no banco, para evitar juros negativos, o governo Suíço, quando percebeu que isso poderia ocorrer, estabeleceu taxas em depósitos à vista. Para pequenos poupadores, poderia funcionar, mas grandes fundos não podem deixar o dinheiro em depósito à vista.

Com juro negativo de 0,5%, aplicando 20% de nossa renda anual por 35 anos, o dinheiro acumulado duraria pouco mais de 7 anos.

Para conseguirmos acumular dinheiro suficiente, poupando por 35 anos, para viver mais 25 anos após a aposentadoria, seria necessário acumular 46% da renda anual. Além de ser dificílimo, ainda teria impacto catastrófico na economia real, pois o consumo desabaria.

E como isso prejudica investidores/empreendedores?

O leitor deve estar se perguntando se esses juros baixos e excesso de liquidez não seriam bons para quem vai tomar capital. É inequívoco que tomar dinheiro emprestado a 5% ao ano é melhor do que tomar a 12%, mas essa é uma lógica linear curta. Na verdade essa grande irracionalidade gerada pelo excesso de liquidez (dinheiro demais no mundo) é péssima para todo o sistema e prejudica, e muito, os investidores.

Por quê?

Primeiro porque, ao demandar mais esforço de poupança, mais restrição ao consumo atual, para garantir fundos à aposentadoria, a tendência é de um consumo menor hoje e, a continuarem baixos os juros, ou pior, se nem houver a expectativa de alta no futuro, provavelmente mais recursos serão retirados do consumo atual. E isso é péssimo para empreendedores atuais e futuros.

Outro ponto é que, dado o excesso de liquidez, tanto o empreendedor quanto dezenas de concorrentes conseguem captar rapidamente grandes volumes a custo baixo. Isso pode até ser bom para os consumidores, mas é destruidor de capital.

Em um mundo de recursos escassos, os juros são maiores, mas a seleção de projetos é bem mais rigorosa, apenas os de maior potencial são escolhidos. Hoje surge um aplicativo de sucesso, em 5 minutos já há 20 concorrentes capitalizados entrando no negócio.

Repito, pode funcionar para o consumidor, mas isso impacta para baixo o fluxo de caixa mesmo dos projetos vitoriosos. E se o fluxo de caixa é menor, a remuneração do investidor também é menor. Easy money tem sempre o mesmo efeito, seleção menos criteriosa, voluntarismo financeiro e pouco controle. Invariavelmente gera pouco retorno.

Mas a alta nas bolsas e nos ativos de risco não ajudaria na formação de poupança de longo prazo?

Infelizmente não, e aqui mora o perigo maior para os poupadores de longo prazo. Como houve queda significativa na remuneração de ativos de baixo risco, o que torna mais difícil cumprir metas atuariais, os recursos acabam sendo canalizados para projetos de risco elevado.

O problema é que, se antes o investidor esperava 15% a 20% ao ano de um projeto arriscado, hoje se contenta com 6% a 8%.

Isso porque o cálculo de retorno DEPENDE dos juros pagos pelo ativo sem risco e também da relação oferta VS demanda por capital.

Qual é o problema de aceitar retornos menores de projetos de risco?

O problema é que pagamos mais caro pelo MESMO RISCO!

Isso mesmo, o risco do fluxo de caixa pouco muda. Ele depende das condições da economia, da capacidade técnica, da estrutura de custos da mercadoria, da concorrência, do interesse do consumidor e da vários fatores que não são (ou são pouco) influenciados pelas taxas de juros.

Na prática se um projeto tivesse chance de 20% de quebrar nos primeiros 5 anos, pouco importa se você espera dele retorno de 8% ao ano ou de 20%. Se quebrar, vai quebrar por fatores alheios ao seu investimento. O problema é que se você descontou esse fluxo de caixa à taxa de 8%, pagou MUITÍSSIMO MAIS CARO do que se tivesse descontado a 20%.

Em resumo, os riscos são os mesmos, só estamos pagando caríssimo por eles.

E é isso que estamos vendo no mundo hoje.

Quando os mercados de risco NÃO se movimentam diante de terremotos, furacões, retórica belicista, risco de shut down no governo americano, guerra nuclear, expansão fundamentalista, secessão no Iraque e na Espanha, retrocesso na relação EUA-Irã etc., não significa que os riscos não existam, eles estão lá e podem fazer o mesmo estrago de antes. Mas continuamos comprando…

No more fly-to-quality

Não há mais “fuga para qualidade”, por 2 motivos, porque a qualidade (risco baixo) paga juros baixíssimos (já em alta apenas nos EUA) e porque há excesso de dinheiro (liquidez) no mundo. Qualquer movimento brusco, com essa quantidade de dinheiro, poderia derrubar ainda mais o retorno dos ativos de “qualidade”. Aliás, o motivo dos juros negativos em países nórdicos, principalmente durante a crise do Euro, era excesso de “fuga para a qualidade”. Demanda demais e oferta de menos.

Quem é o paquiderme na sala que está causando esse alvoroço todo?

O livre mercado não consegue autorregular os interesses de ofertantes e demandantes de ativos porque há 2 paquidermes na sala, cujos movimentos impedem o mercado de agir racionalmente.

O primeiro é a China e sua economia e moeda controladas. São trilhões de dólares praticamente sem utilidade, sendo usados em projetos tocados pelo governo e por estatais chinesas. Nada disso dá retorno, é só jogar dinheiro fora e manter o “crescimento econômico” nas alturas. A questão da moeda chinesa é ainda mais grave, pois é mantida desvalorizada propositalmente para garantir exportações. Isso faz com que um grupo muito grande de poupadores e investidores sejam MENOS rico do que deveriam.

Mas não vou tratar especificamente desta questão, pois essa política chinesa de absorção da poupança privada mundial já existia e não e a causadora principal das disfunções atuais. É importante, mas além de não ser a principal, ainda depende de um país incontrolável e exótico ao sistema capitalista moderno. Não dá para “consertar” a China.

O problema maior são os GOVERNOS.

Mais precisamente os bancos centrais e as políticas monetárias e econômicas aplicadas após a crise de 2008.

Essa crise espalhou ativos péssimos pelo mundo inteiro. Lixo tóxico, papéis que não valiam nada, contratos descumpridos etc.

A solução global, para evitar o colapso do sistema financeiro e garantir que os bancos continuassem a emprestar, foi promover relaxamentos quantitativos (quantitative easing) e baixar os juros, uma coisa ajudando a outra.

Em outras palavras, os bancos centrais mundiais resolveram dar liquidez ao que não era líquido. Comprar ativos que os bancos não conseguiam vender e que não tinham aceitação no mercado.

Então os bancos centrais passaram a trocar os ativos tóxicos e/ou ilíquidos por títulos públicos de altíssima liquidez.

Essa brincadeira dura quase 10 anos e já inundou o mercado de ativos altamente líquidos, represando a porcaria nos ativos dos bancos centrais.

Um artigo recente publicado no jornal O Globo indica que os ativos dos quatro principais bancos centrais do mundo (EUA, Japão, União Europeia e China) saíram de US$ 6,5 trilhões em 2008 para mais de US$ 17 trilhões em 2016.

Muito desse crescimento se deveu a compra de ativos de baixa liquidez, que estão todos hoje nos balanços dos bancos centrais, principalmente nos EUA e Europa.

Uma boa imagem sobre o tema seria imaginar que os BCs receberam esgoto e pagaram com água limpa. Os reservatórios de água limpa do mercado financeiro privado estão abarrotados, pois não há sede ou asseio que precise de tanta água, mas os reservatórios dos Bancos Centrais estão represando trilhões de litros de esgoto. Ninguém quer que essa barragem estoure.

Como o livre mercado pode autorregular os preços dos ativos e ajustá-los o interesse dos agentes se há um agente gigantesco agindo de forma irracional, com objetivos completamente diversos dos de poupadores e de investidores/empreendedores?

É impossível, por isso essa disfunção tremenda nas finanças e esse medo recorrente de um grande estouro de bolhas por todos os lados. De dívida privada a bitcoin, de shadow banking na china e na índia ao S&P 500. Um medo generalizado que, por conta da irracionalidade e do excesso de dinheiro, não se converte em prudência e volatilidade.

As bolhas vão estourar?

A verdadeira bolha é de liquidez e essa dificilmente estoura. O evento que faria a disponibilidade financeira desaparecer é grave demais, algo como calote de um desses bancos centrais. Não deve ocorrer.

Falando de forma direta, a solução REAL seria o enxugamento da liquidez que, em outras palavras, o desaparecimento do dinheiro desnecessário. Daquele exagero de água limpa que ninguém consegue usar.

Para o mundo parece haver dois caminhos. O do medo, que significa empurrar tudo com a barriga e continuar fornecendo liquidez, permitindo que os governos continuem a ditar as regras econômicas, as taxas de câmbio e a estrutura das taxas de juros (China principalmente), fazendo o mundo virar um grande Japão, de economia modorrenta, pouco crescimento, juros baixíssimos, taxa de poupança cada vez maior para a aposentadoria, mas sem sofrer grandes colapsos. Para um país rico isso não é tão grave, mas para quem é pobre e tem pressa em crescer, é gravíssimo.

O resultado disso é um empobrecimento gradual, um desaparecimento da liquidez ao longo de 50 anos de investimento em péssimos projetos e de retorno baixíssimo.

O segundo caminho já está sendo trilhado pelo banco central americano. Subir juros, parar de comprar ativos ilíquidos e reduzir seu balanço. E o efeito já está sendo sentido, com juros de longo prazo na faixa de 2,5% a 2,6% ao ano. O Federal Reserve tem muito poder para restaurar a normalidade no mercado de ativos de risco zero (ou baixíssimo), para que volte a fazer sentido nas carteiras de longo prazo.

Já está, ao que parece, convencido de que até a inflação responderá melhor (no caso deles subindo) sob taxas de juros racionais.

O Fed está procurando fazer tudo de forma transparente e evitando grandes impactos no mercado. Se conseguir recolocar os títulos de 30 anos ao patamar de 3,5% a 4% ao ano, é extremamente provável que os ativos, ao menos os de renda fixa privada, percam significativo valor.

Os técnicos do Fed perceberam algo que os BCs do mundo ainda não notaram. Ao zerar as taxas de juros ele perdeu completamente o poder de política monetária. Gastou a última bala (zerar os juros) e seus objetivos foram apenas parcialmente cumpridos, uma vez que não temos crescimento pujante em lugar algum no mundo desenvolvido e a inflação continua persistentemente baixa. As pessoas não consomem, os salários não sobem, o endividamento das famílias está em queda e, pior, o endividamento das empresas está nas alturas.

Imagine se, por algum motivo, a recessão voltasse mesmo com os juros zerados e com os balanços empanturrados de ativos ilíquidos. Qual seria a ação possível dos bancos centrais? Nenhuma. Não haveria nada a fazer diante de um cenário de recessão se os juros já estão zerados. Teriam que se reinventar.

Não sei para onde vamos, mas com certeza estamos em um momento disfuncional do mercado financeiro, ou seja, ele não está cumprindo a função de satisfazer o interesse dos participantes livres.

Já havia debatido isso em julho de 2016, neste artigo. As coisas pouco mudaram.

Curta nossa página no facebook: https://www.facebook.com/pauloportinhoRJ/

Ler Post Completo | Make a Comment ( 9 so far )

  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...