Política

Red Pill COVID 19: O isolamento vertical

Posted on 08/07/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , , , , , |

Essa Pandemia trouxe alguns dos piores “calls” da história recente da humanidade.

Gosto de pensar em um call como uma aposta comprada firme. É algo que eu compro e acho que vai dar certo.

Hoje vou falar de um dos mais bizarros, a condenação prévia do isolamento vertical.

Antes de apresentar o debate, vou direto aos números, simulando um hipotético isolamento vertical em SP.

A lógica do isolamento vertical é das mais triviais, tentar isolar de forma mais eficiente os mais vulneráveis. Fazemos até sem sentir. Com o filho mais vulnerável temos mais cuidado, com o idoso mais frágil, o mesmo.

No caso da COVID19, desde o início sabíamos que a mortalidade de idosos era desproporcionalmente mais alta do que em jovens. É até mais desproporcional do que para a gripe comum.

Em SP, com base nos dados de mortalidade da SEADE (https://www.seade.gov.br/coronavirus/), e na pirâmide etária do Brasil (dados mais recentes), a chance de uma pessoa acima de 60 anos ir a óbito é 17 VEZES maior do que para alguém mais novo que isso. Na Europa é ainda muito maior, pois 95% dos óbitos ocorreram com idosos acima de 60 anos.

Se o foco é reduzir o número de óbitos (e de hospitalizações), um grupo com mortalidade tão desproporcional deveria ser mais protegido. É um pouco incompreensível que esse debate tenha sido interditado. Adiante discuto os possíveis motivos (a ciência do Imperial College).

A matemática do isolamento vertical é muito óbvia. Se fizermos um isolamento horizontal para “achatar a curva” o vírus nos pega mais devagar, porém na mesma proporção em que nos “trancamos”.

Qualquer redução bem-sucedida na exposição do grupo com 17 vezes mais chance de óbito, reduz a mortalidade geral. Isso não é nem ciência epidemiológica, é matemática vetorial simples.

O índice de mortalidade geral, calculado pelo CDC americano, está em 0,25%. Só que esse número cru esconde uma matriz de mortalidade (vetor). Vai de 0,01% para determinados grupos até 5% em outros. Isso ficará claro nos números aproximados de SP.

Boa parte da mortalidade excessiva na Europa veio de óbitos em casas de repouso. Se tivessem sido bem-sucedidos em proteger esses idosos que não saem de casa, a COVID19 teria ceifado muito menos vidas. Isso está dando inquéritos por lá, e provavelmente vai ter em NY, que mandou idosos que estavam internados de volta aos asilos para liberar espaço nos hospitais.

Os números de SP.

Tomei como base os dados de mortalidade calculados pelo SEADE e a pirâmide etária brasileira (dados mais recentes).

Assumi algumas premissas:

– O vírus se tornaria endêmico e com mortalidade em linha com outros patógenos após termos 40% da população infectada. Não usei 60-70%, pois estima-se hoje que muita gente já seja imune ao COVID19. Talvez esses 40% estejam superdimensionados, pois temos uma redução muito grande na mortalidade em países já com 10% a 15% de população infectada.

– Adotei um deflator de 20 vezes para ajustar a mortalidade geral de SP, para se adequar à previsão do CDC. Nós medidos 5%, pois fazemos poucos testes e desconsideramos pessoas que pegam, se curam (ou nem sentem) e não geram anticorpos.

Com essas premissas, se o vírus pegar a população exatamente na mesma proporção da distribuição etária, SP poderia atingir cerca de 32.000 óbitos até o vírus atingir 40% da população.

Se conseguíssemos reduzir a exposição dos grupos de risco etário (mais de 60 anos) em 50% e 70%, teríamos uma probabilidade de óbitos muitíssimo menor.

O ideal seria que ninguém morresse jamais, nem idosos nem novos, mas essa opção não está na mesa. Quem faz política pública precisa trabalhar com a realidade para reduzir os danos à população e não com um mundo impossível ou raciocínio motivado.

Importante notar que atingir 40% não significa que o vírus vai embora e nunca mais vai matar. Se tornará endêmico, com mortalidade em linha com o de outros patógenos. Os patógenos do passado continuam todos por aí.

Bom, a matemática é essa e ela reflete uma enorme obviedade, proteger quem tem 17 vezes mais chances de morrer tende a reduzir o número geral de óbitos.

Agora vamos discutir os motivos para essas coisas razoavelmente óbvias não terem sido nem debatidas.

O controle possível da Pandemia

O padrão-ouro de controle de epidemias é achar os doentes e quem teve contato e colocá-los em quarentena. Isso foi impossível na COVID19, por 3 motivos:

– Insuficiência de testes no início.

– Enorme velocidade de propagação.

– Assintomáticos transmitiam.

Se não dá para controlar a doença com o padrão-ouro, passa-se às hipóteses de isolamento social.

O isolamento horizontal pressupõe isolar a todos sem distinção de grupos etários, o isolamento de vulneráveis é tentar fazer com que a imunidade de grupo (que é a única coisa que podemos ter, com ou sem vacina) se forme PRIMEIRO em grupos com sistemas imunológicos mais competentes.

100% dos especialistas fala em imunidade de grupo, seja pelo vírus esgotar as pessoas com sistemas imunológicos susceptíveis (que irão a óbito ou sairão com anticorpos ou alguma estrutura de defesa), seja pela vacina (que não é certa e provavelmente chegará tarde, na Europa nem conseguem testar mais, pela redução enorme no número de infecções).

E para as pessoas que não acreditam que nosso sistema imunológico conseguirá ser eficiente contra o vírus, lembro que isso tornaria muito mais difícil termos uma vacina.

Por que nós não buscamos, primeiro, isolar os mais vulneráveis?

Não sei, mas de início houve a ciência. Aquela que errou todas as previsões.

O Imperial College fez previsões catastróficas para o Brasil. Se fizéssemos isolamento horizontal intensivo, teríamos 44.000 óbitos, com isolamento vertical (idosos), isso iria para 529.000, com isolamento social leve, seriam 627.000 óbitos e sem isolamento, 1,1 milhão de óbitos.

Veja na figura abaixo.

Hoje sabemos que é tudo enorme nonsense, mas à época era “a” ciência, não havia outra aceitável.

Foi um call tão errado, que nós DE FATO fizemos um isolamento meia-boca (que mataria 627 mil pessoas segundo o Imperial), com as comunidades mais pobres (a maioria dos brasileiros) vivendo com razoável normalidade, tivemos índices inferiores a 50% de isolamento na maior parte do tempo e ainda estamos 10 vezes abaixo das previsões.

Nessa thread o biólogo Átila chega a falar em 2,6 milhões de mortos no Brasil até agosto “se nada for feito”:

https://twitter.com/oatila/status/1240156469078691842

Por essa lógica do Imperial, a Suécia, que deixou praticamente tudo aberto, teria cerca de 250.000 mortos (0,25% da população). Tem 5.500. Um erro de quase 98%.

As premissas sem sentido

O modelo básico de previsões de epidemias é o SIR (Susceptíveis – Infectados – Removidos). O número de removidos (que não transmitem o vírus) cresce até um patamar que torna a propagação muito difícil e o vírus vira endêmico. Não desaparece, mas não tem potencial para pegar todo mundo.

Há 3 premissas sem sentido:

– Que podemos ficar totalmente presos até a invenção de uma vacina.

– Que o vírus vai desaparecer para sempre.

– Que a única forma de enfrentar um vírus é se escondendo dele. Não é a única, é uma delas e depende da letalidade e da transmissão.

Alemanha x Turquia / Isolamento horizontal x Isolamento vertical.

Não há saída mágica. Países extremamente bem-sucedidos no controle terão um grupo de removidos muito pequeno, portanto ficarão com muitos susceptíveis e sujeitos a outras ondas.

Aconteceu com Israel, que era um exemplo. Quando abriu, os casos dispararam. A decisão atual é fazer restrições mais brandas. Não há milagre.

A Turquia fez apenas isolamento vertical e tem resultados melhores do que os da Alemanha, mesmo com mais casos.

https://www.bbc.com/news/world-europe-52831017

A Alemanha é considerada um dos melhores casos de controle da Pandemia. A Turquia tem praticamente a mesma população, teve mais casos e muito menos mortes (9.103 Alemanha, 5.260 Turquia). Além disso, a Turquia, como não parou, teve uma alta no PIB do primeiro trimestre de 0,6% enquanto a Alemanha teve uma queda de 2,2%.

https://data.oecd.org/gdp/quarterly-gdp.htm#indicator-chart

É claro que a Turquia ainda tem muito mais casos diários do que a Alemanha e mais óbitos. A Alemanha tem ainda uma média de 500 casos por dia e 13 óbitos. A Turquia tem uma média de 1.400 casos por dia e 21 óbitos (médias de 7 dias). A mortalidade proporcional, percebe-se, é bem menor do que na Alemanha.

https://www.worldometers.info/coronavirus/

Apesar de ainda haver mortalidade pela COVID (o vírus não vai embora, isso continuará, como para todos os outros patógenos, tuberculose e malária matam 500.000 pessoas todo ano cada uma e tem tratamento), esses números não são absurdos. A Turquia tem cerca de 1.400 óbitos por dia (death rate 6 por mil), a COVID está representando cerca de 1,5% do total de óbitos diários.

O mais grave dos erros: Interditar debates.

Esse foi o mais grave dos erros. Por algum motivo que me escapa, resolvemos, em manada, interditar alguns debates. Interditamos a discussão sobre protocolos de tratamento e remédios, interditamos o debate sobre isolamento vertical etc.

E isso tudo com base em algo que a ciência nunca dá: certezas.

O debate saiu do campo da racionalidade técnica, da ciência, da matemática, da lógica aristotélica para uma dialética vazia do bem contra o mal.

É, definitivamente, o mal dos nossos tempos. Transformar debate científico em debate moral.

Disclaimer

Aproveitando essa colocação sobre o debate moral, alerto ao leitor que apenas apresento minhas percepções e uso minha visão sobre o tema. Caso discorde, não há necessidade de se ofender. Caso tenha interesse em mostrar alguma falha no argumento ou erro, sinta-se à vontade.

Isso para mim não é luta do bem contra o mal, é política pública. Não culpo os homens públicos, pois foram surpreendidos com uma ciência de um lado só, alarmista e que errou as principais previsões. Como representam uma nação, é melhor errar feio com base no Imperial College do que peitar e ir adiante.

A Suécia peitou e está sofrendo assédio moral da comunidade científica internacional. Não é uma posição fácil.

Por isso o maior de todos os erros foi o que coloquei, interditar debates científicos com discursos morais, acusações de genocídio, guerras político-ideológicas, desejos pelo fim do capitalismo etc.

Dá nisso, obscurantismo e luta política vazia. E as pessoas sofrem, pois poderíamos ter sido mais eficientes.

 

 

 

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Red Pill COVID19: A incrível polêmica entre óbitos por de data evento e por data de confirmação.

Posted on 02/07/2020. Filed under: Administração, Matemática, Política | Tags:, , |

É um pouco estranho que ainda existam dúvidas sobre o erro de considerar os óbitos por data de confirmação (exame positivo) como mensurador da evolução da PANDEMIA.

Acompanhar a evolução pelos óbitos por data do evento (quando de fato ocorreu o óbito ou o início dos sintomas) tem problemas, que são facilmente solucionáveis, mas acompanhar por confirmação do exame NÃO tem solução, é sempre errado e sempre vai trazer informações distorcidas e irrelevantes.

Vamos ter poucas confirmações quando a curva estiver no início e muitas quando estiver no final, ou seja, um péssimo indicador, pois vamos achar que é pouco, justamente quando temos que nos preocupar, e vamos achar que é muito, justamente quando estamos na descendente.

Red Pill logo de início.

Antes de explicar as falhas graves de se usar as datas de confirmação dos exames, principalmente com os atrasos de 3 meses como vemos no Brasil, vamos entregar logo a pílula vermelha e acabar com essa polêmica sem sentido. Sigam a orientação aristotélica:

  • Para sepultamento o óbito precisa de registro (famílias obrigadas a informar em até 24 horas).
  • O registro em cidades grandes (onde ocorreram a esmagadora maioria dos óbitos) tem, no máximo, 10 dias de atraso para chegar nos bancos de dados. Sendo que SP e RJ e grandes capitais isso não passa de 5 dias.
  • Cada óbito registrado associado à Pandemia tem 2 status: confirmado ou suspeito.
  • Cada óbito, suspeito ou confirmado, tem o registro da data em que ocorreu.
  • Cada dia, portanto, tem dois dados relevantes: óbitos confirmados e óbitos sob suspeita.
  • Entreguem os dois dados (óbitos confirmados e sob suspeita POR DIA de ocorrência) e acabou a polêmica.

Para controle da pandemia, é mais importante sabermos a curva potencial do que a curva “perfeita”.

Ninguém “escondeu” 10.000 óbitos ocorridos, eles foram registrados, no máximo são 10.000 óbitos em investigação, sabemos em que dia estão (de fato e potencialmente).

Para os estatísticos puristas, bastaria termos todos os dados que seria possível fazer um tracking dos atrasos e identificar um padrão (ainda que crescente). Isso é fácil demais, não é Rocket Science. Mas não dá para ser feito sem os dados.

Não há nenhuma justificativa razoável para os dados não serem todos entregues ao público. Não é papel do gestor público prejulgar a nossa capacidade de avaliar os dados corretamente. Há estatísticos brilhantes, facilitem o acesso aos dados e teremos modelos brilhantes surgindo. Quem está fazendo estatística no Brasil de hoje são os jornalistas. Isso não está funcionando.

Como esse gráfico de óbitos e casos por confirmação de exame levam a erros graves.

Erro #1: Tratar o Brasil como se fosse um caso único.

O Brasil é como uma Europa. Cada estado é como um país. Cada um teve sua própria curva de casos, cada um tem seu próprio método de verificação dos dados, cada um tem seu próprio sistema de registros, cada um tem seus laboratórios, cada um tem seus problemas.

O governador de Minas Gerais disse que priorizou gastar o pouco dinheiro que tinha em aumento de UTIs e compra de respiradores, deixando os testes só para profissionais de saúde e pessoas hospitalizadas. Resultado: tem um backlog imenso de amostras coletadas nos últimos 3 meses. É capaz de chegarmos a outubro vendo recordes de casos em MG e anunciando uma curva crescente da Pandemia no estado, mesmo contando casos de abril. É algo completamente absurdo.

Tratar o Brasil como um todo homogêneo para tomar decisões ou avaliar a curva da COVID é como propor que a Áustria e Itália devam usar as mesmas medidas.

Todos os estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes já passaram pelo pico de mortalidade, o que pode ser visto por qualquer indicador que se queira EXCETO pela estranha opção de olhar as curvas pela data de confirmação dos exames (que têm atrasos de até 3 meses).

Se não quer olhar pelo gráfico de óbitos por dia, olhe pelo número de sepultamentos (não há “sepultamento confirmado por exames”), olhe pelo número de internações, olhe pelo número de óbitos por SRAG. Na figura abaixo temos os casos de SRAG que foram a óbito nos 6 principais estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes. O atraso já está contabilizado, pois estamos na semana 27 e os dados são até a semana 24-25.

Fonte: http://info.gripe.fiocruz.br/ (óbitos)

Erro #2: Os impactos dos erros e do backlog são maiores quando os números são menores!

As pessoas que querem “provar” que não se deve usar a curva de óbitos por DATA efetiva, mostram que para os meses de Março, Abril e início de Maio os dados de óbitos por data foram maiores do que os informados pela imprensa. Mas isso acontece porque tínhamos poucos óbitos confirmados e um backlog grande de casos e óbitos a confirmar.

A hipótese mais provável para isso ter acontecido não é que “apareceram milhares de óbitos que ninguém sabia”, mas outras mais simples como:

  • Falta de testes no início dos períodos. Até 20 de Abril tínhamos feito 130.000 testes, hoje temos 3.227.000 (sem contar testes rápidos)
  • Todos sabem que as curvas de SRAG no final de fevereiro cresceram exponencialmente, atingindo um topo em Abril, exatamente a época em que não tínhamos testes suficientes.
  • Na falta de testes preferencialmente testamos profissionais de saúde e pessoas com sintomas que devem ser isoladas e deixamos o resto para depois.
  • MAIS IMPORTANTE: tínhamos poucas mortes confirmadas até o início de maio (menos de 6.000), obviamente o “estoque” de óbitos não confirmados faz mais diferença sobre uma base de 6.000 do que sobre uma base de 60.000.

Os óbitos em investigação eram muito mais relevantes quando o número era de 2.000 – 3.000 e não tínhamos testes do que agora, com 60.000 mortos quando temos milhões de testes.

Essa evidência de que os óbitos informados pela TV foram menores do que os reais é função do estágio da Pandemia, com a curva crescente e atraso nos testes isso acontece, a tendência agora deve ser justamente contrária, que é exatamente o que está acontecendo nos estados com mortalidade mais elevada.

O caso do Rio de Janeiro

Para quem ainda não acredita na lógica apresentada, basta ver o caso do Rio de Janeiro, que é um dos estados que apresentam diariamente os dados por data efetiva de óbito.

Em 10 de junho o gráfico do RJ por data de evento mostrava um número máximo de óbitos de 172 em 04 de maio. Em 17 de junho o recorde foi para 28 de Abril, com 225 óbitos. Em 02 de julho esse recorde foi para 30 de Abril com 248 óbitos.

Quanto mais o tempo passa no RJ, mais a curva se inclina para a esquerda, se parecendo com as curvas de outros países muito afetados.

O prefeito disse que o número de sepultamentos em junho de 2020 será menor do que em junho de 2019. O número de internações cai desde o início de maio. O número de óbitos em investigação era de cerca de 1.000.

Se olharmos os dados data da confirmação positiva dos exames, veremos o RJ com recordes recentes. Quem estiver acompanhando por esse indicador, vai achar que ainda não chegamos ao pico da pandemia.

E essa realidade deve ser a mesma em estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes. Aliás, tem sido a mesma em países com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes.

Fonte: http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html

Mais dados é sempre melhor do que menos dados.

Com menos dados, ou com dados selecionados de acordo com o interesse do órgão que controla a divulgação desses dados (governo, estado, município, órgão de imprensa etc.), é mais fácil manipular a opinião pública. Não acho que seja esse o objetivo, me parece mais pouca afinidade com planejamento estatístico do que má-fé. Vamos pensar o melhor das pessoas.

Em vez de ficarmos brigando sobre qual modelo apresentar, devemos apresentar os 3:

– Por data da confirmação do exame positivo.

– Por data do registro efetivo do óbito.

– Por potencial de óbitos/casos por data efetiva (somando confirmados + em investigação).

Vamos ficar com imprecisões de poucos dias, relacionadas com atrasos no registro de óbitos nos sistemas dos cartórios, mas é muito melhor do que ficar sujeito a atrasos de 2 meses.

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Red Pill COVID19: Por que optamos por usar dados errados?

Posted on 29/06/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , |

A coisa que mais me impressiona nesta pandemia é o uso deliberado de dados errados para avaliarmos nossas curvas de infecção e óbitos.

Nós temos atrasos de até 3 meses para comprovar um óbito ou uma infecção e continuamos usando esses dados, com atrasos, para nos guiar na gestão pública e nas críticas da imprensa.

E a imprensa critica, de forma até agressiva, os gestores públicos por quererem reabrir os estados, porém baseia suas críticas em dados errados.

Os dados da Suécia

Poderíamos fazer o mesmo que a Suécia, que divulga para consumo externo o número de casos e óbitos por dia de registro (quando sai o resultado positivo) e para consumo interno apresenta os dados por dia de evento (quando de fato ocorreu a infecção ou o óbito). É bem verdade que lá o atraso é mínimo, não passa de 1 semana.

Veja a diferença:

O caso do Rio de Janeiro

A imprensa se decidiu que a “ciência” mandou fechar todos os estados por tempo indeterminado. Para sempre, se for necessário. Não há decisão alguma de abrir ou flexibilizar que não seja chamada de genocídio, maldade ou coisa parecida. Antes o alvo era o presidente, hoje o alvo são todos os gestores públicos.

Esse, na minha opinião, JAMAIS deveria ser o papel da imprensa, esse tipo de militância por algo extremamente grave e incerto. O gestor tem responsabilidades que a imprensa não tem.

A imprensa não precisa se preocupar com orçamento público, salário de médicos, outras doenças etc., os gestores precisam. Foram 51% a mais de óbitos por causas cardíacas registrados nesse período. Reduzimos em 70% o número cirurgias relacionadas ao câncer. Entre 35.000 e 40.000 de diagnósticos positivos de câncer por mês estão deixando de ser feitos.

O gestor público é gestor de tudo. Considero irresponsável a atuação da imprensa. Irresponsável como eu jamais imaginaria que poderia ser. Jogar pedra em governadores exigindo que o estado permaneça fechado por tempo indeterminado é inaceitável. A imprensa não está sentada na cadeira do gestor e não está nem aí para os outros milhões de problemas que o gestor precisa enfrentar. Humildade e responsabilidade andam em falta.

Mas além de irresponsável, está baseada em dados errados.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/29/ocupacao-de-uti-na-rede-privada-do-rio-cai-para-67percent-mas-taxa-de-contagio-ainda-preocupa-diz-associacao-de-hospitais.ghtml

Essa reportagem é do dia 29/06 e traz conclusões baseadas em fatos completamente errados. Eu tenho dificuldade de entender os motivos. Vamos aos erros.

O pico da pandemia no RJ foi em final de abril, começo de maio se considerarmos os óbitos e casos de COVID e SRAG.

Alguns estados podem estar no início da Pandemia, mas os mais afetados PROVAVELMENTE já estão na descendente há algumas semanas.

Veja os gráficos abaixo:

http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html

Pelo gráfico do registro de óbito, usado pelo jornal, teríamos um pico na primeira semana de junho, com um platô daí por diante.

Pelo gráfico da DATA de óbito ou de início dos sintomas, o pico de óbitos seria em 30/04. O mesmo vale para os casos. O RJ tem batido recordes recentes de registos de casos e óbitos, mas isso é derivado de um estoque enorme de casos em análise.

O recorde de número de casos em um dia (por registro) é de 6.061 em 19/06, mas por data de EVENTO (início dos sintomas) é 2.890 em 20/04. São 2 meses de diferença e 60% menor.

Dá para confiar nos dados por data do evento?

A data de óbito e a data do registro da coleta de sangue em quem fez o exame dá para confiar sem problemas.

As pessoas que criticam essa análise por data do evento, dizem que o número de óbitos pode aumentar. Claro que pode. Por isso é que deveríamos ter 2 números, por exemplo: o número de óbitos CONFIRMADOS para a data de 30/04 e o número de óbitos INVESTIGADOS ocorridos em 30/04. Ninguém tem dúvida da data do óbito em si, apenas se foi ou não COVID. Teríamos, por exemplo, 243 óbitos confirmados + 30 em investigação, assim saberíamos que NO MÁXIMO, chegaríamos a 273 naquele dia.

Estou acompanhando os dados do RJ desde quando o recorde de óbitos por dia era em 05/05. Achei que com o andamento da pandemia esse recorde andaria para frente, mas ele foi para trás. Chegou a 26/04 e hoje está em 30/04.

Outro ponto de corrobora essa visão é que estamos vendo redução constante, desde o início de maio, no número de internações.

O que não faz sentido é a análise dos jornais, pois estão concluindo que estamos no pior momento, com recordes de casos e isso NÃO ESTÁ se verificando no número de sepultamentos (Crivella já disse que teremos menos sepultamentos em junho de 2020 do que em junho de 2019) e no número de internações.

Se há possibilidade de erro no uso dos dados por data do evento, com o uso por data da confirmação do exame o erro não é uma possibilidade, mas uma certeza.

Matemática epidemiológica

Os modelos básicos são do tipo SIR (susceptíveis, infectados e removidos). Uma epidemia corre rápido quando há muitos susceptíveis e um número razoável de infectados. Ela começa a reduzir quando os removidos (pessoas que não transmitem mais e nem se contaminam mais) aumenta.

Apesar do alarmismo de que a imunidade não dura, não há evidências relevantes de reinfecção no mundo e, principalmente, já sabemos que há muita gente não susceptível ao vírus.

A imprensa trata o fato de termos centenas de milhares de curados e milhões de assintomáticos e não susceptíveis como “terraplanismo epidemiológico”, como irrelevante, mas na ausência de vacina são esses que vão proteger os mais vulneráveis quando tudo reabrir.

https://www.youtube.com/watch?v=gxAaO2rsdIs

Esse vídeo mostra claramente os efeitos de cada tipo de ação para segurar a epidemia. Ficam claros os motivos para o distanciamento social falhar, pois pequenas imperfeições já fazem com que o modelo fure.

E nós nunca teremos “pequenas imperfeições” pois entre 30% e 40% das pessoas precisam continuar trabalhando, caso contrário não comeríamos, não teríamos coleta de lixo, água tratada, energia elétrica etc. Não surpreende que continua havendo casos diários mesmo em locais com bons resultados na contenção da Pandemia.

Sinto-me completamente impotente diante desse quadro.

É razoavelmente óbvio que o pico de uma pandemia é dado pela data do EVENTO e não pela data do REGISTRO. A data do registro pode atrasar 2 meses, o que parece ser o caso no Rio de Janeiro.

Eu não sei mais o que fazer para que esse debate apareça na imprensa. É extremamente angustiante que ninguém na grande imprensa, nem especialistas que são convocados a falar, se importem com esse uso viesado e equivocado tanto dos números da Pandemia no Brasil quanto da lógica da matemática epidemiológica.

Muita gente fala que isso é apenas uma tentativa de manipulação da opinião pública. Eu ainda acredito que seja apenas má formação matemática. Os jornalistas não conseguem ter a sensibilidade necessária para orientar suas percepções de forma correta.

Por isso vemos esse debate insano nos jornais e nas TVs, governadores querendo abrir, pois estão vendo redução forte no número de óbitos e internações, e a imprensa alarmando as pessoas para recordes que, de fato, ocorreram 40 dias antes.

Não sei mais o que fazer. A mim parece que a ciência morreu. É a idade das trevas jornalísticas.

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Red Pill COVID19: A baixa mortalidade nos estados do Sul do Brasil.

Posted on 23/06/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Política | Tags:, , |

Essa série “red pill” não é para contar “verdades” sobre a COVID, mas para debater hipóteses fora das limitações da mídia e da luta política. A pílula vermelha é aquela que permite ver a Matrix, ou seja, fugir do condicionamento e das ilusões.

O Brasil está razoavelmente intrigado com o fato de alguns estados terem sido muito mais atingidos que outros. A mortalidade por MM de habitantes chegou a 20 vezes mais na comparação entre alguns estados do Norte e Nordeste e os estados do Sul e do Centro-Oeste.

Imunidade cruzada

Ninguém sabe exatamente como funciona a relação entre o nosso sistema imunológico e a COVID. Sabemos que algumas pessoas ficam expostas ao vírus e não pegam, ou se pegam, não desenvolvem anticorpos e não têm sintomas. Temos pessoas que desenvolvem anticorpos, mas que desaparecem em poucos meses. Temos pessoas que ficam extremamente vulneráveis e são internadas ou vão a óbito.

A mortalidade absoluta do vírus já foi estimada pelo CDC dos EUA em 0,26%, o que é condizente com a pesquisa brasileira com profissionais de saúde, onde 83.000 tinham sido contaminados com 169 óbitos (à época da pesquisa), 0,2%.

Sabemos também que nosso sistema imunológico é constantemente “treinado” para enfrentar patógenos e que, quanto maior nossa exposição, mas competente nosso sistema fica. Essa é a lógica da maioria das vacinas, treinar nosso sistema imunológico para que seja competente no enfrentamento de determinado patógeno, com a vantagem de não sofrer as consequências do patógeno.

Há uma hipótese já bem estudada e avançada indicando que nem todos são susceptíveis ao vírus. E que muitos de nós o enfrenta com base em memórias imunológicas de outros vírus semelhantes. A isso chamamos imunidade cruzada. O organismo não enfrenta os patógenos apenas com anticorpos específicos, há outras ferramentas.

A hipótese do Sul do Brasil

Nada do que será sugerido aqui é verdade ou provado. Isso não é um trabalho científico, mas um trabalho exploratório para levantamento de hipóteses, que se forem de interesse podem ser estudadas e provadas, ou descartadas.

Praticamente todos os estados do país começaram a sofrer com excesso de síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) no final de fevereiro. A hipótese óbvia é que a COVID estava por aqui muito antes de virar notícia e de virar luta política. Quanto a isso não há muita dúvida, apesar de a luta política ter transformado tudo o que deveria ser técnico em algo moral. Uma enorme perda de tempo.

Essa evolução na SRAG aconteceu também nos estados menos atingidos pela COVID, como os estados do Sul e do Centro-Oeste. Todos foram impactados de forma mais agressiva em finais de fevereiro (semanas 9 a 11).

A hipótese que me parece plausível é que esses estados, por serem reiteradamente mais atingidos por síndromes respiratórias, desde sempre, tenham levado os moradores a desenvolverem sistemas imunológicos mais competentes para lidar com esses patógenos.

Há outras variáveis, as quais não temos acesso, como a quantidade de infectados no início do surto, mas pelos gráficos a seguir deve ficar claro que a hipótese de imunidade “treinada” pode ter alguma relação.

Estados com incidência elevada de SRAG todo ano

Os gráficos a seguir mostram alguns dos estados com menor incidência de COVID e óbitos no país. Perceba que as curvas coloridas, que são históricos e previsões de incidência de SRAG oscilam entre 1 e 2 casos por 100.000 habitantes por semana epidemiológica.

Todos apresentaram elevações e níveis de infecção e internação entre 4 e 6 por 100.000 habitantes.

O número de óbitos de COVID por 100.000 habitantes (22/06, fonte: painel interativo do Ministério da Saúde): MS (2), SC (4), RS (4) e PR (4).

Estados que não são impactados por SRAG de forma relevante

O número de óbitos de COVID nos 4 estados mostrados no gráfico abaixo é: AM (65), CE (61), PA (54), RJ (52).

 

Análise dos dados e outliers

Apesar da escala não ajudar, pelos dados de 2019, podemos ver que o índice “normal” de internações (pico da curva verde em 2019) por SRAG nos estados estudados foi o seguinte:

Menos atingidos por síndromes respiratórias (por 100.000 habitantes por semana): AM (0,1), PA (0,15), CE (0,08) e RJ (0,09).

Mais atingidos por síndromes respiratórias (por 100.000 habitantes por semana): RS (0,8), SC (0,6), PR (0,7) e MS (0,6).

São os estados com mais óbitos por COVID no Brasil e os com menos óbitos (excluindo MG).

É claro que podemos sempre pensar que esses estados receberam MENOS turistas, mas não podemos negar que tiveram uma alta muito grande nos casos de SRAG na mesma época dos estados mais afetados. Os efeitos estavam lá também. Devemos lembrar que já se fala em COVID em Agosto na China e a Itália informou que já havia sinais da COVID nos esgotos do país em dezembro de 2019.

Nós temos 3 outliers, pontos fora de Curva, que podem ter outras explicações.

Pernambuco e SP têm índices mais altos de incidência de SRAG (respectivamente 0,3 e 0,2 por 100.000 habitantes para 2019), mas ambos tiveram alta mortalidade. PE (44) e SP (28). A explicação pode estar no grande volume de tráfego de estrangeiros e no carnaval muito frequentado.

MG não tem um índice tão alto de SRAG, é semelhante ao de SP, e tem uma das mais baixas mortalidades do país. E não se deve à subnotificação de COVID, pois a mortalidade por SRAG também é baixa em relação ao país (0,7 por 100.000 habitantes por semana, enquanto o Amazonas bateu 14, vinte vezes mais). O caso de MG não é fácil de explicar, pois o Carnaval lá também é forte. Talvez receba muito menos turistas estrangeiros.

O futuro nos estados do Sul

Devemos observar o futuro da epidemia nos estados ainda menos afetados para verificar se a hipótese se confirma, de que populações mais expostas a patógenos respiratórios podem ser menos susceptíveis à COVID.

Há um perigo nesses estados que é a competição dos dois patógenos. Está chegando justamente a época de gripe, em que há uma alta nas internações e óbitos.

Minha impressão é que a COVID já está por lá há algum tempo e o aumento nas internações e óbitos não será exclusivo da COVID, mas da temporada de gripe que já é grave nesses estados e nessas épocas. Devemos ver um aumento nas internações, mas acredito que não chegará nem perto do nível encontrado nos estados do N e NE.

Posso estar enganado, é claro, algumas coisas, porém, são inequívocas:

– A COVID está fazendo estrago desde o final de fevereiro. Pelo período de incubação da doença, provavelmente começou a se espalhar entre os dias 20 e 25 de fevereiro (semana 10 vai até 01 de março).

– Nós estamos analisando os dados de forma errada no Brasil. Para efeitos de precisão dos dados, precisamos saber se esses casos de SRAG foram, de fato, COVID, mas para nos guiarmos em políticas públicas, isso NÃO é necessário. Já deveríamos estar olhando os gráficos da SRAG como proxys da COVID há muito tempo.

– Nossas curvas reais devem estar inclinadas para a esquerda em relação ao que estamos vendo nos noticiários. Se considerarmos apenas os óbitos e casos por DATA DE EVENTO já teremos picos e platôs acontecendo entre final de abril e maio na maioria dos estados mais atingidos. Se utilizássemos as curvas de SRAG, a curva iria ainda mais para trás, talvez entre final de março e início de abril, em alguns estados.

– Em resumo, os números que vemos todos os dias na TV podem não ter significado gerencial algum, ao contrário, podem estar nos levando a analisar tudo errado.

É uma hipótese, não é algo político, moral ou ideológico.

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O Novo Normal. Vamos voltar a ser o que éramos?

Posted on 03/06/2020. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , |

Prezados Leitores,

Neste vídeo trago evidências que podem indicar que voltaremos a ser o que éramos.

São três vertentes:

1. Como nós avaliamos risco. Se o risco é alto e imediato, nos retraímos por instinto básico de sobrevivência. Se o risco permanece alto, as pessoas dialogam com ele para seguirem a vida.

2. O histórico de pandemias graves não mostrou que elas voltaram com o mesmo risco nos anos seguintes. E não há evidências de que não voltamos à vida normal mesmo depois de crises muito graves.

3. A COVID encontrou muitos “aliados” para ser tão mortal. Esses aliados não devem ser repetir no futuro, ao menos não com essa intensidade.

 

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Pandemia, Comunismo, OMS, Ciência e o insight de Slavoj Zizek, teórico cultural marxista.

Posted on 01/06/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , |

Prezados leitores,

Zizek lançou um livro sobre a Pandemia, pois vê alguns caminhos para a reinvenção do comunismo.

É gente, apesar de algumas pessoas acreditarem que o comunismo não existe mais, Zizek é respeitadíssimo, muito lido e seu livro, lançado pela Boitempo (apresentada nas palavras de um de seus autores assim: “a Boitempo, sem estar linkada a um partido, ela faz o papel que o Gramsci queria: da hegemonia cultural”), já está bombando e dando o que falar!

Como a Pandemia vai ajudar a reinventar o comunismo? Como vai organizar o mundo em um só diapasão, como vai reforçar os valores coletivistas, como vai ajudar na construção da hegemonia cultura e do pensamento único?

Veja no vídeo!

 

Ps. Tenho dificuldade para entender por que esses teóricos Marxistas falam tanto de comunismo, se o comunismo não existe… rsrsrs

Para quem quiser saber mais sobre filosofia da ciência, segue o link do meu livro na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

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A filosofia da COVID19: Cloroquina, o remédio politizado.

Posted on 14/05/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Política | Tags:, , , |

A ciência, de uma hora para outra, virou ambiente de certezas. Não há nada menos científico do que a certeza e do que a escolha de resultados que confirmam nossos vieses.

O caso da Cloroquina (HCQ) mostra claramente a falta que faz a humildade e um senso de julgamento minimamente equilibrado para que o diálogo traga bons resultados práticos nessa Pandemia.

Antes de continuarmos, alerto que não faço ideia se o tratamento funciona. Não é o que vou discutir aqui. Vou discutir algumas disfunções do comportamento humano, que foram escancarados durante essa Pandemia.

 

O remédio politizado

Nunca tinha ouvido falar de HCQ na vida. A primeira vez que soube do remédio foi pela imprensa, porque foi indicada como panaceia pelo Bolsonaro e pelo Trump.

Desse dia em diante todas as notícias de grandes jornais e da mídia mais relevante foram no sentido de desacreditar o remédio.

Mas a HCQ não desapareceu, apesar de a imprensa dar certeza diária de que não funciona. Continuei recebendo informações em redes sociais e em mídia de médio porte.

A primeira vez que tive contato com o protocolo de uso de HCQ + AZT + Zinco foi através de um monte de matérias sobre o caso da Prevent Senior. Eles são um plano de saúde para a terceira idade e foram os primeiros a enfrentar volume elevado de pacientes com COVID no Brasil. Eles têm 470.000 clientes de terceira idade, o equivalente a uma cidade de 2 milhões de habitantes. Quase todos os clientes são do grupo de risco.

O diretor presidente avisou que, no surgimento dos primeiros sintomas, passaram a mandar um kit com HCQ + AZT + Zinco para os pacientes em casa.

Deu certo? Dá certo? Ele afirma que sim.

Podemos afirmar que não há dúvida de que ele acredita que funciona. Usou nele mesmo e em toda a família, inclusive na mãe idosa. Ele é presidente de um plano de saúde, não quer que as pessoas fiquem 10-15 dias internadas. Isso é custo altíssimo pra ele.

Funcionou o coquetel? Não sei. Sei que os clientes receberam o tratamento, e não há motivos para achar que os médicos e o plano são irresponsáveis, pois todos estão com seus CRMs e registros na berlinda.

E o coquetel continuou na mídia paralela e nas redes sociais. Na grande mídia, apenas saiam notícias que desabonavam o uso.

Alguns médicos famosos procuraram esconder o uso do remédio, outros falaram que usaram. Mais mistério, menos ciência, mais política, menos respeito e transparência.

O médico do Doria, Dr. David Uip, escondeu seu protocolo de tratamento (que incluía a HCQ). Acabou dando a impressão de que é coisa para médico rico usar e deixar os pobres por conta do sistema imunológico.

Continuo recebendo em redes sociais, de gente séria e de confiança, relatos de médicos, áudios, vídeos, falando desse protocolo ou com variantes como uso de anticoagulantes a partir de determinado d-dímero ou suplemento de vitamina D.

Funciona? Como vou saber, se isso se tornou um submundo de prescrições “proibidas”?

O Jornal O Globo estampou a seguinte manchete, com os dizeres de um dos maiores infectologistas do país: ‘O médico me ofereceu Cloroquina. Eu disse: Me respeite’. Eu penso: chamou de idiotas ou crentes os médicos que usam.

Dentro da reportagem lemos ele falando: “escrevi várias vezes para amigos dizendo que eu aposto que os estudos bem feitos com cloroquina — aqueles randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo — não mostrarão eficácia, particularmente para cloroquina com azitromicina.”. Pelo que pude entender, o não funcionamento é a “aposta” dele. Mas recomenda que não façam uso. Em que isso é ciência, eu não sei.

 

O protocolo do SUS

Com sintomas, vai pra casa e toma dipirona.

Se você é de classe média ou média-alta, acessa um médico disposto a lhe receitar algum coquetel e a lhe acompanhar. Se é desprotegido, está por conta de si mesmo.

Dá certo o coquetel? Repito: não faço ideia.

Mas nem todos podem acessar um tratamento de imediato, e vão ficar na angústia de permanecer em casa torcendo pelo melhor e com medo de, quando precisar de internação, ser tarde demais. Ou não ter vaga.

Talvez uma dipirona seja mais certo do que usar algum coquetel não aprovado pela ciência. Mas só quem pode optar é quem tem recursos.

 

O estudo que “destruiu” a cloroquina

Há alguns dias veio a manchete definitiva “Maior estudo já feito com hidroxicloroquina mostra que droga não traz benefício no tratamento da covid19”.

Acabou. Chegou a prova! Eu, como sempre, li o estudo.

Eu tenho um pouco de dificuldade para entender por que há pesquisadores que não fazem questionamentos básicos sobre seus estudos, que lhes poupariam tempo e dinheiro. Não sei se há verba já empenhada, se precisam publicar, ou se há má-fé. Não deve ser má-fé, pois qualquer pessoa que lesse o estudo veria que a metodologia não presta. Não precisa ser médico ou estatístico. Beira o ridículo.

Os defensores da HCQ criticaram o estudo por ser feito em hospitalizados e por não usar o zinco e a AZT. Mas se lessem o estudo teriam outros motivos, mais graves, para criticá-lo. Não vou fazer uma análise extensiva dos erros metodológicos, mas ilustrar alguns e colocar um link para quem quiser ver outros debates:

Os pacientes tratados com HCQ estavam mais doentes do que os que não foram tratados. Já é, em si, inacreditável que o pesquisador comece a pesquisa com um viés desse nível. Mas piora.

 

Os pacientes não tratados com HCQ eram mais novos (18,6% tinha menos 40 anos, contra 9,9% do grupo HCQ) e havia mais mulheres (que morrem bem menos). Mais um viés inexplicável.

 

Os pacientes tratados com HCQ tinham mais diabetes (37,1% contra 33,6%) e hipertensão (49,1% conta 6,7%). O número de hipertensos é assustadoramente mais alto no grupo HCQ. Não dá para entender o estudo sair com um viés desse tamanho. Esse volume de hipertensos praticamente garante que o grupo tratado com HCQ tenha mais comorbidades acumuladas (138,9% de presença de comorbidades contra 92,6% no grupo não tratado).

O estudo fica ainda mais “viesado” quando o pesquisador, em vez de comparar separadamente pessoas que evoluíram para óbito ou para entubação, resolveu juntar os dois, para prejudicar o grupo com HCQ. Quando os dados são separados, a mortalidade do grupo HCQ desaba. Mas é um pouco complexa essa análise, portanto indico a discussão que aconteceu no twitter sobre o caso. O estudo original está disponível para análise.

https://twitter.com/dperetti/status/1259154540630364162

Não é necessário conhecimento profundo de estatística para ver os vieses injustificáveis.

E a ciência deu seu veredito final, através da grande imprensa, a partir desse estudo. É a ciência que eu “curto” nas redes sociais. Aquela que me permite xingar o outro de idiota.

 

O estudo que ninguém viu, não saiu na grande imprensa e que não é “a ciência que me permite chamar o outro de idiota”

Praticamente na mesma época, foi publicada uma matéria com o seguinte título “Hydroxychloroquine, Azithromycin, and Zinc Triple-Combo Proved to be Effective in Coronavirus Patients, Study Says”. Foi publicada no Daily Mail.

Levei uns 30 minutos procurando o artigo original e percebi que, mesmo o estudo tendo sido publicado no dia 08 de maio, não houve repercussão na grande mídia. O estudo que “destruiu” a HCQ teve ampla repercussão. Mundo inteiro. Toda a principal mídia do planeta repercutiu.

O estudo que comprovou a eficácia do coquetel não é um estudo sobre a HCQ+AZT em si, mas sobre o zinco. O interessante dele é que usa o coquetel que as pessoas têm falado há quase 2 meses e que a imprensa tem tentado nos convencer que não serve pra nada. Todos os grupos estavam no HCQ+AZT, um grupo recebeu zinco, outro não.

https://www.sciencetimes.com/articles/25658/20200512/hydroxychloroquine-azithromycin-zinc-triple-combo-proved-effective-coronavirus-patients-study.htm

O estudo original pode ser lido aqui:

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.02.20080036v1

Só a leitura dos quadros do estudo já mostra que eles procuraram eliminar os vieses. Não há viés de NADA. De raça, gênero, tabaco, remédios que estavam tomando, condições preexistentes etc. Como um estudo deve ser.

Apresento a seguir a tabela com os resultados. Falam por si. Mesmo para quem não é estatístico e não sabe interpretar um p-value.

O estudo não é sobre o uso antes da hospitalização, mas depois.

77% dos tratados com o coquetel + Zinco receberam alta sem UTI e sem respirador, 68% sem zinco.

De quem foi para UTI 73,6% morreram com Zinco e 74,4% sem zinco.

De quem não foi para UTI, apenas 6,9% do grupo que tomou zinco foi a óbito, enquanto 13,2% dos que não tomaram foram a óbito (ou foram transferidos por estarem em estado terminal/ moved to hospice).

 

O coquetel funciona?

Não sei. A análise é sobre nós, nosso comportamento e nossos vieses.

Essa pandemia trouxe à tona evidências de que nossa interpretação da ciência, do positivismo, da moral e do direito estão nos levando, literalmente, a um fundamentalismo moral. Uma crença quase religiosa de que somos melhores, éticos e que estamos do lado certo do mundo, da vida, do coletivo, da história e da ciência. A verdade é aquilo em que nós acreditamos. O resto é lixo, maldade, genocídio etc.

Quando alguém faz, propõe ou age em desacordo com essa micro-moralidade, nós atacamos essa pessoa, jogamos a empatia na lata do lixo, pois somos moralmente infalíveis e o outro é o inferno que me atrapalha.

A ciência não vai trazer nenhuma resposta perfeita agora. Mesmo depois não trará, pois temos remédios e vacina para a gripe e ela matou quase 2x mais idosos na Itália na temporada de 2014-2015 do que a COVID matou agora. A ciência nos deu a vacina e o remédio, mas não deu a garantia de sucesso, nem evitou uma brutal mortalidade excessiva.

Se estamos diante de enormes incertezas, é razoável que as pessoas escolham em que acreditar. As nossas escolhas falam mais sobre a nossa moralidade do que sobre a nossa racionalidade. A ciência não nos dá respostas precisas, mas a gente pode escolher a imprecisão que leva à cura, à melhora das pessoas e à esperança nessa Pandemia. Mas quem faz isso é chamado de negacionista, terraplanista, genocida, idiota e gado.

Não devemos deixar nossas preferências políticas nos embrutecer. Estamos nos escravizando voluntariamente para defender posições políticas. Libertemo-nos.

Eu ainda não sei se tomaria o coquetel, se precisasse. Talvez eu não precisasse viver essa insegurança se o remédio não tivesse sido politizado e se não houvesse massificação de um viés político-ideológico. Sofremos todos com essa irresponsabilidade de “ter certeza de que não dá”.

Se no futuro descobrirmos que funciona, teremos bloqueado o uso de medicamentos baratos e acessíveis para gente pobre, apenas para provar que estamos certos. E com bastante truculência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A galera da ciência, aquela que tem certeza de tudo e só aceita informações que corroboram suas crenças, expulsaram o debate sobre a cloroquina da imprensa. 100% das informações em grandes mídias desaconselhavam o uso.

Recentemente fizeram “o maior estudo do mundo” que provaria que a HCQ não funciona, não serve pra nada.

 

 

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A filosofia da COVID19: O Novo Normal.

Posted on 11/05/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , |

No capítulo 10 do livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”, faço um resumo de minha dissertação de mestrado de 1998, explicando como funciona o raciocínio sistêmico.

Em resumo, é um contraponto ao raciocínio linear, aquele que assume, antes de análise aprofundada, direções claras de causa e efeito entre os fenômenos. Ao pensar em sistemas, as relações de causa e efeito são fluidas e o que, sob uma perspectiva, pode estar causando, sob outra perspectiva pode estar sofrendo o efeito. Não há compromisso com uma só direção de análise, uma só proposta de fenômeno.

 

O Novo Normal é um misto de raciocínio linear com raciocínio motivado.

Boa parte das pessoas que veem e enunciam o tal “Novo Normal” parece misturar raciocínio linear com raciocínio motivado. Fazem uma análise trivial e univariada da realidade, adicionando um pouco dos seus desejos mais profundos de mudança da sociedade (alguns bem ditatoriais até). E, infelizmente, creem estar ao lado da “verdade” ou da “ciência”, quando na verdade estão apenas externando um senso comum pouco elaborado, aliado a uma estatística univariada.

O raciocínio sistêmico nos permite investigar 3 variáveis que devem indicar que, ao contrário da visão popularizada pelas profecias de dezenas de milhões de mortes, o mais provável é que voltemos em grande parte ao que éramos antes da pandemia. São elas:

  • Nossa avaliação pessoal de risco;
  • O histórico de nossa reação após grandes pandemias; e
  • A redução de letalidade sistêmica na eventual volta do vírus.

Ressalva: Esse não é um artigo médico-científico, muito menos uma sugestão de comportamento às pessoas. É apenas uma investigação de quem somos nós, como pensamos e de nossa história. Tudo o que está escrito aqui está ao alcance das pessoas, sem necessidade de expertise em ciência médica ou epidemiológica.

Quanto à COVID19, entendo que há previsões para todos os lados, desde que ela terá efeito negativo na mortalidade excessiva, até que será um evento com dezenas de milhões de mortos no mundo (primeiras projeções do Imperial College). O futuro é incerto e o presente nos traz muito medo. Devemos nos proteger, mas sem deixar o pensamento crítico e a estatística multivariada de lado.

Ao leitor que ainda não está preparado para ler mensagens menos trágicas a respeito do futuro, este artigo não é recomendado. Poderá voltar quando a pandemia passar e sentir necessidade de algum enredo de esperança.

 

  1. Nossa percepção de risco não é absoluta, mas relativa.

Nós funcionamos como o sapo cozido. Se jogarmos o sapo em água fervendo ele percebe o risco e consegue escapar, se esquentarmos a água aos poucos ele morre fervido.

Riscos muito graves e muito evidentes nos levam a agir de forma rápida para nos protegermos. Mas riscos graves que permanecem por muitos períodos, acabam sendo incorporados em nossa avaliação de normalidade.

Uma família de classe média/alta de bairros nobres dos diferentes estados brasileiros, não toleraria o risco em que vivem as famílias de classe baixa morando em regiões conflagradas e tomadas por tráfico ou milícia. Não deixaria os filhos saírem para a escola sob barulho de tiros, não deixaria os filhos entrarem em casa se houvesse um cadáver mutilado na porta. Mas isso, em alguns lugares, não é incomum. É um efeito trágico da desigualdade.

Se o risco “descer o morro”, como falamos no RJ, no início os moradores de áreas nobres vão se retrair, mas depois vão passar a dialogar com ele e relaxar os cuidados, pois precisam viver.

É assim. Sempre foi assim. É assim em regiões de guerra civil, sírios negociam com o risco diariamente para viverem com alguma naturalidade.

Essa realidade é inescapável. O risco violento e imediato nos faz retrair e tomar providências rigorosas, o risco violento permanente nos faz negociar e aumentar nossa tolerância para vivermos nossas vidas.

Um outro exemplo. O risco de contrair tuberculose na Rocinha é 15 vezes maior do que a média brasileira, provavelmente 50 a 100 vezes maior do que no Leblon. E as pessoas saem às ruas e levam suas vidas normalmente. Dialogam com o risco excessivo para viverem a vida, que é o objetivo de todos nós.

Infelizmente, para boa parte de quem mora nas periferias, o risco de morte, de doenças endêmicas, de não ter acesso a tratamentos médicos, de filas do SUS, de conhecer alguém que morreu recentemente de forma estúpida e evitável, de ser assaltado e ter sua vida ameaçada é muitíssimo maior do que nas bolhas de classe média e alta do país.

Talvez por isso as pessoas tenham tanta dificuldade de cumprir a quarentena, por já viverem sob regimes elevados de risco. É uma hipótese apenas.

 

  1. Nós voltamos à vida depois da Gripe Espanhola.

Para que a atual pandemia atinja os níveis da Gripe Espanhola (GE), teríamos que atingir entre 200 e 400 milhões de mortes (nas estimativas mais comuns). No Brasil, algo como 200.000 mortes, e concentradas em poucas cidades.

Logo depois da pandemia, houve cuidados e certo medo de sua volta, mas a década de 1920 foi especialmente profícua para o mundo. Os EUA, um dos lugares mais atingidos pela GE, viveram uma década de euforia econômica, cultural, musical e de desenvolvimento, culminando com o Crash da bolsa em 1929, que foi causado exatamente pelo excesso de otimismo. Aliás, o desespero e o desalento gerados após o Crash de 1929 duraram muito mais tempo do que os efeitos da GE. Esse é um perigo que corremos hoje.

A respeito da década de 1920 nós não escrevemos sobre o medo, mas sobre realizações. Realizações científicas, intelectuais, culturais e econômicas. Sobre a década de 1930, após a crise econômica que assolou o mundo inteiro, escrevemos sobre o desalento, a pobreza, a fome, o suicídio e a ascensão de regimes totalitários.

Reflitamos: Diante de um dos eventos mais catastróficos da história, em termos de velocidade de óbitos, superando inclusive as duas grandes guerras, nós fomos capazes de dialogar com o medo e com a história e voltar a viver de forma frutífera. E estávamos muito feridos, pois provavelmente a maioria das pessoas teve algum familiar ou amigo próximo vítima da GE, mas voltamos.

Estão condicionando nossa volta à vida normal a remédios milagrosos e vacinas que nunca existiram (para coronavírus). Após a GE não houve vacina, não houve remédio potente, nosso sistema de saúde continuou péssimo, as pessoas passavam fome em muitos lugares, os hábitos de higiene eram inexistentes e quase todos viviam em condições precárias de saneamento básico. E voltamos.

E o mais importante. A Gripe Espanhola nunca mais voltou a assombrar a humanidade. Não houve mais nenhum evento único com dezenas de milhões de mortes causadas por vírus depois dela.

 

  1. O que esperar da volta da COVID19?

Nós estamos vendo uma destruição enorme do vírus, com excesso de mortalidade em vários locais do mundo. Em outros locais (como em metade da Europa) a mortalidade excessiva ficou negativa.

Por que isso? Por que devastou algumas regiões e outras não? Não sabemos responder ainda.

As coisas, porém, estão fora de perspectiva, pois estamos no meio da pandemia e com muito medo, o que nos leva a uma visão linear do problema. Vemos apenas uma variável: o vírus. E associamos toda a destruição causada exclusivamente a ele, mas isso não é verdade. Ele está tendo muita ajuda para causar essa destruição.

Nós estamos horrorizados com as mortes narradas diariamente, alguns vídeos com pessoas com falta de ar nos fazem entrar em desespero.

Mas, infelizmente, as doenças por patógenos externos que levam à morte não são diferentes, na verdade, algumas são mais assustadoras. As 150.000 mortes anuais por problemas respiratórios no Brasil também acontecem de forma horrível, com as pessoas sufocando ou com falência sistêmica dos órgãos.

Se narrássemos o estado das pessoas que vão a óbito por malária, teríamos um quadro devastador. Falência do fígado, dos rins, rompimento do baço, hipóxia por anemia severa, inchaço cerebral e edema pulmonar. E nós temos remédio e protocolo de tratamento para malária.

Quando a meningite, a encefalite ou a tuberculose levam a óbito, os quadros clínicos em que ficam os pacientes são deprimentes.

O ponto aqui é trazer as coisas para a perspectiva correta. Estamos vendo mortes narradas, mortes horríveis, principalmente, por falta de ar. Ocorre que os outros óbitos que não são narrados, pois estão dentro da normalidade, não são menos horríveis. Todo óbito de doença causada por patógeno é horrendo. A morte por dengue hemorrágica é digna de filme de terror. Desesperadora.

Morrer por doença severa é sempre horrível. Tive um amigo que teve TB no cérebro e foi se deteriorando por 2 meses, perdeu os movimentos, entrou em coma, ficou cego, teve tromboses diversas (como na COVID) até que teve falência múltipla de órgãos. Até então era saudável e tinha 40 anos. Minha mãe morreu de forma inesperada em 2004 após uma infecção hospitalar avassaladora.

Todas essas doenças, que são recorrentes, não precisam de idade ou de comorbidades para destruir, elas matam por si mesmas, pela violência de sua reação no organismo.

Para todas elas nós temos remédio, protocolo testado e aprovado, vacina, preparação dos médicos, protocolo de isolamento eficiente etc., e ainda assim ceifam milhões de vidas todos os anos no mundo.

A maldita COVID, ao contrário, está com um caminho extremamente facilitado.

Nós não temos remédio para enfrenta-la, não temos vacina, não temos protocolo de isolamento, não estamos preparados, não temos imunidade de rebanho (pega em todo mundo), é altamente transmissível e deixa 85% das pessoas assintomáticas, que ficam produzindo e espalhando vírus por até 21 dias, o que ajuda ainda mais a se espalhar.

A COVID é a tempestade perfeita, mas não pelo vírus em si, pela estrutura sistêmica de destruição que ele traz consigo.

Pense de outra forma para entender a perspectiva: O que aconteceria se nós não tivéssemos vacina, remédio, protocolo de isolamento e imunidade de rebanho contra a gripe H1N1?

Hoje não dá para saber, mas em 1919 aconteceu exatamente isso e a gripe levou entre 50 e 100 milhões de vidas.

A questão que se coloca, em termos de futuro, é a seguinte: quando a COVID voltar ela vai trazer os mesmos fatores estruturais que a tornaram tão mortal?

Provavelmente não. Seja por que teremos algum nível de imunidade de rebanho, seja por alguns protocolos de cuidados de higiene ou por tratamentos eficazes. Nós não desenvolvemos vacinas para todas as doenças, mas temos tratamento para praticamente todas. Outro ponto é que saberemos explicar porque alguns lugares foram poupados e outros destruídos.

Tem uma outra coincidência trágica que ajudou demais a COVID a fazer seu estrago no hemisfério norte. As temporadas de gripe na Europa foram fraquíssimas esse ano, não houve mortalidade excessiva alguma (pode ser visto nos gráficos da euromomo.eu). A temporada de gripe de 2014-2015 (é no inverno) matou 217.000 pessoas de 65 anos a mais do que a média. Uma temporada barra pesada de gripe matou quase o dobro do que a COVID até agora na Europa. (ver: https://www.youtube.com/watch?v=hjRyw0QrTLM)

Os professores André Vieira e John Ioannidis (o mais respeitado epidemiologista do mundo) associam a elevada mortalidade da COVID com o fato dela matar os mesmos indivíduos que a gripe comum, como não houve mortalidade excessiva no inverno, havia disponibilidade de pessoas vulneráveis para outra onda de gripes (fora de temporada). Mais um elemento estrutural que ajudou a COVID a ser tão mortal.

COVID + razões estruturais = desastre.

Precisamos conhecer essas questões estruturais tão bem quanto o vírus em si.

Conclusão

Há todos os motivos do mundo para termos medo. O principal deles é a doença ser desconhecida, não ter remédio e infectar a todos e muito rápido, o que deixa os sistemas de saúde lotados.

Porém estamos discutindo aqui se nunca mais seremos os mesmos. Entendo que essa visão não se sustenta, pelos motivos descritos, que resumo a seguir:

  • Nós estamos vivos para viver, é nossa única função orgânica e natural na Terra. Quando encontramos um risco gravíssimo e novo nos recolhemos, mas se esse risco permanecer no longo prazo, acabamos nos acostumando e dialogando com ele para tocarmos nossa vida. Isso não é uma hipótese infundada, é simplesmente uma observação de algo evidente não só em nossa espécie como em todas as outras espécies complexas. Todas dialogam com riscos elevados para cumprir sua função na Terra: viver.
  • Não deixamos de viver após pandemias gravíssimas. Não deixamos de viver quando a varíola matava 2 pessoas a cada 100 em um ano em algumas localidades da Europa no século XVIII. Convivemos com doenças bem mais terríveis do que a COVID há séculos, que continuam matando aos milhões ainda hoje e não deixamos de viver. A década de 1920, pós Gripe Espanhola, foi próspera para o mundo. O ano de 1968 é lembrado pelas revoluções culturais em todo o mundo, não por uma Pandemia mortal (Hong Kong Flu, que matou, em números ajustados para a população da época, 5 vezes mais do que a COVID até agora).
  • Estamos vendo a pandemia sob um regime de excesso de informação. Se tivéssemos esse mesmo excesso de informação sobre outras doenças, ficaríamos ainda mais horrorizados. A COVID é uma doença grave, mas que teve facilidades que nenhuma outra doença recente teve: não tem remédio, não tem vacina, não tem protocolo médico, espalha rápido demais, tem período longo de incubação, tem transmissão por parte de assintomáticos durante semanas e não há imunidade de rebanho. A última vez que tivemos uma doença com algumas dessas facilidades, que atingiu todo o mundo, morreram de 50 a 100 milhões de pessoas. Mais recentemente, a H3N2 matou 1.000.000 de pessoas em 1968 e hoje ela volta todo ano como uma das variações da gripe. E continuamos vivendo.

Hoje eu entendo que não há o que fazer, exceto sentir esse medo e nos recolher. Foi a opção das autoridades e dos cientistas que venceram a narrativa pela luta por nos guiar nessa pandemia. Quem gritou mais alto a maior quantidade de mortes, foi mais ouvido. Faz sentido, pois o medo fala alto mesmo.

Mas, em termos de futuro, não há, até agora, nada que indique que não voltaremos a ser o que sempre fomos.

Mesmo que as autoridades continuem nos forçando ao confinamento e sugerindo que não devamos viver como vivíamos, em alguns meses as pessoas vão se acostumar com o risco e voltar à sua rotina aproximada. Sempre foi assim.

Por que sei isso?

Porque é para isso que estamos aqui. As pessoas enfrentam todas as dificuldades, diariamente. Acordam às 4 da manhã, pegam condução lotada, ganham pouco, passam 14 horas fora de casa para se sustentar, justamente para poder abraçar, amar, tocar, beijar, cuidar e buscar a felicidade. Tomar uma cerveja e torcer pelo seu time. A ideia de que isso não vai mais acontecer é absurdamente insuportável. Surpreende-me que as pessoas a aceitem de forma tão fácil.

Vamos nos proteger para um dia conhecermos a história que estamos escrevendo. Por ora tudo é confusão.

Sorte e saúde a todos!

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A filosofia da COVID19: O papel da ciência.

Posted on 10/05/2020. Filed under: Administração, Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , , , |

Escrevi o livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe” para tentar explicar o caminho que levou o Homo Sapiens Sapiens a ser como é. É basicamente uma história, não contada e não documentada, da razão e da racionalidade, aliada a uma história bem documentada da ciência e da crença em Deus. É, sobretudo, um livro de filosofia da ciência.

E por que a ciência e a racionalidade seriam tão importantes para demonstrar que Deus existe? Simples, porque todas as tentativas de demonstrar a existência Dele acabam no campo da ciência empírica e da lógica formal.

Por isso foi fundamental demonstrar ao leitor os limites da ciência e da racionalidade, para que ele entenda o que significa “existir”, para o campo da filosofia e da ciência, que é necessário entender antes de nos propormos a provar a existência de Deus, ou de qualquer outra entidade.

Link para ebook (versão impressa com envio suspenso pela Pandemia): https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

A ciência na Pandemia.

Essa pandemia de COVID19 tem mostrado, com muita clareza, que as pessoas não têm a mais remota ideia do que seja, de fato, ciência.

Em verdade, as ações brutais e violentas em nome da “ciência” que vemos agora reproduzem a violência do positivismo de meados do século XIX, onde tudo aquilo que não poderia ser claramente proposto, modelado e medido não deveria ser considerado conhecimento válido.

Essa agressiva visão foi, em grande parte, responsável pelos movimentos críticos (associados às humanidades e ao ideário coletivista) surgidos nos últimos 150 anos.

No livro apresento uma breve história da ascensão e queda do império iluminista das técnicas e métodos das ciências naturais aplicadas em ciências humanas e sociais.

O rompimento com o positivismo (crença no método científico empírico e mensurável como único caminho para trazer conhecimento verdadeiro para a humanidade) veio da própria ciência natural, que desafiou todos os dogmas clássicos e demonstrou que nossa experiência na ciência é, tão somente, uma alegoria de pensamentos condicionados e, muitas vezes, tautológicos. Há enorme utilidade na ciência natural, mas quando vai fora dos seus limites, pode produzir desastres humanos e sociais.

Heisenberg (físico quântico mais importante da história, ganhador do Nobel) rompeu com o positivismo com uma frase que expressa claramente o que escrevi até o momento neste artigo (em tradução livre):

“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido naquilo que podemos dizer claramente e o resto, que é melhor deixar passar em silêncio. Mas alguém pode conceber uma filosofia mais sem sentido, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se omitirmos tudo o que não está claro, provavelmente ficaremos com tautologias completamente desinteressantes e triviais.”

 

O que mais me assusta nesse positivismo agressivo da COVID19?

É que o uso da ciência como verdade e como instrumento de dominação político-ideológica está se dando em grupos que sempre foram combativos ao positivismo. Grupos que sempre pregaram o pensamento crítico ao cientificismo.

O que antes era inconcebível para os movimentos coletivistas (alguns tratam como movimentos progressistas ou de esquerda), aceitar cegamente ordens de uma ciência positiva, tornou-se lei universal. Não só lei técnica universal (ordens que todos devemos seguir), mas lei moral universal (contrariar a ciência positiva dogmática significaria tornar-se uma pessoa má).

Justamente as pessoas que sempre rejeitaram a aplicação das metodologias das ciências naturais em ciências sociais e humanas, que sempre rejeitaram a estatística, a matemática, o método e a modelagem científicos, e pregaram largas e soltas dialéticas em substituição, para atingir a verdade, estão se escudando na ditadura metodológica que está nos guiando a todos, bilhões de pessoas, sem nenhuma crítica, apenas cega obediência.

 

A ciência se presta a esse grau de segurança?

Não. De forma bem simples, repito: não! Em ciência natural, temos elevados graus de segurança, elétrons não têm opinião e prótons não perdem empregos ou a vida, mas em ciências sociais e humanas, a segurança científica é mínima. Nossa forma de enfrentar a Pandemia prova isso, de forma clara.

Parte significativa do livro procura ilustrar para o leitor leigo em filosofia da ciência, que já há 100 anos, pelo menos, não há qualquer dúvida de que a ciência não é ambiente de certezas. Nunca foi, é verdade, mas fomos cegados pela brilhante filosofia da ciência de Newton-Descartes, que nos trouxe evidências muito claras de que estaríamos, de fato, enunciando a VERDADE e não apenas um conhecimento parcial.

Isso morreu, de forma definitiva, por descobertas da própria ciência natural.

Hoje, ciência é, obrigatoriamente, o campo das ideias humanas, consistentes e coerentes com algum paradigma prático e pragmático, que elabora hipóteses à espera de refutação.

Se a hipótese ou a proposta científica não trouxer consigo caminhos claros e objetivos para sua refutação, não é ciência, é ideologia ou religião.

Tomemos o exemplo dos lockdowns ou quarentenas que estão sendo propostos em vários países do mundo.

Não existe nenhuma forma clara para medir seu sucesso ou demonstrar seu fracasso.

O Imperial College alertou o governo inglês que morreriam cerca de 500.000 britânicos se seguissem o modelo sueco, de não fechar o comércio e escolas e buscar a imunidade de rebanho. O governo adotou, portanto, um lockdown rigoroso, e logo depois o Imperial College reduziu a previsão do número de mortos para 20.000.

Onde está a ciência disso? O que poderia mostrar que esse estudo estava errado? A rigor, pode-se sempre dizer que vidas foram salvas, alegando que haveria mais mortes. Mas isso não é ciência, pois estamos comparando fatos empíricos com modelos matemáticos sobre hipóteses que não aconteceram (a não adoção do lockdown).

Poderíamos argumentar que o estudo estava errado apontando duas evidências:

  1. O modelo inglês está com 50% mais mortes por MM de habitantes que o modelo sueco. Deveria ser um desastre sem precedentes na Suécia, mas não aconteceu e ficou bem melhor do que a Inglaterra.
  2. A previsão de 20.000 mortos após a adoção do lockdown está errada, pois o UK está hoje com mais de 32.000 mortos (ver: https://www.ft.com/content/249daf9a-67c3-11ea-800d-da70cff6e4d3)

Meu interesse não é debater os lockdowns ou os estudos da Imperial College em si, mas mostrar que são apenas propostas metodológicas, jamais deveriam ser tratados como o que a “ciência mandou fazer” ou com a verdade trazida pela ciência.

 

A ciência e os burocratas.

No capítulo 14 do livro discuto brevemente como a ciência não consegue ser balizadora da moralidade, e que acabamos sempre decidindo os caminhos da própria ciência e seus impactos na vida cotidiana através de decisões de burocratas ou de legisladores eleitos.

Hoje precisamos decidir a “moral” dos carros autônomos. Em circunstâncias de acidentes inevitáveis o algoritmo precisará decidir a quem colocar em risco. Se há uma mãe atravessando a rua com uma criança do lado esquerdo e um idoso vindo do lado direito, nosso processo decisório humano desvia o carro para algum dos lados, ou simplesmente continua e atropela a todos. Um computador terá que tratar isso a partir de algoritmos (decisão moral previamente estruturada).

Quem privilegiar? Um grupo de crianças, um grupo de idosos, ou o próprio motorista?

Obviamente que, se deixarmos exclusivamente para a indústria, ela vai programar no interesse de quem paga. Tentamos vender carros seguros para os motoristas, dificilmente venderiam um carro autônomo que, em situação de acidente inevitável, opta por colocar o próprio motorista em risco.

Exceto se… for lei.

Na prática a moralidade do ato não será avaliada pela ciência, pela estatística ou pela verdade universal, mas por um conjunto de burocratas ou legisladores. Em países ditatoriais, pelo ditador. Em ambientes laissez-faire ou dominados pelo lobby das indústrias, será decidido na direção do interesse econômico.

Nada disso é ciência.

O exemplo que trago no livro é o da luta contra a malária na África. A malária atinge cerca de 200 milhões de africanos todo ano, com cerca de 400.000 mortes.

A ciência trouxe uma solução potencialmente definitiva, um mosquito geneticamente modificado que só gera mosquitos machos, o que faria com que a população de mosquitos fosse gradualmente extinta.

A potencial solução encontrou resistências de grupos religiosos locais, que acusaram os cientistas de brincarem de Deus, de grupos políticos, de ambientalistas etc. Nada disso é ciência, mas é o que comanda a ação humana.

Segue parte do livro em que discuto a estranha racionalidade da “não-ação” humana:

Quem entende o mundo de forma sistêmica, sabe que não vivemos de solução em solução, mas de problema em problema. Qualquer ação humana modifica tudo, não é possível fazer apenas “uma coisa”.

Perceba como é curioso nosso processo decisório, como é difícil entender sua racionalidade. As organizações ambientais acusam a ação humana de ser responsável pela extinção de 3 espécies por hora aqui na Terra. E não parece haver muito o que fazer quanto a isso. Quando se vai discutir a eventual extinção de um mosquito específico, que leva miséria e doença às populações humanas mais carentes, decidimos não o fazer. Só nas poucas horas que levei escrevendo e revisando esta parte do livro, 12 espécies foram extintas.

Não pretendo fazer aqui um julgamento de valor, apenas procuro mostrar que a extinção de milhares de espécies, segundo os ambientalistas, acontece todos os anos. Durante o tempo em que nossas instâncias políticas e multilaterais discutiam o uso ou não do mosquito geneticamente modificado, talvez 100.000 espécies tenham encontrado sua extinção. E empreendemos esforços milionários para salvar uma, exatamente aquela que sabemos ser responsável pela malária.

 

Deixemos a ciência em paz para fazer o seu papel.

Ciência é ferramenta de conhecimento, não se presta a justificativas perfeitas para decisões políticas e ideológicas, pois é, por definição, passível de refutação. Na verdade a ciência evolui nesse sentido, de alterar o conhecimento anterior por um modelo melhor.

A sociedade aberta da ciência (capítulo 5 do livro) está funcionando vivamente nessa Pandemia, com milhares de estudos simultâneos em todo o mundo, lutando contra aqueles que querem usá-la para justificar pseudoverdades tribais, pensamento único e sonhos ideológicos e revolucionários.

Não podemos deixar a sociedade fechada, tribal e ideológica se apropriar de um campo do conhecimento humano que é fluido e imperfeito, para justificar ações ditatoriais.

Ciência é liberdade, transparência e, principalmente, apreço pelo contraditório.

O que estamos fazendo hoje é escolhendo lados, isso é tudo, menos ciência. Estamos funcionando como aqueles filmes de tribunais que trazem especialistas que servem apenas para corroborar a hipótese da defesa ou da acusação. No processo judicial, pelo menos, há um juiz para decidir a verossimilhança das hipóteses. Nessa pandemia, não há nada, exceto a opção por aderir cegamente a verdades absolutas inexistentes.

Tudo em nome da pobre ciência, que não tem culpa de nada.

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E se o Banco Central (DE FATO) emprestasse dinheiro pra nós? Agora falando sério.

Posted on 12/04/2020. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, , |

Prezados,

No vídeo em que brinquei sugerindo que o BACEN poderia emprestar dinheiro para as pessoas físicas, muita gente levou a sério.

Pois bem, o vídeo era uma brincadeira, pois não fiz uma avaliação mínima sobre a viabilidade, mas dado o interesse que chegou até mim, e as dúvidas, pretendo esclarecer alguns pontos.

A ideia, para quem não viu o vídeo, seria simples. Assim como o BACEN está agora autorizado a emprestar diretamente para empresas, poderia emprestar para pessoas físicas quitarem seu brutal endividamento.

Os bancos centrais do mundo inteiro regulam a oferta de moeda. Desde 2008 os BCs pelo mundo têm tentado capitalizar o sistema financeiro para que os bancos repassem esse crédito para investimentos. Sem sucesso. Destruiu a rentabilidade dos bancos, aumentou a alavancagem e nada de gerar grande crescimento econômico. Um fracasso que está cobrando seu preço agora, nessa crise do COVID19.

E esse insucesso é porque as pessoas não tomam o crédito. Nem as empresas. É dinheiro demais e projeto de menos.

No Brasil temos, hoje, o mesmo problema, com uma “pitada de sal tupiniquim”. O dinheiro liberado às centenas de bilhões pelo BACEN está “empoçado” nos bancos. E os motivos são óbvios. Tomar crédito em banco, no Brasil, é mortal. O banco se capitaliza a 3,75%, ou perto disso, e repassa a 20%, 30%, 300%.

Outro problema é que os bancos estão negando 60% do crédito. E não estão errados, há previsão de quebra de até 80% de restaurantes, por exemplo, se o lockdown durar 2 meses. Vão emprestar para quem vai morrer em 2 meses?

Bom, não está funcionando dar liquidez aos bancos para emprestar. E não vai funcionar.

  1. Isso não é imprimir dinheiro

Acho que a primeira dúvida que todos têm é se isso não seria “imprimir dinheiro”. Precisamos esclarecer o que é imprimir dinheiro.

O BACEN regula a oferta monetária aos trilhões. Uma pequena mudança nos compulsórios ou em regras prudenciais dos bancos pode liberar ou retirar de circulação centenas de bilhões de reais.

Isso NÃO é imprimir dinheiro. Isso é regular a oferta de moeda e buscar meta de juros.

As pessoas estão CERTAS ao dizer que isso, por si, não gera inflação, pois é como o processo de acelerar ou frear um carro. Se queremos manter o carro a 80 por hora, vamos ter que frear numa ladeira íngreme, e acelerar fortemente numa subida.

Imprimir dinheiro é uma coisinha específica: Usar o BACEN para financiar diretamente os gastos do governo. É emitir títulos e o BACEN usar sua liberdade para ampliar a base monetária para comprar os títulos no MERCADO PRIMÁRIO.

Isso é “imprimir dinheiro” como?

Simples. O BACEN trabalha no mercado SECUNDÁRIO de títulos públicos. Portanto ele não atua dando liquidez ao caixa do governo central diretamente, mas apenas regulando a oferta de dinheiro e títulos

E para isso tem um “colchão de liquidez” colossal, há pouco tempo era coisa de quase R$ 1 trilhão.

Essas ações no mercado secundário é que permitem a regulação da taxa de juros e da base monetária.

Mas esses títulos foram originalmente emitidos para terceiros no mercado primário, o BACEN só regula seu fluxo de demanda e oferta no mercado secundário (dívida já tomada e assumida por terceiros). Há uma forma do governo capitalizar o BACEN diretamente, para evitar que este fique sem títulos para regular o mercado, mas isso também não é financiar o Tesouro, pois o BACEN não paga ao governo pela emissão de títulos, apenas é capitalizado com eles.

Imprimir dinheiro é o BACEN aumentar, por exemplo, a base monetária em 500 bilhões e usar essa liquidez para comprar títulos DIRETAMENTE do Tesouro, dando grana para o governo gastar.

Isso é proibido pela CF e por todo o arcabouço que nos tirou da hiperinflação. Se voltar, a inflação começará em 10%, depois 20% e não há limite. Estou certo disso, pois é a história do Brasil, a história da Argentina, do Zimbábue, da Venezuela etc.

Claro que o leitor pode acreditar que os políticos vão mudar as leis e a constituição federal para imprimir dinheiro “só essa vez”. Eu não me permito essa ingenuidade.

  1. Isso não é a proposta do Ciro. Banco Comercial não tem condição de regular oferta monetária.

Ciro queria usar o Banco do Brasil para quitar as dívidas do pessoal do SPC. O BACEN cria moeda, ele existe justamente para regular liquidez do sistema. E faz isso às centenas de bilhões regularmente.

Bancos comerciais não tem essa “bala na agulha”. Suas disponibilidades não fariam cócegas no sistema monetário. BB e caixa, juntos, não têm R$ 30 bilhões de disponibilidades, e comprometida com seus correntistas. O resto do balanço é ativo comprometido com passivo. Não dá para “usar”.

Basta olhar para o passado recente pós-crise de 2008 para ver que bancos não conseguem nem mesmo dar vazão à liquidez que os bancos centrais injetaram nos Quantitative Easing.

Um banco comercial não pode ser voluntarioso na concessão de crédito, pois quebra. E rápido, com uma inadimplência grande. Além disso vive de spread, tem custos elevados e alta inadimplência. E limitações para cobrança.

No caso específico de usar o BB, tem que combinar com os acionistas privados, pois é companhia aberta. Provavelmente, na assembleia, isso seria rejeitado e, provavelmente, o controlador não poderia votar, por ter interesse particular no caso.

  1. BACEN não é banco comercial

Se alguém inadimplir com o Itaú, poderá passar a vida inteira sem se relacionar com o Itaú. Mas não poderá passar a vida inteira sem se relacionar com o governo.

As formas de “cobrança” de um empréstimo do BACEN para CPFs são, potencialmente, infinitas, dado que todo CPF se relaciona com o governo diariamente através do seu consumo e da receita federal.

Basta uma lei para garantir o pagamento através das rendas declaradas do devedor. Basta estar no mercado formal de trabalho, basta declarar IR, enfim, ele vai pagar.

  1. Prejuízo do BACEN não é prejuízo de Banco comercial

O BACEN consegue absorver prejuízos gigantes, os bancos comerciais já quebram com um prejuízo razoavelmente pequeno. Um prejuízo de R$ 20 bi para o Banco do Brasil iria gerar uma enorme necessidade de capitalização, para recuperar a capacidade de emprestar (regras prudenciais). O banco, ou quebra, ou fica muito menor.

Isso não existe para o BACEN. O prejuízo dele é de fluxo, não compromete seu patrimônio e ele não está sujeito às mesmas regras prudenciais de bancos comerciais.

  1. A brincadeira do vídeo NÃO falou de emprestar dinheiro para as pessoas gastarem, mas para aliviar o endividamento e seus efeitos.

A ideia não era capitalizar as pessoas para gastarem, mas para trocarem suas dívidas caras, por dívidas baratas.

Trocar um consignado a 20% ao ano por um empréstimo a 3,75% permitiria conceder uma carência de até 6 meses e ainda voltar com uma prestação menor.

Por exemplo, R$ 50.000 para pagar em 60 meses, a 20% ao ano + IOF, taxas bancárias, taxa de administração, tarifa de abertura de crédito etc., geraria uma prestação próxima a R$ 1.350 por mês.

Tomando no BACEN com juros de 3,75% e sem parte dos custos acima (BACEN não é instituição comercial), seria possível dar 6 meses de carência (o principal iria para R$ 50.928) e a prestação, quando voltasse, seria de R$ 930.

Em conta de padaria, seria um alívio de quase R$ 25.000 no período inteiro do empréstimo.

Se pegarmos dívidas mais caras, como para comprar carro, CDC etc., o alívio é ainda maior.

  1. Problema número 1: excesso de liquidez?

Vamos considerar que o BACEN se prepare para absorver 500 bilhões da carteira livre de crédito a pessoas físicas. É muito, mas menos de 10% do crédito ampliado a empresas e pessoas físicas. É muito, provavelmente não seria necessário tanto, a carteira de consignados total é de pouco mais de R$ 140 bi.

Isso funcionaria como uma “brincadeira” de ciranda no próprio sistema financeiro. Esses 500 bi voltariam às carteiras dos originadores do crédito (bancos), pois os empréstimos seriam quitados. Isso viraria “liquidez”, provavelmente indesejada, pois os bancos não teriam para quem emprestar imediatamente.

A liquidez pode ser enxugada pelo próprio BACEN, ou seja, o dinheiro acabaria voltando para o Banco Central, podendo ser liberado no futuro em um momento de economia aquecida.

Em resumo, o BACEN emprestaria, e o dinheiro voltaria para o próprio BACEN. Não há motivo para alarde nesse movimento. É como funciona o jogo.

  1. Problema número 2: A queda nos “negócios bancários”

Preferi escrever negócios bancários do que lucro dos bancos.

Haveria, obviamente, um enxugamento nas carteiras de crédito de onde os bancos tiram spreads expressivos. Mas não é nada substantivo e não há a menor possibilidade de quebrar bancos, pois, ao contrário, eles aumentariam sua liquidez com a quitação antecipada de empréstimos.

O que vai acontecer é uma queda no lucro. As carteiras de crédito direcionado e outros não será afetada, e grande parte do “negócio bancário” estaria preservado.

Mas, obviamente, teríamos uma redução razoável no lucro dos bancos. E duradoura, pelo menos de 3 a 5 anos, enquanto durar a recessão (ou depressão).

O que poderia acontecer, após essa crise MONUMENTAL que estamos contratando, e que ainda é desconhecida, seria o próprio BACEN vender essa carteira para os bancos comerciais.

Como o BACEN não tem estrutura de banco comercial, provavelmente a operacionalização dessa troca de dívidas seria feita através dos próprios bancos comerciais, aquela “queda na prestação” e a carência nós perceberíamos mantendo nosso empréstimo no próprio banco de origem, que ganharia apenas pela operacionalização (a tal taxa de administração), mas perderia o spread.

Uma carteira de R$ 500 bi a 3,75% poderia ser vendida por R$ 370 bi para que os bancos ganhassem os mesmos 20% ao ano.

O BACEN perderia R$ 130 bi, o que, repito, não é de forma alguma grave para o sistema financeiro.

Na verdade, R$ 130 bi de custos para aliviar 50 milhões de famílias e/ou indivíduos não é nada. Peanuts. Além de não ser “gasto público”, mas uma redução na carteira do BACEN.

Nada disso é trânsito de dinheiro no caixa do governo. É só controle de liquidez.

Os bancos centrais do mundo inteiro têm aumentado suas carteiras fazendo exatamente isso, mas comprando essas carteiras podres de crédito diretamente dos bancos, e também títulos de empresas.

É praticamente a mesma coisa, mas não gera qualquer alívio para o tomador de crédito na ponta.

Em países desenvolvidos esse alívio não seria tão grande, pois os juros já são extremamente baixos, mas no Brasil, chegam a 20%, 30%, 50% até 350% ao ano.

Com juros de 3,75% na SELIC é até difícil explicar a existência de linhas de crédito a 15% ao mês. AO MÊS.

Talvez esse “tranco” do BACEN funcione até como um gatilho para que os spreads caiam na marra.

  1. Questões ideológicas.

As pessoas refratárias ao proposto, normalmente baseiam-se no conceito de Moral Hazard (risco moral) ou no princípio de que as pessoas não devem ser “salvas” pelo governo.

Compreendo e acho que estão certas.

Mas, infelizmente, esse “salvamento” pelo governo acontece diariamente nas operações corriqueiras do próprio BACEN. Sempre que há um evento de liquidez, um default, o banco acaba absorvendo algum prejuízo para manter o sistema funcionando.

O BACEN foi autorizado a comprar títulos de empresas pequenas. Empresas para quem os bancos não vão emprestar, pois o risco de colapsarem é gigante, se a economia permanecer mais algumas semanas fechada.

A operação de salvar empresas pequenas é MUITO MAIS arriscada e com muito mais moral hazard do que emprestar para pessoas físicas.

De que adianta uma promissória de uma empresa que pode falir em dois meses? O BACEN não tem instrumentos para recuperar esse crédito. E só vai recuperar parte disso.

Uma pessoa física, salvo em caso de falecimento precoce, permanecerá oferecendo seus fluxos de caixa para quitar o empréstimo.

Enfim, só não fazemos isso por questões de princípios mesmo.

Não gosto da ideia em tempos normais, mas em tempos em que o próprio governo determinou o fechamento de empresas e contratou o desemprego de uns 15 a 20 milhões de brasileiros (a mais do que já tínhamos), é algo a considerar.

PS. Este é apenas um artigo exploratório, dado que algumas pessoas levaram a sério o vídeo que fiz sugerindo, em tom de brincadeira, que o BACEN emprestasse dinheiro para nós. Não pretende ser uma proposta de nada, apenas ideias sobre um debate incipiente e inédito no Brasil.

 

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Imprimir dinheiro? Henrique Meirelles está ERRADO!

Posted on 09/04/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , |

O ex-ministro Henrique Meirelles está errado ao pedir para imprimir dinheiro, ainda aos 35 minutos do primeiro tempo da crise.

É fácil demonstrar isso, e o farei neste artigo.

Entendo o lado dos governadores. Eles foram voluntaristas alardeando que deveríamos fechar a economia para salvarmos as pessoas. Quando temos medo de morrer, o protocolo do medo é a resposta evolutiva básica.

Contudo confesso-me um pouco decepcionado com gestores públicos que não conseguiram ver questões óbvias de segunda ordem. Entendo o Zema seguir o desespero (justificável) e fechar MG, mas é um pouco naive achar que isso não acabaria com o dinheiro para pagar os servidores já no mês seguinte. Foi o que aconteceu. É o que está acontecendo. I see dead budgets everywhere!

Essa crise nos entregou dois problemas graves de início (além das questões médicas): impedimos as pessoas de produzirem, asfixiando a geração de impostos, e as convencemos de que os contratos não deveriam ser cumpridos, matando de vez as arrecadações (por meses, talvez anos).

Vejo com um certo ar quixotesco na luta do presidente do BACEN para tentar fazer as pessoas acreditarem que devem honrar contratos. Depois desse clima de “guerra dos mundos”, em que cada governador assumiu a postura de presidente dos EUA em Independence Day e partiu voluntarioso para destruir o inimigo alienígena, creio que é uma luta inglória. Too little, too late.

A Federação foi a primeira a decidir por quebrar os contratos mais básicos que são os direitos fundamentais e ir e vir, de trabalhar, de busca de felicidade, de decidir seu caminho etc. Isso, em termos institucionais, é uma espécie de suicídio federativo. É o estado negando a si mesmo seu papel e, simultaneamente, tirando de si os meios próprios para cumprir esse papel. É um estado moderno decidindo sua própria morte.

Não estou indo contra os governadores ou prefeitos, o protocolo do medo é muito forte e estamos todos com medo dos ETs. Mas nosso papel de cidadão é ter medo mesmo, estou em casa preocupadíssimo, pois já me convenceram que sair às ruas é uma roleta russa. Uma arma com 1.000 cavidades e uma bala. Mas o papel dos governantes é garantir que nossa sociedade contratual continue de pé, para que os sobreviventes do ataque do vírus possam voltar para suas vidas ao fim dessa loucura.

 

O fim da sociedade contratual.

Quando os Vice-Reis engomados decidiram romper o contrato social mais básico, por um medo justificável, não deixaram aos habitantes de Vera Cruz outra alternativa senão romperem eles mesmos os seus contratos pessoais. E isso ainda está sendo ampliado, com waivers generalizados para toda a sorte de dívidas, de cartões de crédito a hipotecas, de contas de luz a impostos.

Contratamos o fim do estado brasileiro para breve. Mas ele ainda não acabou, ainda tem jogo. Ainda estamos aos 35 do primeiro tempo, pois a queda de arrecadação dos entes federativos ainda não chegou ao fundo do poço, chegará em maio.

Como já dito, Pindorama deveria ser o último a desonrar contratos, mas, infelizmente, por motivo de força maior, já descumpriu vários pontos do contrato social e de nossa constituição. Por força do vírus maldito estamos vivendo cenas que nem em Estado de Sítio o governo brasileiro teria autonomia para performar.

Temos prefeituras dando mata-leão em vendedores ambulantes, guardas municipais expulsando banhistas no tapa das praias. Coisa que nem um Estado Marcial faria. E são prefeitos fazendo, não militares brucutus, a SS ou o exército vermelho de Stalin.

E tudo isso com amplo apoio da mídia e de grande parte da população. Eu entendo. Acho estranho, mas entendo.

Contudo, se desonrarmos os últimos bastiões contratuais da república, aí ela acaba mesmo. Estaremos entregando o jogo ainda no primeiro tempo. E a federação acaba. Isso não é uma hipérbole, repito: ISSO NÃO É UMA HIPÉRBOLE.

 

Meirelles propõe a impressão de dinheiro. Por que isso é o descumprimento último de contratos?

Simples. Por que, parafraseando o avô do presidente do BACEN, não existe uma pequena inflação, da mesma forma que não existe uma pequena gravidez. E adiciono: não existe imprimir dinheiro “só essa vez”.

As pessoas estão preocupadas com a geração de inflação, mas isso é o menor dos problemas. A inflação vai chegar depois do estrago. O problema principal é destruir o sistema de financiamento da dívida pública, e do próprio Estado Brasileiro.

Pensemos.

É razoável que as pessoas entendam que imprimir “pouco dinheiro” não gere desequilíbrio generalizado no sistema monetário (poder de compra em circulação). Um pequeno falsário não aumenta a inflação em sua pequena cidade.

Mas se o objetivo é imprimir “pouco dinheiro”, por que não usar os meios tradicionais de emissão de dívida? Se o sistema está disfuncional para levantar 50-100 bilhões de reais, já estamos quebrados e não sabemos. Lamento, mas, se isso é verdade, quebramos.

Agora, se o objetivo é imprimir 500 bilhões, 1 trilhão ou mais, por que alguém, em algum tempo no futuro, voltaria a emprestar dinheiro para Pindorama? Não é a Nhá Margareth “dos olhinho azul” e o Nhô Wilhelm que financiam a dívida pública. Estrangeiros são peanuts nesse mercado. Quem financia a dívida pública é a crença no futuro do Brasil que os próprios brasileiros têm. Os empresários, pequenos poupadores e TODOS os aposentados, de hoje e, principalmente, do futuro.

Lamento queridos, mas há uma verdade inexorável no mercado financeiro: ele vive o futuro no presente. O nome disso é valor presente líquido.

Não vão esperar a inflação, não vão esperar o fim da Pandemia, não vão esperar o Thanos, vão mandar os juros nas alturas, pois o risco de termos “impressão de dinheiro” para cobrirmos buracos menores (e certos de acontecer no futuro) é enorme. Risco futuro impacta preços presentes. Isso é aula 000001, tatibitati, massinha ZERO do curso de finanças.

Não haverá título a salvo, nem de inflação (pois ele oscila com o cupom de juros e não com a inflação que é adicionada a posteriori). Para os queridos que acham que títulos pós-fixados estariam livres, peço que voltem às crises do final do governo FHC para ver que a “meta da SELIC” não valia mais nada. O governo tinha que pagar mais, mesmo em pós-fixados (aqueles ágios e deságios de hoje, pequeninos, eram enormes em 2002).

Pois bem, já chutamos o balde em quase tudo no pacto social. De certa forma capitulamos diante do virus, antes dele nos matar. Não estou criticando, entendo que o protocolo do medo seja forte demais para ser enfrentado, ninguém quer morrer. Estou em casa convencido a ter muito medo.

Se chutarmos o resto, não haverá Federação. Repito pela segunda vez: Isso não é uma hipérbole.

Faltam poucas coisas para serem destruídas aqui em Terra Brasilis, e estamos caminhando a passos largos para fazê-lo. O Plano Mansueto se tornou o embrião de uma bomba nuclear no orçamento federal, com todos os entes federativos se refestelando no cadáver do orçamento público. Todo mundo que estava nadando nu vai comprar roupa roubando de si mesmo, roubando seu próprio futuro.

Agora estamos querendo imprimir dinheiro, jogando no lixo a última racionalidade do período pós-inflacionário, que é a LRF e o sistema de financiamento do déficit público.

Não é possível destruir tudo e preservar tudo ao mesmo tempo. You can´t eat the cake and have it too. Se formos no caminho da heterodoxia isso não vai levar os mercados a dançar alegremente com essa irracionalidade. O mercado vai manter-se tentando reduzir seus prejuízos e, nesse caso, seria uma enorme corrida ao dólar, e não só por vias bancárias, uma fuga enorme dos títulos públicos, o que significa, na prática juros nas alturas.

 

Isso não seria uma previsão catastrofista, Portinho?

Respondo: para começar isso nem é uma previsão, é só uma lembrança. Tenho 47 anos, nada disso é novo. Me bancarizei em um país assim. Tive dinheiro confiscado, tive que lembrar o nome de 5 moedas em 10 anos, vi a minha mãe guardar notas de empréstimo compulsório, vi contas bancárias gerando correção de 1% por dia útil etc.

Para falar pela terceira vez de Roberto Campos, esse texto não é uma previsão é uma Lanterna na Popa.

 

Don´t do funny things.

Não é mais uma questão de salvar vidas e salvar a economia. Num cenário como esse, de total descumprimento de contratos, o Átila Iamarino vai parecer uma Pollyanna de previsões cadavéricas. Vão lembrar dele como aquele menino otimista. As vidas estão sendo destruídas pelo vírus, a economia, por nós. Voluntariamente e de forma anormalmente rápida.

Please: don´t do funny things.

 

Ps. Se você leu esse texto e o achou alarmista, quero me desculpar, pois tentei ser didático e não alarmista. Eu achei o texto até otimista, pois ainda podemos vencer sem esfacelar a federação. Podemos empobrecer com dignidade.

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Corremos o risco de um confisco de poupanças ou de corrida bancária?

Posted on 09/04/2020. Filed under: Administração, Finanças, Política |

Caros leitores,

 
Neste vídeo trato de dois riscos graves ao sistema financeiro (confisco e corrida bancária) e uma forma heterodoxa, bem brasileira, de financiar o governo.
 
A memória das pessoas invoca o confisco promovido pelo Collor em 1990, ou as corridas bancárias argentinas. Nada disso faz sentido, ou se encaixaria em uma crise FISCAL. São crises de outra natureza.
 
Mas temos que ficar atentos ao Artigo 148 da Constituição Federal, pois as bases para um empréstimo compulsório já estão à mesa. Pode ser uma solução bem rápida, caso o governo perca a capacidade de se financiar.

 

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Provando que Deus existe… para convencer Richard Dawkins!

Posted on 28/02/2020. Filed under: Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , , , , , , , , , , |

Caros leitores e amigos,

Como seria possível convencer Richard Dawkins, Neil deGrasse, Sam Harris e outros notórios ateus da existência de Deus? É o que pretendo no livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe: Uma História da Razão, da Ciência e de Deus“: apresentar argumentos racionais para convencer ateus convictos de que Deus existe.

Adianto que o livro é facílimo de ler, mas estranhíssimo. Propostas intelectuais que, provavelmente, as pessoas nunca viram. Até o capítulo 10 (175 páginas no formato 17×24), tento explicar por que somos como somos. Por que pensamos como pensamos. Por que estamos ficando tão confusos.

Do capítulo 11 ao 15 (mais 175 páginas), vou propor, e demonstrar, que tudo o que acreditamos em termos de determinismo, livre-arbítrio, evolucionismo, design inteligente, moralidade objetiva, bondade, maldade, riqueza etc., são ilusões arbitrárias. São decisões de fenômenos, não fenômenos em si. Parece complicado, mas é bem simples. E revolucionário.

O conteúdo poderá ser um pouco desagradável para alguns grupos de leitores. Principalmente para teístas não iniciados em temas de filosofia da ciência e para racionalistas e objetivistas (que não aceitam qualquer elemento de mistério na realidade).

Até entendo que o conteúdo é do interesse desses grupos, mas o foco principal do livro está no ateu convicto e no agnóstico esclarecido. Esses dois grupos costumam utilizar a ciência e a razão para sustentar suas crenças (ou descrenças), mas, em meu entendimento, fazem uso das ferramentas racionais sem lhes reconhecer as limitações.

Durante a leitura do livro, o conteúdo poderá dar a impressão de que caminhei no sentido de provar que Deus não existe, de provar que é uma invenção humana, mas, ao final, ficará claro que a conclusão é outra. Bem outra. Muito outra, e por caminhos bem pouco trilhados nesse debate entre ateus e apologistas.

Transito de Marx a Mises, de Platão a Kant, de Wittgenstein a Nietzsche, de Newton a Einstein, de Descartes a Heisenberg, de objetivistas a relativistas morais, enfim, em quase todos os lados da filosofia, da política, da economia e da moral.

Há 3 formas de comprar o livro. A mais barata e mais simples é, claro, comprar a versão digital na Amazon.com.br, no link abaixo:

ebook digital – Kindle (não é preciso ter o kindle, só baixar o app em qualquer dispositivo).

Pode-se comprar diretamente na Amazon dos EUA, da Europa ou do Japão. Eles entregam em qualquer lugar do mundo em 7 a 15 dias. No link abaixo:

Livro impresso – Amazon.com

Para as pessoas que não gostam de livro digital, e não se sentem à vontade para comprar do exterior, disponibilizei um pequeno estoque praticamente a preço de custo de impressão e frete (importado). No link abaixo:

Livro físico no Brasil.

Depois de 30 anos de pesquisa e vivência, 2 anos de trabalho, mais de 20 revisões e releituras, está pronto. Próximo passo (já em andamento) é a tradução para o inglês.

(ATUALIZAÇÃO 22/03 -Estoque renovado, poucas unidades).

Aos que se interessarem, desejo uma ótima leitura!

 

 

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E se pudéssemos pagar juros para nós mesmos? Melhorando a rentabilidade nos fundos de pensão (FUNPRESP).

Posted on 09/02/2020. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , , , |

Caros leitores,

A sugestão que trago nesse post provavelmente é bloqueada por um sem número de regras prudenciais de fundos de pensão, mas será que essas regras fazem sentido?

Antes de respondermos essa questão, vamos mostrar o “milagre”.

Fundos de Pensão fechados, como o FUNPRESP, emprestam dinheiro aos seus participantes com taxas relativamente baixas. Hoje a carteira de investimentos do FUNPRESP tem cerca de 0,5% de fluxo de caixa que vem dos seus próprios participantes, que tomam empréstimos e pagam prestações com juros.

E se as regras permitissem que o participante pegasse esse empréstimo e pagasse juros para si mesmo?

Do ponto de vista de finanças (retorno e risco), não há nada de anormal na proposta. Tomemos um exemplo:

A pessoa tem 100.000 reais de patrimônio no FUNPRESP (vou usar como exemplo o FUNPRESP, pois tenho os dados) e quer tomar 100.000 reais emprestado. Hoje bastaria pedir autorização para um consignado e tomar o empréstimo. Normal, isso é feito o tempo inteiro nos dias de hoje. O dinheiro seria disponibilizado na conta e o pagamento das prestações sairia direto do salário do participante para o fundo. Totalmente legal, totalmente permitido.

Para um empréstimo de 48 meses, o FUNPRESP cobra 1,22% de juros ao mês. Isso daria 48 prestações de R$ 2.764,86.

As opções são as seguintes: deixar os R$ 100.000 rendendo na carteira geral ou tomar o empréstimo e pagar para você mesmo (se fosse permitido pela legislação).

Observe na simulação da planilha, considerando uma rentabilidade da carteira geral do FUNPRESP de 5% acima da inflação (9% de juros nominais).

A carteira geral vai começar com 100.000 e subirá a cada mês com base na rentabilidade de 9% ao ano.

Quando você toma o empréstimo, o fundo poderia organizar alguma engenharia financeira para que você recebesse de você mesmo (segregação de carteira). Mais adiante discutiremos como isso seria possível.

Nesse caso, todos as prestações voltariam para você mesmo, ao longo dos 48 meses. Os valores pagos para quitação do empréstimo passariam a render pela carteira própria do fundo.

Os resultados são bem interessantes. Se o FUNPRESP vai mal, a carteira segregada de empréstimos vai bem, se o FUNPRESP vai muito bem (rentabilidade acima das taxas cobradas no empréstimo), a carteira segregada de empréstimos também vai bem. Vejamos na tabela a seguir:

Perceba que as rentabilidades se diferenciam bastante quando o fundo está rendendo pouco (4% ou 5% reais ao ano).

A carteira segregada só perderia no caso de a rentabilidade da carteira própria ser maior do que a taxa do empréstimo.

Se em um ano a carteira própria do fundo rendesse 16%, a carteira segregada de empréstimos perderia dessa rentabilidade (renderia 15,84%).

O que se vê é que esse método reduziria a volatilidade da carteira própria.

 

 

Os problemas e as soluções.

Isso não é possível hoje, mas será que essa proibição faz sentido?

Com relação às coisas boas desse método de segregar a carteira de empréstimos individual, temos que o participante teria um relacionamento inteiramente novo com o financiamento. Mesmo que ele fosse superavitário e não precisasse de empréstimo, como os juros serviriam de “aporte” extra em suas economias, talvez optasse por comprar um carro parcelado em vez de à vista. E o dinheiro que ele teria para comprar o carro à vista, permaneceria aplicado. Você poderia tomar um empréstimo para consumir agora, mas o pagamento geraria ainda mais poupança de longo prazo.

Do ponto de vista prudencial, entendo que segregar a carteira de empréstimos individual não gera qualquer transtorno para o fundo, pois o risco de inadimplência acabaria recaindo sobre quem tem direito àquele fluxo de caixa (o próprio tomador do empréstimo). E, considerando empréstimo consignado de servidores públicos, o risco é baixo anyway (exceto se o governo e o congresso cortarem 25% do salário de todos, aí pode gerar uma quebradeira geral nos consignados, ou na vida privada dos próprios servidores).

A indústria financeira talvez não goste da hipótese. Provavelmente não gostaria, pois muitas pessoas passariam a recorrer a empréstimos em seus próprios fundos de pensão, em vez de acessar bancos.

Um problema que adianto, é que isso não poderia acontecer com 100% da carteira, pois nesse caso não existiria carteira própria para remunerar os pagamentos das prestações do empréstimo.

O governo e a regulação… Bom, aí é que as questões ficam nebulosas.

Se essa atitude fosse tomada por muitas pessoas, o dinheiro seria canalizado mais para consumo do que para investimento privado (ou gasto do governo). Quando colocamos dinheiro no fundo, o fundo empresta para o governo para ganhar entre 6% e 8% ao ano nos títulos público, ou investe em empresas.

Pode haver risco de redução de recursos para comprar títulos públicos, e isso prejudicaria o financiamento do governo. Por outro lado, haveria crescimento do consumo o que geraria mais impostos e mais investimentos privados (empresas crescendo por conta do consumo).

A questão tributária pode ser decisiva sobre o tema.

Ao colocarmos dinheiro no PGBL, temos um benefício fiscal de 27,5% de cara. O governo poderia entender que esse empréstimo pareceria com uma “retirada” simulada. Entendo esse ponto, mas a questão é que isso já ocorre. As pessoas podem retirar a título de empréstimo normalmente, a qualquer hora, a diferença é que o fluxo de caixa gerado é recebido por toda a carteira do fundo e não por uma carteira segregada apenas para o tomador de empréstimo.

Isso é justo? Imagine que 15% das pessoas peguem empréstimos (limite aceito pela regulação para disponibilização de recursos para empréstimo nos fundos de pensão) e paguem cerca de 16% ao ano. Só isso já garantiria uma rentabilidade de 2,4% ao fundo como um todo. E é um esforço exclusivo dos tomadores de empréstimo. Eles garantem, com fluxo de caixa gerado por eles mesmos, um bom retorno para o fundo. Perece que seria mais justo se esse esforço dos tomadores ficasse com eles mesmos.

Tudo isso é permitido, creio que a questão seria de mudança de regulação e de contabilidade mesmo, de questões de liberação de segregação de carteiras dentro do fundo e de ampliação dos limites para disponibilidade de recursos para empréstimos dentro do fundo (hoje, se não me engano, é de 15% da carteira).

Enfim, não vejo problema insolúvel para implementar uma proposta dessa na regulação.

Poderia ser uma solução para liberar bastante dinheiro na economia para consumo e estimular o crescimento, aliado a uma melhora potencial na evolução patrimonial dos fundos de pensão.

Caso o governo tenha receio dos impactos que isso geraria no financiamento da dívida pública, pode começar com uma autorização menor, por exemplo, de 25% do patrimônio individual do participante. Se o participante tomasse 100% de seu patrimônio a título de empréstimo, poderia destinar 1/4 disso para uma carteira segregada. Ou alternativamente, todos os tomadores de empréstimos poderiam participar da rentabilidade de toda a carteira de empréstimos (na proporção em que participam dessa carteira de empréstimos).

Enfim, ideias. Nada é fácil, eu sei, mas isso não impede que a gente tente pensar fora da caixinha. Vai que sai alguma coisa interessante.

Ps. Falando aos participantes do FUNPRESP, com base na regulação atual entendo que a única forma de participar de forma mais ativa dos fluxos de caixa gerados pelos próprios participantes, seria criar um perfil com até 15% de carteira de consignado e 85% de carteira própria. Já há 4 perfis com diferentes percentuais de investimento, criaria mais 1.

Esse perfil só poderia ser escolhido por tomadores de empréstimos (no mínimo 30% da reserva, por exemplo). É imperfeito, mas é justo com os geradores desse fluxo de caixa.

O que pode acontecer é o sucesso da estratégia levar mais pessoas a tomar consignado, o que é bom para o fundo de forma geral, um fluxo de caixa de risco baixo e retorno bem alto.

Se houver necessidade de bloquear novos empréstimos, por ter atingido os limites regulatórios, será o caso de pressionar por um aumento dos limites.

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Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe – Volumes 1 e 2.

Posted on 01/12/2019. Filed under: Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , , , , , , , , , , , , , , |

Depois de 30 anos de convívio com temas de filosofia da ciência, física moderna, teísmo e ateísmo, mais 2 anos escrevendo, revisando, editando e produzindo (com a ajuda da Gabriela Campello nas capas e Paula Brandão na revisão), enfim terminei minha “prova da existência de Deus”.

Antes de descrever os dois volumes dessa “prova”, permitam-me fazer um posfácio fora do livro.

Concordo inteiramente com a visão que expus no livro. Entendo que discuti, de fato, os limites da compreensão humana e da nossa capacidade para provar, ou não, a existência de Deus (ou de qualquer coisa). Mas reconheço que o conteúdo pode ser um pouco desagradável para algumas pessoas. Principalmente para teístas não iniciados em temas de filosofia da ciência e para racionalistas e objetivistas fundamentalistas (que não aceitam qualquer elemento de mistério na realidade).

Até entendo que o conteúdo é do interesse desses grupos, mas o foco principal do livro está no ateu convicto e no agnóstico esclarecido. Esses dois grupos costumam utilizar a ciência e a razão para sustentar suas crenças (ou descrenças), mas, em meu entendimento, fazem uso das ferramentas racionais sem lhes reconhecer as limitações.

A maioria esmagadora dos pressupostos existenciais que nos permitem, ou não permitem, acreditar em Deus ou na ciência, não conversa com a visão atual que temos da natureza e dos limites de nossas linguagens sistemáticas (matemática, português etc.).

Durante a leitura dos dois volumes, o conteúdo poderá dar a impressão de que caminhei no sentido de provar que Deus não existe, de provar que é uma invenção humana, mas, ao final, ficará claro que a conclusão é outra. Bem outra. Muito outra, e por caminhos bem pouco trilhados nesse debate entre ateus e apologistas.

Infelizmente as ideias que tive para o livro não são “comerciais”. Praticamente tudo o que fiz parece inviabilizar o interesse de editoras no Brasil. Um livro de 600 páginas não vende, um livro que foi dividido em 2 volumes não vende, usar Deus na capa não vende. Enfim, segundo os especialistas, esses elementos afastam os leitores. Dessa vez não quis submeter meu livro a nenhuma visão comercial e lancei-o de forma independente. Ainda estou negociando um distribuidor físico no Brasil para disponibilizar as cópias físicas em livrarias, mas sem pressa.

Os volumes já estão disponíveis em formato digital nas lojas da Amazon em todo o mundo, e em formato físico apenas na Amazon.com (USA). Clique nas imagens das capas para ver os livros nas lojas Kindle. NÃO é preciso ter Kindle para ler, basta usar o aplicativo deles para tablets, celulares etc.

Descrição do livro nas lojas:

Como seria possível convencer Richard Dawkins, Neil deGrasse, Sam Harris e outros notórios ateus da existência de Deus? É o que pretendo neste livro: apresentar argumentos racionais para convencer ateus convictos de que Deus existe.

Para lidar com uma empreitada tão ambiciosa foi necessário explorar as possíveis origens do pensamento abstrato e racional, analisar sua consolidação como paradigma da verdade em nossa sociedade ocidental, demonstrar suas limitações e discutir as possibilidades para definir, de fato, a existência de algo. Não só de Deus, mas de qualquer coisa.

Praticamente todos os conceitos básicos para nossa compreensão da vida e do mistério precisaram ser reformulados neste livro, por força da revisão histórica que fiz sobre a racionalidade e seu falso caráter existencial, e das incríveis descobertas da ciência contemporânea a respeito da natureza da realidade.

O livro está dividido em 2 volumes.

O primeiro volume apresenta a base para a desconstrução dos mitos mais enraizados nos sistemas de crenças de ateus e apologistas. Promove um debate que se inicia na percepção da necessidade do pensamento abstrato, provavelmente há milhões de anos, e se estende até os debates científicos e políticos ocorridos até o final do ano de 2019, quando encerrei a revisão desta primeira edição.

O segundo volume atua diretamente na desconstrução dos significados corriqueiros de temas como determinismo, livre-arbítrio, acaso, bondade, maldade, relativismo moral, fundamentalismo econômico, cientificismo, marxismo, entre outras questões que precisaram ser revistas para que a prova da existência de Deus fizesse sentido dentre de um quadro puramente racional.

Tenho a convicção de que corri riscos, muitos, porém penso ter enfrentado cada um deles com honestidade intelectual e retidão moral. O livro representa, de fato, minha visão sobre o assunto e ilustra de forma precisa a base de minha crença em Deus, além de demonstrar como essa crença se equilibra com meu respeito inequívoco pela ciência, pela razão e pelo empirismo.

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Nem De Esquerda, Nem De Direta. Somos Coletivistas Ou Individualistas.

Posted on 21/07/2019. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , , |

O leitor deve se lembrar de uma polêmica recente nas redes sociais indagando se o nazismo foi um movimento de direita ou de esquerda.

Os lados contrários apresentaram seus argumentos e, aparentemente, ninguém mudou de opinião. Quem relacionava Hitler à esquerda entendeu que seus argumentos eram suficientes, quem o relacionava à direita, se manteve firme.

Não vou entrar na discussão se Hitler foi de esquerda ou de direita, mas com certeza ele era um coletivista. Assim como foram Stálin, Mao, Fidel, Mussolini etc.

Os conceitos de esquerda e direita ficaram muito fluidos e difíceis de definir. Tanto é verdade que a nova direita brasileira se define como “conservadora nos costumes” e “liberal na economia” e a esquerda procura se espelhar em regimes capitalistas europeus bem sucedidos de estado do bem estar social, para defender suas doutrinas.

Mas essa confusão seria desfeita se passássemos a classificar nossos pontos de vista entre o coletivismo e o individualismo, posicionando-nos em algum lugar entre esses dois pontos.

Coletivismo e Individualismo

Por conveniência histórica a esquerda demonizou o conceito de individualismo e enalteceu o conceito de coletivismo, sob o aspecto moral.

O individualista é associado ao egoísmo e ao desdém pelas questões sociais, o coletivista seria alguém preocupado com o outro, que quer resolver os problemas de todos. Criou-se uma falsa dualidade entre egoístas e altruístas.

É uma simplificação conveniente, mas errada.

As pessoas são individualistas ou coletivistas de acordo com sua visão fundamental do direito.

Não pretendo discorrer sobre questões específicas da doutrina do direito, pois não é minha área, mas apenas sobre como pensam os individualistas e coletivistas a respeito do regime ideal de direito.

UM ALERTA!

Muitas pessoas que se consideram “de direita” vão se identificar com traços do coletivismo. Aqui no Brasil fomos instruídos a depender do governo, tanto é fato que a maioria dos aposentados do INSS não guardou dinheiro (previdência individual) entregando seu futuro e sua sorte ao orçamento público. É uma confiança e tanto.

Não se assuste se você se identificar com aspectos do coletivismo, como disse, não há individualista puro e nem todos os aspectos do coletivismo são nocivos.

Não há qualquer julgamento de valor absoluto nesse artigo, apenas minhas opiniões.

Exemplos de diferentes visões de direito

Um exemplo polêmico pode demonstrar como os individualistas e coletivistas sentem a função do direito e o papel do Estado.

Até junho de 2008, não era automaticamente crime dirigir sob o efeito de álcool no Brasil. Além disso, a definição de crime no trânsito exigia a demonstração de que o motorista que bebeu expôs os outros a perigo.

Em junho de 2008 foi estabelecida a Lei Seca no país, criminalizando o motorista que tivesse um nível igual ou superior a 0,6 g/L de álcool no sangue.

Em 2012 adotou-se a tolerância zero para quem fosse pego dirigindo após ingerir qualquer volume de bebida alcoólica.

Sempre foi crime matar ou ferir alguém estando bêbado ao volante, mas a Lei Seca passou a tipificar como crime o próprio fato de dirigir após beber, independente das circunstâncias (expor ou não os outros a perigo, estar ou não em condições suficientes de reflexo) ou da existência, ou não, de danos mensuráveis.

Um individualista não concorda com legislações que restringem severamente direitos individuais a fim de coibir um crime potencial (aumento de probabilidade de acidentes). Entende que o regime de direito deveria ser rigoroso com quem efetivamente comete um crime contra o direito de outro indivíduo.

O histórico do Brasil nesse aspecto é péssimo. Além de as penas serem brandas (ainda são), poucas pessoas são realmente punidas. Se você matar alguém no trânsito, mesmo estando bêbado como um gambá, dificilmente permaneceria preso, mesmo hoje.

Para o individualista, o individuo que cometeu o crime, estava bêbado e matou uma pessoa no trânsito por exemplo, deveria ter uma pena elevada, compatível com o dano criado, rapidez no processo e na execução da pena e ônus financeiro, podendo ser processado por danos materiais e lucros cessantes, indenizando a família da vítima.

Se o risco de dirigir bêbado e atropelar alguém for pegar 20 anos de cadeia e perder seu patrimônio, e se esse risco for bem divulgado (publicidade é fundamental), a tendência seria, ao menos nas pessoas conscientes, evitar esse risco. Inconsequentes não se importam com nada, a lei não vai impedi-los.

Hoje, se você matar alguém no trânsito pode, acredite, ter sua pena de 5 a 8 anos de cadeia convertida em pagamento de cestas básicas. Para o individualista, é inadmissível que a conduta criminosa que tira efetivamente a vida de terceiros tenha pena tão desproporcional ao dano criado.

Para o coletivista criar uma lei punindo rigorosamente a todos, independente das características pessoais, das situações sociais e da quantidade de álcool ingerido, por um crime de caráter potencial (ele não matou, apenas elevou a probabilidade), é o caminho indicado.

A Lei Seca está longe de ser o único exemplo. Recentemente, no Rio de Janeiro, pela quantidade de crimes cometidos por duplas em motocicletas, aventou-se a possibilidade de PROIBIR andar em dupla. Não passou a legislação, mas o princípio era o mesmo, punir a todos pelo crime de uns poucos.

Em São Paulo volta e meia se aventa a possibilidade de reduzir as velocidades nas marginais para prevenir acidentes de trânsito.

Não tenho por objetivo discutir se as leis que punem o crime potencial tiveram ou não sucesso, pois, a rigor, o Estado poderia acabar com os acidentes de trânsito proibindo a venda de combustíveis ou baixando as velocidades máximas a zero.

Na prática a lei que busca punir a todos gera sempre externalidades negativas em cidadãos conscientes, que perdem o seu direito de discernir o que é ou não uma atitude prudente, e o limite para a geração dessas externalidades negativas está nas mãos do Estado, que se for excessivamente coletivista poderá impor sanções desproporcionais por atitudes que, há 10 anos, não eram consideradas nem crimes e nem imorais.

Para coletivistas o governo não precisa ter limites para impor sanções ao comportamento, para o individualista ele deveria focar mais nas sanções a crimes efetivamente cometidos do que em regular a vida, o discernimento e a moralidade alheios.

O brasileiro é bastante coletivista, nossa formação, infelizmente, prega a dependência do governo. Quando há algum problema, o brasileiro costuma pensar: – o governo tem que proibir isso!

Qual é o problema do direito coletivo?

Chamo de direito coletivo aquele que se propõe a defender determinada coletividade abstrata (conjunto de pessoas com características similares) de outra coletividade abstrata.

O direito individual é bastante claro e bem definido. Quem ofende e quem processa são polos claros na ação. Se há dano material ou moral ao indivíduo, o fato é passível de produção de prova e pode ser debatido com clareza nos tribunais. É possível medir o impacto do crime, o nível da ofensa e o prejuízo criado, COM BASE NA PERCEPÇÃO do ofendido.

Isso é impossível para o direito coletivo. O crime não depende da percepção individual de quem foi ofendido, mas do dano moral coletivo, que é medido por algum superpoder outorgado a servidor ou órgão público.

O direito coletivo, na prática, é o direito de todos, mas ao mesmo tempo não é o direito de ninguém em específico.

Esse direito tem mais efeito de ordem moral, pois acaba por punir comportamentos considerados genericamente ofensivos à determinada coletividade, independentemente do dano medido, ou até diante da inexistência de qualquer dano.

O episódio da russa assediada por brasileiros na copa dá um exemplo disso.

Em um tribunal, se a moça pedisse indenização por danos morais ou materiais, teríamos uma medida clara do prejuízo que lhe causou. Inclusive, poderia até entender que não houve dano relevante e que não haveria necessidade de judicialização.

Quando passamos para a moral coletiva, parte das pessoas entendeu que era um dano a todas as mulheres, parte entendeu que era irrelevante. Houve pedidos de condenação moral e de penas que iam desde o espancamento dos caras, à perda de emprego até, simplesmente, pena nenhuma.

Perceba, é a “justiça” de todos, mas não é a de ninguém em específico. Talvez alguns tenham ficado felizes com os danos sofridos na vida privada dos brasileiros (os que tiveram publicidade), outros podem ter considerado exagero, alguns podem ter ficado com medo, outros aproveitaram para surfar a onda e posar de bons moços (mesmo tendo uma vida privada repleta de episódios reais de machismo) e a maioria se calou.

Outro exemplo, para um coletivista, a tal “cultura do estupro” será resolvida a partir de uma agenda cultural para “mudar toda a sociedade”. Quando perguntaram à candidata do PCdoB à presidência em 2018 o que ela faria para acabar com os estupros, ela disse que “combateria a cultura do estupro” e que queria viver em um país onde não houvesse estupros.

Não há qualquer proposta de direito individual aqui, nem para proteger uma vítima específica, nem para apenar um ofensor, apenas uma vaga proposta de revolução cultural, que, por óbvio, deverá atingir a todos. Tanto a vítima quanto o agressor não tem identidade, não tem cara. São bandeiras, jargões e simplificações da agenda coletivista.

Por mais que a sociedade tenha mudado com a forte agenda cultural revolucionária, não me parece que a dança de rostinho colado de 30 anos atrás seja menos respeitosa com as mulheres do que os bailes funks das periferias ou as micaretas dos endinheirados.

Se mudamos, mudamos para pior em termos de respeito ao próximo.

Em resumo o direito individual é claro, assim como os mecanismos para sua imposição. O direito coletivo é turvo, por isso é mais utilizado como instrumento de enforcement da mudança cultural e moral, do que propriamente como sistema organizado para punição e ressarcimento de danos mensuráveis.

Pode parecer lindo, mas é evidente que não funcionou. Não estamos melhores, nem em números, nem em respeito, nem em percepção de respeito.

Talvez tenhamos apenas mais medo, o que promove maior afastamento e menos diálogo. Só isso.

Mas quem somos nós nessa régua do direito?

O individualista máximo “possível” é aquele que entende que o governo existe APENAS para garantir seus direitos individuais básicos. Parece simples, mas não é. É necessário estruturar um sistema legislativo, para definir essa lei, um sistema judiciário e uma força militar e policial. É difícil e não é barato.

Os direitos individuais básicos são aqueles que protegem o indivíduo da imposição da força e da arbitrariedade contra sua vida, sua propriedade e sua liberdade. Boa parte dos direitos enunciados na Declaração Universal dos Direitos Humanos diz respeito à proteção do indivíduo contra a imposição da arbitrariedade do Estado e dos outros, além da pregação de respeito à individualidade.

Um “conservador nos costumes” e “liberal na economia” será um individualista se entender que o direito ao seu conservadorismo não exige extinção ou perseguição da moralidade dos outros, e também se professar a crença no livre mercado, na livre associação e na livre concorrência. E isso vale para proteger o beato do justiceiro social, e vice-versa.

Ele NÃO será um individualista se entender que o Estado precisa impor uma moralidade específica ou se entender que o Estado pode substituir o livre mercado na decisão sobre os interesses subjetivos dos consumidores.

O Estado brasileiro é péssimo como mediador desses objetivos.

Do ponto de vista econômico, parece ter sido historicamente capturado em parte por forças oligárquicas que querem evitar a concorrência e agir de forma desleal com o consumidor e com o contribuinte. E isso nos afasta da riqueza e da liberdade econômica.

Nesse aspecto PT, MDB e PSDB atuam da forma bem semelhante. São contrários à liberdade econômica, e seu sistema de regulação defende interesses concentradores de poder e de processo decisório. Não é à toa que o empreendedor brasileiro tem que pedir a bênção ao estado antes de fazer qualquer investimento, sob o risco de ser, posteriormente, inviabilizado pela burocracia e pelo peso dos impostos.

Do ponto de vista do respeito à moralidade alheia, o Estado brasileiro também é péssimo garantidor. As lutas por direitos civis individuais, em vez de ocuparem racionalmente a agenda e o sistema legislativo e a representação política, transformam-se em batalhas morais e culturais altamente opressivas, divisoras da sociedade e promotoras de intolerância.

Um individualista apoiará sempre a igualdade de direitos civis, pois é também uma proteção contra a tirania individual e do Estado contra si. Direitos iguais independente da raça, credo e orientação sexual serão suas bandeiras.

Entretanto não concordará com a imposição de moralidade contrária a seus valores e buscará se proteger desse sistema opressivo. Enquanto a luta for por direitos iguais, o individualista estará dentro, quando for pela repressão moral e revolução cultural, estará fora e lutando contra esse novo modelo de tirania.

Já para o coletivista, o Brasil é um paraíso. Até nosso fracasso como nação é algo positivo para o coletivista (que entende o direito coletivo como superior ao direito individual).

Veja o que ocorre na Venezuela. Racionalmente é impossível acreditar que o bolivarianismo trouxe sucesso e prosperidade, sob qualquer ponto de vista, ao povo venezuelano. Porém, o regime ainda é considerado um símbolo para movimentos coletivistas por aqui. PT, PC do B, PSOL estão aí para provar meu ponto.

O sucesso de políticas liberais e individualistas seria algo destruidor para o sonho dos coletivistas, por isso não podem permitir, de maneira alguma, que essas experiências sejam implementadas no Brasil.

Tanto é verdade, que ainda se discutiu nas eleições de 2018 a volta de monopólios e a reestatização de empresas e de concessões.

Tanto é verdade, que o coletivista sabota qualquer tentativa de promoção da liberdade econômica no Brasil, odeia a concorrência e prefere que o povo maranhense, por exemplo, espere mais 150 anos por saneamento básico, a entregar esse ramo para a iniciativa privada.

Sendo mais preciso quanto a esse ponto, tanto a “direita” (MDB, PP, PR) quanto a esquerda brasileira, ambas coletivistas, rejeitam a iniciativa privada apenas até o ponto em que conseguirem encontrar uma forma de levar alguma vantagem com ela. Aí tudo fica liberado.

Está aí o Brasil dos últimos 30 anos que não me deixa mentir.

Para o coletivista puro, o regime de direito ideal é aquele que submete o direito à vida, à propriedade e à liberdade ao crivo do Estado.

A ofensa aberta à vida só tem lugar quando o regime coletivista já se consolidou (stalinismo e nazismo), mas a ofensa à propriedade e à liberdade são amplamente exercidas aqui no país.

Nossa constituição é coletivista. Submete a propriedade à sua função social e submete o poder de avalizar essa função social à burocracia estatal.

Ao contrário do ideal “virtuoso” imaginado pelos coletivistas utópicos, inocentes úteis, a desapropriação de terras acaba, sempre, atendendo ao interesse dos coletivos de poder. São as corporações, as oligarquias e os sistemas de apoio político. Não há “povo”, apenas interesses de repartição de benesses estatais e manutenção de poder, sem criação de riqueza.

No âmbito cultural, o país é ainda mais opressivo. Nosso regime de direito impõe, cada vez mais, diferenciação entre coletivos de cidadãos. Mas não só no direito. Há esforço integrado de forças coletivas organizadas para imposição de agendas morais tão modernas quanto confusas.

Uma clássica prisão sem grades stalinista, imposta pela ditadura moral do politicamente correto.

Lamento afirmar aos leitores que mesmo gente que se considera liberal na economia e conservadora nos costumes, volta e meia, acaba se entregando a alguma agenda moral a ser imposta, via governo, ou por outro sistema de propaganda.

Isso é evidente pelo comportamento revelado nas redes sociais.

A socialdemocracia, o coletivismo e o individualismo

É importante notar que é possível haver socialdemocracia tanto sob o ponto de vista coletivista, quanto individualista. É possível ter Estado do bem estar social sob qualquer um desses dois pactos do direito.

A diferença SEMPRE estará no papel do Estado sobre os direitos individuais básicos e sobre a moralidade.

Estados altamente liberais, que não se metem em questões morais e regulam os sistemas sob sua tutela buscando ampliar as liberdades individuais e proteger a vida e a propriedade, são individualistas.

O dinheiro de impostos, nesses Estados, não volta sob a forma de poder excessivo ao governo, ao contrário, volta como poder ao cidadão. Nesse aspecto, um sistema de vouchers, em que uma mãe recebe uma determinada quantia para matricular seu filho em qualquer escola, é individualista, enquanto um sistema educacional formatado e gerido por uma burocracia estatal tende a ser coletivista.

Perceba que coletivismo e individualismo são posturas relacionadas ao regime de direito e ao papel do Estado nesse balanço entre individuo e coletividade. Não necessariamente uma nação com ampla liberdade individual será uma nação com Estado mínimo (provendo apenas segurança).

Vale relembrar que um individualista está pacificado com um pacto social que pressupõe a existência de um governo, portanto entende que pagar impostos faz parte desse pacto.

A forma da distribuição desses impostos é que poderá trazer liberdade ao indivíduo, ou concentrar poder na burocracia estatal.

Resumindo o ponto fundamental do artigo.

O Brasil é um país fracassado não por ter sido governado até 1994 pela “direita”, ou desde então pela esquerda. É um país fracassado porque é COLETIVISTA.

É um país que despreza os direitos individuais básicos, de forma proposital e ideológica. É político fazendo pacto com o PCC, é partido defendendo a “humanidade” de estupradores e pedófilos. Para ambos, que se dane a vítima. É melhor defender uma “categoria” utópica ou um “bem maior” do que desvendar um assassinato ou um estupro e condenar o ofensor a 30 anos de prisão.

Despreza a propriedade. Nossa legislação foi sendo modificada de tal forma que, se invadem sua casa, não basta chamar a polícia para retirar o invasor, será necessário aguardar o judiciário emitir uma ordem para reintegração. E ainda vão discutir se você tem ou não esse direito, a depender da “função social” da sua casa. Tudo decidido pela burocracia estatal, que lhe atinge, mas protege o agressor.

Despreza a individualidade. Sob o pretexto de enfrentar o Status Quo, o patriarcado e o capitalismo liberal (que é raro por aqui) a elite política e intelectual brasileira cria campos minados ideológicos, com violenta repressão moral, confinando a maioria dos brasileiros a prisões politicamente corretas, das quais não saem com medo de pisar em uma bomba ideológica e sofrer nas mãos de justiceiros sociais.

Despreza a vida e o direito de defesa. O estatuto da legítima defesa no Brasil acabou. O revide precisa ser proporcional, ou seja, sempre que você vencer no revide, poderá (e será) processado pelo Estado com toda sua força, e ainda corre o risco de ter que indenizar o bandido e sua família. Não raro vemos comerciantes e cidadãos que revidaram sendo presos e processados. Recentemente um desembargador afirmou que o bandido atirar contra a polícia não é tentativa de homicídio, mas legítima defesa. Postura típica de Estado coletivista, protege o “coletivo de vulneráveis” e estraçalha o direito individual mais básico que é proteger sua vida e de sua família.

Esquerda e direita não são designações suficientes para entendermos a realidade brasileira (e mundial). Nesse aspecto, coletivismo e individualismo funcionam melhor.

É confuso, por exemplo, chamar George Soros, especulador do mercado financeiro, de esquerdista. Mas não é confuso chamá-lo de coletivista.

E assim vale para Fernando Henrique Cardoso, Sarney e a maioria dos políticos brasileiros “de direita”, que optam por concentrar poder nas mãos da burocracia estatal, reduzindo, cada vez mais, as liberdades individuais.

Isso atinge pobres, ricos, pretos, brancos, homo, hétero, trans, cis, e qualquer brasileiro individualista.

Minha posição.

Não consigo ser o individualista máximo possível. Não fico à vontade com a ideia de um governo exclusivamente dedicado à defesa de direitos individuais básicos (segurança).

Viveria tranquilamente sob um pacto de proteção social formatado para garantir serviços de educação básica (não a universitária), saúde pública e, claro, segurança, desde que o recurso público seja direcionado a prestigiar o emprendedorismo, a meritocracia, a liberdade de escolha, o comércio e o formalismo cultural/educacional.

Poderia ser um programa de vouchers para a família decidir onde gastar com saúde e educação, ou até renda mínima, desde que o governo tenha pouca, ou nenhuma, possibilidade de influir na conduta moral ou orientação política do segurado.

Assim eu topo. Hoje, como está, a impressão que tenho é que meu dinheiro é usado para sustentar tanto a burocracia estatal, quanto para viabilizar sistemas injustificados de privilégios e de mau uso de verbas públicas.

Em um sistema de liberdade individual de escolha cada beneficiário é, ao mesmo tempo, um fiscal do serviço prestado. Se recebe um voucher e procura um serviço, dentre várias opções concorrentes, cobra qualidade, pois pode escolher. Pune o mal gestor, pois pode escolher. Ninguém vai tratar o serviço público como algo “de graça”, pois seu custo será claro e evidente.

Quando alguém paga e recebe um mau serviço, reclama. Quando o estado presta um mau serviço, o povo resigna-se, pois não consegue ver com clareza o seu direito.

Um estado assim, que destina os recursos públicos para prover liberdade, eu topo bancar. Hoje, o uso dos recursos públicos apenas fomenta mais insegurança, intolerância, desperdício e incompetência. E eu banco mesmo sem concordar. Coletivismo puro.

 

PS, para quem ainda tiver paciência, aproveito para prestar reverência ao filósofo que melhor definiu o coletivismo.

Karl Popper contra Theodor Adorno e Olavo de Carvalho

Karl Popper é um filósofo da ciência muito lido, tanto por esquerdistas quanto por direitistas.

Mesmo tendo escrito o mais contundente documento antimarxista da história, foi mais contundente do que Hayek e Ayn Rand, Popper conseguiu ter alguns de seus livros lidos (e respeitados) em várias faculdades de ciências humanas e sociais, mesmo as que apresentam forte viés marxista.

Teve a coragem de enfrentar pessoalmente, no campo das ciências sociais, os membros da Escola de Frankfurt e tentar lhes mostrar que as ciências sociais não precisavam abdicar da lógica e do formalismo científico para serem efetivas. Foi tão bem sucedido que a réplica de Adorno (no debate de 1961) se limitava a dizer que “concordo, mas é insuficiente”.

Marxista típico, Adorno vê um caminho prático proposto por Popper, mas prefere continuar viajando na poesia infrutífera da dialética sem compromisso.

O método dialético, infelizmente, abre espaço para que um charlatão se passe por um perito, para sempre. Talvez por isso tenha tantos defensores.

Em sistemas científicos de verificação e validação (sociedades abertas) isso é muito mais difícil e, se acontecer, o charlatão vai durar pouco (vide a polêmica da Fusão a Frio em 1989).

Mas não é só a esquerda que ataca Popper. Olavo de Carvalho chegou a dizer que o livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” estava entre os 10 piores livros do Século XX.

Ao contrário da visão do filósofo brasileiro, considero que este livro traz a leitura que falta para os defensores das democracias liberais, da ciência e do direito individual compreenderem o mundo dos últimos três séculos.

No livro, escrito um ano depois de o “Caminho da Servidão” de Hayek, Popper faz a mais brilhante desconstrução de Marx, em termos sociológicos e políticos, e consegue definir o conceito de coletivismo para abarcar as principais experiências sociais de cunho marxista da humanidade.

Consegue reunir Hitler e Stálin em um mesmo grupo, de forma inequívoca.

Popper é ainda muito lido pelas esquerdas. Exceto esse livro.

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Mitos da Privatização – Série com 5 vídeos

Posted on 11/06/2018. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags: |

Prezados,

Eleição se avizinha e, provavelmente, haverá algum debate sobre a privatização de empresas públicas. Apesar de a maioria dos candidatos ser contra a privatização, ao menos de setores estratégicos, entendo que o debate está pobre, porque está interditado, desde 1950.

Tratarei de 5 mitos, os quais revelo no primeiro dos 5 vídeos, são eles: 1 – A venda das riquezas nacionais, 2 – A geração de riqueza para o povo brasileiro vem da operação ou do controle?, 3 – Estatais são sempre vendidas a preço de banana? e 4 – A questão estratégica.

Em meu entendimento as pessoas contrárias às privatizações não deveriam basear seus argumentos nos mitos que tratei nos vídeos, pois não fazem sentido.

Podem basear seu interesse em manter as empresas sob controle estatal por vários motivos, a maioria ideológicos.

Por exemplo, pode entender que o orçamento da empresa deverá ficar à disposição do controlador público. Como é na Venezuela ou na Arábia Saudita.

Ou pode achar, por motivo ideológico, que a empresa não deve ser gerida pelo interesse privado do lucro, que não deve buscar a maximização do seu tamanho (valor da firma) e do lucro. Ou seja, não deveria seguir a lógica capitalista.

Não deve JAMAIS usar a Equinor (Statoil) como exemplo, pois a empresa é gerida dentro da lógica capitalista, não mistura seu orçamento com o orçamento soberano norueguês, apenas contribui, com lógica eminentemente financeira e de mercado, para o fundo soberano do seu país (através de impostos e participações, principalmente). Statoil não é PDVSA ou Saudi Aramco, não está à disposição do governo norueguês (que tem 67% das ações), e atua de forma absolutamente capitalista em mais de 30 países, explorando petróleo e gás, com foco no lucro.

Entretanto, não há qualquer sentido em manter a empresa estatal se não for por motivos de cunho ideológico ou de crença anti-mercado ou anti-capitalista.

Isso deverá ficar claro nos vídeos abaixo.

Gostaria que o debate fosse nivelado por cima, por isso fiz os vídeos. Infelizmente, até agora, só vi afirmativas sem argumentos, sem números, sem dados (exceto os pequenos, que representam a lógica de mercado, como o João Amoedo e o Flávio Rocha).

Espero ajudar para elevar o nível do debate.

Seguem os vídeos:

 

 

 

 

 

 

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Fake News! Petrobras atinge o maior valor de mercado de sua história – Estadão 09/05/2018

Posted on 10/05/2018. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , |

Good lord, you are fake news, diria Tio Trump.

Lamentável a notícia do Estadão de ontem, informando que a Petrobras havia atingido seu maior valor de mercado da história.

Quem acompanha o blog, sabe que é uma absurda mentira. Acompanhamos os altos e baixos da ação há mais de 10 anos.

Nem seria preciso fazer uma pesquisa extensa, basta lembrar dos valores da capitalização em 2010, cerca de 29 reais para a ON e 26 reais para a PN, patamares bem superiores aos atuais.

Mas o maior valor de mercado foi quando?

Vamos à realidade.

O maior valor de mercado foi atingido durante a exuberância irracional (tão tratada no blog e antes na lista de emails) do ano de 2008, mais precisamente no último mês dessa exuberância, antes da derrocada.

Em 21/05/2008 a Petrobras atingiu R$ 510.394.808.680, ou seja, 510 bilhões de reais

O tal “valor máximo” do Estadão é 38,8% menor do que o valor máximo verídico.

Antes de prosseguir, eu li a reportagem inteira, não vou reproduzir aqui, pois não tenho autorização,  mas adianto que não há qualquer consideração do tipo “maior valor desde a lava-jato” ou “maior valor da década” etc., ou seja, é fake news truly!

Pode ser proposital, pode ser fragilidade de conhecimento de mercado, não convém especular.

Mas a informação não está apenas errada, está erradíssima! A perda é muito pior.

Pensando em outros aspectos relevantes, esse valor de 312 bilhões informado como “máximo histórico” pelo Estadão é, na verdade, muito, muito, muito, muito menor do que os 510 bilhões de maio de 2008.

A perda de valor da Petrobras foi bem mais feia do que esses números conseguem mostrar.

Em Valor de mercado por ação

Em 2008 a Petrobras tinha exatamente 8,77 bilhões de ações emitidas, em 2018, por conta da capitalização de 2010, essa quantidade passou a 13,04 bilhões.

Ou seja, o valor médio de uma ação, na máxima de 21 de maio de 2008, era de R$ 58,17 (média, sem dividir em ON e PN). Em 2018, na “máxima do Estadão”, seria de R$ 23,91.

Ou seja, em termos de valor por ação a máxima seria de R$ 58,17 em 2008 e de R$ 23,91 em 2018.

A perda, em valor unitário das ações, chega a 59%.

Em dólar

Aí dá aquela tristeza…

O dólar em 21 de maio de 2008 estava em 1,6484 reais, em 09 de maio de 2018, atingiu R$ 3,59.

Prepare-se amigo.

O valor em dólar da Petrobras em 2018 atingiu, ontem, US$ 89,5 bilhões.

Em maio de 2008 era de incríveis US$ 309 bilhões.

Em dólar a perda é de 71%.

Fake news. Triste ver isso nas páginas de economia de um grande jornal.

 

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Leandro Karnal sequestrou a Declaração Universal dos Direitos humanos.

Posted on 14/04/2018. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , |

Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH) não é um documento “de esquerda” ou progressista. Ao contrário, a DUDH é um documento pró-indivíduo e família, em defesa da propriedade privada, anti-coletivista e contra o poder estatal desproporcional.

É preciso relembrar o ambiente mundial de sua formulação. 1948, pós-guerra, o horror do nazismo relevado, mostrando que não há limites para a maldade humana, a Europa completamente destruída e os principais desdobramentos da guerra-fria só teriam início em 1949 e depois em 1951 com a guerra da Coréia.

Veja o que proclama em seu início: “Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem”.

Sem dúvida a principal motivação da DUDH foi se posicionar contra as atrocidades da segunda grande guerra, mas também proclamar que os homens deveriam viver sob um regime de direito e não opressivo, vejam:

Considerando que é essencial a proteção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão”.

Adiante trataremos da parte da declaração que poderia ser considerada contrária ao livre mercado e a favor do poder estatal, e que é amplamente recitada pelos grupos coletivistas (anti-individuo, anti-empreendimento e anti-capitalista).

Mas vamos iniciar com os direitos individuais e familiares para ver que a DUDH nada tem de coletivista ou “de esquerda”.

Para exemplificar como o conteúdo da DUDH é distorcido, vou usar um texto de Leandro Karnal, publicado em 01/04/2018, creio que no jornal O Estado de São Paulo, em que o filósofo trata da questão dos direitos humanos.

Quero ressaltar que estou usando o Karnal apenas para exemplificar a distorção do significado da DUDH. Não faço julgamento de valor sobre Karnal, apenas discuto algumas ideias colocadas por ele no artigo, e procuro mostrar que não são verdadeiras e que ele mesmo não as segue.

Vejamos como Karnal entende o significado da DUDH:

Direitos são humanos, ou seja, valem para todos, inclusive para criminosos presos. Sigo a tônica do documento assinado pelo Brasil na ONU: a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. A palavra-chave é universal. Basta “ser humano” para ter direito ao direito. Eu, sem ficha policial, trabalhando 16 horas por dia, digno do ambíguo título de “homem de bem” não tenho mais direitos humanos do que um traficante. Ainda que o traficante deva ser processado e punido, ele continua dotado de direitos humanos. Deve ser julgado e encarcerado em caso de comprovada sua atividade criminosa. Porém, em nenhum momento ele deixa de ter direito a um habeas corpus ou perde a proteção de todo cidadão pela Constituição de 1988, que proíbe tortura em qualquer ser humano.”

A DUDH declara igualdade, mas não nivela os direitos de infratores e não-infratores. Muito pelo contrário, nem todos os direitos humanos valem para criminosos presos, e para saber disso basta ler a própria declaração universal dos direitos humanos – DUDH.

A declaração de direitos humanos reconhece o direito dos países ao encarceramento, desde que dentro do processo legal, e, por isso mesmo, reconhece que nem todos os direitos estarão a disposição de todos os seres humanos.

E isso, em si, já diferencia infratores de não-infratores.

O próprio Karnal definiu o “criminoso preso” como público de destaque de sua análise, e NESSA CONDIÇÃO há vários direitos da declaração que não lhe são garantidos.

Do artigo 3º ele não tem direito à liberdade.  Do artigo 13 não teria direito de livremente circular e escolher residência, nem de sair do país. A liberdade de reunião, prevista no artigo 20, não é plena. Do artigo 21 ele não terá os direitos políticos e à participação em funções públicas. Do artigo 23 não terá o condenado o direito à livre escolha de trabalho.

Isso sem falar que o gozo dos direitos de vários outros artigos fica bastante prejudicado pela condição de encarcerado.

Karnal diz que ele, “cidadão de bem”, não tem mais direitos do que um traficante e afirma que o traficante deveria ser processado e punido. Mas, se isso ocorrer, se for condenado, vários direitos previstos na carta não mais valerão para ele, enquanto apenado.

Ou seja, não é verdade. Pode ser um belo “argumento de prateleira”, uma estratégia para se sentir “bom e justo”, mas não é uma declaração verdadeira.

Por fim, vale corrigir o texto de Karnal, ninguém tem “direito a um Habeas Corpus”, as pessoas têm direito de peticionar. Petições de Habeas Corpus são negadas todos os dias, ele não tem o direito, apenas a expectativa de obter um Habeas Corpus.

E segue Karnal:

“Tão talentosa em tantas coisas, Hebe Camargo disse no ar, certa vez, que os “direitos humanos deveriam ser para humanos direitos”. A falácia faz sucesso, mas é um grave equívoco. Direitos humanos para todos os seres humanos, inclusive para quem desdenha deles ou que comete infrações. Os direitos humanos são para a sociedade entender que toda exclusão de uma vida do rol das existências defensáveis tem o dom de banalizar a própria vida e diluir a fronteira que nos separa da barbárie. Falamos de direitos universais para que o mal não atinja todos. É quase um gesto de egoísmo, pois significa que qualquer relativização de direitos humanos é uma maneira de eu despertar o ovo da serpente, liberar a violência de aparatos repressores que, historicamente, deixam de reconhecer contenção. Ao defender a dignidade básica como valor universal, eu abro uma brecha na represa do ódio que, com certeza, vai encontrando novos espaços para fluir. Em nenhum momento isso significa defesa do crime. Toda a sociedade deve ser implacável na prisão e julgamento de criminosos comprovados. Lutar contra o mal é lutar contra o conceito em todas as instâncias, desde o criminoso em si até o das forças policiais e do Estado. O relativismo no campo da lei cria monstros e é a gênese de todo fascismo.

Interessante Karnal falar de relativização dos direitos humanos e da lei.

Como a DUDH, enquanto declaração de direitos civis, é um documento focado no indivíduo e declara os direitos do indivíduo, é também um documento de proteção contra o coletivismo, contra a imposição de valores e crenças, seja de minorias ou de maiorias.

E os grupos coletivistas, dos quais Karnal faz parte, ainda que de forma indireta, relativizam a DUDH o tempo inteiro.

Vejamos.

Artigo 19: Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

O que falar da liberdade de apoiar e votar no Bolsonaro, da liberdade de ser contra a ideologia de gênero, da liberdade para defender a escola sem partido, ou mesmo da liberdade de querer criar sua família dentro de uma religião?

 

E quando alguém profere uma ideia contrária à hegemonia moral politicamente correta e ouve “nazista”, “fascista”, “machista”, “capitão do mato” etc.? Isso acontece todos os dias.

Como essas clássicas atitudes do “debate e da luta política” se coadunam com os direitos humanos previstos na declaração?

E aqui não cabe dizer que “o outro lado também faz”, pois o criminoso também agride os direitos humanos, mas o coletivista defende que a sociedade não agrida os direitos humanos desse criminoso em resposta.

Dessa forma o coletivista não pode justificar seus ataques morais contra os “ignorantes, fascistas e nazistas” da “direita nacional”, alegando um justo revide.  Se não há justo revide contra estupradores e latrocidas, certamente não haverá contra quem tem opinião diversa, por pior que pareça, e que não é crime.

O descumprimento do artigo 19 é altamente opressivo em nossa sociedade, a “criminalização da opinião” virou regra nos debates das redes sociais. Pessoas são escorraçadas por opiniões política e ideologicamente não alinhadas à hegemonia moral politicamente correta, e Karnal não é diferente. Basta ver os vídeos com as opiniões dele sobre quem defende o “Escola sem Partido”. Não há argumento, apenas xingamento e desprezo pela opinião alheia. Além de evidente arrogância.

E o artigo 26, que diz que os pais têm prioridade de direito na escolha do tipo de instrução que será ministrada a seus filhos?

Esse direito humano vale ser lembrado sem tradução. Do original em inglês: “(3) Parents have a prior right to choose the kind of education that shall be given to their children.

Como se dá o respeito a esse artigo quando Karnal manifesta-se agressivamente contra a ofensiva dos pais que querem lutar contra a ideologia na escola (escola sem partido), que nada mais é do que querer garantir aos filhos uma educação escolhida por eles próprios, os pais, como está EXPLÍCITO na DUDH?

Como isso se coaduna com a base nacional curricular, como os pais terão a prioridade se alguns burocratas com valores desconhecidos pelos pais vão decidir sobre o tipo de educação que seus filhos terão?

Ainda que você defenda a BNCC e a ideologia na escola, é direito seu e posso respeitar sua opinião, é evidente que lutar contra isso NÃO é fascismo, obscurantismo, nazismo, é, tão somente, lutar por um direito humano previsto na DUDH.

E quando o artigo 16 afirma que: A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado?

Essa família deve ser protegida pela sociedade e pelo Estado como elemento natural e fundamental da sociedade. Como funciona esse direito humano fundamental com as doutrinas que querem destruir a família tradicional?

Lutar pelo seu direito à formação de uma família não-tradicional é uma coisa, plenamente justificável, mas lutar para destruir o modelo tradicional é infração (ou relativização) aos direitos humanos.

E o maravilhoso artigo 17, que diz que todo ser humano tem direito à propriedade e que ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Como funciona esse direito fundamental na doutrina marxista de luta de classes, na doutrina das esquerdas latino-americanos, na defesa de Cuba e Venezuela, nos planos do MST e do MTST etc.?

Eu pergunto: Essas atitudes não configuram flexibilização dos artigos da declaração dos direitos humanos?

Com a devida vênia, a DUDH é relativizada com frequência, principalmente por quem mais se diz defensor de direitos humanos.

E isso é fácil de explicar. O coletivista só assume como direitos humanos, o direito da coletividade que ele representa. Quando a DUDH proclama direitos do indivíduo e da família, que não são classes protegidas, o coletivista ignora solenemente a declaração.

Não há qualquer dúvida que os coletivistas, progressistas e as pessoas que querem cercear as liberdades individuais em suposta proteção a minorias (a hegemonia moral do politicamente correto é isso), relativizam amplamente partes da DUDH quando lhes é interessante.

E a outra parte, que proclama direito à dignidade no trabalho, na saúde, economia etc., é amplamente distorcida pelo coletivista. Vejamos.

Artigos que proclamam o direito à dignidade humana

Já vimos que grande parte da DUDH trata de direitos do indivíduo e da família, direitos estes que deveriam ser garantidos pelo Estado Moderno. Ou seja, são um reconhecimento de obrigação do Estado para com o indivíduo.

Alguns artigos da DUDH declaram outras obrigações do Estado e da comunidade internacional, especificamente sobre os direitos sociais, culturais e econômicos.

O artigo 22 é base para os direitos detalhados nos artigos 23 a 27, que falam de direito a repouso, à educação fundamental básica gratuita, salário digno, seguridade social, seguro desemprego etc., diz ele:

Artigo 22 – Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país

Apesar de garantir o direito de exigir direitos econômicos, sociais e culturais, a declaração não é irresponsável, pois também associa esses direitos às possibilidades e recursos do país.

Nos artigos seguintes, trata de direitos econômicos e sociais que, pelo artigo 22 , precisam estar de acordo com os recursos do país.

Declara-se que não deve haver discriminação nos salários, que deveriam ser garantidas férias pagas e o lazer, que todos deveriam ter um padrão de vida que garantisse a dignidade humana e que todos deveriam ter acesso a uma rede de proteção social que envolve segurança, saúde e previdência (seguro contra fatalidades).

No artigo 26, é direito humano a educação básica gratuita. Já a profissionalizante deverá ser garantida aos que se interessam, de acordo com o seu mérito.

Rede de proteção social não significa criar um povo dependente do Estado.

A declaração indica que um determinado padrão de dignidade humana é desejável, mas não é irresponsável a ponto de indicar os caminhos econômicos para esse feito. Não demoniza ou preconiza qualquer método de produção ou de geração de riqueza. Não é anti-capitalista, não mesmo. Nem poderia ser, protegendo o indivíduo, a família, a propriedade, o direito e os contratos.

O regime de plena atenção aos direitos humanos é o ambiente perfeito para o modo de produção capitalista. Salários dignos significam mais receitas e lucros, portanto mais remuneração do capital e investimento. Só um tolo acha que um acionista prefere que sua empresa venda menos por motivos ideológicos. Isso é non sense.

Mas o coletivista entende a DUDH como um argumento de luta, como um instrumento para acusar qualquer situação de desequilíbrio ou de pobreza como um descumprimento de direitos humanos básicos.

É uma ótica conveniente, porém errada, pois se esquece de que os direitos econômicos e sociais derivam do esforço nacional, do tipo de organização e dos recursos de cada país. Segundo a própria declaração dos direitos humanos.

Ou seja, não vêm de graça. Nunca vêm de graça.

Mas infelizmente garante discurso a quem crê que o direito prevalece, mesmo quando é inviável, infactível ou impossível. Ou até quando é indesejável.

A crença no direito, independente da sua factibilidade, é um entrave à formação de riqueza e à sabedoria.

Pessoalmente entendo ser necessário o desenvolvimento de uma rede de proteção social. Eu prefiro viver em um país em que as políticas públicas procurem equilibrar e harmonizar o desequilíbrio natural das relações humanas (são desiguais, pois somos desiguais). Essa é minha opinião.

Porém entendo que os indivíduos deveriam ser estimulados a NÃO DEPENDER dessa rede de proteção, a não contar com ela. Ela representa um ideal de proteção e seguridade, mas nada tem a ver com prosperidade ou liberdade. É tolice achar que o Estado poderá prover tudo para você atingir sua plenitude como ser humano. Jamais poderá.

A experiência, de todos os países e de todos os povos, mostra que o espírito empreendedor encontra as soluções para os problemas que aparecem diante de si e dos seus, mas o espírito coletivista tende a esperar por uma solução “de sistema”, que resolva tudo, todas as estruturas.

E, infelizmente, morre sem ver a solução “perfeita” e definitiva, enquanto poderia ter vivido em busca de soluções imperfeitas, mas funcionais, honestas e gratificantes.

Nesse ponto, o coletivista distorce o objetivo da DUDH, organizando a sociedade para cobrar os direitos sócio-econômicos, sem qualquer preocupação com a organização e os recursos de cada país.

E, por isso, fracassa. Fracassa com o país e, principalmente, com as pessoas a quem pretende proteger. Por isso os pobres salvos nos últimos anos não deixaram de ser pobres. O coletivista fracassou com eles, pois fracassou em gerar riqueza (e também em distribuí-la).

Enfim…

É possível compreender a Declaração Universal dos Direitos Humanos como sendo um documento de respeito ao indivíduo e à família, de proteção à propriedade e à opinião, de priorização dos pais na escolha da educação dos filhos, de reconhecimento da família como célula primordial da sociedade, isso tudo é muito claro e explícito.

E, infelizmente, são temas amplamente flexibilizados pelos coletivistas, que se autoproclamam os maiores defensores dos direitos humanos.

E também é possível compreender a DUDH como documento de estímulo à criação de redes de proteção social nos países, SEMPRE em harmonia com as condições econômicas e estruturais daquele país.

Nesse ponto, a principal distinção entre liberais e coletivistas, é que liberais entendem que essas redes de proteção social JAMAIS poderiam levar o indivíduo à dependência do Estado, pois resta evidente que depender de um ente terceiro para sua subsistência está longe de ser uma ideia razoável de liberdade. Lembremo-nos que a família é a célula a se proteger, portanto não deve ser aprisionada, não deve ser dependente. Dependência não é liberdade, é apenas uma das formas de aprisionamento. Melhor depender de si, com a proteção do direito.

Já o coletivista entende que o Estado é o único que pode “resolver” as contradições estruturais do capitalismo, portanto, não só as pessoas mais pobres devem depender do Estado, como também as mais ricas. Os governos totalitários são assim, mesmo os que permitem a propriedade privada e o empreendimento, acabam dando um jeito de fazer o empreendedor mendigar ajuda estatal.

Aliás, não foi muito diferente do que aconteceu no Brasil nos últimos 15 anos (e até antes). Coletivistas não suportam a vitória obtida sem apoio do Estado, por isso a subserviência da elite empresarial brasileira a um modelo corrupto de governança. Infelizmente os coletivistas no poder não deixam opção, ou está do lado do Estado, ou não compete.

Dessa maneira eu posso afirmar, com tranquilidade, que aceito viver sob os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sem relativizá-los, seria bastante confortável para mim, pois não desrespeita nenhum fundamento do livre empreendimento, da sociedade contratual e da manutenção da lei e da ordem.

Um mundo em que a DUDH é respeitada é um mundo racional, é um ambiente perfeito para o capitalismo.

Mas os coletivistas não podem dizer o mesmo. E realmente não respeitam a DUDH, ou a entendem apenas no que lhes é conveniente.

Por que Karnal afirma que não relativiza os direitos humanos, mas age em desacordo com essa afirmação?

É super simples de entender.

Karnal é um pensador/filósofo “do bem”. Isso significa que precisa se posicionar do lado de uma moralidade absoluta e indiscutível. Do lado da “verdade”.

Mas essa é uma ideia e uma expectativa tola e irreal. Karnal, e qualquer pessoa, apenas se posiciona de acordo com uma determinada moralidade, nunca do lado da “verdade”. Isso é o ápice da arrogância, crer que sua opinião é a moralidade suprema, a verdade e o caminho a seguir. Só aceitaria isso de um profeta, mas isso se dá no campo do mistério e da imaterialidade. Na religião.

Filósofos e pensadores de verdade assumem seu lado da moralidade e o defendem. Não tem a expectativa irracional de estar certo, de forma absoluta, apenas consideram que suas ideias são virtuosas, nunca perfeitas, mas defensáveis e merecedoras de difusão e publicidade.

É assim com Rogers Scruton, Jordan Peterson e Thedore Dalrymple. São pensadores conservadores que apenas defendem sua posição na moralidade.

Karnal, e a maioria dos coletivistas, seriam muito mais felizes se assumissem que apenas defendem um determinado modelo de moralidade, e não moralidade absoluta.

Ficaria muito mais divertido ver Karnal assumir que relativiza vários direitos humanos e defender esse ponto de vista. Ao se posicionar do lado “do bem”, Karnal apenas demonstrou inconsistência e incoerência entre a visão que faz de si, e seus próprios atos.

E isso, apesar de toda a erudição e capacidade oratória, faz dele um pensador menor, inconsistente e incoerente.

Mas, claro, é só minha opinião. Apenas meu entendimento de como são as coisas. Nada mais do que isso. Não confundir com a verdade, por favor.

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O fim do capitalismo? Tem gente se esforçando para isso, e não são marxistas.

Posted on 02/04/2018. Filed under: Finanças, Matemática, Política | Tags:, , |

Nesse breve vídeo falo daquela que é, provavelmente, a maior e mais perigosa disfunção da história do capitalismo moderno.

A atuação dos bancos centrais está colocando em risco todo o sistema capitalista, distorcendo as relações de risco e retorno e comprometendo a poupança das gerações futuras.

Os 3 elementos.

O capitalismo precisa de 3 elementos básicos para existir. Na verdade, na presença desses 3 elementos ele surge naturalmente. Sempre foi assim, e sempre será.

Precisa de respeito ao contrato de proteção à propriedade privada, precisa de respeito ao contrato de proteção à livre iniciativa e, mais importante, precisa de escassez.

É isso mesmo, sem escassez, não há capitalismo. Não há por que nos organizarmos para produzir se todos têm o que precisam, a qualquer tempo e a qualquer hora.

Como os marxistas querem acabar com o capitalismo?

Não é o tema desse vídeo, mas os marxistas seguem uma profecia do fim do capitalismo, onde haverá uma sociedade em que todos trabalham o que podem, e recebem o que precisam. Se eu posso 10 vezes mais e preciso 10 vezes menos, minha recompensa será 100 vezes menor que o meu trabalho. E o homem da profecia marxista estará feliz com isso.

Como esse homem não existe, os sistemas baseados na filosofia marxista entendem que precisam mudar a humanidade. Como querem algo anti-natural, acaba-se por praticar atrocidades nas populações sob regimes marxistas. Mudar o homem na marra, essa é a solução para acabar com a escassez. Se ninguém quer nada, não há escassez, portanto não há capitalismo. Simples (e sangrento) assim.

Se fosse uma religião eu poderia entender, mas como sistema político-social-econômico, acaba se tornando altamente opressivo.

Já o capitalismo busca acabar com a escassez produzindo mais, melhor e mais barato. Demora, mas um celular já custou 50.000 dólares e hoje está nos bolsos de moçambicanos e senegaleses paupérrimos.

Os bancos centrais acabaram com a escassez de capital. E isso é PÉSSIMO para o capitalismo.

Veja no vídeo abaixo.

 

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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