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Paulo Freire, de Patrono a Meme. Como os conservadores viraram o jogo da propaganda.

Posted on 30/09/2021. Filed under: Finanças |

Passado o burburinho da “comemoração” dos 100 anos de Paulo Freire, vale fazer uma análise dos embates entre coletivistas e conservadores nas redes sociais, em torno da responsabilidade de Freire sobre o desastre que é a educação pública brasileira.

O foco do artigo é mostrar como os conservadores deixaram de ser vítimas ingênuas e indefesas da propaganda ostensiva pró-Freire, e levaram os coletivistas às cordas, forçando-os a defender o barbudo da crescente percepção popular de que é o patrono de um desastre.

A estratégia para atingir uma hegemonia moral, cultural e intelectual.

Uma das principais estratégias para atingir uma hegemonia moral, cultural e intelectual é ocultar esse objetivo de quem você busca dominar. Ninguém pode saber que você tem uma agenda de controle. Todos precisam achar que você debate limpo, dentro da racionalidade e razoabilidade, com base em valores em comum. Por isso as pautas hegemônicas da esquerda nacional, até um passado recente, nunca foram tema tratado abertamente pelos candidatos coletivistas ao executivo.

A agenda só pode ser revelada em 2 ocasiões: quando a vitória está consagrada e a hegemonia moral, cultural e intelectual já está estabelecida, então todos aceitarão qualquer impostura ou irracionalidade proposta pelo vencedor, ou quando esse plano de hegemonia corre sério risco de ruir.

A situação atual do mundo é curiosa. Aparentemente a agenda de controle acabou se tornando explícita por ambos os motivos, em parte por já ter obtido uma dominação expressiva nas elites econômicas, políticas e artísticas do ocidente (financiadores e formadores de opinião), e em parte pelo fato de os conservadores a terem percebido antes da hora e revidado vigorosamente para evitar a dominação pelo pensamento único.

E Paulo Freire é uma das frentes mais eloquentes do revide conservador.

A defesa ostensiva que os coletivistas passaram a fazer de Freire é “tiro no pé”. Tem efeito contrário, tanto nos conservadores, quanto na sociedade.

Algo bem interessante aconteceu nesse centenário. Recebi várias indicações de podcasts, vídeos e textos, enviados por amigos que defendem Freire, e tive oportunidade de ler e ouvir alguns deles.

Todos falavam corretamente sobre a influência de Paulo Freire na educação brasileira. Falavam da educação libertadora, do sócio construtivismo (o tempo das classes desabonadas era outro e devia ser respeitado), falaram dos “diferentes saberes”, de evitar a educação bancária, de não formar cidadãos para serem opressores (ser opressor, na literatura de Freire, significa vencer na vida pela moral burguesa, virar patrão), da posição de igualdade do professor, em contraponto à posição de autoridade, que conhecimento não se mede, de que não há certo ou errado etc.

E todos também falavam corretamente que o método de educação de adultos não foi implantado do país de forma generalizada e menos ainda em crianças, e que, portanto, não seria responsável pela produção em massa de analfabetos funcionais em que se tornou nosso sistema educacional.

Nada disso é falso. Realmente estão falando sobre a influência real de Freire na formação de professores e educadores brasileiros, mas o que os defensores de Freire não entenderam é que, em vez de essa defesa enfraquecer o conservador que os levou para o corner, e fazê-lo parar com os golpes e baixar a guarda, deu ainda mais força e mais certeza de que Freire precisa ser combatido.

Deu motivos para o conservador associar todo o fracasso da educação brasileira diretamente ao seu so called patrono.

O conservador quer preservar estruturas que considera terem sobrevivido ao teste do tempo, entregando bons resultados. Freire é um inimigo declarado dessas tradições.

Em termos de educação e formação, é fácil saber o que o conservador quer preservar: hierarquia e respeito à autoridade do professor, ensino clássico, método tradicional, distinção objetiva entre certo e errado, método científico como delimitador dessa distinção, meritocracia demonstrada nas notas e avaliações, educação voltada a vencer na vida e pró-mercado, estimular valores de pertencimento de grupo, defender a família e não a substituir no papel de educação moral, escolas militares, escolas religiosas etc.

No passado, ingenuamente, o conservador ouvia os discursos que falavam de Paulo Freire e não se incomodava, pois vinham envernizados com uma retórica repleta de platitudes que os deixavam aparentemente inofensivos. Jargões como “educação inclusiva” ou “formar mentes críticas” eram um verniz para ninguém debater, de fato, a filosofia revolucionária e anti-capitalista de Freire. Hoje o verniz já não protege mais.

E, como as platitudes perderam o efeito, a defesa precisou ser mais elaborada e, por conseguinte, mostrou claramente ao conservador que tudo o que ele considera errado na educação brasileira, coisas como desrespeito ao professor, falta de hierarquia, formar pessoas despreparadas para o mercado, analfabetismo funcional em larga escala (o tempo do aluno que nunca chegou), desrespeito por tradições etc., são coisas, de fato, associadas à forma com Paulo Freire via a educação.

Em resumo, a defesa, enfim honesta e aberta, feita pelos coletivistas, jogou querosene na fogueira e fez o conservador entender, ainda mais, como a visão sócio construtivista de Freire é nociva aos valores desse grupo.

Como os conservadores viraram esse jogo contra o legado de Paulo Freire?

Vários fatores me vêm à mente, mas o principal deles foi passar a combater propaganda com contrapropaganda, e não mais com artigos publicados, livros sobre teoria crítica, debates sofisticados sobre gramscismo e revolução cultural etc.

Reconheço que houve muito desenvolvimento intelectual robusto nas hostes conservadoras para conhecer e enfrentar as ideias de teóricos marxistas, estruturalistas, pós-estruturalistas, pós-modernistas, críticos etc., mas isso apenas ajudou a criar um repositório de pensamento sofisticado anti-coletivista, ainda que não tenha atingido o mainstream acadêmico.

A grande virada para o movimento conservador foi ter se popularizado como narrativa popular e começado a combater propaganda com contrapropaganda no debate público.

O que colocou o coletivista no corner, ao desacreditar popularmente a imagem de Paulo Freire, descrédito esse que cresce a olhos vistos, não foram debates empolados e sofisticados sobre marxismo e gramscismo, mas o uso da mesma arma do coletivista no debate público: propaganda.

Durante a guerra fria, o que manteve o americano médio com medo do comunismo não foram os debates acadêmicos empolados (até porque, no meio acadêmico, já se construía uma hegemonia coletivista), mas a contrapropaganda do governo americano contra a tentativa de influência das ideias soviéticas.

Em vez de contrapor Marx com Hayek e Bohm-Bawerk, simplifica e espalha que comunista come criancinha e pronto. Não importa de onde veio a ideia, não é para explicar, mas para propagar, disseminar e inserir isso no subconsciente da massa.

Os conservadores se ofendem com essa proposta de usar contrapropaganda para enfrentar propaganda, mas é um poor judgment sobre como a moral se forma em sociedade.

O conservador não gosta desse tipo de estratégia, pois é, realmente, algo de baixo valor intelectual e moral. Concordo. O caminho virtuoso seria promover grandes debates gregos sobre a verdade, a democracia, a liberdade, a virtude, a moral etc., com todos os debatedores receptivos à descoberta e à síntese de uma dialética bem-feita e honesta. Lindo demais.

O problema sempre foi que, enquanto o conservador pensa assim, seu adversário ideológico entende que a estratégia de tergiversar, de sofismar, de forçar a propaganda em vez do debate, de usar argumentos retóricos, de mentir com método, é o caminho para pavimentar a hegemonia anti-capitalista (luta de classes) e anti-racionalista (teoria crítica).

O conservador ingênuo, nesse embate, entra em franca desvantagem, pois parte de uma má avaliação (poor judgment) do processo educacional do homem, a forma como ele cria seu sistema de valores e de referências. Não é através da racionalidade nua e crua, da demonstração intelectual, da aceitação de axiomas lógicos e imperativos categóricos, mas através do exemplo, da mitologia, da história, da tradição, da autoridade, entre outras experiências que sintetizam nossos valores, antes mesmo de serem racionalizadas como tal.

Kant não “inventou” a moral humana, apenas a descreveu sob uma perspectiva lógico-filosófica. Ao criar uma narrativa causal muito sofisticada, aquela moralidade que cresceu naturalmente ganhou robustez intelectual e se transformou em matéria a ser debatida nas esferas da alta cultura. Mas, na prática, as referências que Kant percebeu e descreveu no homem foram adquiridas de forma simples, pela própria evolução da sociedade e do relacionamento entre indivíduos livres.

Por isso ninguém precisa da sofisticação de Kant ou de Aristóteles para ter uma percepção razoável do que é uma ação moral ou racional, que seja funcional para determinada tribo, cidade ou país.

A propaganda é usada para entregar meias-verdades e falácias que levam o alvo a mudar sua opinião sem refletir, às vezes de forma sub-reptícia e sem qualquer honestidade intelectual. E ela é bem-sucedida justamente por usar os mesmos mecanismos que formaram naturalmente a ética e a moral das pessoas. Só que a propaganda coletivista não é natural e não se alinha ao interesse das pessoas e de suas comunidades, não vai ao encontro do interesse da preservação da harmonia e da tradição, mas na direção de uma agenda revolucionária, destruidora das referências e alicerces sociais, intelectuais e morais daquela população específica.

Debate grego em Arena romana. Um quer falar, o outro quer soltar os leões.

Pelo exposto é que entendo ser ingênuo o conservador achar que a forma de enfrentar a propaganda é com um debate ontológico sobre a verdade e a virtude, com o debate grego dialético e honesto de ideias. Não é, pois a formação moral não vem só do convencimento racional, aliás, o convencimento racional está mais para uma racionalização a posteriori do que propriamente para uma moral adquirida racionalmente a priori. Nós desenvolvemos os valores na vida, no cotidiano, no exemplo, na tentativa e erro, na tradição familiar e religiosa etc., e, se buscarmos estudar a origem desses valores, os vestiremos com uma racionalização sofisticada, mas, na prática, já estão presentes no dia-a-dia e não foram adquiridos no convencimento racional. Isso é razoavelmente evidente e tem farta correlação com a história humana.

É por isso que  não é funcional combater propaganda com debate grego. É como propor uma prova de matemática para decidir uma briga de faca. São jogos diferentes, arenas diferentes e propostas diferentes.

Embate grego precisa de arena grega, embate romano precisa do Coliseu.

O conservador entrava de livro na mão (a bíblia, o Fedro de Platão, a Lei de Bastiat ou a Principia Mathematica de Newton) e era jogado aos leões do relativismo moral e intelectual no embate proposto e conduzido pelo coletivista.

Hoje, mais experiente, o conservador mantém para si e para os seus o bom debate dialético, mas para consumo público e embate ideológico, entra preparado para capturar e soltar os leões de volta no parquinho tatibitate do coletivista.

É minha impressão.

Para mais sobre a história da racionalidade e do embate entre positivismo, religião e teoria crítica, leia meu livro sobre filosofia da ciência:

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A China vai salvar a Evergrande?

Posted on 24/09/2021. Filed under: Finanças |

Enquanto escrevo essas palavras, essa pergunta ainda não tem resposta. Porém quero abordar o assunto por outro prisma.

Nós já vimos o Ocidente bail out (resgatar) praticamente todos os setores. Desde 2008 vem comprando títulos de bancos para manter sua liquidez, e, de 2020 em diante, vem injetando dinheiro diretamente nas famílias para enfrentarem a pandemia.

O primeiro movimento inchou os balanços dos Bancos Centrais e criou o excesso de capital (dinheiro para financiamento e investimento) que inflou ativos pelo mundo. O segundo movimento está inchando as dívidas soberanas e gerando inflação. Inflação gerada por  2 fatores que, juntos, são explosivos: excesso de demanda e escassez de oferta.

Democracias ocidentais vivem de evitar o caos agora, e empurrar o problema para o próximo mandato.

Ocidentais são fáceis de ler. Em democracias, em momentos turbulentos e imprevisíveis, todos tomam o caminho de menor dano imediato à própria imagem política. E deixam o longo prazo para resolver depois, ou para estourar no colo de outro dirigente. Por isso toda vez que o mercado dá um solavanco, a solução que TODOS pensam é sempre mais dinheiro público e mais estímulos, mesmo que isso crie mais dependência e não gere riqueza, exceto para poucos. Além de deixar uma dívida cada vez mais impagável para gerações futuras.

O Ocidente vem jogando esse jogo de too big to fail, too many to fail e too rich to jail há anos e ninguém sabe como parar. Quanto mais dinheiro é bombeado no jogo, mais viciados os players ficam nas ações dos governos.

Porém o caso da Evergrande é emblemático, pois são muitos credores em dólar e estrangeiros. O valor da dívida da Companhia já desabou nos mercados, atingindo 30 cents por dólar, nível praticamente de default, de fundo abutre.

A grande questão que se coloca aos mercados é se a China vai entrar na dança de bombear dinheiro público para resgatar esse negócio e acalmar credores, ou vai deixar quebrar.

Caso salve a empresa, permanece a questão de que a Evergrande não é a única, e o setor não é o único que passa por problemas na China. E adotar esse precedente de bail out pode acabar viciando o mercado de credores internacionais, criando, como no Ocidente, uma dependência de dinheiro público para que os mercados não sucumbam. Em toda crise precisará vir mais dinheiro público, e cresce o vício. E a situação fica cada vez mais explosiva, obrigando os governos a não parar mais de injetar morfina num sistema financeiro deformado por uma interferência estatal hipertrofiada.

Mas a China não é uma democracia.

Lá a bomba não vai explodir no colo de outro. Não terá eleição para expulsar quem tomou a decisão dura de “deixar quebrar”. Lá a coisa é imprevisível. O cálculo é, de fato, de longo prazo. Diria até que pensam na eternidade, em nunca sair do poder.

E dessa enorme diferença, a China pode agir de forma ortodoxa e deixar quebrar, levando credores juntos à bancarrota e tentando preservar apenas as aparências e controlar os danos internos (que é do interesse do PCCh, manter a ordem).

OBS: Sim, eu escrevi “agir de forma ortodoxa”. No capitalismo, quebra quem é incompetente ou tomou risco demais, ficar salvando todo mundo é que é heterodoxo.

Com controle sem limites sobre a vida social dos chineses e sobre a informação que chega até eles, culpariam qualquer estrangeiro e chamariam o povo para se unir diante de uma crise econômica “passageira”, para que pareça só um solavanco em direção aos planos de grandeza perene da China. E se durar 10 anos, tudo bem, segue a manipulação pelo tempo que for necessário.

Lema do Partido – 1984 -George Orwell

O mercado é, majoritariamente, reativo.

O mercado se ajusta às ações dos players mais importantes. Quando os governos direcionaram capital e caixa para os mercados financeiros (crise do Subprime) e para as pessoas (na Pandemia), o mercado reagiu e, rapidamente, se tornou dependente dessa ação estatal, hoje em nível global.

Se o governo chinês se mostrar favorável ao bail out, pode trazer uma leitura ao mercado de que existe mais um caixa infinito com que se pode contar para agir no limite da (ir)racionalidade financeira.

Eu não sei o que vai acontecer, mas entendo que não devemos “ler” o governo chinês como lemos democracias ocidentais. Se eles precisarem jogar 200 milhões de pessoas de volta à pobreza para corrigir rumos de longo prazo, não hesitarão. Não há eleições no ano que vem. Nem no próximo e, se depender deles, não haverá nunca.

O Ocidente depende demais de um player imprevisível.

Disclaimer: O autor do artigo trabalha na Comissão de Valores Mobiliários e as opiniões aqui descritas representam apenas e exclusivamente sua opinião e não, necessariamente, a opinião da autarquia (disclaimer disposto conforme orientação do Ofício nº 13/2020/CE-CVM).

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Dados da vacinação em Israel. Dúvidas sobre os cálculos de eficácia da terceira dose. Ago/Set 2021

Posted on 18/09/2021. Filed under: Finanças |

Desde 30 de julho, Israel iniciou um booster com a terceira dose da vacina da Pfizer para maiores de 60 anos, e 20 dias depois, iniciou a terceira dose para maiores de 40 anos.

O que percebi, após destrinchar os dados, é que, aparentemente, a terceira dose está sacrificando os dados de eficácia da segunda dose. Eu tinha percebido isso no dia em que alteraram a forma de divulgar os dados, mas decidi esperar alguns dias para ver se era erro na transição. E, aparentemente, é mesmo erro na transição dos dados. Isso ficará claro ao final do artigo.

Israel apresenta dados brutos com alguma qualidade para que possamos acompanhar a evolução dos testes vacinais (essa é a quarta fase das vacinas) no link a seguir. Até recentemente não apresentavam dados sobre mortalidade, mas há cerca de uma semana liberaram esses dados. Infelizmente ainda sem discriminação etária adequada.

https://datadashboard.health.gov.il/COVID-19/general

Resultados mais recentes (Agosto/Setembro).

Acompanho os dados de Israel com atenção há alguns meses, e no início, a eficácia das vacinas parecia espetacularmente alta, porém houve coincidência com uma queda brutal nos casos, até o início de abril. As pessoas associavam isso à alta vacinação em Israel (já superior a 55% em 2 doses, mais de 70% dos adultos).

Agora, Israel enfrenta uma onda que já ultrapassou a anterior em casos (com cerca de metade dos óbitos), mesmo com uma população massivamente vacinada, e com 30% da população já com a terceira dose.

Há algumas semanas eles alteraram a forma de divulgar os dados e, agora, são três grupos: vacinados com impulso (3ª dose), vacinados sem impulso e não vacinados.

Vamos aos principais resultados.

ALERTA: Estou fazendo os cálculos sobre eficácia conforme a literatura, mas não é a forma que considero certa de fazer. Para sabermos realmente o efeito das vacinas, temos que dividir em 4 grupos: (i) não vacinados que nunca tiveram contato com o vírus; (ii) não vacinados que já tiveram contato com o vírus; (iii) vacinados que não tinham sido infectados antes; e (iv) vacinados que já tinham sido infectados.

Sem essa divisão nós temos uma noção da eficácia, mas não conseguimos isolar o efeito exclusivo das vacinas.

Risco relativo de contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

É possível inferir pelos dados a queda na eficácia para a vacinação sem impulso. O risco para o não vacinado é sempre maior, mas muito mais próximo do que no início da vacinação. Por exemplo, de cada 1.000 pessoas de cada grupo de 70 a 79 anos, 54 vacinados (sem impulso) contraem a doença e 85 não vacinados. É uma queda de eficácia que ficará mais clara a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

A queda de eficácia para quem tomou apenas 2 doses é brutal. Com esses números a vacina não teria aprovação em lugar nenhum.

A gente pode associar o motivo à variante Delta, mas, se fosse realmente isso, o que explicaria a ainda alta eficácia para quem tomou a terceira dose?

As hipóteses são: (i) eficácia cai muito com o tempo; ou (ii) a vacinação com terceira dose é muito recente para ter dados consistentes; ou (iii) a terceira dose aumenta a imunidade de fato.

Vamos ver o que aconteceu com os riscos de contrair COVID grave:

Risco relativo de contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

O que fica bastante claro é que os riscos são muito baixos para adolescentes, tendo tomado ou não a vacina.

Como os números são extremamente baixos até os 29 anos (15 casos em um grupo de 685 mil jovens não vacinados, 21 casos graves por milhão), deve-se sopesar com os riscos associados à própria vacinação. Infelizmente esse tem sido um debate interditado e nós não temos acesso a dados confiáveis sobre efeitos adversos. O que consegui apurar, o CDC, é que a taxa de miocardite em MENINOS por MM de doses aplicadas nos EUA foi de 47,4 para o grupo entre 12 e 15 e 76,7 para o grupo entre 16-17 anos (somando as duas doses). Para meninas foi muito mais baixa.

Mas, repito, falta informação mais detalhada sobre os riscos, ao menos a informação não chega facilmente a todos. Quanto aos riscos de longo prazo, só saberemos no longo prazo mesmo.

https://www.cdc.gov/vaccines/acip/meetings/downloads/slides-2021-08-30/05-COVID-Lee-508.pdf

Não dá para saber a mortalidade nos grupos, mas deve ser mínima também, pois Israel informou a mortalidade nos últimos 28 dias e houve apenas 48 óbitos em todo o grupo menor de 60 anos.

Aparentemente a vacina mantém a redução de risco da gravidade da doença, ainda que em menor escala do que no passado. Veja a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

Infelizmente o dado de eficácia contra mortalidade não dá para ser calculado adequadamente, pois não temos a distribuição por faixa etária e, ainda pior, os óbitos entre agosto e setembro podem se referir a infecções ocorridas semanas ou até meses atrás. Tentei calcular, mas nada faz sentido.

Questões sobre a terceira dose

Os dados parecem formidáveis para a terceira dose, e bem inferiores para vacinação completa anterior, mas entendo que isso tem um viés difícil de contornar.

Os dados de vacinados e vacinados com impulso se confundem demais nesses 45 dias de vacinação da terceira dose. O denominador dos cálculos de risco muda muito rápido. Em 30 de julho havia ZERO vacinados com terceira dose, em 15/09, 2,8 milhões. Os casos em aberto há semanas podem estar contabilizados como vacinados sem impulso, mas quando ele contraiu esse número (base do denominador) era de 4 milhões de pessoas, em 15/09 eram 2,6 milhões. Na hora que fazemos o cálculo, dá errado. Mascara os números.

Uma evidência de que o que digo tem fundamento está no cálculo para o grupo que quase não tomou booster (12-15), onde a eficácia é MAIOR para os vacinados com 2 doses apenas do que para quem tomou o booster.

Em resumo, minha opinião é que esses números da terceira dose acabam amplificando artificialmente a eficácia do booster e sacrificando a eficácia da vacinação normal.

Sendo ainda mais claro, entendo que os números acima de 90% de eficácia para a terceira dose e abaixo de 50% para a vacinação padrão são fruto apenas de um ajuste estatístico, com a base (denominador) do risco flutuando muito e muito rápido. Nem é tão boa a terceira dose, nem é tão ruim a segunda.

A título de curiosidade, refiz os cálculos de eficácia contra infecção e doença grave, e a situação muda radicalmente, mas fica bem mais próxima das eficácias que eu vinha calculando antes de dividirem em 2 grupos de vacinados.

Com dados completos eu conseguiria verificar isso, mas certamente esses dados devem ser estratégicos e não serão divulgados (discriminando a trajetória de quem pegou, internou e morreu).

Questões sobre infectados após a vacinação.

A infecção em vacinados é uma faca de dois gumes. Por um lado, como há risco baixo de contrair a doença grave, a infecção natural vencida pode corrigir a imunologia gerada pela vacina e amplificá-la, deixando a pessoa ainda menos vulnerável. Por outro lado, com esse nível muito alto de infecções em organismos que deveriam ter uma competência extremamente elevada para enfrentar o vírus, há a preocupação pelo potencial de geração de variantes, dada a pressão evolutiva que é imposta ao vírus, ao vencer um vacinado.

Só o tempo dirá se estamos ou não perto do fim desse maldição.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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