Vamos Falar de Ideologia? Como Evitar um Posicionamento Ideológico.

Posted on 11/12/2013. Filed under: Finanças |

Alguns nobres leitores demonstraram descontentamento com meu texto sobre o Mandela, sugerindo que eu ficasse fora de temas ideológicos.

Como tenho percebido um ambiente pouco amistoso nas redes sociais, às vezes até pesado mesmo, gostaria de compartilhar com vocês um conteúdo a que tive acesso em 1996, durante o Mestrado na PUC, que tem me permitido evitar o “comportamento” ideológico. Ao menos tentar evitar, incessantemente.

Aos amigos que me conhecem apenas como escritor e professor de finanças, vale ilustrar que também fui professor de metodologia científica e orientador de dezenas de trabalhos de conclusão, tanto em graduação quanto em pós. Tenho bastante apreço pelo tema.

Por que esse texto é importante?

O uso da palavra ideologia é amplamente difundido, porém pouco entendido. Algumas pessoas com comportamento ideológico não o percebem, e confundem com ciência, com comportamento lógico, provado etc..

E fica uma “guerra” na internet, cada um acusando o outro de agir ou de argumentar ideologicamente. É um classificando o outro de marxista, outro classificando o um de liberal e assim vai.

Espero que esse texto ajude, pois me ajudou bastante, a entender a questão e a evitar, por princípio, um comportamento ideológico.

A demarcação científica por Pedro Demo

Um dos maiores privilégios acadêmicos que tive foi ser aluno de mestrado da Professora Sylvia Vergara, na disciplina “Metodologia da Pesquisa Científica”. Ela já era, à época, referência em metodologia da pesquisa em administração. Seu currículo Lattes fala por sua brilhante carreira.

Pois bem, ela nos apresentou um texto de Pedro Demo que trata da delimitação científica. Esse texto traduz com clareza o que é, na prática, a ideologia. E também deixa claro que o comportamento ideológico acaba sendo uma prisão para o pensamento. O que não significa que não seja usado por todos nós, inclusive pelo próprio cientista.

Para definir o que é (ou não é) ciência, Demo sugere:

“É sempre mais fácil definir pela exclusão, ou seja, definir o que a ciência não é. Podemos imaginar um espaço contínuo, no meio do qual colocamos a ciência e nos extremos o senso comum e a ideologia. Ao dizermos que se trata de um espaço contínuo, aceitamos que os limites entre estas categorias não são estanques; pelo contrário, eles se superpõem nas orlas de contato”.

Ao definir senso comum, nos brinda com:

O senso comum seria o conhecimento acrítico, imediatista, que acredita na superficialidade do fenômeno. A dona-de-casa também sabe de inflação, porque percebe facilmente a subida contínua dos preços; mas seu conhecimento do problema é diferente daquele do economista, que tem para ele já uma teoria elaborada (ou várias) e uma avaliação crítica de profundidade.

Podem-se colocar dentro do senso comum também modos ultrapassados de conhecer fenômenos, considerados como crendices ou coisas semelhantes. O trabalhador rural pode ter seu método de previsão de chuva, usando como indicador importante o zurrar do burro; o agrônomo se sentirá inclinado a rejeitar este método e a buscar outros indicadores tidos por mais críticos e realistas. Muitas doenças são curadas por métodos caseiros, resultantes de conhecimentos historicamente acumulados; a medicina acadêmica pode aceitar certos métodos, mas há de preferir vias testadas por experiências críticas, realizadas em laboratórios de pesquisa. Em tudo, o critério de distinção é o espírito crítico no tratamento do fenômeno, traduzido em características como profundidade e rigor lógico.”

Ainda mais brilhantemente define o limite entre ciência e ideologia:

“O critério de distinção da ideologia será o caráter justificador deste tipo de conhecimento. Justificar, ao contrário de argumentar, significa buscar a convicção, a adesão, a defesa do problema em foco. Enquanto o senso comum costuma ser uma postura singela, a ideologia alcança níveis da maior sofisticação, mesmo porque sua arma mais vantajosa é seu envolvimento com a ciência, na procura de vestir a prescrição com a capa de descrição.

Inclui a deturpação dos fatos em favor da posição a ser defendida, e chega mesmo à falsificação, quando atinge o nível da própria mentira.”

Lembra que ambos, ideologia e senso comum, fazem parte do processo científico:

“Encontramos ideologia na produção científica porque, sendo a ciência um fenômeno social, não pode escapar ao posicionamento político, manifesto ou latente. Encontramos senso comum porque não somos capazes de discursar sobre todos os assuntos com conhecimento especializado.”

Para definir o que seria CIÊNCIA, em contraponto ao senso comum e à ideologia, Demo sugere 4 critérios fundamentais para a cientificidade:

  • Coerência. Significa argumentação estruturada, corpo não contraditório de enunciados, desdobramento do tema de forma estruturada, dedução lógica de conclusões.
  • Consistência. Significa a capacidade de resistir a argumentações contrárias.
  • Originalidade. Significa produção não tautológica (autodemonstrada) nem meramente repetitiva, representando uma contribuição ao conhecimento.
  • Objetivação. Significa a tentativa de reproduzir a realidade assim como ela é, não como gostaríamos que fosse.

Síntese sobre a relação ciência, senso comum e ideologia: DEMO, Pedro. Demarcação Científica In: DEMO,Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, p.13-28,1981

O quê REALMENTE me ajudou?

A compreensão de que a ciência, para se pretender ciência, não será JAMAIS expressão última da verdade. É apenas, e tão somente, um entendimento temporário a respeito de um tema. É um tijolo ínfimo no edifício inacabável do conhecimento.

E aqui não trato exclusivamente do trabalho do cientista, do teste de protocolos complexos etc., mas da postura diante do fenômeno a estudar, do fenômeno de interesse.

Se existe algum pressuposto dogmático no seu pensamento, algum princípio inamovível, certamente este terá caráter ideológico, e comprometerá sua análise de qualquer outro fenômeno correlacionado.

Não é possível, como Pedro Demo sugere (e eu concordo), atuar intelectualmente sem ideologia, sem pressupostos a respeito da realidade e de valores, mas você penderá mais para a ciência se esses pressupostos estiverem à disposição do contraponto, à disposição da eventual demolição.

Por que a postura ideológica é aprisionadora e a científica é libertadora?

Se você trabalha com pressupostos irredutíveis e se tem uma visão do mundo que não se oferece à mudança, e ela é régua e método para todas as suas inferências, as suas prescrições e seu conhecimento guardarão comprometimento com aquela premissa (ideologia). Não há dúvida de que isso é uma prisão intelectual. Por mais ampla que seja.

Se você está constantemente oferecendo seus pressupostos ao contraditório, se tenta ouvir argumentos sem classificá-los a priori, se fica confortável com NÃO SABER, se considera que APRENDER é MUDAR, sem dúvida você não vive em uma prisão, pois tudo o que você SABE é momentâneo e sua opinião mudará se o novo quadro cognitivo e intelectual lhe fizer compreender melhor o fenômeno.

Como isso liberta?

O post que escrevi sobre Mandela é um exemplo clássico dessa liberdade.

Recebi uma enxurrada de “fatos” e opiniões desabonadores sobre Mandela. Não os refutei, não combati, pois para tanto precisaria de fatos contraditórios obtidos em fontes fidedignas (comportamento científico), os quais não tenho e, principalmente, são desnecessários para o ponto que coloquei.

Minha proposta baseou-se em dois pontos:

  • Que os valores pelos quais Mandela é reverenciado são valores dignificantes.
  • Que a atitude de destruir o mito (a história e não o fato), atacando o homem e sua imperfeição (o fato e não a história), era contraproducente sob quaisquer aspectos que se queira.

Isso é um desdobramento que considero racional e evidente, mas, para ser realmente científico, ele deveria estar à disposição do contraponto para que eu, eventualmente, mude de posição ou de entendimento.

E está!

Mas não recebi argumentação que atacasse, exclusivamente, as hipóteses que sugeri, nem mesmo a inferência que fiz.

Na realidade, recebi críticas tipicamente ideológicas, que partem de pressupostos inamovíveis e não apresentam argumento específico sobre o que falei, só sobre temas que não foram relevantes para o meu raciocínio, nem foram premissas para minha conclusão.

Continuo à disposição para a mudança.

Esse é o meu compromisso com minha própria ignorância.

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19 Respostas to “Vamos Falar de Ideologia? Como Evitar um Posicionamento Ideológico.”

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[…] Crio que meu artigo sobre ideologia e ciência poderá ajudar a elucidar esse aspecto. Clicando aqui. […]

Portinho, excelente aula de método científico.
O problema é que estamos na selva.
Retomando frase sua do post anterior:
“Só, infelizmente, não tem representantes na política para defender seus valores.” (o povo brasileiro)
Que valores? Funk, facebook, samba, bolsa-família?
Trabalho em uma estatal repleta de parasitas esquerdistas sindicalistas.
Sobre o passado do Mandela, escreveram em um manifesto recente, o seguinte: que não deveríamos esquecer o passado do Mandela: passado comunista, guerrilheiro (terrorista, trocando em miúdos). Que estariam (pessoas como vc!), tentando esquecer esse glorioso passado de lutas (eles adoram esse termo). Que sacrilégio!
Ou seja, na selva, se vc, conservador, liberal ou não, optar por “esquecer esse tipo de passado” e resolver enaltecer o indivíduo regenerado ou mudado (que fique claro, no que concordo), pode ser linchado sem entender o porquê, mesmo com todo o seu método científico de mundo civilizado.

Oi Rodrigo,
Os valores de que falo não são esses. O povo brasileiro é conservador (70% católicos) nos costumes e liberal em economia política. Pelo menos é o que eu acho.
Para mim, brasileiro defende propriedade privada, quer competição nos provedores de serviços e detesta pagar imposto. Funk é coisa de periferia do RJ e SP, o Brasil ouve é sertanejo e música pop brasileira/americana. A Globo, até hoje, não permitiu um beijo gay em suas novelas. Evidentemente porque considera que seu público não aceitará.
Agora, é óbvio que o povo gosta de mamar nas tetas dos governos. Mas não só o povo brasileiro. Não é diferente na França e na Itália, por exemplo. Aliás, a destinação de recursos de impostos ao “povo” é gigante em países desenvolvidos (nórdicos principalmente). Eles também “mamam”, os países são ricos, mas eles tem educação, saúde e segurança, tudo com dinheiro público. Nós recebemos umas esmolas apenas.
É preciso quebrar esse paradigma de que o brasileiro é de esquerda, que quer o estado produzindo petróleo, aço, carne, computadores etc. Nenhum brasileiro considera o governo competente, basta ver o que pensam de saúde, educação, segurança etc.
Brasileiro é conservador nos costumes, votou para manter a venda de armas, não se queixa de nenhum serviço privatizado (ninguém quer voltar aos tempos da Telerj), detesta intervenção governista (impostos, proibições, conselhos tutelares etc.).
Mesmo que eles não fossem a maioria, mesmo que fossem 15% da população, ninguém os representa, ninguém fala por eles.
Isso é o câncer do debate político no Brasil. Há totens intocáveis. Como seria recebido um político que dissesse querer privatizar? Como seria recebido um político que defendesse a propriedade privada? Como seria recebido um político que defendesse um estado menor? Como seria recebido um político que tivesse como meta reduzir o número de dependentes das bolsas estatais? Como seria recebido um político que defendesse a iniciativa privada?
Não saberemos, até que surja. Por isso fica a impressão de que o brasileiro é “de esquerda”. Veja o discurso de Sarney, Renan e Jáder. É justiça social, inclusão etc. Até coronéis são “de esquerda” por aqui.
Quanto ao que você citou, sobre o caso Mandela, só reforça minha tese de que Constantino, Azevedo, Olavo etc., não agiram com inteligência superior.
Você revela que a “esquerda” quer reforçar um passado de Mandela que NINGUÉM ousou lembrar (só os liberais citados). Se há valores a exaltar no homem mudado, seria mais interessante reforçá-los do que lembrar do passado QUE NÃO está sendo exaltado na mídia.
Seria muito mais útil dizer que os valores de Mandela, após a guerrilha, não são e nunca foram de esquerda. Se tivesse morrido explodindo lanchonetes e bancos, seria lembrado como um assassino, e talvez até reverenciado pela esquerda internacional (duvido até disso).
Eu acho que erraram. Perderam uma grande oportunidade para calar OU para exaltar valores que lhes são caros.

Por isso é contraditório o termo “ciências humanas” ou “ciências sociais”! Sendo bem rigoroso na definição, só existem ciências naturais e exatas.

Eu não iria tão longe. Acho que nem Demo, nem Popper foram. As ciências “exatas”, deixaram de ser exatas há quase 100 anos, ficando no campo do utilitarismo estatístico.
As ciências sociais e humanas trabalham, tão somente, com sistemas mais complexos e com condições não perfeitamente reprodutíveis. Mas é inegável a evolução da tecnologia e do conhecimento em sistemas produtivos, sistemas de motivação e até em manipulação da economia.
O que o texto diz é que a postura do cientista/pesquisador é que será (ou não) científica, mesmo em administração, psicologia, economia ou medicina.
Se ele tiver postura científica, é provável que o conhecimento se amplie. Se tiver postura ideológica, provavelmente só buscará comprovações úteis à sua própria causa.

Matemática não deixou de ser exata. Pode ter seus problemas ou contradições, mas está muito longe de utilitarismo estatístico, o qual, pelo que percebo, é muito mais usado nas “ciências humanas” ou “sociais”. O fato de uma “ciência” não ser verificável através de experimentos e não se poder se avaliar (nem um mínimo) quantitativamente caracteriza mais filosofia que ciência. Afinal, como testar uma hipótese objetivamente? Por isso afirmo que a Física das “cordas”, “supersimetria” e outras teorias que não podem ser testadas são pura filosofia (pelo menos por enquanto). Por sinal, não há utilitarismo estatístico nenhum nessas “físicas”.
E o interessante é que muitos bons cientistas, os que realmente fazem ciência, são em geral alheios a esse tipo de discussão, considerada “filosófica” demais (pejorativamente mesmo) (admito, não sou um desses bons cientistas, mas já tive pretensão). Não entendo nada de Popper, mas aposto que ele não foi nenhum grande cientista (filósofos da ciência são que nem críticos de livros ou filmes).

Caro Fábio, sou obrigado a discordar do comentário.
Eu não entendo matemática como ciência, aliás, acho que nem os matemáticos entendem. Matemática é tão somente linguagem. Um sistema lógico que permite manipulação, dentro de determinadas regras.
Matemática, em si, não gera conhecimento, não há como aplicar o método científico, pois não há fenômeno, não há teste empírico.
Quanto à minimização do valor da filosofia da ciência, é um contrassenso. Ciência e filosofia são indissociáveis. O desenvolvimento científico (conhecimento) gera estruturas de entendimento (paradigmas) que tem influência em todas as esferas da sociedade e da humanidade. Descartes e Newton nunca quiseram “matar” Deus, até porque eram reverentes. Mas esse efeito (que foi minimizado pela física quântica e o princípio da incerteza) foi inevitável, e, acredite ou não, a influência das ideias de Newton e Descartes está presente mesmo em crianças que nunca ouviram falar de representação matemática, gravidade ou outras entidades científicas. O sistema de valores de seus antepassados e de seus pais transmite essa influência.
O objetivo dos físicos das supercordas é criar novos paradigmas de entendimento, e esses paradigmas, se vingarem, serão compreendidos e transmitidos a partir da filosofia da ciência. Um físico experimental vai lidar APENAS com os resultados práticas da experiência, o significado dela virá depois.
Qualquer cientista busca aprofundar o conhecimento. Seu objetivo é conhecer a realidade. A filosofia da ciência o ajuda a formatar esse novo conhecimento (fora da matemática). Sugiro Thomas Kuhn (estrutura das revoluções científicas), deixa bem clara a importância da filosofia da ciência.

Oi Paulinho, tudo bem?
Parabéns pelo Blog, está cada vez melhor.
Permita-me um comentário off-topic, na verdade é mais uma pergunta:
Qual é a sua opinião sobre o Bitcoin? Muitos estão dizendo que é um começo de uma nova era na economia e tal. E muitos serviços e empresas já aceitam pagamento em Bitcoin, como Virgin Airlines, Microsoft etc.
Este podcast, discute o assunto http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-393-ouro-diamantes-e-bitcoins/
Abração!
– Helio

Grande Hélio!
Cara, o bitcoin faz sentido como moeda. Ela é criada para “remunerar” capacidade computacional disponibilizada na rede. É razoável que quem invista milhões em computadores tenha remuneração por isso.
Mas o problema é que o bitcoin é um meio de pagamento não regulado. A qualquer momento, às vezes sem aviso, a autoridade monetário pode intervir e acabar MESMO com a brincadeira.
Países como Venezuela e Argentina, por exemplo, são potenciais compradores de bitcoins, pois suas moedas não valem nada e não é possível comprar dólar. Mas se os governos centrais proibirem a transação em bitcoins, o valor pode ir a zero rapidamente.
Em resumo, é lógico, faz sentido, deveria ser tratado pelos BCs com respeito (até para regulamentar sua aceitação e incorporar na moeda corrente), mas tem o risco político/econômico.

Valeu Paulinho! Acho que deve haver alguma regulamentação mesmo, senão vira bagunça.
Nessas últimas semanas, a China proibiu as negociações em Bitcoins e a “moeda” perdeu mais de 50% de seu valor.
Acho que quem compara Bitcoin como investimento como a bolsa de valores pode estar incentivando a especulação.
Abs!
– Helio

Assim como você, sou fã da Convenção de Genebra. Guerra não é zona, pelo contrário, não há nada mais estratégico que escolher uma zona de guerra.

Escusado dizer que eu não acredito na existência de ciência política. A própria expressão é equivocada. É certo que existem milhares de teorias políticas. E cada uma foi proposta pela parte interessada.

Olá, Portinho

É sempre legal elevar o nível da discussão. Coisa irritante é a tendência brasileira de transformar toda conversa séria em briga de bar, jogo de truco ou de futebol. A torcida não percebe que a boçalidade é incentivada e estimulada por aqueles que preferem jogar tênis, viajar pra Disney e jantar em bons restaurantes enquanto a canalha e a classe mérdia (ela existe?) se matam na porta do boteco ou do estádio. Aliás, essa é a minha teoria sobre a função política do Neymar (que já foi desempenhada por Pelé, Zico e Ronalducho, entre outros): “Não sabe ler? Qual o problema? Vai jogar bola! Estudar é coisa de trouxa”. Mas isso é outra história.
Entendo que o objetivo original do seu post era tático: livrar a memória de Mandela do “fogo amigo” dos liberais e/ou conservadores com os quais vc simpatiza. Não tenho certeza se me incluo entre eles. De qualquer forma, também não creio nos revolucionários: eles revolucionam o próprio bolso.
Entendo também que não há como reivindicar neutralidade ou espírito científico sobre um assunto eminentemente político, esse era o meu ponto.
Não é uma crítica, é uma constatação.
Se o Mandela tivesse descoberto uma estrela binária orbitando Alpha Centauri, a gente podia ir até Monte Palomar e calmamente dar uma conferida. Mas como ele combateu um regime político que, até então, era legal (o que é diferente de moral), não há como calçar luvas cirúrgicas. Se era legal e legítimo na época que ele combateu, e se ele foi obrigado a pegar em armas para derrubar, “terrorista” não era uma palavra descabida. HOJE QUE O APARTHEID ACABOU, a expressão não mais se aplica! A História decidiu a favor dele, ou seja, mudaram as opiniões a seu respeito. Acontece que o cientista pode levantar a cabeça do microscópio, mostrar o bacilo que descobriu, virar as costas e ir embora. Vc não precisa discutir com ele nem atacá-lo moralmente: se ele for pedófilo isso não o impede de ganhar o Nobel (impede sim, mas não deveria!). Agora, o bacilo do político é ele mesmo. O que ele tem pra mostrar é a própria vida, mas o que ele quer mudar é a vida dos outros! Neste caso, não há neutralidade possível. Falar de um político (para o bem ou para mal) é um fato político. Apenas saber que ele existe já é um fato político. Ninguém muda de opinião por causa do soldado desconhecido.
Meu ponto é muito simples: política é uma disputa de opiniões, nisso eu fecho com Platão (que nem é o meu preferido). Ela não é brainstorming nem simpósio científico onde se contrapõem civilizadamente teorias perfeitamente lógicas, razoáveis e inofensivas. Política está mais pra porrada, discussão de bar, briga de torcida, jogo de truco, solada, carrinho e pé alto.
Não que eu aprove.
Simplesmente é assim.

Bom, minha opinião é que a atitude foi ingênua e inoportuna (no dia da morte? que falta de nobreza, de fidalguia!). Um adversário político com um pouco de inteligência (e má-fé), conseguirá ridicularizar o liberal que resolveu atacar o Mandela. Vai pras cordas e não conseguirá sair.
O cara ataca uma ideia hegemônica, que exalta os mesmo valores que ele. Sem noção. Utilidade tende a zero.
É a típica armadilha ideológica que os liberais e conservadores caem. Esquecem que lidam com técnicos do discurso e da manipulação, acham que a guerra é de “verdades”. A guerra é de propaganda. Sempre foi.
Concordo, e é até evidente, que nesse ambiente não se pode travar uma luta “científica”, até porque ser “científico” (nos critérios de Demo e Popper) requer treinamento de toda uma vida. E sempre em revisão.
Há alguns anos, não muitos, parecia-me que, ao menos, a guerra poderia contar com algumas convenções, baseadas na boa-fé e no disclosure (mínimo que seja).
Hoje, Brasil de 2013, tenho a impressão de que a guerra química, o genocídio, o infanticídio e tudo que as convenções deploram está liberado, desde que ajude a força política.
2014 deve ser um divisor de águas. O nível de divergência e violência moral está muito acima do tolerável.
Pobre Brasil.

Acho simpático que vc critique a falta de tato daqueles que se aproveitam da morte do Mandela para criticá-lo. Mas isso aqui é o Brasil, ou seja, a Casa da Mãe Joana. Nós não temos lords, temos Sarneys. É outro nível. Outro dia vi o Felipe D’Alencastro (que é o maior historiador sobre o tráfico de escravos no Brasil, embora branco e europeu) dizendo uma coisa interessante. O Brasil não tem elite, tem classes dominantes. O próprio plural (as zelites) que usam para nomeá-la já demonstra ignorância. Quando se tem mais de uma elite no mesmo país é porque ele está guerra (não creio que seja o nosso caso: guerras são deflagradas com propósitos específicos, nossa violência é gratuita, boçal e sem sentido). Elites existem porque ganharam guerras. Elas se impõem pela força mas se mantém pelo direito, eis o segredo. Quem precisa andar de carro blindado no seu próprio país não é elite, é invasor. (Eu não vivo no mesmo país do Eike, o BNDES nunca me daria um empréstimo)
Elite têm os ingleses, franceses, até os americanos. Elite é uma classe social que domina as outras para seu próprio benefício, até aí, normal, as classes dominantes também fazem isso. Mas ao contrário destas, que estão pouco se lixando, ocupadas em transferir seu butim para a Suiça, as verdadeiras elites têm o seu sangue ligado ao destino do seu país, da sua terra e do seu povo. Elas não abandonam o barco, afundam junto com ele. Ou então manobram para salvá-lo. Por isso ganham o direito de chamá-lo de seu. E como a casa é deles, eles cuidam. Todos sabem que o exemplo vem de cima. No século XX, Churchill é o melhor exemplo. Ele poderia perfeitamente pegar a sua trouxa e rapar fora pra Noviorque. Mas, não, ele não poderia. Quem pode fazer isso é o Maluf, assim que a Interpol tirá-lo da lista de mais procurados.
Elites são movidas por interesses, como todo mundo, mas entre eles figura um interesse que é exclusivo delas: a honra. Caráter, nobreza, cavalheirismo e fidalguia são todos valores de elite. Para tê-los é preciso que o país tenha dono. Mas para ter dono, precisa primeiro ter um povo, não um amontoado de gente querendo levar vantagem. A vantagem da elite não é ter dinheiro, dinheiro se ganha e se perde. A vantagem da elite é que ela cuida do que é seu, dinheiro inclusive. Mas não apenas dele.
Plebe, Brasil!🙂

Reza a lenda que alguém confrontou Keynes por ter mudado de idéia sobre certo assunto, ao que ele replicou, com sua elegância habitual: “Quando as coisas mudam costumo mudar de opinião, o senhor não?”

É isso mesmo!
Foi o que quis dizer ao final do meu artigo:
“Continuo à disposição para a mudança. Esse é o meu compromisso com minha própria ignorância.”

Olá, Portinho

Seu post chega muito próximo de Popper quando dá seu critério para distinguir crença, ideologia e/ou filosofia da teoria científica. Para ser teoria um raciocínio precisa ter 3 das características indicadas por Demo: coerência, consistência e originalidade. Mas isso não é suficiente para que seja ciência. Uma “ideologia”, na ótica de Popper, pode ter tudo isso, ou seja, ser um pensamento original, coerente e consistente dentro de si próprio. O que vai distingui-lo do pensamento científico é 4º critério, que vc chamou de “objetivação”. No vocabulário de Popper diz-se “falseabilidade” (ou “falsificabilidade”, como queiram). Este é o critério que vincula a teoria à “realidade” e ao mundo “exterior”, por assim dizer. Como trabalho intelectual filosofia e ciência, p.ex., não se distinguem: ambas constroem sistemas de pensamento baseados na razão. Isso é suficiente para o filósofo, mas não para o cientista.
O primeiro não precisa se preocupar com o que está “fora” do pensamento, mas o segundo, sim. O cientista está menos interessado em pensar “bem” do que em pensar “certo”. O “sistema” que ele cria não quer apenas sustentar-se por si próprio: ele precisa “sobreviver” ao teste da realidade. Teoria científica é aquela que consegue explicar o maior número de fenômenos com o menor número de hipóteses. Newton é o exemplo clássico. Se a teoria for tão complexa quanto o fenônemo que ela pretende explicar, será inútil. Fazer ciência é encontrar atalhos. Se o mapa tiver o mesmo tamanho do país, não há porque traçar mapas! Borges diria que o mapa se torna um duplo inútil porque idêntico, mero espelho. Por ela mesma, a teoria não tem valor para o cientista. Só terá na medida em que for capaz de reduzir algum fenômeno à sua explicação.
Ninguém que tenha lido Freud ou Marx com um pouco de atenção negará que ambos são originais, coerentes e consistentes em seus argumentos. Desde que vc aceite os pressupostos deles, esta é a questão. Uma vez aceitos, os dois vão te levar por uma longa cadeia de raciocínios perfeitamente lógicos, assim como Euclides (ou Riemann). A questão para Popper começa antes: como determinar se essas premissas correspondem à “realidade”? Problema filosófico insolúvel: quem determina o que é “real”? A partir de qual ponto de vista? O que garante este ponto de vista como mais ou menos “verdadeiro”? Realidade, ponto de vista e verdade são conceitos. Eles existem na nossa cabeça (ou coração, se quiser). A questão de Berkeley continua válida: aquilo que não é conhecido “existe”? Que realidade tem aquilo que não pode ser percebido, ou seja, que ainda não é fenômeno? O telescópio “descobre” uma nova realidade ou ele a “inventa”? Ela existia como fenônemo “antes” da sua invenção? O mesmo para o microscópio e o grande colisor de hádrons.
Mas os cientistas sabem um truque: eles fazem acordos momentâneos sobre o que é “real”. Pelo menos até que uma nova teoria aponte uma nova realidade. Foi assim de Ptolomeu a Newton, foi assim de Newton a Einstein. Será assim com Higgis? Com certeza. Cada teoria produz sua própria realidade, é o que ensina Kuhn.
Resta saber como interpretar a História. Ela é real? Ela é real só no momento em que acontece ou permanece real em seguida, quando vira narrativa? “Fatos” históricos podem ser “provados” cientificamente?
Particularmente, não acredito. Isso nem mesmo importa. Um fenômeno se conhece pelos seus efeitos. Um dos efeitos da política é mudar opiniões. Mandela passou com louvor, se este for o critério. Gostando ou não, é impossível ignorá-lo. É disso que são feitos os personagens históricos. (a propósito, sinto muito por você, Pequeno Sarney: muito tempo depois que o Brasil acabar ninguém vai lembrar que vc existiu, a não ser como exemplo ordinário de corrupção. E se ainda existir língua portuguesa, lamento mais ainda: Machado e Rosa não precisam da ABL para sobreviver, ao contrário de você, medíocre como é).
Assim como Arafat, Begin e Bin Laden, Mandela pode ter sido “terrorista” a certa altura. Isso pouco importa. Importam as consequencias. A história decide a favor dos que vencem, segundo dizem. Sendo assim a história decidiu a favor de Begin: Israel existe. Arafat é um caso dúbio, já que não existe estado palestino. Bin Laden não conseguiu “derrubar” os EUA, se era essa sua intenção. Mas como todo império, um dia os EUA também cairão. Que status Bin Laden terá então?
Todo mundo é terrorista até derrubar o estado. Depois, terroristas são os outros. Perguntem ao Fidel. Ou ao Pinochet.
O mundo decidiu a favor do Mandela, afinal, na África do Sul não existe mais apartheid. Assim como decidiu a favor de Luther King, já que ilegal agora é a Ku Klux Klan quando antes ilegal era um negro frequentar escolas para brancos. Resta saber o que pensam sobre isso os böers e os sulistas americanos, ninguém pergunta a eles (não que isso me importe).
Sua opinião sobre o Mandela esposa a da maioria (incluindo a mim). Nem por isso ela é mais ou menos válida, sob qualquer ponto de vista. Ela pode ser importante para a sua vida (ou a minha) e não ter a mínima importância para outros. Inútil tentar convencê-los. É apenas uma opinião, bem fundamentada que seja. Uma opinião nunca é falseável, portanto não passa no teste de Popper.
Mas entendo o que te incomoda: idéias não são pessoas e se, por acaso, alguém as encarna elas não desaparecem junto com a pessoa.

Caro, francob,
Agradeço por trazer Popper e kuhn ao debate. Engrandecem o mesmo.
Mas permita-me discordar de sua conclusão, a respeito do meu post e/ou dos meus objetivos.
Não coloquei uma opinião sobre Mandela, ela era apenas premissa e não objeto do debate. Coloquei minha opinião sobre a inutilidade e impertinência (ingenuidade, talvez) de ataques a Mandela partindo de liberais ou conservadores.
Não contra-argumentei, apenas questionei o valor, para a causa liberal e conservadora, de atacar Mandela.
Minimizar a importância de sua mitologia é contraproducente, pois a mesma se baseia em valores caros aos conservadores, principalmente.
Também não me aborreci, até fui bem gentil nas respostas. Eu escrevi o texto seguinte para oferecer um framework simples, para que o leitor possa “medir” seu nível de ideologia.
E o motivo não foi a “discordância” a respeito da minha opinião sobre Mandela, mas minha percepção de que ninguém consegue endereçar (objetivar) o tema em discussão, quando inebriado pelos pressupostos.
Dentro dos critérios de cientificidade, ao contrapor meu argumento é necessário, ao menos, entendê-lo e expor ideias que o refutem.
Na prática, não houve. O que lamento.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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