Archive for dezembro \11\UTC 2013

Vamos Falar de Ideologia? Como Evitar um Posicionamento Ideológico.

Posted on 11/12/2013. Filed under: Finanças |

Alguns nobres leitores demonstraram descontentamento com meu texto sobre o Mandela, sugerindo que eu ficasse fora de temas ideológicos.

Como tenho percebido um ambiente pouco amistoso nas redes sociais, às vezes até pesado mesmo, gostaria de compartilhar com vocês um conteúdo a que tive acesso em 1996, durante o Mestrado na PUC, que tem me permitido evitar o “comportamento” ideológico. Ao menos tentar evitar, incessantemente.

Aos amigos que me conhecem apenas como escritor e professor de finanças, vale ilustrar que também fui professor de metodologia científica e orientador de dezenas de trabalhos de conclusão, tanto em graduação quanto em pós. Tenho bastante apreço pelo tema.

Por que esse texto é importante?

O uso da palavra ideologia é amplamente difundido, porém pouco entendido. Algumas pessoas com comportamento ideológico não o percebem, e confundem com ciência, com comportamento lógico, provado etc..

E fica uma “guerra” na internet, cada um acusando o outro de agir ou de argumentar ideologicamente. É um classificando o outro de marxista, outro classificando o um de liberal e assim vai.

Espero que esse texto ajude, pois me ajudou bastante, a entender a questão e a evitar, por princípio, um comportamento ideológico.

A demarcação científica por Pedro Demo

Um dos maiores privilégios acadêmicos que tive foi ser aluno de mestrado da Professora Sylvia Vergara, na disciplina “Metodologia da Pesquisa Científica”. Ela já era, à época, referência em metodologia da pesquisa em administração. Seu currículo Lattes fala por sua brilhante carreira.

Pois bem, ela nos apresentou um texto de Pedro Demo que trata da delimitação científica. Esse texto traduz com clareza o que é, na prática, a ideologia. E também deixa claro que o comportamento ideológico acaba sendo uma prisão para o pensamento. O que não significa que não seja usado por todos nós, inclusive pelo próprio cientista.

Para definir o que é (ou não é) ciência, Demo sugere:

“É sempre mais fácil definir pela exclusão, ou seja, definir o que a ciência não é. Podemos imaginar um espaço contínuo, no meio do qual colocamos a ciência e nos extremos o senso comum e a ideologia. Ao dizermos que se trata de um espaço contínuo, aceitamos que os limites entre estas categorias não são estanques; pelo contrário, eles se superpõem nas orlas de contato”.

Ao definir senso comum, nos brinda com:

O senso comum seria o conhecimento acrítico, imediatista, que acredita na superficialidade do fenômeno. A dona-de-casa também sabe de inflação, porque percebe facilmente a subida contínua dos preços; mas seu conhecimento do problema é diferente daquele do economista, que tem para ele já uma teoria elaborada (ou várias) e uma avaliação crítica de profundidade.

Podem-se colocar dentro do senso comum também modos ultrapassados de conhecer fenômenos, considerados como crendices ou coisas semelhantes. O trabalhador rural pode ter seu método de previsão de chuva, usando como indicador importante o zurrar do burro; o agrônomo se sentirá inclinado a rejeitar este método e a buscar outros indicadores tidos por mais críticos e realistas. Muitas doenças são curadas por métodos caseiros, resultantes de conhecimentos historicamente acumulados; a medicina acadêmica pode aceitar certos métodos, mas há de preferir vias testadas por experiências críticas, realizadas em laboratórios de pesquisa. Em tudo, o critério de distinção é o espírito crítico no tratamento do fenômeno, traduzido em características como profundidade e rigor lógico.”

Ainda mais brilhantemente define o limite entre ciência e ideologia:

“O critério de distinção da ideologia será o caráter justificador deste tipo de conhecimento. Justificar, ao contrário de argumentar, significa buscar a convicção, a adesão, a defesa do problema em foco. Enquanto o senso comum costuma ser uma postura singela, a ideologia alcança níveis da maior sofisticação, mesmo porque sua arma mais vantajosa é seu envolvimento com a ciência, na procura de vestir a prescrição com a capa de descrição.

Inclui a deturpação dos fatos em favor da posição a ser defendida, e chega mesmo à falsificação, quando atinge o nível da própria mentira.”

Lembra que ambos, ideologia e senso comum, fazem parte do processo científico:

“Encontramos ideologia na produção científica porque, sendo a ciência um fenômeno social, não pode escapar ao posicionamento político, manifesto ou latente. Encontramos senso comum porque não somos capazes de discursar sobre todos os assuntos com conhecimento especializado.”

Para definir o que seria CIÊNCIA, em contraponto ao senso comum e à ideologia, Demo sugere 4 critérios fundamentais para a cientificidade:

  • Coerência. Significa argumentação estruturada, corpo não contraditório de enunciados, desdobramento do tema de forma estruturada, dedução lógica de conclusões.
  • Consistência. Significa a capacidade de resistir a argumentações contrárias.
  • Originalidade. Significa produção não tautológica (autodemonstrada) nem meramente repetitiva, representando uma contribuição ao conhecimento.
  • Objetivação. Significa a tentativa de reproduzir a realidade assim como ela é, não como gostaríamos que fosse.

Síntese sobre a relação ciência, senso comum e ideologia: DEMO, Pedro. Demarcação Científica In: DEMO,Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, p.13-28,1981

O quê REALMENTE me ajudou?

A compreensão de que a ciência, para se pretender ciência, não será JAMAIS expressão última da verdade. É apenas, e tão somente, um entendimento temporário a respeito de um tema. É um tijolo ínfimo no edifício inacabável do conhecimento.

E aqui não trato exclusivamente do trabalho do cientista, do teste de protocolos complexos etc., mas da postura diante do fenômeno a estudar, do fenômeno de interesse.

Se existe algum pressuposto dogmático no seu pensamento, algum princípio inamovível, certamente este terá caráter ideológico, e comprometerá sua análise de qualquer outro fenômeno correlacionado.

Não é possível, como Pedro Demo sugere (e eu concordo), atuar intelectualmente sem ideologia, sem pressupostos a respeito da realidade e de valores, mas você penderá mais para a ciência se esses pressupostos estiverem à disposição do contraponto, à disposição da eventual demolição.

Por que a postura ideológica é aprisionadora e a científica é libertadora?

Se você trabalha com pressupostos irredutíveis e se tem uma visão do mundo que não se oferece à mudança, e ela é régua e método para todas as suas inferências, as suas prescrições e seu conhecimento guardarão comprometimento com aquela premissa (ideologia). Não há dúvida de que isso é uma prisão intelectual. Por mais ampla que seja.

Se você está constantemente oferecendo seus pressupostos ao contraditório, se tenta ouvir argumentos sem classificá-los a priori, se fica confortável com NÃO SABER, se considera que APRENDER é MUDAR, sem dúvida você não vive em uma prisão, pois tudo o que você SABE é momentâneo e sua opinião mudará se o novo quadro cognitivo e intelectual lhe fizer compreender melhor o fenômeno.

Como isso liberta?

O post que escrevi sobre Mandela é um exemplo clássico dessa liberdade.

Recebi uma enxurrada de “fatos” e opiniões desabonadores sobre Mandela. Não os refutei, não combati, pois para tanto precisaria de fatos contraditórios obtidos em fontes fidedignas (comportamento científico), os quais não tenho e, principalmente, são desnecessários para o ponto que coloquei.

Minha proposta baseou-se em dois pontos:

  • Que os valores pelos quais Mandela é reverenciado são valores dignificantes.
  • Que a atitude de destruir o mito (a história e não o fato), atacando o homem e sua imperfeição (o fato e não a história), era contraproducente sob quaisquer aspectos que se queira.

Isso é um desdobramento que considero racional e evidente, mas, para ser realmente científico, ele deveria estar à disposição do contraponto para que eu, eventualmente, mude de posição ou de entendimento.

E está!

Mas não recebi argumentação que atacasse, exclusivamente, as hipóteses que sugeri, nem mesmo a inferência que fiz.

Na realidade, recebi críticas tipicamente ideológicas, que partem de pressupostos inamovíveis e não apresentam argumento específico sobre o que falei, só sobre temas que não foram relevantes para o meu raciocínio, nem foram premissas para minha conclusão.

Continuo à disposição para a mudança.

Esse é o meu compromisso com minha própria ignorância.

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Deixem Nelson Mandela em Paz! Ou “comprando a briga errada”

Posted on 10/12/2013. Filed under: Filosofia, Política |

Prezados,

Nunca imaginei que veria uma profusão de textos desabonadores sobre Nelson Mandela, principalmente por ocasião de sua morte.

Tem de tudo:

  • Que foi membro do partido comunista na década de 1960.
  • Que foi de um grupo guerrilheiro anti-apartheid
  • Que não apoiou o movimento que queria disciplinar a venda de diamantes
  • Que “entregou” as minas de diamantes para Rockfeller
  • Que sua saída da prisão se deu por influência desse magnata
  • Que cumprimentou Fidel Castro

Ufa, um monte de histórias viesadas, a maioria sem qualquer possibilidade de comprovação factual ou documental. E as que são factuais, não guardam qualquer relação com o motivo pelo qual Mandela é admirado.

Não vou entrar no mérito das críticas acima. Até porque, a maioria delas ocorreu muito antes de Mandela atuar pela pacificação da África do Sul. E nas comerciais (diamantes, Rockfeller etc.) nem me atrevo a comentar, pois ou são improváveis, ou são razoáveis, como não prejudicar o comércio de seu próprio país. Há explorados em Serra Leoa? Mas há pobres em Pretória.

Seria como pedir a Nicolás Maduro que deixe de vender petróleo aos EUA, pois são um país imperialista e belicoso. Vai fazer isso à custa da fome dos venezuelanos?

Bobagem. Quando se é presidente, o mundo é complexo demais para o maniqueísmo.

Comprando a briga errada

Infelizmente, as principais fontes das críticas a Mandela, algumas bem agressivas, foram colunas e artigos de intelectuais liberais e/ou conservadores.

Gente que há muito luta para que o liberalismo (econômico) e o conservadorismo (costumes) façam parte das ideias cotidianas discutidas pelos brasileiros.

Gente que se atreve a questionar o tamanho (e incompetência) do Estado brasileiro, que se atreve a enfrentar a insuportável onda do politicamente correto.

Enfim, pessoas que fazem um trabalho utilíssimo para nossa sociedade: ENFRENTAR e hegemonia do pensamento “progressista” e/ou “esquerdista” em nosso país. Isso é muito importante, principalmente quando nossos dirigentes parecem admirar Argentina, Venezuela e Cuba como modelos de “democracia”.

Se há brasileiros que prefeririam viver no trio acima a viver na Suécia, Dinamarca, Austrália, Canadá e EUA, são pouquíssimos. Eu não conheço nenhum.

Nosso povo é conservador nos costumes e não tem lá muito interesse por quem é o sócio-majoritário das empresas de petróleo, energia, telefonia etc.

Só, infelizmente, não tem representantes na política para defender seus valores.

Qual o objetivo dos liberais/conservadores ao enfrentar a “unanimidade” em torno de Nelson Mandela?

O sujeito já tem uma enorme dificuldade para ser lido/ouvido/visto. Está conseguindo espaço, a duras penas. E resolve descascar em cima de Nelson Mandela.

Quer briga mais errada do que essa?

Tratam de Mandela como se fosse um ícone de esquerda, um monumento à guerrilha, um incentivador do regime cubano, um desonesto financiado por Rockfeller, um incentivador da extração criminosa de diamantes em Serra Leoa, comparam-no a Che Guevara etc.

Alguns dizem não concordar com a deificação de Mandela, de que o tratem como um santo ou um super-humano.

Os valores são dignos da mitologia. E vocês não ganham nada derrubando a mitologia!

Li alguns livros sobre Mandela, vi documentários sobre o Apartheid e sobre as comissões que Mandela estimulou ao fim do regime. Vi muitas entrevistas de Mandela também.

Os valores que seus admiradores enxergam nele são: humildade, caridade, perdão, liderança, verdade e igualdade.

Não são valores de esquerda, comunistas ou marxistas. Pelo contrário! Quem crê em luta de classes e também crê em luta de raças ou gêneros, não aprovaria JAMAIS o que Mandela fez.

Ao levar milhões de cidadãos, que foram humilhados, dentro de uma legislação criminosa, a receber seus algozes, a ouvir a confissão dos mesmos e a perdoá-los, Mandela foi o mais anti-marxista/esquerdista possível!

Seria como sugerir ao faxineiro da empresa que compreenda de forma benevolente alguma humilhação que o presidente da empresa o faz passar. Que se considere um “igual”.

Perdoar seu algoz, encorajar o “sentimento” de igualdade mesmo em condições desiguais, estimular as pessoas a contar a verdade sem maniqueísmo, por mais dura que seja, liderar um povo humilhado para a aceitação do convívio com o “inimigo” (que continuou rico e dominante) é TUDO, menos marxista.

Tradições místicas e religiosas

Não vejo qualquer problema em deificar um mito. Ninguém está exaltando o passado guerrilheiro ou a camisa vermelha de 1965. Praticamente ninguém o admira por ter fotos com Fidel Castro ou até por sua posição no partido hegemônico Sul Africano.

O Mandela que é tratado como santo ou super-humano é aquele da caridade, da liderança, do perdão, da humildade, da verdade e da igualdade.

São valores universais, apoiados em quaisquer tradições místicas ou religiosas.

Por que eu me importaria de ver um mito (história) tão belo, tão encorajador, tão raro, tão libertador ser confundido com o homem Mandela?

Que mal existe em haver a personificação de valores tão nobres?

Diria o liberal: Por que ele não é assim!

E quem foi, amigo? E quem foi perfeito?

Lamento pelo estrago já feito

Um monte de gente de bem, decepcionando-se com Mandela, por ler um monte de críticas, muitas levianas e sem comprovação, outras que fizeram parte de um passado que não se confunde com a obra admirável de Mandela.

Para quê?

Não entrei no mérito do que fez ou deixou de fazer Mandela. Se Rockfeller o financiou, se ele fumava charuto com Fidel ou se foi filiado ao partido comunista.

Só acho importante alertar ao frágil e incipiente movimento conservador/liberal brasileiro, que se deve brigar a briga boa.

Bater em um homem, imperfeito como todos, para destruir uma bela mitologia, uma história reconfortante, com todos os valores conservadores, é uma briga que fragiliza o movimento.

Destrói um ícone que poderia ATÉ ser utilizado como exemplo pelos conservadores e facilita a vida dos que tentam colar a pecha de paranoicos reacionários em vocês.

E para piorar, fazer isso no dia da morte dele!

Francamente, completamente sem educação e modos.

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Crédito Fácil e Barato no BNDES, BB e CAIXA. Parece bom, mas não é bem assim.

Posted on 02/12/2013. Filed under: Finanças |

Nos últimos meses tem “aparecido” no meu campo de visão, um grande número de evidências de que a estratégia do governo é “abanar” o fogareiro.

Nos números é evidente, basta ver a incrível evolução na carteira de crédito dos bancos públicos, e a restrição nos privados.

Algumas evidências…

Crédito para devedores de baixo rating

Sem citar nomes, evidentemente, vi alguns amigos próximos, empresários, que nunca tiveram crédito, acessar linhas no BNDES (pequenas, de 10 a 20 mil), para investir em seus negócios. Taxas bem menores do que nos bancos privados, facilidade na análise da ficha etc.

Compra de carteira de crédito imobiliário

Em 2 oportunidades (em menos de 1 mês), vi gerentes do BB ligarem para ex-correntistas oferecendo a compra de créditos imobiliários feitos no HSBC e no Santander. São amigos próximos. Trabalham comigo.

Oferecendo taxas de 8,3% contra os atuais 9,5% dos contratos fechados há mais de 1 ano.

Oferta de crédito por telefone, internet, televisão etc.

Não tem 20 minutos, um colega, disciplinado financeiramente, recebe telefonema com oferta de crédito do seu banco (BB). Pra quê?

Ontem o programa da Regina Casé estimulava o telespectador a pegar crédito consignado. Dando a entender que o fato de ter o dinheiro descontado na folha seria uma vantagem?!?!?! Pois você “não precisaria ir ao banco pagar”!?!?!? Vantagem pra quem? Se o cara precisar de dinheiro para remédio, comida ou outra emergência, ele não poderá decidir NÃO PAGAR ao banco. A vantagem é claramente para o banco.

E ainda sugere, espantosamente, que a pessoa não se endivide! No intervalo do programa, ela aparece na propaganda da Caixa oferecendo crédito da “minha casa melhor” para comprar tablet.

Ok, tudo bem, é propaganda. Mas bem que ela poderia me explicar como é que se pega dinheiro emprestado sem se endividar…

Linhas GIGANTES de crédito no BNDES

Ali na Rua das Laranjeiras tinha uma casa destruída, sendo vendida há anos. Perto da Rua Pinheiro Machado. Um amigo comentou que o dono de uma clínica foi ver a casa e se assustou com o preço (R$ 4 milhões). Eu também me assustaria. Não é grande, e precisaria de mais R$ 1 milhão para ficar habitável.

Mas o que me assustou MESMO é que, apesar da estrutura de receita do cara ser relativamente pequena (a clínica é veterinária), ele já tinha esses R$ 4 milhões de crédito num banco público, com taxa baixíssima (acho que 6% ao ano), para comprar a casa.

Ela foi comprada há alguns meses e virou um hostel com bistrô.

Para quem tem experiência em planos de negócios, fica difícil ver como um investimento desses se pagaria com poucos quartos e um bistrô em que ninguém vai.

Isso é bom?

Não resta dúvida de que vários pontos têm feito seu papel para “segurar” esse crescimento mínimo da economia brasileira. Esse é um deles. Outros são: exigência de conteúdo nacional, crédito bilionário para supergrupos nacionais, financiamento subsidiado do BNDES para as privatizações/concessões etc.

Isso tudo influencia significativamente a economia, mas gera desequilíbrios que deixam dúvida sobre sua eficácia.

O tal conteúdo nacional pode trazer efeitos interessantes em 20-30 anos, mas no início gera um brutal desequilíbrio. Paga-se, às vezes, o dobro pelo produto, muitas vezes ele não funciona adequadamente (vide o caso dos estaleiros) e inflaciona-se incrivelmente o custo da mão-de-obra.

Como não há, por exemplo, trabalhadores de nível médio com experiência em plataformas de petróleo ou construção de navios, não é raro, mecânicos, soldadores e outros profissionais de nível médio, ganhando o dobro do que um gerente da área de telefonia, ou até diretores de empresas pequenas ou médias.

E não porque eles geram um valor agregado espetacular, essas empresas costumam ter grandes prejuízos, mas por carência de mão de obra para esses serviços.

E como o crédito para a construção desses estaleiros, ferrovias etc., também é subsidiado e farto, o “capitalista” tem risco baixo e não se importa de pagar qualquer preço.

Mas o pior não é isso…

O pior dessa febre de crédito não é isso. Se há oferta de crédito barato acima da demanda, ou acima da capacidade de economia, não há outro resultado que não a elevação do custo dos ativos.

Apesar de julgar que se deu bem, ao pegar um crédito gigante a custo baixo, o empresário esquece que esse mesmo crédito pode ter feito o preço do ativo, da casa por exemplo, sair de R$ 2.000 mil para R$ 4.000 mil. Ele não saberá se a manutenção da racionalidade na concessão de crédito não teria sido melhor para ele, pois pagaria MENOS pela casa/ativo.

E é evidente que não há racionalidade na concessão de crédito quando a captação é a custo zero (aporte do controlador/tesouro) ou subsidiada (FGTS e poupança).

Isso não é uma crítica ao governo, mas um alerta

Dada a desaceleração da economia, o aumento do endividamento das famílias e o aparente esforço do governo para “abastecer” o organismo financeiro com sangue novo (crédito), esse texto vem só para lembrar que essa estratégia é “neutralizada” pelo mercado, ao subir o valor dos ativos/insumos.

Por mais que o empresário sinta-se bem sucedido ao pegar empréstimos imensos a custo baixo, ele não consegue avaliar se pagando juros racionais (que pelo menos paguem a captação), não implicaria num ativo menos inflacionado e, consequentemente, num serviço da dívida menor.

Em resumo, a casa a R$ 2 milhões, com juros de 12% ao ano, é melhor ou pior do que a casa a R$ 4 milhões com juros de 6% ao ano?

Parece indiferente, mas não é. O montante dos juros pode ser igual, mas a amortização do principal é a metade.

Talvez não seja o caso de parar tudo, mas que deveríamos tentar voltar a ofertar juros racionais, que consigam remunerar o credor sem contar com captação subsidiada, parece-me bem evidente. Ao menos para neutralizar o crescimento assustador dos custos de aluguel, imóveis e de mão de obra de profissões específicas.

A continuar o crédito barato, não vai fazer muito sentido comemorar ágios imensos nos leilões de privatização, pois vamos acabar nós mesmos pagando esse montante na diferença dos juros subsidiados.

Não há nada pior que um capitalista que não coloca capital próprio e que não se arrisca.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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