Bitcoin. Um museu de grandes novidades?

Posted on 19/07/2019. Filed under: Finanças | Tags:, , , , , , , |

A revolução das criptomoedas ainda está buscando sua significação. Apesar da profusão de lançamentos, do sucesso do Bitcoin e dos medos dos Bancos Centrais com a Libra (futura moeda do Facebook), as narrativas que explicam a tal revolução ainda não se consolidaram.

Já escrevi sobre o que é o Bitcoin em alguns artigos no passado. Minha visão continua a mesma, apesar de alguns pontos, como a tributação, já terem sido tratados pelas autoridades. Traterei de outro tema neste artigo.

Com o tempo passando, para mim faz cada vez menos sentido tratar a moeda em si, e mesmo a existência de um sistema seguro de transações, como algo revolucionário ou inovador.

Praticamente tudo o que o Bitcoin e as criptomoedas nos oferecem, em termos de facilidade transacional, nós já temos há décadas. Não há novidade alguma.

O dinheiro já é virtual há muito tempo no próprio sistema financeiro padrão. E mesmo fora desse sistema temos, e sempre tivemos, moedas paralelas, algumas físicas, como moedas de cooperativas no interior, e outras virtuais, como as moedas que transacionam exclusivamente em ambientes de pagamento como paypal, mercado livre etc., que nem precisam sair de lá.

A garotada está curtindo comprar cerveja e brigadeiro com Bitcoins na porta da universidade, mas é algo inteiramente bizarro que considerem razoável receber um preço em Bitcoins, converter em uma mínima fração de Reais com base em uma cotação que ninguém sabe se está correta ou se é manipulada, e fazer uma transação eletrônica privada.

Até haveria sentido se fosse uma transação ilícita, como compra de drogas, documentos falsos ou monografias, mas fazer isso para comprar cerveja é non sense. Mas jovens gostam de complicações desnecessárias. Jovens querem mudar o mundo até no ato de comprar uma latinha de Heineken.

Qual é a verdadeira revolução das criptomoedas?

Nós vivemos, basicamente, os mesmos dilemas de nossos antepassados. Para reduzir a complexidade e o custo do escambo os povos antigos passaram a transacionar metais (e outros materiais) representativos de valor. Enquanto as pessoas confiassem nesse sistema representativo, tudo funcionaria.

Enquanto as moedas representativas de valor estavam baseadas em metais raros, não havia muito risco de emissões clandestinas deturparem o sistema. Mas quando surgiu o papel-moeda, o risco aumentou e a emissão descontrolada levou à hiperinflação em alguns países.

Isso mostra um óbvio problema das emissões descontroladas de “criptomoedas”. Se todas, de fato, passassem a valer trilhões de dólares e fossem despejadas no mercado de consumo, correríamos sério risco de provocar inflação sem controle, por um motivo óbvio, excesso de dinheiro e falta de produtos.

O papel dos bancos centrais é exatamente esse, controlar a oferta de moeda para evitar descontroles graves nas economias. Quando falham, as economias correm risco.

Vivemos hoje uma enorme disfunção causada pelos próprios bancos centrais. A atual situação é de excesso de liquidez, que não gera inflação nos bens de consumo, mas no mercado de ativos (inclusive no das criptomoedas). Já escrevi muito sobre o tema neste blog.

Mas por que as pessoas confiam nas moedas fiduciárias? O que faz do Real, por exemplo, uma moeda em que as pessoas confiam?

É principalmente a qualidade do sistema transacional. É raríssimo haver alguma falha na contabilidade bancária, de forma que as pessoas acreditam de verdade que os R$ 10,00 enviados para determinada pessoa, sairão da conta do pagador e entrarão na conta do recebedor.

Se depositarmos R$ 100,00 no caixa eletrônico, aparecerão em nossa conta. Se tomarmos um empréstimo, entrará dinheiro em nossa conta agora e pagaremos prestações. Se comprarmos algo no cartão de crédito, pagaremos na data de vencimento e o comerciante receberá o valor contratado com a operadora.

Enfim, temos razoável confiança nas operações básicas de contabilidade bancária. Vivemos a nossa vida sem questionar esse funcionamento (raramente dá erro e quando acontece um erro, confiamos na correção rápida).

Mas isso não é de graça, pelo contrário. É um negócio multibilionário. Garantir a higidez do sistema, inclusive prevenindo fraudes cada vez mais sofisticadas, é caríssimo e boa parte da receita do sistema bancário vai para a manutenção dessas garantias de funcionamento.

É possível que a verdadeira revolução das criptomoedas possa estar na possibilidade de criar sistemas hígidos, seguros e BARATOS para suas transações. É como se criassem um sistema de contabilidade bancária que não poderia ser fraudado, o que traz enorme redução de custos e aumento na confiança.

O sistema do Bitcoin, por exemplo, garante que uma operação seja validada por boa parte da comunidade e evita duplicidades, erros, inconsistências etc. Ele faz isso por manter todo o histórico de transações em um sistema que não pode ser mudado.

É um sistema parecido com o que temos para registro de imóveis, em quem todas as transações, desde o início, ficam registradas no cartório. Com o blockchain a manutenção de registros poderia ficar mais segura (pois todas as mudanças ficarão eternamente gravadas) e bem mais barata. Vale lembrar o que escrevi em outros artigos: o Bitcoin não se confunde com seu sistema de contabilidade. O blockchain pode ser usado em qualquer atividade, sem qualquer relação com a criptomoeda.

Talvez aqui resida a única grande revolução das criptomoedas, permitirem a construção simples e barata de sistemas de contabilidade bancária.

A impressão que tenho é que as novas tecnologias tornaram possível e barato criar um “mini-sistema financeiro” com regras de emissão de moedas, regras de transação, segurança intrínseca e rigor contábil. Talvez por isso tenhamos essa profusão absurda de novas moedas surgindo. São microcosmos que espelham a complexidade do sistema financeiro, com mais segurança e sem os custos bilionários de manutenção.

Criptomoedas com e sem lastro

As criptomoedas lastreadas não deverão criar problemas para o sistema financeiro global, pois terão regulação indireta, pelo menos. Não haverá “dinheiro facebookiano” que não represente moeda fiduciária (ou cesta de moedas). No máximo, o facebook vai virar uma instituição financeira transnacional gigantesca. No big deal, na verdade, um grande risco para o próprio facebook. Uma crise monetária poderia destruir a confiança na brincadeira, levando o próprio site junto. Aliás, uma “corrida aos saques” no facebook, com 2,4 bilhões de contas, poderia quebrar qualquer moeda, inclusive o dólar, e isso poderá levar os reguladores e as instituições antitruste a, eventualmente, proibir a própria operação de moedas do facebook de início.

Já as criptomoedas que vivem de forma autônoma, como sendo de fato um microcosmo financeiro independente, que tem mecanismos para sua emissão sem lastro algum, enquanto forem pequenas podem existir sem grande alarde, mas se puderem criar problemas como excesso de liquidez e inflação, provavelmente vão ser reguladas pelos bancos centrais, ou até mesmo coibidas. Ou simplesmente as pessoas vão perder o interesse.

A preocupação central

Creio que o principal problema da existência de um mini-sistema financeiro barato, seguro, privado, transnacional e não regulado deve ser endereçado pelo prisma do combate à corrupção e à lavagem de dinheiro.

O objetivo de quem transaciona a partir de operações ilegais é esconder o fluxo das autoridades. Sempre fizeram isso através de brechas que (intencionalmente?) o próprio sistema financeiro permitia, como os paraísos fiscais, determinadas espécies de empresas e sistemas de laranjas e testas-de-ferro.

Nos últimos 20 anos um esforço mundial tem reduzido as possibilidades de transacionar sem ser visto, fechando o cerco em paraísos fiscais e instituições financeiras, com multas bilionárias e processos caríssimos.

Seja qual for o destino das criptomoedas, não pode de forma alguma parecer um facilitador para atividades criminosas. Isso seria um enorme retrocesso. Não podem ser refúgio para contrabandistas de órgãos, pedófilos, traficantes de pessoas etc..

Os jovens e os libertários (de esquerda e de direita) aclamam as criptomoedas como sendo caminhos para reduzir o poder do Estado e das instituições financeiras sobre os cidadãos. Sem dúvida são.

Mas os erros (e acertos) do Estado e das instituições financeiras no que se refere à gestão da oferta monetária são bem documentados, escrutinados por todos os agentes financeiros no mundo inteiro. Conhecemos muito bem, estudamos o assunto e as reuniões dos bancos centrais são avaliadas por especialistas e mercados há décadas.

Já os erros privados na gestão da oferta monetária, considerando a possibilidade de, quem sabe, cada um de nós ter um sistema financeiro próprio, ou fazer parte de uma rede privada não regulada e invisível às autoridades, são potencialmente graves.

A julgar pelo histórico que conhecemos nos mercados financeiros, provavelmente os espertalhões vão concentrar os ganhos, e muitos milhões de incautos vão dividir o prejuízo.

Na verdade o Bitcoin especificamente nem poderia ser visto como uma proposta libertária, ao contrário, parece altamente concentradora de poder e riqueza. A mineração é uma atividade cara, de forma que quem enriquece com ela é quem já tem bastante capital. Além disso, como não há limites e nem regras de controle, nada impede o conluio entre poucos players para manipular o mercado. Estima-se que 1% dos endereços de Bitcoin controle mais de 50% do mercado. Dada a baixa liquidez do mercado, a concentração e a completa falta de regulação antitruste e anti-manipulação, não seria surpreendente se estivermos vivendo apenas outro jogo onde os ricos ficam mais ricos e manipulam o mercado para garantir seus lucros. E esse jogo é pior do que o do sistema financeira tradicional, pois quem tem o poder de emitir moeda é quem já é riquíssimo. Não é nada libertador.

O libertário tem confiança demais na boa-fé humana e esquece que basta um punhado de picaretas para passar a perna em milhões de agentes de boa-fé. O ser humano sem controle é isso mesmo, um ser humano sem controle. É imprevisível a capacidade de destruição.

PS:

Não escrevi um texto contrário às criptomoedas, apenas entendo que sua única novidade é a facilidade de criar sistemas financeiros paralelos com riscos baixos de fraude. O resto já estamos acostumados, o sistema financeiro nos dá dinheiro virtual há mais de 40 anos.

Também o texto não critica quem investe nas criptomoedas, o valor delas depende do mercado e enquanto ele precificar de forma favorável o especulador ganhará dinheiro. Apenas entendo que os argumentos eram válidos e continuam válidos.

Já há testes para uso de blockchain para substituir o registro de imóveis. Isso é, de fato, um sucesso.

 

 

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  • Disclaimer

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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