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O que é ser de direita no século XXI? O conservador-liberal: a quimera direitista.

Posted on 12/08/2021. Filed under: Finanças |

A nova direita nacional costuma se classificar como conservadora nos costumes e liberal na economia, porém ser liberal na economia não é garantia de ser de direita. As questões são bem mais profundas. Veremos em detalhes.

Neste artigo endereço 5 questões fundamentais para a adequada caracterização do movimento de “direita” neste século XXI.

Para qualificarmos adequadamente um movimento como sendo de direita, é necessário entender e pacificar a história de conflitos entre o conservadorismo e o liberalismo nos últimos 250 anos. Sem isso, o “conservador-liberal” soa como uma quimera direitista, um oximoro.

O leitor verá uma proposta inovadora que, provavelmente, não será bem recebida por parte da direita (que verá não ser, de fato, de direita) e refutada por parte da esquerda (que verá não ter sobrado muita coisa do progressismo liberal dos séculos XVIII e XIX em suas pautas).

  • São as seguintes questões:
    1. Conservadorismo é condição para ser de direita, mas não é suficiente.
    2. Conservadores enfrentaram liberais em questões de direitos civis no século passado, e estiveram, muitas vezes, do lado errado.
    3. O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.
    4. Liberalismo clássico não é liberalismo econômico. O clássico dá fundamento ao econômico, mas o econômico não garante o clássico.
    5. A esquerda do século XXI não é liberal.

Conservadorismo é condição para ser de direita, mas não é suficiente.

Não há direitista revolucionário. Preservar tradições que trouxeram prosperidade à humanidade, ainda que controversas ou excludentes, e evitar que os grandes feitos da raça humana se percam em processos revolucionários, está na base de ser de direita.

A leitura de autores como Russell Kirk, Thomas Sowell, Roger Scruton, entre outros, mostra a essência do conservadorismo, afastando-o da ideia equivocada do imobilismo irrefletido, que é o estereótipo mais comum, utilizado para desmerecer o movimento.

O conservadorismo não é imutável, porém a incorporação de novos valores às tradições que o conservador preserva deve ser amplamente debatida, lenta, não-revolucionária e construtora de uma tradição renovada, porém não inteiramente destruída. Enfim, uma tradição pode ser reformada se for de maneira lenta, sopesada, escrutinada, debatida e, principalmente, se provar seu valor no teste do tempo.

Mas ser conservador não garante ser de direita. Isso deveria ser razoavelmente claro, pois a história é plena de movimentos totalitários de cunho coletivista que buscaram preservar, em grande parte, valores e tradições de seus povos. A URSS e a China, por exemplo, romperam com parte da estrutura agrária de seus países, mas preservaram e valorizaram questões culturais, artísticas, históricas e filosóficas de seus povos.

Para ficar em exemplos recentes, o ministro Barroso chegou a sugerir que a Venezuela era uma ditadura de direita, por ser conservadora. Durante os protestos de 2021 em Cuba, alguns movimentos de esquerda ensaiaram associar Cuba ao conservadorismo. Não, não é suficiente ser conservador para ser de direita e, obviamente, o ministro está errado em associar a Venezuela à direita, exclusivamente por haver conservadorismo cultural em sua ideologia política e social. Não é aí que reside a diferença fundamental entre o movimento direitista e esquerdista. Talvez o ministro não saiba, pois isso é confuso mesmo.

Conservadores enfrentaram liberais em questões de direitos civis no século passado, e estiveram, muitas vezes, do lado errado.

Esta parte promete ser a mais controversa do artigo, mas entendo que dá sentido e resolve questões em aberto sobre essa tendência apresentada pelo conservador do século XXI de atrair para si a denominação de liberal.

O liberalismo, em seus primórdios, buscava reformar sistemas que oprimiam a liberdade individual. E atacou, a depender do que era o poder autoritário em determinado país, a monarquia, o clero ou a aristocracia. E nessa época, o conservador era tratado como reacionário, por reagir às reformas e ao progresso liberalizante.

O foco básico do liberalismo clássico era a proteção do indivíduo contra a potencial tirania do Estado e de suas estruturas de poder. Por isso seus movimentos acabaram culminando no estabelecimento de um sistema legal que seria compartilhado por todos, sem privilégios de classe, raça, credo, gênero etc., através do direito positivado. Essa foi parte significativa da luta dos liberais por mais de 200 anos.

Certa vez perguntaram ao Thomas Sowell o que ele diria para os ativistas de direitos civis. Ele respondeu que os mandaria para casa, pois venceram. Sim, o liberalismo clássico venceu no Ocidente, mas se vê em perigo nos dias de hoje, só que, dessa vez, a ameaça não vem do conservadorismo.

Voltando à história, nos EUA, como não havia nenhuma estrutura francamente dominante de burguesia, aristocracia, clero ou monarquia, contra a qual o liberalismo pudesse se insurgir, os ideais de liberdade foram mais facilmente adotados, sendo a Constituição Americana, em vigor desde 1789, provavelmente o documento liberal mais efetivo e influente da história.

O conservador de hoje tem dificuldade de entender o conservadorismo dos séculos XIX e XX, pois não consegue compreender como ideais de liberdade individual não faziam parte dos valores conservadores da época. Hoje a liberdade individual, em contraponto ao coletivismo, estatal, estrutural ou cultural, é um dos valores mais cultuados por conservadores de direita. Mas isso não era verdade há 200 anos.

E nessa questão mora um dos fundamentos da confusão que temos hoje nos movimentos que se intitulam de esquerda ou direita.

Nos séculos XVIII e XIX, essa definição era irrelevante (direita e esquerda), sendo mais comum falarmos de conservadorismo e liberalismo, falar de tradição e liberdade, direito natural e direito positivo. E conservadorismo e liberalismo eram vistos como posições antagônicas no quadro político, social, legal e moral.

Como a direita nunca negou suas raízes conservadoras, o conservadorismo permanece como característica inequívoca da direita.

Já o esquerdista atual ainda continua se proclamando liberal e/ou progressista, mesmo que a agenda atual da esquerda não tenha qualquer relação com a agenda liberal clássica, que lutou contra a escravidão, a favor do sufrágio universal e pela equalização de direitos civis. Tudo isso foi feito com foco no indivíduo e contra o poder estatal e não em nome da luta de classes, gêneros, raças ou buscando um estado hipertrofiado para garantir uma igualdade utópica e inexistente entre indivíduos.

O liberalismo clássico prega o respeito à pluralidade dos indivíduos, a agenda da esquerda nos últimos 50 anos, uma exige uma comunhão plena de valores, moralidade, recursos, renda entre outras medidas que poderiam refletir, eventualmente, desigualdade.

Temos, portanto, essa questão da esquerda americana sendo chamada de liberal, o que fazia sentido enquanto o espectro político se situava apenas entre progresso e reação, porém, desde que a esquerda passou a ser eminentemente coletivista e buscar reparações históricas em nome da igualdade de resultados (e não perante a lei), se afastou de forma irreconciliável dos princípios mais básicos do liberalismo e do combate à autoridade estatal.

Quem defende a Constituição Americana hoje, quem defende a liberdade de expressão, independente do conteúdo, quem luta contra a tirania do estado sobre o indivíduo são os republicanos. Isso é razoavelmente inequívoco. Creio que mesmo os esquerdistas concordariam com essa avaliação.

Nos EUA de hoje, as pautas da esquerda estão associadas ao aumento do estado, aumento da regulação, negação da história americana, desprezo pelos símbolos americanos, retirada de armas em circulação, reparações históricas, hostilização dos Founding Fathers etc., o que não guarda qualquer relação com o liberalismo clássico.

 O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.

O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.

O conservadorismo que permanece vigente e se mantém como força política e social precisou da incorporação de novos valores, sob risco de ser acusado, justamente, de imobilismo irrefletido e de perder o apelo a jovens críticos.

Qualquer bom autor conservador sabe que a questão não é “nunca mudar”, mas manter princípios básicos e mudar, sempre, de forma devagar e cautelosa, para evitar jogar fora o que deveria ser preservado.

O conservador atual considera o que já foi tratado como transgressão cultural como algo clássico. Ouve Beatles e Led Zeppelin e os trata como clássicos do Rock e do Pop. Houve integração aos valores conservadores de manifestações culturais, políticas e sociais que se mostraram, diante do teste do tempo, de alto valor ou dignas de preservação.

Isso não deveria surpreender ninguém, pois faz parte do debate que o conservador trava com a história. Aquilo que surge da livre manifestação artística, cultural, filosófica, científica e intelectual, aquilo que surge como fruto da expressão da liberdade individual em todas essas áreas, será incorporado após anos de escrutínio público e após mostrar um valor meritório e que deva ser preservado.

Por isso temos, hoje, muitos conservadores de direita defendendo direitos iguais perante a lei, o que era pauta exclusiva dos liberais nos séculos passados, e se mostrando contrários a políticas afirmativas e/ou segregação social praticada pela cultura do cancelamento em redes sociais (que é coletivismo, não liberalismo).

O espectro ideológico mais relevante nos dias de hoje opõe liberalismo clássico e coletivismo, opõe a defesa de direitos iguais na lei e a defesa de igualdade de resultados, opõe redução da opressão estatal sobre o indivíduo e aumento do poder estatal sobre a moralidade e o comportamento do cidadão.

Nesse aspecto, grande parte dos valores do liberalismo clássico foram incorporados pelo conservadorismo, ficando o coletivista atual com uma ideia distorcida de liberalismo. A influência marxista deslocou o foco da liberdade do âmbito individual e o posicionou em algo que só pode ser obtido pela coletividade, por isso a esquerda atual não vê problemas em retirar os direitos individuais em nome de um direito coletivo difuso, que é o direito de todos, mas não atende diretamente a ninguém.

E aqui surge mais uma questão delicada, motivo pelo qual não podemos assumir a priori que um defensor do liberalismo econômico seja, necessariamente, de direita. Pode não ser, e muitos dos que apareceram nas últimas eleições brasileiras como representantes de uma nova direita, defendem fervorosamente a redução do estado na economia, privatizações etc., mas são notavelmente coletivistas em suas visões de direito, liberdade e moralidade.

Liberalismo clássico não é liberalismo econômico. O clássico dá fundamento ao econômico, mas o econômico não garante o clássico.

Podemos associar o liberalismo econômico à defesa do livre mercado, à livre iniciativa e ao respeito à propriedade privada material. Busca-se redução da participação do estado, menos regulação, leis que promovam a concorrência etc.

Ocorre que esse tipo de abordagem econômica não necessariamente resulta em um ambiente de garantia ao liberalismo clássico, aquele que tem foco nas liberdades individuais fundamentais.

Uma distinção deve facilitar o entendimento dessa abordagem. Podemos ter um sistema contratual que garante plenamente o cumprimento de contratos entre nós e terceiros. Isso deve garantir que seus bens, seu dinheiro, seus ativos não serão usurpados pelo poder do estado ou por algum elemento fora-da-lei. Isso é uma garantia básica para o capitalismo florescer.

Ocorre que alguns contratos, de cunho liberal e não econômico, podem não ser garantidos por esse mesmo sistema que garante a propriedade privada material e as transações comerciais.

A liberdade de expressão, de credo, de defender a si e sua família contra o arbítrio do mais forte, de criar os seus de acordo com seus valores, de ir e vir, de buscar a vitória por mérito próprio entre outros direitos fundamentais, necessários para que uma pessoa possa ser e sentir-se dona de si mesma, podem não estar garantidos, mesmo sob um regime de grande liberdade econômica.

E temos exemplos disso em países comunistas e mesmo em democracias ocidentais. Fartos exemplos.

A China ostenta os melhores indicadores econômicos da história do capitalismo. Nunca ninguém cresceu tanto por tanto tempo. Recorde de produtividade, recorde de retirar pessoas da pobreza extrema, recorde de acúmulo de capitais, recorde de novos bilionários, recorde de participantes no mercado de capitais, recorde de poupança interna privada, recorde de poupança externa, praticamente nenhuma legislação trabalhista, ambiente contrário a sindicatos etc., porém, ninguém está autorizado a ter opinião própria.

Recentemente um bilionário chinês ousou criticar o sistema financeiro de seu país, desapareceu e voltou , aparentemente, “lobotomizado”. Parecia outra pessoa.

A questão material está garantida. Faça bilhões e seja bilionário. Consuma o melhor que o capitalismo pode lhe oferecer. Seja um nababo. Use Armani e dirija uma Ferrari. Mas sua alma, que é essencialmente o que diferencia você do outro, ou de um autômato operando pelo sucesso coletivo nacional, não é mais sua. É cada vez menos sua (alma aqui não tem sentido religioso ou metafísico, apenas uma referência ao que forma a individualidade de alguém – ontologia).

E esse controle, hoje, se amplia, através de sistemas de crédito social que garantem o microgerenciamento da moralidade do povo chinês, que perde ou ganha pontos por agir de acordo com uma cartilha moral do partido comunista, em um ambiente de vigilância ininterrupta. Isso é uma distopia autoritária que só víamos em ficções do século passado. Hoje é mais real do que o pior pesadelo de Orwell. E mais eficiente, pois a prosperidade gerada por um capitalismo quase selvagem de um lado, banca a obediência e a anulação da individualidade do outro.

Mas isso ocorre também nas democracias ocidentais.

O problema da falta de regulação e do “laissez-faire, laissez-passer” do liberalismo econômico é que, nem sempre, as forças econômicas se organizam em ambientes virtuosos competitivos. Principalmente se o capitalista não acredita nos valores do capitalismo e do liberalismo econômico ou clássico. Acreditem, alguns capitalistas de hoje não acreditam nem mesmo na meritocracia. Alguns não acreditam nem em valor presente líquido (VPL) positivo.

Hoje temos redes sociais de grandes corporações atuando como juízes da moralidade pública e privada, como senhores da verdade científica (que não existe, ver Karl Popper) e como censores de interpretações e opiniões que consideram inadequadas.

Entre 2020 e 2021 vivemos uma hipertrofia do poder das corporações sobre o debate público, seja pela cooptação das agências de regulação, seja pelo abuso de poder econômico, seja pela imposição de aceitação social, ainda que sob risco de perder mercado.

E tudo isso é frontalmente contrário ao liberalismo clássico. E não é uma ação do estado para reduzir liberdades individuais ou econômicas. É um capitalismo que deseja operar sem restrições estatais, porém não respeita as máximas do liberalismo clássico e cria instrumentos opressivos que, pasmem, chegam a assediar moralmente seus próprios consumidores, como faz o Uber em suas campanhas. O Uber é um exemplo de empresa que abriu o capital alertando que poderia, jamais, dar lucro. Perceba que o capitalismo sem respeito às liberdades individuais pode se tornar um instrumento de opressão, tão irracional e autoritário quando o aparelho estatal.

Uma das frases mais atribuídas aos liberais é a que diz o seguinte: posso não concordar com nada do que você diz, mas darei minha vida pelo seu direito de dizê-lo. O capitalista de hoje, em grande parte, vai frontalmente contra essa máxima liberal elementar.

É um capitalismo que quer ser livre de amarras estatais e de tradições morais, para formar uma nova moralidade coletiva em que todos devem se manifestar da mesma forma. E o mais curioso é que o faz com completa anuência e efusiva participação de coletivistas.

Pode-se até argumentar que esse controle arbitrário mental e moral, poderia trazer retorno econômico às empresas, mas isso não é liberalismo, muito menos o tipo de livre mercado que desejamos, seria apenas mais uma hierarquia forçada aos indivíduos, agindo em interesse próprio e sufocando a liberdade individual com abuso de poder econômico, tal e qual um estado totalitário. Aliás, muito semelhante à crítica que Marx fazia do capitalismo.

Boa parte dos liberais econômicos brasileiros, que procuravam se mostrar de direita há alguns anos, são, na verdade, coletivistas e antiliberais.

A esquerda do século XXI não é liberal.

Aqui entra Marx, que é, de fato, um divisor de águas no pensamento político, social e econômico.

Marx criou uma enorme confusão ao propor a ideia de que há uma (super)estrutura que impede as pessoas de serem livres, e que, para acabar com essa condição alienante e aprisionante, a estrutura precisa ser destruída.

Em seu tempo, essa estrutura era o capitalismo irrestrito do início da revolução industrial que trazia imensos graus de liberdade ao proprietário dos meios de produção, e pouquíssimos ao proletário.

Talvez sem querer ele tenha confrontado as doutrinas individualistas da época, aquelas que atribuem primordialmente à ação do indivíduo seu sucesso ou fracasso, como o cristianismo, o conservadorismo e o liberalismo clássico.

As doutrinas citadas consideram que o homem crescerá ou sucumbirá por seus próprios esforços, independentemente das oportunidades serem radicalmente diferentes. Um proletário trabalhador, crente e sem vícios viverá bem e encontrará a salvação, enquanto um proprietário de terras rico, porém descrente, alcoólatra e arrogante encontrará o infortúnio pessoal, na Terra ou na eternidade.

Como são doutrinas idealistas ou espiritualistas, a questão de ter mais ou menos recursos materiais não é decisiva. Já o marxismo é essencialmente materialista e considera, de fato, que a condição de riqueza material é superior à condição de pobreza material, sobre qualquer aspecto que se queira (material ou não). O rico estará melhor do que o pobre e ponto, não importa se este último recebe o amor da família diariamente, ou se se realiza na fé religiosa, e o primeiro convive com interesses mesquinhos em casa e pratica o mal a outrem. Para Marx, de forma simplificada, a estrutura beneficia o rico, mesmo que ele seja um inepto. A crença na filosofia moral do marxismo retira o poder do indivíduo e coloca-o na coletividade, que seria a única força que poderia destruir a estrutura opressora. Proletários de todo o mundo, uni-vos!

Não vou me estender neste artigo sobre a inconsistência desse pensamento, tanto do ponto de vista histórico quanto econômico, filosófico e sociológico, nem tratarei aqui da fragilidade intelectual dessa abordagem, pois escrevi um livro sobre filosofia da ciência e racionalidade que trata do assunto. Para mais detalhes, acessar a versão impressa AQUI e a versão online AQUI.

Voltando ao tema, ao retirar do indivíduo o poder sobre si mesmo, sobre sua vida, sobre seus resultados, sobre sua felicidade, sobre seu destino, sobre a própria interpretação que tem sobre seus feitos, e associar os fracassos ou sucessos a facilidades ou dificuldades determinadas quase que exclusivamente por uma estrutura social, econômica e ideológica, Marx criou uma variante do liberalismo que acredita que só seremos livres se todos mudarem, se tudo mudar, se todas as barreiras forem removidas, se todos viverem a mesma moral e a mesma percepção de justiça.

Acreditar nisso é necessário para formar o homem marxista, aquele que será o material humano final para a utopia de um mundo sem estados e sem países, onde todos trabalharão o que podem e receberão o que precisam. Muitos capitalistas e “democratas” ocidentais de hoje pregam isso abertamente, talvez sem perceber a relação com o marxismo.

O liberal clássico entende que o melhor mundo possível é aquele em que os indivíduos possam decidir por si mesmos quais potenciais de liberdade perseguir. Mas, obviamente, uma pessoa de um metro e cinquenta não terá facilidade para perseguir o potencial de liberdade de ser um jogador de basquete competitivo, assim como uma pessoa sem porte e saúde de atleta não perseguirá o potencial de liberdade de ser o mais forte da tribo.

O homem liberal, por ser responsável único por seu sucesso ou fracasso, busca perseguir o potencial de liberdade que lhe permite maior sucesso, e se organiza para ter a melhor vida possível dentro de suas restrições e facilidades. Potencial de liberdade significa os caminhos possíveis para percorrer. Nem todos estão à disposição, como caminhar não estará disponível para um paraplégico ou enxergar para um cego. A percepção da realidade como ela é, é variável inseparável da função de sucesso e felicidade para um indivíduo que se responsabiliza por si mesmo. O liberalismo é realista.

Seguir o marxismo e suas derivações é acreditar que “ninguém está salvo se todos não estiveram salvos”, o que é um julgamento paupérrimo sobre a realidade material. Muita gente está salva, muita gente está protegida, muita gente está em perigo, mas se considera salva, muita gente está desprotegida, mas se considera segura, assim como alguns estão ricos e se consideram falidos, outros estão plenos e se consideram vazios e assim por diante. E o tempo não para, a vida é aqui e agora, não é para quando uma utopia chegar. Ao nível do indivíduo, o coletivismo falha invariavelmente, pois trata a todos como obrigatoriamente iguais.

Por acreditar ser defensor dessa nova visão de “liberdade”, em que o homem não é nem responsável nem recipiente final da mesma, mas a coletividade é, a esquerda do século XXI ainda continua ostentando a denominação de liberal, apesar de o marxismo, na verdade, ferir o liberalismo de morte, ao torna-lo etéreo, impraticável, utópico e inatingível.

Marx conseguiu seguidores e arrebatou corações e mentes com sua guerra contra o capitalismo, porém, com a vitória evidente do capitalismo no ocidente, todas as profecias econômicas marxistas foram por água abaixo.

O capitalismo não sucumbiu, as pessoas não ficaram nominalmente mais pobres, os outros capitalistas não foram engolidos pela competição e o sistema, como um todo, trouxe enorme prosperidade aos países e povos ocidentais, ao menos para aqueles que ostentam melhores indicadores de liberdade econômica. A rigor, o capitalismo, enquanto sistema econômico e racional de alocação de valores, funcionou até em estados ditatoriais, como já tratamos sobre a China. Mas o capitalismo não é, e nunca foi, uma doutrina moral. O liberalismo é.

A ideia da ditadura do proletariado morreu. A esquerda atual não é mais sindical ou trabalhista. É mais fácil vermos um conservador pedindo sanções econômicas contra a China para trazer empregos de volta aos EUA, do que um coletivista moderno.

Mas como a estrutura mental já estava preparada, Marx não foi embora. Bastou deslocar a (super)estrutura de alienação do eixo burguesia-proletariado, para outras hierarquias sociais, comportamentais e biológicas como hetero-homo, homem-mulher, branco-negro, cis-trans, carnívoro-vegano, religioso-ateu etc.

A aderência massiva da esquerda moderna à luta contra “supremacias tradicionais e conservadoras” é uma derivação do pressuposto marxista de que ninguém pode ser livre enquanto viver sob o capitalismo, dessa forma ninguém pode ser livre sem a destruição do patriarcado, da heteronormatividade, do consumo de proteína animal, da religiosidade etc., pois são condições subjacentes que favorecem quem se encaixa nos padrões das “supremacias”.

Não cabe aqui, neste artigo, discutir a justiça de cada pleito, pois como tudo na vida, há nuances demais para afirmações categóricas. O objetivo é apenas demonstrar que isso não é liberalismo clássico, pois precisa forçar uma sociedade inteira à mudança, não reconhecendo os direitos básicos ao credo, ao livre arbítrio, a ir e vir, ao livre discurso, à livre associação etc.

A arma do revolucionário cultural não é a foice e o martelo, nem tanques ou bombas nucleares, mas a cultura do cancelamento, os fact checkers, a perseguição implacável aos conservadores, a pseudociência das certezas, o jornalismo engajado, a academia, entre outros grupos que valorizam mais a aceitação social e os likes no insta do que a própria dignidade acadêmica, higidez intelectual e livre-arbítrio.

É isso o que sobrou para a esquerda no século XXI.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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