Archive for setembro \14\UTC 2017

Bitcoins. Um sistema de pagamentos, uma moeda ou um grande videogame?

Posted on 14/09/2017. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças | Tags:, , , , , , |

Não é um texto para explicar bitcoins, blockchain, algoritmos etc., mas para tentar desvendar REALMENTE o que é o fenômeno que tomou conta do imaginário dos investidores.

Como é um mundo de paixões, já aviso aos adoradores e detratores do Bitcoin que sou amigo de ambos, o que vou escrever a seguir é EXCLUSIVAMENTE minha opinião. E, como de hábito, só me dou ao trabalho de escrever porque acredito ser uma opinião diferente da que se lê no mainstream da imprensa especializada.

Por que o Bitcoin existe?

Primeiro é preciso entender que não é o Bitcoin que interessa, mas sim o sistema que foi criado para permitir que ele seja transacionado (a Rede ou Sistema Bitcoin).

Vou me aventurar a tentar entender os motivos que levaram o fantasma Satoshi Nakamoto a criar a Rede Bitcoin (ou sistema Bitcoin). É uma aventura e tanto, pois nem sabemos se Satoshi é uma pessoa, várias pessoas ou uma empresa.

Não acredito em interesses financeiros desses gênios da informática e de criptografia. Eles são mais recompensados “provando suas teorias” ou criando algoritmos impenetráveis ou geniais, do que recebendo dólares. Até porque, nesse nível de genialidade e domínio das ferramentas, dinheiro jamais seria problema para eles.

Eu não acho que o interesse por trás da criação da Rede Bitcoin, por mais que se tente provar o contrário, tenha sido econômico, ou seja enriquecer os criadores ou, ainda, vir a ser um benchmark de moeda transnacional, sem autoridade central.

Eu acho, tão somente, que os criadores acreditavam ter pensado e desenhado um modelo MUITO MELHOR, mais barato e mais seguro para registros de transações com moeda, transações financeiras. E isso é o que importava para eles. Nada de dominar o mundo ou substituir o sistema financeiro.

A criação de um videogame transnacional autônomo

Hoje estamos acostumados com jogos online, em que players de todo o mundo se encontram no game, se ajudam ou se enfrentam em algoritmos de guerra, zumbis, fazendinhas de unicórnios etc.

Essa grande rede requer investimentos constantes para existir e suportar os acessos. Quanto mais sucesso faz o jogo online, mais capacidade computacional, mais banda, mais nuvem, mais memória etc. serão necessários.

Quem faz isso acontecer (investimento e manutenção) é uma autoridade central, que ganha dinheiro através da venda dos consoles, dos games ou de assinaturas dos jogadores. Isso é um business clássico, com uma organização central, planos de negócios, análise de lucratividade, ajustes de custos, remuneração de acionistas etc.

E se pensássemos em fazer isso SEM a autoridade central (controlador da empresa dona do game)? Ou seja, se a própria interação entre os jogadores, do mundo todo, fosse capaz de prover toda a infraestrutura necessária para o jogo funcionar?

Significa que os próprios jogadores disponibilizariam a capacidade computacional de suas máquinas para que o algoritmo do jogo rodasse, disponibilizariam espaços na nuvem etc.. Tudo isso tem um custo na vida real. A energia, o aluguel de espaço etc..

Se fôssemos capazes de “remunerar” esses jogadores com coisas do próprio jogo como diamantes que compram bichinhos, vidas extras, energia extra, novas armas, novas cores e tudo o que fizer sentido e for valioso no jogo, as pessoas que querem jogar promoveriam esforços para comprar máquinas melhores, mais espaço na nuvem entre outros itens para ganhar mais benefícios e ter mais sucesso no game.

Aliás, isso já é feito com frequência. Os games são assim, toda hora cobrando uns trocados para dar mais vidas, mais moedas, mais dicas e outras coisas que são valiosas para os jogadores. E eles pagam. Mas, no caso, pagam para uma autoridade central, que desenvolveu o game, é responsável pelo seu funcionamento, por consertar bugs, por fornecer a capacidade computacional necessária e faz isso tudo com o dinheiro que recebe dos jogadores.

A estratégia da criação da Rede Bitcoin, no meu modo de ver, é semelhante à estratégia dos desenvolvedores de games, mas sem a autoridade central. Cria-se um algoritmo que tem algum interesse para as pessoas (inicialmente só iniciados e interessados em explorar a criação e o uso de criptomoedas), gera-se um modelo de recompensas para quem prover o necessário para o algoritmo rodar e torce-se para que a Rede cresça.

Nesse aspecto, a Rede Bitcoin não difere muito de um gigante videogame, onde jogar significa prover capacidade computacional para o próprio jogo (além de transacionar as moedas) e os Bitcoins seriam as recompensas coletadas (como as moedas do Super Mário).

Mas o que seria um sistema de pagamentos?

Falemos agora do que seria a parte séria do Bitcoin.

Um sistema de pagamentos é algo extremamente complexo, caro e que requer investimentos bilionários e constantes em segurança e capacidade computacional.

Pense na quantidade de transações que o sistema que processa os dados dos cartões VISA precisa fazer, por segundo, para garantir a fidelidade das informações, quem paga e quem recebe, que não haverá fraude, roubo de dados etc. Quanto custa fazer bilhões de operações por hora, garantindo segurança e a fidedignidade para isso tudo?

Pense agora em todas as transações bancárias, compensações e seus registros em bancos centrais, sistemas de controle de lavagem de dinheiro etc. Quanto custa para manter esse sistema financeiro interligado?

Agora vamos para outros sistemas menores, pense no Paypal, no sistema de pontos da Multiplus ou Smiles, no Mercado Pago etc.

No Multiplus você ganha os pontos por fazer transações que geram riqueza para terceiros parceiros. Esses pontos, ao entrarem no sistema, também precisarão de um sistema de pagamentos, que identifique as transações e faça os débitos e créditos corretamente, além de proteger as informações sobre as transações.

No Paypal ou Mercado Pago você poderia fazer suas compras e vendas por anos sem nunca precisar transferir o dinheiro para o sistema bancário normal. Imagine que você seja um vendedor do ebay ou mercado livre e também compre suas mercadorias por lá. Você, eventualmente, só precisaria retirar o lucro de suas transações, mantendo as compras todas em dinheiro registrado no próprio mercado pago.

A Rede Bitcoin NÃO É MUITO DIFERENTE DISSO, aliás é bem parecida, exceto por não ter um responsável central e único e por permitir que a própria Rede gere moedas.

O que importa é Rede ou Sistema Bitcoin e NÃO a criptomoeda!

Rede Bitcoin é o sistema de pagamentos (não vou entrar em detalhes técnicos, não é minha praia) e Bitcoin é a moeda do Super Mário de US$ 4.000 que remunera aqueles que ajudam essa rede a andar.

Eu acredito que a intenção do criador da Rede era provar que a lógica de seu algoritmo, que foi criado para construção de um sistema de pagamentos em que a segurança se baseia no controle realizado pela própria rede e sem autoridade central, seria superior, mais seguro e mais barato que os sistemas de pagamentos caríssimos utilizados hoje.

Entendo que seria impossível provar isso captando dinheiro no mercado para construir um protótipo e demonstrar sua segurança, estabilidade e confiabilidade . É uma ideia muito sofisticada para captar recursos suficientes para construir essa Rede sozinho.

Os bancos dificilmente se interessariam, de início, pois significaria perder o controle centralizado sobre o sistema, espalhando suas características de segurança para milhares de contrapartes. Muito arriscado.

O gênio então criou o tal sistema de investimento-recompensa autônomo para dar suporte a sua ideia (a do sistema de pagamentos). Criou o Bitcoin, que remuneraria as pessoas que colaborassem com o suporte e o “BackOffice de hardware” da Rede Bitcoin. A tal mineração nada mais é do que oferta de capacidade computacional PARA A REDE BITCOIN, não sai daí, não vai para o mundo.

No início fazia sentido apenas para uma rede de nerds (gênios com interesses peculiares) que compreenderam o “game”, se interessavam pela ideia de criptomoedas e “jogavam” para coletar suas recompensas. Era barato e divertido, para quem entendia o algoritmo e sabia como jogar.

Naturalmente levou muito tempo para despertar o interesse de investidores, que não necessariamente entenderam ou entendem a profundidade da rede e seus objetivos, mas conseguiram ver uma forma de ganhar dinheiro, investindo para prover capacidade computacional à própria rede e recebendo moedas que passaram a ter valor referenciado em dólar.

Vale repetir em negrito: O Bitcoin é uma remuneração virtual recebida por quem oferece capacidade computacional para a própria rede bitcoin existir.

Não me arriscaria a dizer que é mais do que isso. Ele pode ser interpretado pelas pessoas como muitas coisas, como dinheiro virtual, como o futuro das moedas ou como o passaporte para a fortuna, mas, a rigor, ele é SÓ ISSO que escrevi. Pelo menos na minha opinião.

Por que vale tanto a moeda do Super Mário?

O motivo é sempre o mesmo, muitos interessados em comprar e poucos interessados em vender. Quando sai negócio, o preço é alto.

Aliás, a própria moeda do Super Mário, a do jogo, poderia ter valor referenciado em dólar, caso os jogadores quisessem burlar o sistema de coletas e comprassem de terceiros (por fora do jogo, em dinheiro) que repassariam a eles suas conquistas.

Na verdade, como já dito, as recompensas de videogames tem valor referenciado em dólar, dado que é possível comprá-las do próprio desenvolvedor.

Mas vamos pensar numa hipótese interessante, relacionada a sistemas de pagamentos.

Pense que o Mercado Pago, sistema de pagamentos do Mercado Livre, comece a chamar de MP a sua moeda, e garanta que, ao entrar no sistema R$ 1,00 valerá 1 MP e quando sair do sistema 1 MP valerá R$ 1,00. Como é hoje, se você coloca R$ 1.000 poderá retirar R$ 1.000, não importa se a moeda se chama MP ou Narjara Turetta (sem contar as taxas).

Agora imagine que as pessoas PREFIRAM ter MP a Real. Pode ser por qualquer motivo, imagine que as transações em MP (dentro do sistema de pagamentos do Mercado Pago) fiquem fora do sistema financeiro nacional e permitam, por exemplo que se transacione sem imposto e sem identificação de compradores e vendedores.

COM CERTEZA as pessoas passariam a comprar “por fora” MPs e pagariam em R$, de forma a evitar transacionar pelo sistema tradicional e com registro (compra de MPs diretamente pelo Mercado Pago). Poderia pagar, por exemplo, R$ 1,50 por fora do sistema, para o detentor do MP transferir para ele por dentro do sistema 1 MP, pois esse 1 MP permitiria várias transações ocultas e sem impostos. Essa transação, em tese, estaria fora do sistema bancário e o repasse do dinheiro também.

É mais ou menos como funciona o sistema de dólar paralelo em países com controle cambial, ou o nefasto sistema de lavagem de dinheiro.

Isso é um sistema de pagamentos paralelo ao sistema financeiro, mas NÃO é como a Rede Bitcoin, pois existe uma contraparte central, o Mercado Pago, que precisa gastar fortunas para manter esse sistema funcionando e recebe comissões nas vendas para mantê-lo, além de garantir o câmbio na entrada e na saída (R$ 1,00 = 1 MP).

Na Rede Bitcoin quem sustenta a estrutura são os mineradores e quem garante a segurança é a própria rede e os mecanismos iniciados pelos fundadores. E também não há nenhuma contraparte central garantindo a troca de Bitcoins por dólares.

Por que usei o exemplo do MP? Para mostrar o que seria um sistema de pagamentos paralelo ao sistema financeiro em que as trocas POR FORA do sistema poderiam se dar em valores diferentes da “lógica oficial” ou do fundamento.

Retornando ao questionamento inicial, o Bitcoin só vale muito porque há compradores para pagar o preço que vendedores pedem.

Mas não se deve buscar “fundamento” no Bitcoin (como há no exemplo do MP). Ele não tem qualquer fundamento que justifique qualquer preço. É só uma questão de fluxo mesmo. Vamos explorar esse tema.

Tem perigo de não conseguir vender meus Bitcoins?

Essa pergunta é interessante. Não existe um “estoque” de dólares para pagar Bitcoins. As transações são sempre entre quem TEM os dólares para dar e quem TEM os bitcoins para entregar. As corretoras só fazem essa intermediação e cobram um fee por isso.

E, vale repetir, isso tudo é FORA do jogo, fora da Rede. Como seria aquela troca de reais por MPs no exemplo do Mercado Pago.

Exceto em casos de fraudes como as do Maddoff, em tese se você conseguir vender seus Bitcoins a contraparte pagará em dinheiro e você receberá.

O risco é tão somente o de liquidez. Se houver uma corrida por dólares (venda de bitcoins), o preço pode cair de US$ 4.000 para US$ 400 ou US$ 0,40. É só uma questão de fluxo. Desde que haja contraparte interessada em pagar, por algum preço você venderá.

Não há contraparte central garantindo NADA, se ele será vendido por US$ 4.000, US$ 30.000 ou US$ 0,01 depende apenas do interesse de vendedores e compradores.

Até porque, é PRECISO REPETIR, as transações de corretoras de Bitcoins NÃO FAZEM PARTE DO JOGO. O sistema não registra transações em dólar ou de câmbio, apenas a transferência do Bitcoin entre partes. As trocas ocorrem por fora.

O Bitcoin se tornará uma moeda amplamente aceita?

Acho que não era esse o objetivo de quem criou a rede. Não vejo motivo para a moeda ser aceita de forma global, pois isso exigiria integração com centenas de sistemas de pagamentos. Assim como você não consegue comprar nada em ações da Usiminas, dificilmente comprará tudo em bitcoins. Tanto é fato que não estamos falando majoritariamente de troca de Bitcoins por chocolate ou passagens aéreas, mas de troca por dólares em corretoras de fora do sistema.

O objetivo, na minha modestíssima opinião de quem NÃO é especialista no assunto, é que o Bitcoin foi criado APENAS para ser a moeda que recompensaria jogadores de um grande game cujo objetivo é manter a si mesmo vivo e operando, até provar um ponto: que o sistema de pagamentos é melhor, mais seguro e mais barato do que os atuais.

Não vejo o Bitcoin, nem hoje e provavelmente nunca, cobrindo as três funções básicas da moeda: ser meio de troca, sendo um intermediário entre as mercadorias; ser unidade de conta, como referencial das trocas, o instrumento pelo qual as mercadorias são cotadas, e reserva de valor: poder de compra que se mantém no tempo, ou seja, forma de se medir a riqueza.

O Bitcoin não é um meio de troca, não é um intermediário entre mercadorias, ele, para ser aceito livremente, precisa ser transformado em outra moeda. Uma moeda precisa SOZINHA representar preços que equiparam bananas e turbinas de jatos, o Bitcoin não é isso, ele precisa da referência de câmbio em dólar para fazer sentido como meio de pagamento. O dólar não precisa de nada.

Não é uma unidade de conta, pois não presta como referencial entre mercadorias, dada sua oscilação completamente alheia à realidade da economia real, dos custos, receitas, inflação etc.

E não é uma reserva de valor, pois não mantém poder de contra, ao contrário, dispara o poder de compra.

Bitcoin não é moeda, ao menos não do jeito que entendemos e com o objetivo que as moedas foram criadas, para facilitar a troca de mercadorias.

As pessoas sempre se questionam: E se todos os lugares passarem a aceitar o Bitcoin?

Esse é um artifício retórico, conveniente para manter a crença, mas despropositado como argumento lógico.

Se fosse possível, num estalar de dedos, que todas as mercadorias pudessem ser referenciadas em Bitcoins e estes fossem amplamente aceitos, EVIDENTEMENTE o valor do Bitcoin passaria a ser ditado pelo valor da Mercadoria e não o contrário. É uma tolice crer que se pudermos comprar hoje um pãozinho por 0,0001 BTC, em 100 dias poderíamos comprar 50 pãezinhos com a mesma quantidade de moeda. Se isso fosse possível, imediatamente o BTC perderia a função de moeda.

É possível que alguém acredite que, quando o estoque de Bitcoins estiver representando, por hipótese, US$ 1 trilhão, ele teria lastro para ser aceito universalmente e, mesmo que parasse de subir, quem investiu US$ 10 em 2013 já teria sua “riqueza” de US$ 10 milhões e poderia usar livremente nesse mundo novo em que o Bitcoin será amplamente aceito.

Há vários problemas com essa crença, o primeiro é acreditar em enriquecimento sem causa. Pode acontecer, mas é anormal. O segundo problema é acreditar que a entrada de um estoque gigante para consumo não impactaria os preços e, principalmente, não se tornaria alvo de política monetária dos países.

Se você pensar que o Bitcoin substituirá as moedas por estar livre de amarras impostas pelos bancos centrais, você já está considerando que ele não é uma moeda, mas um serviço. Você compra a possibilidade de ficar invisível ou transacionar em mercados ilícitos ou ocultos. Isso não é função da moeda, servir a determinados nichos de interesse.

Outro ponto é que nada impede que o próprio sistema financeiro utilize a tecnologia do blockchain e passe registrar as transações em moeda corrente. Tenho dificuldade para ver como o Bitcoin continuaria a existir depois que sua tecnologia fosse amplamente difundida no sistema financeiro.

Perceba: Para que o Bitcoin seja amplamente aceito, deveria ser irrelevante comprar com Bitcoin ou com dólares. E se for o caso, o Bitcoin não é necessário. E ainda que sobreviva, se virar moeda MESMO, seu valor vai variar de acordo com índices de preço. O rabo não abana o cachorro.

Claro, sempre pode haver aplicações de nicho.

Bitcoin é um ativo?

Entendo ser perigoso tratar Bitcoin como um ativo, pois, como já dito, toda a lógica da Rede Bitcoin e sua organização é hermética, ou seja, fechada em si mesma. Quem ganha Bitcoins pela mineração não está oferecendo capacidade computacional para fins externos à rede, mas exclusivamente para ela, de forma que tudo o que se gera no Bitcoin fica por lá mesmo.

Como já dito, as trocas de Bitcoins por dólares são feitas por corretoras, que não tem qualquer relação com o sistema em si (exceto o registro de cessão dos Bitcoins do vendedor para o comprador).

Não tem relação com o mundo real, não gera qualquer benefício ao mundo real, portanto não deveria gerar expectativa de benefícios futuros a ponto de ser chamado de um ativo.

Seu preço, vale repetir, é alto exclusivamente por que há compradores ao preço que os vendedores desejam vender.

A Rede Bitcoin poderia ser “vendida” e gerar riqueza para os detentores de Bitcoins?

Não, e mesmo que isso fosse possível, quem tem Bitcoins não tem uma “ação da Rede Bitcoin”, tem algo que, um dia, foi recompensa para manter essa rede funcionando. Ou seja, se fosse possível COMPRAR a rede (e não é, além de não fazer sentido) os detentores de Bitcoins NÃO são os acionistas que se beneficiariam de uma oferta pública de aquisição.

Como a Rede Bitcoin poderia ser útil ao mundo real?

Creio que já foi útil, tanto é verdade que há um pool de bancos gigantes na Europa estudando implementar um sistema semelhante para substituir várias partes de seus atuais sistemas de pagamentos, caros e inseguros.

Se, por exemplo, vários sistemas bancários e de integração com os sistemas financeiros nacionais começarem a usar o modelo de blockchain, ou outro que se prove mais barato, eficiente e seguro, todos sem autoridade central e com segurança garantida pela vigilância da própria rede, creio que o objetivo do criador do Bitcoin, ao menos o objetivo que acredito ser “o” verdadeiro, já terá sido alcançado e a rede e sua história ficarão famosos para sempre, mas as “moedas” serão o que sempre foram, uma recompensa para quem joga, por manter o  jogo funcionando.

Recentemente o governo Chinês proibiu ICOs (lançamento iniciais de moedas virtuais, tipo IPO de empresas abertas). A justificativa era que seria captação ilegal de recursos.

Se for troca de moedas virtuais por moedas virtuais novas, até acho que poderia passar pelo regulador, mas se for troca de dinheiro real por moedas virtuais, entendo que é mesmo fraude e captação ilegal de recursos.

Isso porque, como dito, o máximo que uma moeda virtual pode fazer é auxiliar na criação de um sistema de pagamentos baseado nessa própria moeda virtual. E, em sendo de código aberto como o Bitcoin (um diferencial de segurança), não há motivo para alguém “comprar” esse sistema, basta fazer outro.

Entendo que as moedas competidoras não trazem os mesmos atributos de sucesso da rede Bitcoin, que foi, tão somente, convencer as pessoas a investirem EXCLUSIVAMENTE para manter a rede funcionando e em teste contínuo. As novas moedas parecem ter objetivos mais mundanos, como fazer dinheiro real.

A estratégia para fazer dinheiro no mundo real é bem conhecida, investir grana e ganhar grana. Não é captar grana real, pagar em promessas de recebimento de moedas virtuais novas, e gastar a grana real para fazer um sistema em que essas moedas virtuais novas possam circular. É muito non sense para ser oferta pública de captação de poupança popular. É claro que o regulador vai bloquear.

Por que comprar Bitcoin?

O único motivo, de TODAS as pessoas que compraram Bitcoins, é ganhar dinheiro. Só esse, não há outro. Os mineradores iniciais, e talvez alguns que existam até hoje, podem ter objetivos diversos, como preservar e “provar” o modelo, mas quem faz mineração hoje, gastando milhões de dólares, também quer ganhar dinheiro.

Qualquer que seja a decisão, de comprar ou vender, eu teria em mente o seguinte:

O Bitcoin é uma remuneração virtual recebida por quem oferece capacidade computacional para a própria Rede Bitcoin existir. É um loop hermético que alimenta a si mesmo.

Ele não é mais nem menos do que isso. O que acontece fora da Rede Bitcoin, nas corretoras etc., não diz respeito ao projeto original e não impacta o processo interno, apenas estimula o crescimento da capacidade computacional MUITO acima das necessidades do próprio jogo.

Recomendo a mesma coisa que se recomenda para grafistas, especuladores, jogadores de cartas e frequentadores de cassinos. Tenham um objetivo, tanto de perda quanto de ganho. E fiquem nesse objetivo, pois depois que se entra no jogo é difícil manter a racionalidade.

Por fim, vale colocar que esse é um artigo exploratório, ou seja, reflete uma opinião que pode ser mudada, dado que o tema é muito recente, complexo e pouco estudado. Ninguém sabe ao certo o que fazer com as criptomoedas, nem mesmo saberiam afirmar que são mesmo moedas ou que serão moedas.

Mas, até o presente momento, é como entendo esse movimento. Um grande videogame que ganhou mercado secundário no mundo real para transacionar as recompensas obtidas por manter esse mesmo videogame funcionando. Não é nada mais do que isso. Se as pessoas pagam US$ 4.000 por um Bitcoin, o motivo NÃO está no jogo, mas fora dele.

Anúncios
Ler Post Completo | Make a Comment ( 6 so far )

All in Love is Fair – Stevie Wonder – 2017 Version – Oil & Gas Trio

Posted on 10/09/2017. Filed under: Finanças |

Nossa releitura para um clássico de Stevie Wonder.

Espero que curtam!

 

 

Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

O PIB Trimestral e as Falsas Expectativas

Posted on 01/09/2017. Filed under: Finanças |

Acaba de sair o resultado do PIB do segundo trimestre. Alta de 0,2% em relação ao primeiro trimestre e alta de 0,3% em relação ao segundo trimestre de 2016.

No semestre (2016 x 2017) houve estabilidade, não crescemos nada.

Na comparação anual (últimos 12 meses x doze meses anteriores) estamos com uma queda de 1,4%.

Vai ter tweetaço do Meirelles e do Mansueto? Provavelmente, mas não há absolutamente nada a comemorar.

Nem vou entrar nos números em si, para ver os setores que foram bem ou mal, a queda nos investimentos etc., vou apenas relembrar os períodos de comparação.

Primeiro semestre de 2016.

Estávamos sob a batuta da “Senhora”. O Brasil em compasso de espera, praticamente tudo parado, bolsa abaixo dos 50.000 pontos, incerteza completa na economia e na política, congelamento de qualquer atitude de investimento e de consumo.

O petróleo estava em 30 dólares no início de 2016, só se recuperou no segundo semestre. O minério de ferro estava em US$ 40 no início de 2016, só se recuperou a partir de abril daquele ano. E o dólar? Bateu R$ 4,15! E a inflação, gigante.

Em resumo, era um Brasil parado, esperando definições, com commodities em baixa. O afastamento de Dilma ocorreu em 12 de maio, e o impeachment propriamente dito, em 31/08/2016.

Primeiro semestre de 2017

Esqueçam Temer, o mercado só vê Meirelles.

Bolsa subindo, perto de seu recorde histórico, liberação de 50 bilhões de reais diretamente nos bolsos dos brasileiros (FGTS), volta de IPOs, melhora das expectativas, entrada recorde de recursos externos, recorde de superávit na balança comercial, teto de gastos aprovado, reforma trabalhista aprovada, juros em queda livre, mercado externo favorável e… estamos comemorando uma estagnação em relação ao período da “Senhora”, de Bendine, de Tombini?

É como comemorar ser reserva do Muralha no Flamengo.

Chega a ser incrível que, mesmo com todos os estímulos, com gente racional na fazenda e no BACEN, com juros mais baixos, dólar confortável, inflação baixíssima, commodities recuperadas etc., estejamos comemorando um resultado pífio desses. Vamos relembrar que o Brasil do primeiro semestre de 2016 estava paralisado. Vamos olhar o fluxo e as circunstâncias e não o número em si.

Os segundos semestres…

A partir de agora Temer será comparado com Temer (pois Dilma já era carta fora do baralho no segundo semestre de 2016, mesmo faltando o desfecho no congresso).

E é bem difícil acreditar que Temer vencerá Temer, por motivos bastante simples.

Primeiro, o segundo semestre de 2016 foi MUITO melhor do que o primeiro, em termos de praticamente tudo. Commodities em alta, mercado externo pacificado, ainda havia algum investimento público, ainda havia orçamento público, o RJ não estava precisando de dinheiro federal ainda, dólar comportado, inflação comportada etc.

Para que o segundo semestre de 2017 seja bem melhor que o de 2016, precisaríamos de… outra liberação do FGTS? Que as commodities aumentem novamente em 50% seus preços? Que o governo tenha mais condições de investir e apoiar o investimento? BNDES?

Nada disso está na manga.

Aliás, os resultados da arrecadação nos primeiros meses desse trimestre (julho e agosto) mostram que a atividade está pífia, que as contas não fecham e que o governo vai ter que contingenciar praticamente TODO o investimento previsto, além de, eventualmente, cortar despesas obrigatórias.

Para conseguirmos atingir o crescimento previsto na revisão orçamentária (0,5%), teríamos que crescer mais de 2% (fazendo uma conta rápida) em relação ao segundo semestre de 2016.

Well, well, well… É uma luta complicada.

Mas teremos tweetaço! Teremos triunfalismo Temeriano.

Hy-Brasil is not sinking!

O Brasil me lembra da ilha de Hy-Brasil no filme “Erik, o Viking” (Monty Python).

Hy-Brasil era uma ilha paradisíaca, com habitantes alegres e crédulos. Tinha orgulho de sua música e acolhia bem os forasteiros.

Um dia (como na mitologia) a ilha começou a afundar. Seu rei (interpretado por Terry Jones, na foto) reuniu os habitantes para começar a cantoria e avisar: “Hy-Brasil não está afundando”. E todos acreditaram nele e tocaram até que a última tuba afundar no mar.

Estamos indo alegres, inzoneiros e faceiros, rumo ao abismo.

Com juízes ganhando 80 mil por mês e liberando ejaculadores de transporte público. Com a milícia tomando conta da baixada fluminense. Com Gilmar Mendes, que em si já é um símbolo do atraso institucional e moral.

Brasil, meu Brasil brasileiro, vou cantar-te nos meus versos, bloob, bloob…

Ler Post Completo | Make a Comment ( 5 so far )

  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...