Crédito Fácil e Barato no BNDES, BB e CAIXA. Parece bom, mas não é bem assim.

Posted on 02/12/2013. Filed under: Finanças |

Nos últimos meses tem “aparecido” no meu campo de visão, um grande número de evidências de que a estratégia do governo é “abanar” o fogareiro.

Nos números é evidente, basta ver a incrível evolução na carteira de crédito dos bancos públicos, e a restrição nos privados.

Algumas evidências…

Crédito para devedores de baixo rating

Sem citar nomes, evidentemente, vi alguns amigos próximos, empresários, que nunca tiveram crédito, acessar linhas no BNDES (pequenas, de 10 a 20 mil), para investir em seus negócios. Taxas bem menores do que nos bancos privados, facilidade na análise da ficha etc.

Compra de carteira de crédito imobiliário

Em 2 oportunidades (em menos de 1 mês), vi gerentes do BB ligarem para ex-correntistas oferecendo a compra de créditos imobiliários feitos no HSBC e no Santander. São amigos próximos. Trabalham comigo.

Oferecendo taxas de 8,3% contra os atuais 9,5% dos contratos fechados há mais de 1 ano.

Oferta de crédito por telefone, internet, televisão etc.

Não tem 20 minutos, um colega, disciplinado financeiramente, recebe telefonema com oferta de crédito do seu banco (BB). Pra quê?

Ontem o programa da Regina Casé estimulava o telespectador a pegar crédito consignado. Dando a entender que o fato de ter o dinheiro descontado na folha seria uma vantagem?!?!?! Pois você “não precisaria ir ao banco pagar”!?!?!? Vantagem pra quem? Se o cara precisar de dinheiro para remédio, comida ou outra emergência, ele não poderá decidir NÃO PAGAR ao banco. A vantagem é claramente para o banco.

E ainda sugere, espantosamente, que a pessoa não se endivide! No intervalo do programa, ela aparece na propaganda da Caixa oferecendo crédito da “minha casa melhor” para comprar tablet.

Ok, tudo bem, é propaganda. Mas bem que ela poderia me explicar como é que se pega dinheiro emprestado sem se endividar…

Linhas GIGANTES de crédito no BNDES

Ali na Rua das Laranjeiras tinha uma casa destruída, sendo vendida há anos. Perto da Rua Pinheiro Machado. Um amigo comentou que o dono de uma clínica foi ver a casa e se assustou com o preço (R$ 4 milhões). Eu também me assustaria. Não é grande, e precisaria de mais R$ 1 milhão para ficar habitável.

Mas o que me assustou MESMO é que, apesar da estrutura de receita do cara ser relativamente pequena (a clínica é veterinária), ele já tinha esses R$ 4 milhões de crédito num banco público, com taxa baixíssima (acho que 6% ao ano), para comprar a casa.

Ela foi comprada há alguns meses e virou um hostel com bistrô.

Para quem tem experiência em planos de negócios, fica difícil ver como um investimento desses se pagaria com poucos quartos e um bistrô em que ninguém vai.

Isso é bom?

Não resta dúvida de que vários pontos têm feito seu papel para “segurar” esse crescimento mínimo da economia brasileira. Esse é um deles. Outros são: exigência de conteúdo nacional, crédito bilionário para supergrupos nacionais, financiamento subsidiado do BNDES para as privatizações/concessões etc.

Isso tudo influencia significativamente a economia, mas gera desequilíbrios que deixam dúvida sobre sua eficácia.

O tal conteúdo nacional pode trazer efeitos interessantes em 20-30 anos, mas no início gera um brutal desequilíbrio. Paga-se, às vezes, o dobro pelo produto, muitas vezes ele não funciona adequadamente (vide o caso dos estaleiros) e inflaciona-se incrivelmente o custo da mão-de-obra.

Como não há, por exemplo, trabalhadores de nível médio com experiência em plataformas de petróleo ou construção de navios, não é raro, mecânicos, soldadores e outros profissionais de nível médio, ganhando o dobro do que um gerente da área de telefonia, ou até diretores de empresas pequenas ou médias.

E não porque eles geram um valor agregado espetacular, essas empresas costumam ter grandes prejuízos, mas por carência de mão de obra para esses serviços.

E como o crédito para a construção desses estaleiros, ferrovias etc., também é subsidiado e farto, o “capitalista” tem risco baixo e não se importa de pagar qualquer preço.

Mas o pior não é isso…

O pior dessa febre de crédito não é isso. Se há oferta de crédito barato acima da demanda, ou acima da capacidade de economia, não há outro resultado que não a elevação do custo dos ativos.

Apesar de julgar que se deu bem, ao pegar um crédito gigante a custo baixo, o empresário esquece que esse mesmo crédito pode ter feito o preço do ativo, da casa por exemplo, sair de R$ 2.000 mil para R$ 4.000 mil. Ele não saberá se a manutenção da racionalidade na concessão de crédito não teria sido melhor para ele, pois pagaria MENOS pela casa/ativo.

E é evidente que não há racionalidade na concessão de crédito quando a captação é a custo zero (aporte do controlador/tesouro) ou subsidiada (FGTS e poupança).

Isso não é uma crítica ao governo, mas um alerta

Dada a desaceleração da economia, o aumento do endividamento das famílias e o aparente esforço do governo para “abastecer” o organismo financeiro com sangue novo (crédito), esse texto vem só para lembrar que essa estratégia é “neutralizada” pelo mercado, ao subir o valor dos ativos/insumos.

Por mais que o empresário sinta-se bem sucedido ao pegar empréstimos imensos a custo baixo, ele não consegue avaliar se pagando juros racionais (que pelo menos paguem a captação), não implicaria num ativo menos inflacionado e, consequentemente, num serviço da dívida menor.

Em resumo, a casa a R$ 2 milhões, com juros de 12% ao ano, é melhor ou pior do que a casa a R$ 4 milhões com juros de 6% ao ano?

Parece indiferente, mas não é. O montante dos juros pode ser igual, mas a amortização do principal é a metade.

Talvez não seja o caso de parar tudo, mas que deveríamos tentar voltar a ofertar juros racionais, que consigam remunerar o credor sem contar com captação subsidiada, parece-me bem evidente. Ao menos para neutralizar o crescimento assustador dos custos de aluguel, imóveis e de mão de obra de profissões específicas.

A continuar o crédito barato, não vai fazer muito sentido comemorar ágios imensos nos leilões de privatização, pois vamos acabar nós mesmos pagando esse montante na diferença dos juros subsidiados.

Não há nada pior que um capitalista que não coloca capital próprio e que não se arrisca.

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3 Respostas to “Crédito Fácil e Barato no BNDES, BB e CAIXA. Parece bom, mas não é bem assim.”

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Ola Portinho !!

Voce acabou de explicar esmiucadamente, para qualquer leigo entender, o que a escola austriaca de economia vem explicando ha mais de 1 seculo. Credito barato gera inflacao em ativos e ponto. Veja como anda as bolsas americanas nos seus topos historicos, enquanto a economia esta capengando. No Brasil, devido varias restricoes economicas (leia-se limite de importacao), nao somente ativos (imovel) estao inflados, o preco geral ao consumidor (inflacao) esta ameacando a disparar.
Belo artigo.

É meu nobre…
O problema é que o mercado não reclama, mas se vinga…
O dólar e a inflação vão acabar corrigindo isso.
A ilusão de riqueza é um problema sério. Dá ao sujeito que não tem saneamento, água, educação, saúde etc., a impressão de que está tudo bem. Tudo ótimo.
Mas as famílias que ganham entre 5 mil e 20 mil por mês, que deixam 25% do salário no IR + 35% no consumo, além de deixar o resto para um plano de saúde xexelento e um colégio meia boca, acham péssimo, mesmo vivendo em condições melhores.
É um país curioso…

Adorei sua resposta.
Pior que os que tem mais renda, tem teoricamente mais educaçao e estão amando parecer ricos.
Deus os abençoe, pq eles não sabem o que fazem!
Baita ignorancia, grandes numeros que não entregam porcaria nenhuma, especialmente qualidade de vida.
Com 3k euros, vive-se infinitamente melhor que 3k reais.
Bah.


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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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