Finanças

Europa e EUA vão parar de imprimir dinheiro? Só acredito vendo…

Posted on 15/04/2022. Filed under: Finanças | Tags:, , , |

Que acompanha meu canal no YT sabe que venho alertando para uma armadilha “japonesa” em que EUA e União Europeia estão se metendo desde 2008.

O Japão foi o primeiro país a brincar de sustentar seu crescimento com dinheiro público e juro zero, que significa, na prática, que o banco central imprime dinheiro e encharca os bancos com capital barato e de baixo risco.

Isso trouxe o cenário de crescimento baixo e juro real negativo que o Japão enfrenta há 30 anos, porém garantiu o status de país rico e desenvolvido.

Por que o Japão conseguiu brincar disso?

Obviamente só quem pode brincar disso é quem tem moeda forte e participação relevante no comércio internacional, o que é o caso do Japão desde os anos de 1980. A moeda japonesa tem participação maior no comércio e nas reservas internacionais do que a participação do PIB japonês, o que lhe garante estabilidade monetária em relação ao Euro e ao Dólar. Como se vê nos gráficos abaixo.

Além disso, o Japão brincava disso sozinho, portanto o mundo pouco sentia. Agora a situação mudou, com mais gente tentando fazer o mesmo desde, pelo menos, 2008.

Dá para todo mundo brincar de imprimir dinheiro sem parar?

Observe esse gráfico com a evolução dos balanços dos bancos centrais do G4, desde 2008.

Esse é um tipo diferente de “impressão de dinheiro”. O gráfico mostra o tamanho dos ativos que estão nos bancos centrais desses países. Esses ativos são comprados pelos próprios bancos centrais a partir de impressão de dinheiro/títulos que são trocados com os bancos e o sistema financeiro. Para manter os juros negativos ou próximos de zero, os bancos centrais precisam inundar o mercado financeiro e bancário com títulos de alto nível. É demanda e oferta de dinheiro. Quando tem muito, as pessoas só tomam crédito se for baratíssimo.

Após 2008, os balanços dos bancos comerciais foram dilacerados pelas baixas contábeis de recebíveis diversos, principalmente imobiliários. Havia um medo de que o sistema quebrasse e não houvesse mais liquidez para emprestar a quem precisa. A solução encontrada foi recomprar trilhões de dólares e euros desses bancos, retirando títulos menos líquidos e mais arriscados e adicionando títulos públicos de alto nível. Com esse “saneamento”, os balanços dos bancos ficaram robustos e eles puderam emprestar para evitar o colapso do sistema financeiro.

E com o excesso de capital (esse dinheiro injetado pelos bancos centrais é no sistema financeiro, não é dinheiro para gasto público, mas para empréstimo), tivemos esse boom de investimentos e empréstimos baratíssimos ao setor produtivo e ao consumidor.

A aposta dos dirigentes era de que esse excesso de dinheiro geraria inflação, porém eles estavam errados, e aparentemente até hoje não entenderam o porquê. Excesso de capital não gera excesso de demanda no fim da fila do consumo, mas bem antes disso gera excesso de investimentos, redução de custos de capital das empresas, aumento da concorrência (pois qualquer um pega dinheiro barato) e, consequentemente, redução de custos. Enfim, não gerou inflação, apesar dos trilhões emitidos.

Perceba que a coisa estava em certo equilíbrio até a COVID, quando os bancos centrais passaram a imprimir ainda mais, em grande parte para financiar, indiretamente, o déficit gerado pela parada das economias e o gasto público.

Perceba que o FED passou a comprar muitos títulos de longo prazo do Tesouro Americano. Isso foi feito provavelmente, para retirar esses títulos do mercado e abrir espaço para o governo emitir diretamente ao público e captar para bancar os déficits da COVID. Uma estratégia para evitar que o marcado não tivesse interesse nas novas captações. Mas, ainda assim, uma estratégia marota de criar uma riqueza falsa a partir de um interesse falso dos players do mercado.

O dinheiro que gera inflação chegou em 2020.

Até a COVID os bancos centrais ainda pareciam se preocupar com o excesso de liquidez, buscando reduzir as compras mensais de ativos dos bancos e subir os juros, mas isso foi por água abaixo com a pandemia.

As elevações na relação dívida/PIB nos países desenvolvidos oscilou entre 15% e 30%. Isso não é dinheiro dos bancos centrais, é dinheiro captado pelos tesouros nacionais e, em sua maioria, gastos durante a Pandemia, tanto com custos de saúde (os EUA pagaram tudo para todos) quanto com auxílios e benefícios. E muita coisa ainda continua sendo paga e os gastos continuam altos.

Esse dinheiro é inflacionário, pois gera consumo direto na ponta, tanto pelas pessoas quanto pelos governos. E fica ainda mais inflacionário num ambiente em que as cadeias de suprimento e produção simplesmente pararam.

A guerra na Ucrânia e a inflação

Em tese, após a COVID (que ainda é um flagelo em várias partes do mundo, a China hoje, 15/04/2022, está em lockdown, por exemplo) as linhas de suprimento poderiam voltar ao normal e, pelo menos, aumentar a oferta de bens no comércio mundial, porém veio a guerra e todo o quadro mudou.

A guerra está causando um choque nas commodities, de preço e de oferta, que provavelmente demorará muito tempo para retornar, se é que retornará. A previsão para o futuro imediato é de queda brutal no comércio de fertilizantes e possível falta de produtos agrícolas nos próximos meses.

Além disso, as sanções impostas à Rússia estão forçando um retrocesso na globalização, com possível retorno do comércio ideológico entre blocos de países. Comércio ideológico é quando o que vale principalmente é a questão geopolítica e não a econômica. E o prejuízo potencial disso é incalculável.

Principalmente se essa ideologia chegar ao mercado de moedas. E aí chegamos ao nosso ponto.

Por que os países ricos se importariam com a inflação, se basta imprimir dinheiro e entupir os países exportadores de dólares e euros?

Essa é a questão principal. Até a primeira década dos anos 2000, a maioria dos países emergentes tinha problemas com balança de pagamento e pouquíssimas reservas em moeda forte. Praticamente todos os choques econômicos foram em função de quebradeira cambial nesses países.

Isso mudou radicalmente. A maioria dos países exportadores hoje tem excesso de reservas, bem mais do que o necessário para transacionar no comércio internacional e garantir o fluxo de capitais. Esses excessos de “impressão de dinheiro” nos países ricos acabaram parando nos balanços dos países emergentes, que hoje têm trilhões de dólares de reservas e, em tese, não precisariam mais ser entulhados com phony money.

A riqueza desses países ricos é garantida, em grande parte, por emitirem papéis que todos aceitam. É claro que produzem e exportam muito, mas sem a capacidade de imprimir dinheiro aceito por todos, a riqueza seria muito menor. Veja o caso das dívidas soberanas de Portugal, Itália, Grécia e Espanha há alguns anos. Se não estivessem denominadas em Euros, os países teriam quebrado em nível semelhante ao que acontecia com os emergentes na década de 1990, e com os próprios países europeus periféricos antes da zona do Euro.

E esses países vão continuar ricos enquanto puderam brincar com a impressorinha de dinheiro e todos aceitarem o papel que sai de lá. Isso é certo. E eles sabem disso.

Imagine, por exemplo, que os EUA precisem aumentar o orçamento de guerra em 3 trilhões de dólares, isso elevaria os custos de commodities associadas, que eles pagariam apenas imprimindo mais dinheiro. Mas e se o vendedor exigir bens reais, ou limitar a aceitação de dólares? Impensável há alguns anos.

Mas é possível que esse poderio monetário dos países ricos seja revertido?

Essa parte do texto é exploratória. É território não mapeado. Eu realmente não sei e vou fazer um brainstorming com os leitores.

O mundo mudou demais nos últimos 30 anos, há novas tecnologias, os países ricos chutaram o balde monetário e nem fingem mais de austeridade. Aquela pregação do FMI morreu. Difícil saber o que vai acontecer. Mas uma coisa parece certa, os países ricos ficaram viciados em imprimir dinheiro e não sabem como voltar atrás. Enquanto era só o Japão brincando disso, ok, agora com 50% do PIB mundial entrando na brincadeira, a coisa muda de figura.

Em pleno abril de 2022, com a maior inflação dos últimos 30 anos, a presidente do BCE, Christine Lagarde, está fingindo que o problema nem é com ela. Disse que a inflação atingiu um topo e vai cair sozinha. Pronto. Fazer nada. Nada de aperto monetário, austeridade ou parar de bombear riqueza fake nos balanços dos bancos. O Fed também está vendo a maior inflação desde o segundo choque do petróleo e tentando controlar com promessas de alta de juros. Um dia, quem sabe, subir 0,5%. E mesmo assim os títulos de 30 anos estão pagando apenas 3% ao ano, com inflação próxima de 10%. Capaz da inflação de 2 a 4 anos retirar metade da rentabilidade real esperada para o título em 30 anos.

Enquanto isso os países que não contam com essa impressora infinita, aumentam os juros significativamente, como o Brasil.

Mr. Smith e Mrs. Elizabeth vão brincar até que alguém consiga fazer a música parar. E como isso poderia ser feito?

Criptos?

Realmente não sabemos como parar a música, mas alguns caminhos, bem conturbados, poderiam ser imaginados, como, por exemplo, parte do comércio internacional começar ser feito com uma criptomoeda com algoritmo anti-inflacionário.

Calma, isso não tem nada a ver com bitcoin, apenas com a tecnologia de criar uma representação monetária de uma cesta de moedas que oscilaria levando em conta a disciplina fiscal dos países.

Certamente os países ricos não participariam disso, e provavelmente até iriam à guerra comercial contra essa iniciativa. As sanções econômicas aplicadas à Rússia são verdadeiramente um ato de guerra. Se os EUA pararem de proteger a Arábia Saudita, poderá provocar uma guerra.

Na verdade, as sanções impostas à Rússia podem ter acelerado a ideia de uma moeda não passível de sanção. Para a Rússia, Euro e Dólar perderam muito a utilidade. Como moeda de troca imediata ainda valem, mas como reserva, não valem nada, pois a qualquer momento podem ser confiscadas (grande parte já foi). E esse tipo de ação retira boa parte da fidúcia (confiança) da moeda fiduciária.

Um movimento parte ideológico, parte monetário e parte de autopreservação contra o poderio monetário dos países ricos, poderia criar uma moeda de troca internacional, entre os países participantes, com algoritmo não inflacionário, ou seja, as relações de troca com outras moedas oscilarão, em relação à nova unidade monetária, de acordo com a disciplina fiscal dos países, e suas inflações relativas.

A China poderia aportar yuan, a Rússia rublo e a Índia rupia, transformando aquele aporte em unidades monetárias de curso da nova moeda entre o grupo econômico. Não só os países poderiam acessar, mas principalmente os exportadores/importadores.

A esfera de influência econômica da China beira 80 países, dos mais pobres do mundo, que poderiam participar diretamente disso. Bem como o bloco ideológico antiamericano do Oriente Médio e em parte da América Latina.

Possível é, e nem muito difícil seria.

A Rússia, por exemplo, passou a pedir para ser paga em rublos, mas isso é bem difícil de dar certo. O contrário teria mais chance de funcionar. Se a China começasse a exigir que suas compras sejam pagas em yuan, os exportadores vão acabar, eventualmente, aceitando, ou perdendo esse mercado insubstituível. E de uma hora para outra a moeda já passaria a representar 20% do trânsito monetário no comércio internacional.

Difícil não é, mas a questão é essencialmente geopolítica. Os países ricos totalmente endividados e confiantes de que sua riqueza será mantida, pois podem imprimir papel e comprar carne da Argentina e cobre do Chile, provavelmente vão lançar uma guerra comercial violenta contra o bloco ideológico/monetário e o empobrecimento do mundo será sem igual, nível segunda guerra. Provavelmente isso entregará todos os avanços econômicos da globalização. Todos.

Outra opção para a queda desse poderio monetário, seria o fim da globalização e início de uma guerra fria comercial.

Se os movimentos atuais não gerarem uma guerra quente mundial, ainda não está claro que esse desfecho não esteja no radar, uma possibilidade é de retorno ao comércio ideológico da época da guerra fria, em que parte do mundo não conversava monetariamente.

Ocorre que o bloco emergente é hoje bem mais influente do que o bloco comunista da época.

A visão dos emergentes é bem mais ideológica/religiosa do que o que se encontra nos países ricos, que são cada vez menos religiosos, cada vez mais pós-modernistas, cada vez menos racionais e mais consumistas. As medidas contra as mudanças climáticas, por exemplo, deixaram Europa e EUA reféns não só da produção de energia do exterior, como também da incrível necessidade de extração de matéria-prima para dar conta de tantas baterias e de tanta infraestrutura inteiramente nova.

Uma recessão prolongada, com falta de produtos e empobrecimento rápido da população, sem esperança real de melhoria no médio prazo, seria encarado pela maioria esmagadora dos países emergentes e pobres como nada muito diferente do que já vivem, ou dos riscos aos quais sempre estiveram submetidos.

Para países com forte viés ideológico e controle de sua economia e de sua população, o nacionalismo e o sentimento de pertencimento podem fazer com que o povo aceite uma redução nos seus padrões de vida sem grande ruptura social. Na verdade, a maioria dos países não está em situação confortável e pouca coisa mudaria. Os ventos da globalização pararam de ventar há alguns anos, e só quem imprime dinheiro está se safando.

Porém é bastante incerto o que aconteceria nos países ricos, em termos políticos, se afundassem numa recessão e passassem a não mais comandar o movimento ideológico mundial (democracia representativa, livre comércio, organismo multilaterais, pautas de gênero, raciais e ecológicas etc.).

Não surpreenderia o surgimento de líderes nacionalistas e populistas prometendo enfrentar o inimigo externo. Na verdade, nacionalistas e populistas já estão crescendo bastante na Europa e isso pode trazer um revés incontornável para as pautas identitárias, verdes e globalistas (tudo aquilo que pretende se tornar uma ideologia global dominante).

Qual o cenário imediato menos dramático?

Penso que seria uma conjunção do seguinte:

  • Fim da guerra na Ucrânia, qualquer que seja a concessão necessária.
  • Fim das sanções à Rússia e fim da retórica ameaçadora dos EUA. A Janet Yellen advertiu todos os países que ficarem neutros na guerra. Neutros. Isso é uma ameaça infundada e um sinal preocupante.
  • Fim da COVID, ou que se torne uma doença como outra qualquer.
  • Retorno imediato das cadeias produtivas.
  • Europa e EUA começarem a reduzir seriamente seus balanços, aumentar os juros para patamares normais e acabar para sempre com o quantitative easing (essa praga que viciou o sistema financeiro).
  • Todos os países relevantes dançarem a mesma música, a da austeridade monetária e fiscal.

Mas também acho que não deve acontecer nada disso. É wishful thinking.

A aposta dos países ricos não parece ser essa, creio que nenhum desses cenários está considerado (talvez o fim da COVID). O que eles estão esperando é que tudo permaneça mais ou menos na mesma, e que a inflação ceda em algum momento, para que possam continuar imprimindo dinheiro. É esse o grande plano.

Para isso dar certo e eles poderem voltar a imprimir dinheiro sem que ninguém note, não é possível que a riqueza falsa criada nos últimos anos continue e ainda se amplie com mais dinheiro impresso. Deveria haver um empobrecimento generalizado nesses países. Não dá para, do patamar de riqueza em que estão, no preço dos ativos reais e de bolsa, eles continuarem a imprimir dinheiro nesse nível e a inflação mundial arrefecer. Além de tirarem o espaço de consumo de outros países que precisam se desenvolver.

Os ajustes no mercado de renda fixa

Uma parte dessa perda já está em andamento, o mercado de títulos de dívida está colapsando, fazendo desaparecer mais de 2,5 trilhões de dólares em valor. E os juros subiram, porém não fazem cócegas na inflação, portanto a perda real é ainda maior.

Mas isso é ainda bem pouco, e para ser duradouro os juros precisam subir e ficarem altos.

O ajuste cambial

Existe a questão cambial. Não é possível passar anos imprimindo dinheiro sem controle e esperar que esse dinheiro seja cada vez mais valorizado. É o contrassenso econômico mais evidente no mundo hoje.

Para resolver isso, a inflação deveria durar o suficiente para que parte da riqueza fake gerada pela impressão de dinheiro fosse reduzida e ficasse em linha com a produtividade dos países. Inflação é isso, um lembrete de que não somos tão ricos.

Para que haja espaço para novas emissões, seria necessário uma forte perda de valor das moedas fortes em relação às moedas dos principais exportadores, pelo menos. E isso até pode acontecer, mas será acelerado se houver um movimento coordenado de exportadores para forçar a diversificação monetária. Isso implicaria em inundar o mundo com dólares e euros de volta, o que poderia fazer as moedas perderem valor.

Isso pressionaria demais a inflação local nesses países, que teriam realmente que subir os juros, pois caso contrário ninguém financiará seus déficits, porém, em um segundo momento, tornaria esses países mais competitivos no mercado internacional. Seria até saudável no médio prazo.

Os ajustes nos ativos reais e nas ações

Além da queda nos preços dos ativos de renda fixa e da queda no poder de compra da moeda causada pela inflação, também é necessário desinflar o preço dos ativos reais.

O mercado imobiliário está sofrendo com a alta dos juros para empréstimos de 30 anos, pressionando o mutuário americano. A questão é que esse mutuário tem a imagem de 2008-2010 bem firme na cabeça, e sabe que uma quebradeira geral no mercado, poderia acabar beneficiando-o no médio prazo com o derretimento dos valores dos imóveis e o refinanciamento de dívidas com grande redução nos principais.

O americano que estiver pagando muito pela hipoteca, e vendo o imóvel desvalorizar, deve estar, nesse momento, torcendo por um novo colapso.

Com relação às ações, estamos vendo ainda preços muito altos, mas isso é principalmente devido ao crescimento das Big Techs, que ganham demais com a infraestrutura de nuvem e serviços. Isso realmente disparou no mundo pós-COVID.

Muitas empresas, assim como no Brasil, já estão 50% mais baratas do que no auge, algumas perdendo muito mais, principalmente no varejo.

O que pode pressionar significativamente as ações vitoriosas é o custo de energia e de matéria prima. Mais do que isso, se houver escassez de semicondutores ou comércio ideológico de lítio, terras raras e outros elementos importantes para o desenvolvimento tecnológico, não será nem uma questão de preço, mas uma questão de não conseguir comprar mesmo.

E isso é muito sério. Enquanto escrevo, a China faz manobras perto de Taiwan, em resposta à visita provocativa e desnecessária de Nancy Pelosi, que nem é chefe de estado.

Com a China controlando Taiwan, o lucro das Big Techs vai estar quase inteiramente dependente do que a China entender necessário vender. 90% dos semicondutores mais avançados são produzidos em Taiwan.

Enfim, o que vai acontecer é….

Não faço ideia, mas não me parece que as soluções serão as mesmas de sempre. Não me parece que empurrar com a barriga para ver onde vai dar seja uma solução plausível dessa vez, ainda que seja exatamente o que o FED e o BCE aparentam fazer nesse momento.

Relendo tudo o que escrevi, para fazer esse longo artigo de opinião, seria leviano se não dissesse que a primeira coisa que me vem à cabeça é GUERRA. Não sei se a terceira guerra mundial, uma guerra econômica protecionista ou um retorno gradual ao comércio ideológico e geopolítico da guerra fria.

A resposta dos países ricos à guerra na Ucrânia, cancelando a Rússia e fazendo ameaças diretas aos países neutros, provocando a China em Taiwan e o Paquistão com participação na queda do primeiro ministro, dão a impressão de que querem que o clima esquente de fato. Consigo pensar em alguns motivos para serem beneficiados com esse clima quente. Seriam:

  • Aumento do gasto militar para mais de 2% do PIB na Europa e 6% nos EUA.
  • Corrida armamentista também nos emergentes.
  • Cortina de fumaça para que ninguém questione a impressão desenfreada de dinheiro.
  • Alguém para culpar pela inflação mais alta dos últimos 40 anos. Não podiam culpar as medidas contra COVID, pois foram propostas por eles mesmos. Os EUA já chamam de “inflação do Putin”.
  • Motivo para imprimir mais dinheiro sem prestar contas (gastos militares).
  • Enfraquecer militarmente a Rússia, destruindo suas formas de financiamento e aproveitando os 600.000 homens treinados pela OTAN na região de Donbass nos últimos 8 anos para infligir grandes perdas militares.

Para dar certo, tem que combinar com os russos. E com os chineses, indianos, árabes etc.

E o Brasil?

O Brasil está sendo pressionado nesse momento, pela OMC, a aumentar a oferta mundial de alimentos. E também recebeu indiretas da Janet Yellen por ter ficado em cima do muro.

Fiquei um pouco preocupado com as sanções aplicadas à Rússia, até então inimagináveis, como o congelamento de bens no exterior, de reservas e perseguição a empresas russas. Se fazem isso com o Brasil a gente volta 50 anos.

E, infelizmente, os países ricos já alertaram que esse tipo de sanção poderá ser usado contra países “negacionistas do clima”, “anti-democráticos” etc., ou seja, podem ser usados contra qualquer país que não se alinhe à ideologia dessa democracia pós-moderna que é praticada nos EUA e na Europa. O Brasil já é alvo disso e a coisa pode apertar no futuro.

Para o Brasil o ideal seria que ambos os lados ficassem suficientemente fortes para que não fôssemos forçados a nada. Ou fracos e receosos de ampliar crises econômicas e militares. De qualquer forma, o que ficaria ruim para nós seria virarmos marionete de interesses estrangeiros explícitos. Hoje já somos um pouco assim, com políticos alinhados ideológica e financeiramente com interesses diversos, desde chineses a europeus.

Infelizmente o Brasil é visto apenas como ativo estratégico, o interesse pelo bem estar do nosso povo é zero.

Enfim, é o momento econômico mais delicado do pós-guerra, e os impressores de dinheiro fazendo cara de paisagem. A ver o que vai acontecer.

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O Cálculo de Eficácia das Vacinas: Ter Apenas 2 Doses ainda Protege Contra Hospitalização e Óbito?

Posted on 24/01/2022. Filed under: Finanças | Tags:, , , , , |

Eu tomei as duas doses no terceiro trimestre de 2021 e estou sem saber se a eficácia desse regime vacinal contra hospitalização e óbito continua válida. Como saber?

Spoiler: os números que calculei são bem surpreendentes, mas refiz algumas vezes os cálculos e estão certos. Não esperava por isso. Don’t shoot me, I’m only the piano player!

A mudança nos dados do Reino Unido parece permitir isso.

Eu sigo alguns países/regiões que fazem acompanhamento semanal da COVID separando por faixa etária e status vacinal, entre eles o Reino Unido.

Até o report da semana 2, eles misturavam todos os vacinados nos cálculos de eficácia, e na semana 3 passaram a contabilizar apenas os vacinados com 3 doses (após 14 dias da terceira dose) no cálculo da eficácia.

Achei ruim num primeiro momento, mas como eles continuam dividindo os números absolutos de casos, óbitos e hospitalizações entre quem tomou 2 e 3 doses, e como eles também divulgam a quantidade de vacinados em cada regime vacinal e faixa etária, essa mudança acabou trazendo insumos para calcular a eficácia remanescente do regime vacinal completo anterior (2 doses).

Mas antes de mostrar o cálculo (bastante decepcionante), peço ao leitor paciência para tratar de algumas imperfeições nesse tipo de análise de eficácia. 2 problemas:

1. Teste da vida real não é pesquisa científica de eficácia

Nos estudos científicos RCT de eficácia das vacinas, os grupos escolhidos são conhecidos em vários aspectos relevantes, como idade, comorbidades, gênero etc., de forma que podemos pegar, por exemplo, 10.000 indivíduos com status vacinais diferentes e dividi-los em 2 grupos randomizados (ainda que seja necessário reduzir o grupo). Podemos acompanhá-los por alguns meses e calcular a eficácia, de fato, em uma pesquisa científica, randomizada e controlada.

Nos testes da vida real a heterogeneidade dos grupos não é captada.

2. Os denominadores são um problema

Outro problema dos cálculos da vida real é a quantidade de indivíduos não vacinados. O número de vacinados é fácil de saber, assim como a quantidade de doses, data etc., pois há registro oficial de todos, mas os não vacinados seriam “o resto”. E o resto depende, em grande parte, de estimativas. Algumas baseadas em censos com até 10 anos de atraso, outras baseadas em número de registros de seguro social etc., mas via de regra não sabemos ao certo.

Para dar uma ideia da dificuldade, alguns países já reportam mais de 100% de indivíduos vacinados em determinadas faixas etárias, porém continua havendo registro de pessoas, nessa faixa etária, que contraíram, hospitalizaram e morreram e não estavam vacinadas. Isso não seria possível se, de fato, tivéssemos 100% de vacinados nessa faixa.

Os números da Dinamarca, por exemplo, indicam que 104% dos idosos acima de 80 anos receberam 3 doses da vacina, o que é uma impossibilidade matemática. Isso mostra claramente como o número oficial de idosos na faixa etária é bastante subestimado.

Esse site, por exemplo, é usado como referência para eficácia de vacinas, mas os dados são distorcidos, como fica evidente nesse gráfico.

Um site com 104% de indivíduos vacinados com 3 doses não pode ser confiável como indicador de eficácia, mas é usado como referência fidedigna, infelizmente.

Na prática, para fins de estudo epidemiológico, é e será cada vez mais difícil, termos grupos de controle para comparar com os grupos vacinados. Restará apenas a comparação entre países com alta e baixa vacinação, mas, ainda assim essa comparação só seria bem feita se pegasse grupos de ambos os países e randomizasse por idade, status vacinal, comorbidades, hábitos etc..

Mas esse último problema não existe na comparação entre quem tomou 2 ou 3 doses.

Isso é interessante. O número de ambos os grupos é sabido com segurança, pois foram registrados formalmente, com data, social security number etc. e isso dá a possibilidade de calcular a tão importante eficácia remanescente para o regime vacinal de 2 doses.

Por que é importante saber a eficácia remanescente da segunda dose, se bastaria tomar a terceira dose?

Colocando de forma simples, é o “Efeito Orloff”, que parece um termo científico, mas é apenas uma alusão à propaganda de sucesso da Vodka Orloff, com o slogan: “eu sou você, amanhã”. A julgar pela perda de eficácia das 2 doses, não surpreenderia se a terceira dose acabe se tornando, em 3-4 meses, “as duas doses”.

Mas a resposta um pouco mais elaborada tem a ver com a tecnologia vacinal, e infelizmente não cabe debate nesse artigo (daria um artigo por si mesmo). Vamos direto ao cálculo de eficácia das 2 doses.

Infelizmente os dados do UK indicam que há perda importante de eficácia.

Segundo os dados do UK, a terceira dose continua apresentando elevada eficácia contra mortes e hospitalizações em relação ao grupo não vacinado. Ainda que a gente não consiga saber exatamente o número total de não vacinados em cada grupo.

Mas e a eficácia do grupo com duas doses?

O método

Vamos pegar o acumulado de óbitos por faixa etária entre a semana 51 e a semana 2, e comparar com a base vacinal de 19/12/2021, antes de iniciar a semana 51.

Por que isso?

Por que os óbitos aconteceram depois dessa data e seria errado, por exemplo, pegar os dados vacinais de 14 dias antes (05/12) ou do final do período (16/01), portanto optou-se por um período intermediário. A diferença não deve ser grande, pois os idosos estão com terceira dose há um bom tempo.

Dados aqui.

Veja essa comparação abaixo, com 1 mês de diferença (esses dados são da Inglaterra, que serão assumidos representativos do UK, dado o tamanho da população e as regras praticamente idênticas):

Em 19/12:

O total de pessoas com 80+ anos vacinadas com 3 doses era de 2,488 milhões, e o total com apenas com 2 doses era de 337 mil indivíduos (a diferença, pois todo mundo que tomou 3 doses, tomou duas doses).

Em 23/01/2022:

Perceba como cai o número de pessoas com apenas 2 doses.

Se eu utilizasse esse número mais recente, estaria distorcendo a estatística, pois usarei óbitos que aconteceram com base em uma população com status vacinal diferente do de hoje, assim como se utilizasse uma base muito mais antiga.

Os dados de óbitos (em 28 dias) ocorridos até o final da semana 2/2022:

Dados aqui.

Obs. Não se assuste com o número muito mais alto de óbitos entre vacinados, é normal que seja assim em números absolutos, pois é o grupo maior.

O número de vacinados e óbitos (considerando como proxy os dados da Inglaterra, o que não mudará a comparação) nas 4 faixas mais atingidas é (a faixa de X0-X4 e X5-X9 foi somada para ser comparável com a faixa de óbitos):

Os riscos relativos dos regimes vacinais

Por esse método, o risco relativo de óbito para quem tem apenas 2 doses foi 10 vezes maior para a faixa entre 50 e 59 anos, 12,5 vezes maior para a faixa entre 60 e 29 anos, 15 vezes maior para a faixa entre 70 e 79 anos, e 6,28 vezes maior para o grupo com 80 anos ou mais. Queda assustadora de eficácia.

Infelizmente a comparação com o grupo não vacinado não pode ser feita dessa forma, pois não sabemos exatamente quantos são os não vacinados, mas o sistema do UK continua reportando os riscos relativos dos não vacinados. Vou pegar os dados mais atuais (que estão bem próximos do cálculo que fizemos para 3 doses).

Agora comparando o risco do não vacinado com o vacinado com 2 doses, temos o seguinte:

Em termos percentuais, o risco continua maior para não vacinados, porém com uma redução bastante significativa em relação às três doses ou à expectativa inicial das 2 doses.

Para que o leitor entenda melhor esses dados, é o seguinte.

  • Na faixa de 50 a 59 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 213 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 60 a 69 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 134 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 70 a 79 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 101 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 80+ anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 139 não vacinados foram a óbito.

Antes da conclusão, uma sugestão metodológica.

Os dados de 2 e 3 doses são comparáveis, pois os denominadores são conhecidos, restando apenas uma questão de ajuste na base vacinal inicial.

Mas poderíamos saber com mais precisão ainda essas taxas, dado que as secretarias de saúde têm as datas exatas de óbito, internação e vacinação, portanto poderiam simplesmente gerar a estatística de forma simples, parametrizada até por prazo (14 dias após a dose X, por exemplo).

Além disso, poderiam associar a estatística não só à mortalidade por COVID, mas à mortalidade geral, que é o indicador final do sucesso de uma política pública: reduzir a “all cause mortality”.

Por que não fazem? Sei lá, mas os números existem e são facilmente compiláveis. Seriam extremamente úteis, pois esses cálculos que fiz são aproximados.

Conclusão

Os números parecem não deixar muita dúvida sobre a queda da eficácia do regime de duas doses. Eu realmente esperava outro resultado.

Quero repetir isso, em caixa alta: EU REALMENTE ESPERAVA OUTRO RESULTADO.

Isso explica a opção dos governos e dos meios de comunicação por não falar abertamente sobre a queda da eficácia regime vacinal inicialmente proposto, e focar em fazer propaganda do booster (terceira dose).

O problema a observar é se a terceira dose vai perder eficácia na mesma proporção e velocidade da segunda dose, entre 90 e 120 dias.

Isso fica particularmente delicado quando sabemos que a onda atual de Omicron BA.1 é de um vírus com proteína S completamente diferente daquela para a qual a terceira dose proveria proteção, e está, aparentemente, no início uma substituição da BA.1 pela BA.2, que tem entre 17 e 20 novas mutações em relação à BA.1. Ainda mais diferente.

Nossa melhor esperança é que o vírus pegue leve. Parece que estamos nas mãos da relação orgânica e não modelável do vírus e de nosso sistema imunológico.

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Coisas que Desaprendemos nessa Pandemia: A Inteligência da Imunidade Natural

Posted on 21/01/2022. Filed under: Finanças |

Desaprendemos coisas demais durante essa pandemia, abandonamos não só conhecimento clássico sobre epidemiologia e imunidade, como perdemos a capacidade de fazer bons julgamentos sobre as informações que recebemos.

No dia 19/01/2022 o CDC publicou um estudo que deveria ser avassalador para o racional utilizado para priorização da vacinação. Falaremos dele em breve, primeiro vamos analisar os mecanismos que nos afastaram dos julgamentos racionais e questionamentos mínimos necessários ao processo de conhecimento. Fique até o final, não vai se arrepender!

O que é melhor, vacina ou imunidade natural?

As vacinas são uma invenção fantástica, pois conseguem conferir imunidade contra doenças, sem que as pessoas precisem ficar doentes. E sempre foi esse o racional dessa revolução da medicina, pelo menos até 2020.

Porém nunca fez muito sentido duvidar da superioridade sistêmica da imunidade natural, em termos de proteção contra futura infecção, em comparação à imunidade provocada pela vacina. Há dezenas de estudos para as vacinas mais comuns, como sarampo, varicela e influenza, mostrando o que deveria ser óbvio: a imunidade natural dura mais e funciona melhor:

Influenza: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2703026/

Measles: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8147093/

Varicella: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2839610/

Mas isso nem deveria ser colocado em questão, pois o que faz a tecnologia clássica das vacinas é simular uma infecção e provocar o sistema imunológico, aproximadamente como faz o próprio patógeno. NO MÁXIMO, se poderia aceitar que as pessoas acreditassem que vacina trouxesse uma proteção igual à da infecção natural. Mais proteção, não faz sentido.

A propaganda foi tamanha, que as pessoas simplesmente esqueceram como funcionam as vacinas, esqueceram que elas SEMPRE USAM o nosso próprio sistema imunológico, que elas não são “sucos antivirais”, não são super-heróis que entram em nosso sangue e combatem o vírus. Na verdade, as vacinas não combatem nada, apenas expõem o organismo ao patógeno, de forma controlada, para que o próprio organismo crie suas defesas. O próprio organismo é que cria.

Ah… mas as novas tecnologias…

Esse modelo mental que tomou conta da humanidade é dos mais estranhos em que ela já se meteu na história. Novas tecnologias, inseridas no corpo, sem testes de longo prazo, aplicadas em toda a população adulta da Terra, ao mesmo tempo, é o maior risco não calculado em que a humanidade, voluntariamente, já se meteu.

E o curioso é que a humanidade tem se acreditado ecológica, holística, respeitadora das leis da natureza, da gaia, da mãe Terra, dos animais, do ecossistema etc., não se pode tirar uma perereca albina do seu habitat natural que vai gerar um desequilíbrio imprevisível, mas não questiona uma tecnologia nova injetada em toda a população adulta da Terra, em 1 ano. Não há nada menos ecológico, humanista, holista, Zen ou “quântico” do que isso.

O estudo do CDC

De início preciso colocar aqui que o CDC é uma enorme decepção nessa pandemia. Li umas 2 dúzias de estudos, e até que os números eram honestos, mas a conclusão e a interpretação eram sempre muito fracas, por vezes ilógicas. O estudo sobre máscaras deles era visivelmente (link) contrário ao uso de máscaras, com redução ridícula (tipo 1%) no grau de infecção, e para um leitor mais atento, a interpretação era ainda mais contrária (pelo delay natural entre causa e efeito). Isso gerou uma profusão de “fact checkers” tentando criar uma interpretação diferente que, na verdade, foi tentar dizer que o estudo não significava nada.

Mas significava alguma coisa, e até foi bem montado, comparando o nível de transmissão para diferentes status de obrigatoriedade de máscaras. E o resultado foi pífio. Mas os “fact checkers” já saíram gritando o clássico “veja bem, não é isso que o estudo quis dizer…”.

Dessa vez o estudo do CDC (link) é eloquente em demonstrar a superioridade da imunidade natural de longo prazo sobre a imunidade da vacina. É tão eloquente, que já consigo antever um monte de “fact checkers” tentando distorcer os resultados para que a tal narrativa que ganha bilhões e mantém mandatos políticos vivos, continue de pé.

O estudo está no link acima, mas, para variar, a interpretação do CDC, também traz erros tênues e uma certa ingenuidade nos questionamentos.

A conclusão deles é que, no início, antes da Delta prevalecer, a vacina tinha eficácia mais alta do que a imunidade natural, mas essa interpretação, provavelmente, tem os problemas de sempre com o denominador (número de vacinados) que muda com muita frequência.

O método

De forma resumida, o CDC utilizou dados de Nova Iorque e da Califórnia para comparar 4 grupos, em termos de desfecho da COVID:

  • 1 – Não vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 2 – Vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 3 – Não vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.
  • 4 – Vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.

Eles compararam risco de contrair e hospitalizações (ajustados por idade).

Vou usar a compilação do site Medpage, para facilitar (link).

Outra coisa que farei, não mudará a interpretação, é usar a média entre Nova Iorque e Califórnia, em vez de usar os dados individualmente.

Antes da Delta

Risco de contrair COVID (todos em comparação com não vacinados, sem COVID anterior):

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 19 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 9 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 8,5 vezes menos chance de contrair

Esses números mostram duas coisas, uma razoável e outra estranhíssima: (1) a vacinação foi irrelevante para quem já tinha contraído COVID, o que faz sentido; (2) a vacinação teve mais eficácia em quem não tinha infecção prévia, o que não faz muito sentido.

2 hipóteses aqui:

  • Erro estatístico, o número de vacinados oscilou bastante no período e isso pode ter mascarado o denominador nos 3 grupos (cada movimento em um, mexe nos outros).
  • A vacinação gera uma proteção forte, porém não natural para o organismo, por isso, quando o organismo já teve a doença, e é vacinado, prevalece a imunidade natural e a vacina faz pouco efeito. Em organismos virgens gera uma resposta forte, mas de curtíssimo prazo e específica para um aspecto do vírus (proteína Spike), que acaba virando o principal alvo das mutações.

Após a Delta a coisa se inverteu. Big time.

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 5,5 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 26 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 22 vezes menos chance de contrair

Em resumo, a eficácia caiu quase 4 vezes nos vacinados virgens, e subiu entre 2,6 e 2,8 vezes nos com imunidade natural.

Esses dados são para risco de contrair, os dados da Califórnia permitiram também analisar o risco de hospitalização (mais importante). Aparentemente os dados de NY não permitiram essa comparação.

Comparação para proteção contra internação

Antes da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 27 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 7 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 6 vezes menos chance de internar

Depois da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 20 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 57 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 53 vezes menos chance de internar

Queda de 25% na eficácia entre vacinados virgens, mas alta de quase 9 vezes na eficácia de quem tinha imunidade natural.

Interpretações razoáveis (algumas óbvias) sobre os números

  • Diante da mutação do vírus, os vacinados virgens tiveram uma alta de quase 4x no risco de contrair, enquanto os que tiveram COVID (vacinados ou não) tiveram seu risco de contrair diminuído em cerca de 3 vezes.
  • A imunidade natural mostrou exatamente o que se espera dela, um comportamento amplo, orgânico e sistêmico no enfrentamento da pandemia, pois enquanto a nova mutação reduziu bastante a eficácia da vacina nos organismos virgens, sem infecção prévia, elevou naturalmente a eficácia dos organismos infectados naturalmente. Não deveria surpreender.
  • A vacinação de indivíduos já infectados não trouxe qualquer diferença relevante na proteção deles. De queda de 9 para 8,5 vezes no risco de contrair (5,5%) ou na queda de 57 para 53 vezes no risco de hospitalizar (7,1%).
  • Obviamente o diferencial no grupo com infecção prévia é a proteção trazida pela própria infecção, não a vacina, pois no outro grupo havia vacina, mas não a imunidade natural, e a queda de eficácia foi brutal (a partir da Delta).

E isso deveria nos levar a algumas mudanças de percepção e de ação, imediatamente:

  • Indivíduos que já contraíram COVID não deveriam ser obrigados a se vacinar, ou tomar booster. Na verdade, não deveriam nem ter entrado na lista de vacinação, pois o pensamento de que a vacina melhoraria sua proteção é anormal e improvável, e foi realmente o que aconteceu na prática, não melhorou, para quem já tinha sido contaminado.
  • Indivíduos que já contraíram COVID, independentemente do status vacinal, são menos propensos a continuar como vetores da pandemia, tanto em termos de contrair, quanto de hospitalizar. Deveriam receber “passaportes vacinais diplomáticos”, pois são, provavelmente, o grupo que nos trará imunidade de rebanho real de longo prazo.

E a Omicron?

Não há dados.

Pelo que estamos vendo, e ainda está no começo na Europa (ao menos os efeitos de hospitalização e óbitos só estão aparecendo agora, em meados de janeiro), a Omicron deve ter levado a proteção vacinal contra contrair a doença a zero ou ao campo negativo. Por que digo isso?

Simples, basta ver os países mais vacinados e que mais fizeram lockdowns e medidas restritivas (contendo a contaminação natural). Portugal tem impressionantes 89,1% de vacinados e 39% de booster. Na semana que se encerrou em 19 de janeiro de 2022, Portugal teve quase 280.000 casos (quase 3% da população), 3 vezes mais do que o pico da onda mais alta. Em 18 de janeiro teve 46 óbitos (média de 7 dias, 35), 10 a mais do que em qualquer dia da primeira onda (fev/mar de 2020). Praticamente não existe “não vacinado” para contrair COVID nesse montante em tão pouco tempo. Não tem estoque de não vacinado para isso.

Outro ponto, o único país em que, até agora, a Omicron chegou e foi embora, foi a África do Sul. Iniciou a onda com 25% de população vacinada (sem booster), e por ser país pobre, provavelmente com uma elevada quantidade de pessoas infectadas naturalmente, a onda subiu muito rápido, mas não ultrapassou significativamente os picos anteriores (23.000 contra 20.000 casos/dia), além de ter voltado muito rápido também (mais rápido que nos picos anteriores). Os óbitos subiram pouco durante a onda, e agora estão altos, porém 80% menores do que nas ondas anteriores (550 contra 122 óbitos/dia hoje).

A observação de outro grupo de países com status vacinal bem diferente e com ondas anteriores semelhantes, ainda está em aberto, mas a depender do que acontecer após a Omicron passar, veremos com mais clareza o impacto do status vacinal. Jordânia, Israel e Palestina.

Conclusão

Não vou me estender. As pessoas podem tirar a conclusão que quiserem, mas uma é inequívoca, não há base epidemiológica, lógica, sistêmica, ecológica, holística, médica, estatística, ou qualquer outra base desejada, para obrigar indivíduos que contraíram COVID a tomar vacina, qualquer uma delas. Ao contrário, eles deveriam ser preservados e virarem “case control” para avaliarmos o que deu certo ou errado com a vacinação.

Eu tenho uma hipótese otimista. Estudo raciocínio sistêmico desde 1996, e estou surpreso com o grau de mecanicismo e de positivismo com que tratamos algo tão complexo como a imunização do planeta inteiro. Foi a maior imprudência sistêmica desde os primeiros testes com aceleradores de partículas.

Eu acredito que o sistema acaba se ajustando da forma mais confortável pra ele, na melhor adaptação possível, e no melhor interesse possível para todos os organismos envolvidos, como sempre aconteceu.

Por isso, entendo que, talvez, a Omicron seja uma cepa de conserto e concerto. Corrigirá qualquer anomalia criada pela ação abrupta do homem positivista no processo natural de diálogo que tivemos com vírus respiratórios desde sempre, e concertará a volta ao equilíbrio ecológico de longo prazo entre os organismos envolvidos.

Mas isso é apenas uma hipótese otimista. A Omicron para mim é uma incógnita. Minha aposta é que não traz os riscos de hipóxia das cepas anteriores, parece outro vírus, mas parece também uma gripe forte, que pode acabar afetando as pessoas que, naturalmente, seriam afetadas por gripes fortes. Isso na Europa e nos EUA é grave também, morrem até 60.000 americanos de gripe por ano e mais de 150.000 europeus.

Ah, e não me arrisco a dizer que ela vai embora facilmente, não são raras as pessoas que conheço com sintomas indo e voltando há semanas. Associavam a gripe, mas…

A ver.

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Universo 25: O que o apocalipse “zumbi” dos ratos tem a nos ensinar?

Posted on 08/11/2021. Filed under: Finanças | Tags:, , , |

Entre as décadas de 1940 e 1970 o pesquisador John Calhoun realizou vários experimentos com ratos para ver como as sociedades se comportariam diante da superpopulação. O mais famoso deles, o Universo 25, criou um paraíso de abundância para uma comunidade de ratos que, bem antes de atingir a superpopulação, sucumbiu e foi extinta por seus próprios atos. De forma bastante violenta e surpreendente.

Ao final do artigo conto essa história, que é assustadora, pois se parece muito com nossa sociedade ocidental pós-moderna, mas antes disso, preciso fazer uma introdução para explicar o que considero ser, realmente, a principal contribuição do experimento de Calhoun para o debate sobre as sociedades atuais.

Não, o problema não é a superpopulação.

Esse experimento precisa ser revivido e recontado, 50 anos depois de sua conclusão, mas com enfoque diferente.

Calhoun era um “martelo que só via prego”, ou seja, como ele estudava os efeitos da superpopulação, tentava explicar todo o ocorrido, e foram fatos realmente assustadores, através desse único prisma. O problema é que, como o experimento criou um paraíso de abundância, muitos dos verdadeiros problemas que enfrentaríamos com a superpopulação, como escassez de água, alimento, recursos, assistência médica e espaço, não ocorreram, e mesmo assim a população de ratos se extinguiu. O que nos leva a buscar explicações alternativas.

O problema da abundância

O experimento de Calhoun traz luz para uma questão que abordo no meu livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”. O Ocidente rico tem criado situações de abundância para parte de sua população, e o efeito da falta de escassez sobre a organização das sociedades é completamente desconhecido.

Nós conhecemos o efeito potencialmente nocivo da abundância em grupos pequenos, como cortes de monarquias absolutistas, bilionários, ditadores e outros indivíduos com recursos ilimitados e sem riscos relevantes aos seus desejos. Sabemos que podem, com facilidade, perder o contato com a realidade de quem vive na escassez da luta diária, gerando tensões que acabaram, no passado, em revoluções sangrentas e quedas de regimes totalitários.

A história de todos os seres vivos que se organizam em sociedades complexas tem um fio em comum, que é a necessidade incessante de troca de energia e de proteção. Ambas as demandas estão associadas diretamente à manutenção da vida, que é um objetivo natural para todas as espécies. Essas afirmações são inequívocas e facilmente comprovadas por mera observação da história da evolução.

Escassez foi, e é, o problema mais relevante de todas as sociedades e de todos os indivíduos. Nisso Marx e os Libertários tinham contato. Enquanto um achava que a economia era tudo (economia é a ciência que estuda o problema da escassez), os outros chamavam o que unia essas relações humanas de Lei Natural, que nada mais é do que a organização natural para o enfrentamento cada vez mais eficaz da escassez (proteção à vida e à propriedade, energia e abrigo).

Em resumo, somos seres sociais forjados no risco, nossos valores mais básicos foram construídos com fundamento no enfrentamento do problema que assolou, e assola, todos os seres vivos: luta pela energia e pelo abrigo, luta pela vida e pela espécie.

Levanto a hipótese, no livro, de que grande parte da confusão da sociedade ocidental pós-moderna deriva da abundância, ou mais precisamente, da crescente falta de percepção de escassez material básica, por uma elite desconectada das necessidades primazes.

Como o colapso da sociedade utópica dos ratos nos ajuda a demonstrar essa hipótese?

De forma resumida, John B. Calhoun criou um ambiente paradisíaco para os ratos. A ração de comida e água era ilimitada. Os indivíduos foram selecionados a dedo entre os mais fortes e saudáveis (4 casais de início). O ambiente era limpo constantemente. Ao menor sinal de doença que poderia se espalhar, o risco era retirado do convívio. Havia 256 ninhos que abrigariam confortavelmente 15 ratos cada um, num total de 3.840 ratos que poderiam conviver no Universo 25 sem desconforto espacial.

O objetivo do pesquisador era, dadas as condições perfeitas criadas, atingir a superpopulação e estudar a influência nos indivíduos. Mas nem chegou perto disso.

Segue um breve relato dos principais fatos:

  • Durante os primeiros 300 dias as coisas transcorreram bem e a população de ratos foi dos 8 iniciais para 620.
  • A partir do dia 315 do experimento, algumas coisas pareciam mudar. No início, a população de ratos dobrava a cada 55 dias, após um ano, passou a dobrar a cada 145 dias, o que era estranho, pois havia ainda muito espaço, para abrigar uma população 6 vezes maior.
  • Houve mudanças bastante perceptíveis no comportamento dos machos e fêmeas. Os machos, sem desafios territoriais ou de busca por comida (abrigo e energia), começaram a atacar uns aos outros sem nenhuma razão aparente. Além disso, passaram a não proteger as crias, e até a atacá-las, o que levou a um rompimento na relação parental, culminando, eventualmente, em uma redução drástica na procriação.
  • As fêmeas também se tornaram agressivas e acabaram, eventualmente, atacando a própria prole, o que reduziu praticamente a zero a procriação.
  • Alguns grupos de ratos machos passaram a acasalar, de forma violenta, com qualquer outro rato que aparecia, macho ou fêmea.
  • Outros grupos passaram a matar e a comer outros ratos (canibalismo), mesmo havendo abundância de comida e água.
  • Ratos passaram a se agrupar em números elevados, 40 a 50, em ninhos apropriados para 15, enquanto ninhos vazios e limpos, a apenas centímetros de distância, permaneciam vazios.
  • O que mais chamou a atenção do pesquisador, foram ratos que decidiram se afastar completamente da sociedade, para viverem sozinhos nas áreas mais altas do Universo 25, aos quais o pesquisador chamou de “os bonitos” (the beautiful ones).
  • Esses ratos não faziam nada, exceto comer, dormir e cuidar da aparência, se limpando com frequência e alisando o pelo. Eram chamados de bonitos, pois como não se envolviam em nenhuma briga, tinham a pele e o pelo intactos. O resto da população tinha marcas de sangue no pelo, cicatrizes e rabos mastigados.
  • Os bonitos, em um primeiro momento, pareciam ser interessados, focados e talvez os mais inteligentes do Universo 25, mas, testados, não conseguiam responder a estímulos evolutivos básicos, o que levou o pesquisador a concluir que seu afastamento da sociedade não foi por inteligência superior, de se manter afastado do caos e tentar sobreviver, mas por estupidez.
  • A partir do dia 600 a população atingiu 2.200 indivíduos e começou a declinar até que o último rato morreu alguns meses depois.

Similaridades com nossa sociedade ocidental pós-moderna

Minha interpretação do apocalipse dos ratos é que foi causado por forçar uma estrutura social forjada sem o risco de escassez. Essa sociedade não conseguiu se organizar em novos interesses artificiais que poderiam se tornar relevantes, uma vez que a base de todos os interesses naturais relevantes estava completamente satisfeita.

No subcapítulo “A Ilusão da Riqueza” do livro supracitado, discuto essa relação da satisfação que um pacote de consumo nos traz, com o risco envolvido na operação que nos leva a esse consumo.

O significado de uma conquista depende da sua vizinhança de riscos. O que tem 100% de chance de acontecer não terá influência na expectativa de ninguém, portanto não será base para avaliação de sucesso ou fracasso. Se o resultado de qualquer campeonato fosse conhecido antecipadamente, com 100% de segurança, não haveria interessados em torcer.

Nossa sociedade humana é bem mais complexa do que a dos ratos e nós depositamos significado em muitas outras formas de consumo, de relevância natural (subsistência) ou artificial (sociedade de consumo). Com a Pandemia, passamos a direcionar muito desses interesses e significados para o consumo online, para suprir um pouco do que os lockdowns e o afastamento social nos tirou.

A questão é que não sabemos se o tipo de consumo que estamos sendo forçados a assumir e desejar, não só de bens materiais, mas também de informação, de entretenimento, de educação, de cultura, de ciência etc., que são questões que poderiam ficar 100% online, guarda alguma relação com a nossa natureza fundamental, aquela que os ratos perderam e acabaram se matando e sucumbindo como sociedade.

Hoje vivemos um mundo cada vez mais segregado, em que pessoas de vida mais modesta continuam a procurar significado nas coisas simples, como trabalhar, ter família, cumprir a lei moral e natural, ser aceito em sua comunidade próxima, prover à família, etc., enquanto outro grupo está desconectado dessa realidade, buscando ressignificar os conceitos básicos sobre a vida, a história, a biologia, a sexualidade, o trabalho, o dever, a moral etc.

Nós sabemos lidar com os problemas objetivos da escassez material, nossa história evolutiva nos ensinou, mas não sabemos lidar com problemas que foram criados exclusivamente por essas reinterpretações e ressignificações. A rigor, se formos desconstruir as tradições, o idioma e a lógica aristotélica, podemos criar um número infinito de problemas que geram necessidades artificiais, oferecendo motivos ilimitados para as pessoas se sentirem incompletas, insatisfeitas e deprimidas.

O risco do vácuo existencial e da falta de conexão com princípios da ordem natural.

O experimento de Calhoun levanta uma questão relevante: sem desafios de ordem natural, as sociedades sucumbirão?

Nós logramos êxito, com o capitalismo industrial e financeiro, em reduzir significativamente as necessidades básicas das populações ocidentais, principalmente em países ricos.

Mesmo com esse sucesso, muitas pessoas ainda mantêm uma relação de necessidade com a regra moral, a ética, o dever, o respeito, a tradição, a religião etc., coisas que, mesmo para quem é muito rico, continuam sendo desafiadoras. Para quem acredita em Deus, a salvação é construída diariamente, com esforço incessante, não é algo garantido a quem tem poder de compra.

E mesmo para o iluminista, para aquele que passou a viver exclusivamente da fé na razão e na ciência, há as demandas filosóficas e científicas, as regras de ouro, os princípios lógicos e ontológicos, o desenvolvimento tecnológico, que o mantém interessado em conhecer mais para viver uma vida cada vez mais consciente.

Entretanto, para quem não reconhece nenhum princípio fundamental, que não se identifica com o desafio da vida religiosa/tradicional, ou com o desafio iluminista e positivista do conhecimento crescente e do autoconhecimento, uma vida de abundância material pode acabar extremamente vazia, o que leva essa pessoa ao risco, real, de buscar preenchimento com problemas artificiais criados exclusivamente por esse vácuo, por essa falta de significação e de propósito.

O temor é que essa crescente reformulação dos significados de coisas que sempre foram razoavelmente pacificadas, e que não clamavam por mudanças drásticas revolucionárias, apenas melhorias pontuais, crie problemas que não sabemos resolver. Que nosso trabalho, nosso esforço, nossa capacidade intelectual, nosso empreendimento social não sejam ferramentas úteis para prover a solução.

Para concluir, essa característica de “problematização” de tudo na sociedade ocidental, fruto de um pós-modernismo que nega qualquer princípio natural ou fundamental como válido e desejável para a estruturação das sociedades (relativismo), está enfraquecendo a sociedade ocidental. Perdemos o contato com princípios evolutivos básicos, pois nossas elites vivem como os nobres da corte de Luís XVI.

Em verdade é pior do que a situação de miséria da plebe, em contraste com a riqueza injustificada da monarquia, que levou à Revolução Francesa, pois Maria Antonieta era apenas ignorante, realmente não sabia que quem não tem pão, também não teria brioche (ou bolo), mas hoje a elite vai além da falta de empatia com a vida dos comuns, ela quer forçá-los a comportamentos que só fazem sentido num mundo desconectado da realidade de quem tem problemas básicos para lidar. E essa elite acaba adicionando problemas artificiais à vida já extremamente difícil do povo trabalhador, exigindo que ele cumpra regras arbitrárias de comportamento social que não fazem sentido para quem não vive revisitando certezas para fluidificar valores e semear confusão.

E nossa gente humilde até reconhece que madame enlouqueceu, mas em sua simplicidade se resigna e faz o que cantou João Gilberto, diante da patroa que queria acabar com o samba: pra que discutir com madame?

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Linguagem neutra de gênero: por que as pessoas relutam em aceitar?

Posted on 03/11/2021. Filed under: Finanças | Tags:, , , |

Esse é um tema tão polêmico que só o título já deve suscitar paixões e colocar o autor na difícil situação de ter que assumir um posicionamento sobre o tema.

Adianto que não vou me ater ao debate corriqueiro, que trata de correção ou incorreção gramatical, de agenda cultural, de dominação político-ideológica etc.. Meu foco será mostrar como os conceitos de Lei Natural e Positivismo nos afastam da aceitação da linguagem neutra de gênero (“LNG”).

Em outras palavras, provavelmente os argumentos aqui apresentados não serão os mesmos que a maioria das pessoas usa diante da questão, para justificar seu posicionamento.

A língua não é estanque, é fluida e muda com o tempo.

Esse é, provavelmente, o único argumento não ideológico e não político dos defensores da LNG. Afirmam que o idioma muda com o tempo, incorporando simplificações e alterações que se adéquam ao espírito de cada época.

Esse argumento não tem grande apelo junto aos detratores da LNG, pois os caminhos que fizeram “Vossa Mercê” se tornar “você”, Maracanã se tornar Maraca, ou processamento digital se tornar “renderização”, não tem qualquer relação com o caminho pelo qual se tenta impor uma forte alteração de regras gramaticais, forçando o abandono da regra culta, através da linguagem neutra de gênero.

Enquanto a língua se modifica, de fato, por processos naturais, simplificadores, promotores de entendimento, não destruidores da consistência linguística e, principalmente, não conflitantes com o objetivo básico de um idioma (a comunicação de qualidade), a LNG é um movimento que se força na língua, que se impõe através de propaganda massiva e coerção política. A adesão não é voluntária, mas obrigatória e forçada, até com punição social para quem não aderir.

Ninguém obrigou os usuários da língua culta a migrar de vossa mercê para você. Aconteceu e a história vitoriosa da simplificação foi escrita depois e incorporada ao idioma naturalmente, sem prejuízos à capacidade e à higidez da comunicação.

A Lei Natural como balizadora do comportamento e da verdade*

A Lei sempre representou algo que o indivíduo deveria seguir, pelo seu próprio interesse, como membro de uma sociedade. Para um indivíduo sozinho, onde não há a figura de conflito com outros indivíduos da mesma espécie, não é necessário um árbitro, pois não há situações a mediar.

Por questões históricas, que debato no meu livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe“, nos três primeiros capítulos onde trato da história da racionalidade e do relacionamento do Homem com o mistério, a primeira sensação de “Lei” derivava de nosso relacionamento com a natureza e da percepção de como deveríamos nos comportar para maximizar nossos objetivos, individuais e tribais. No início, o único objetivo realmente relevante era garantir a troca de energia (esforço que se transforma em alimento) e a proteção contra predadores.

Nos primórdios das relações humanas, o que mais havia era esse questionamento sobre os mistérios da natureza, dada a fragilidade do Homem. Por motivos que discuto também no livro, desenvolvemos um relacionamento com o mistério (aquilo que não se sabe) que derivou na construção de dogmas comportamentais, associados a relacionamentos com divindades, ou de um Deus todo poderoso (aquele que sabe o que não sabemos), que proveria caso seguíssemos essa Lei Natural, Revelada ou Divina.

E durante muitos séculos, os homens aceitaram algumas versões reveladas dessa lei de comportamento diante da natureza, da sua pequena comunidade e do mistério.

Em outras palavras, o Homem aceitou, por séculos, Deus e a Lei Revelada, como árbitros da verdade e da conduta social.

A Lei Positiva como balizadora do comportamento e da verdade

Com o desenvolvimento da ciência e com o poder crescente do método científico para nos explicar o que sempre havia sido mistério, cuja compreensão outrora estaria ao alcance apenas de Deus, houve uma migração, pós-iluminismo, para um balizador racional, a Lei Positiva, Racionalista ou Demonstrada.

Enquanto para a vida privada e para sua comunidade próxima o homem continuava utilizando a Lei Divina como balizadora da ação moral, individual ou coletiva, nos debates públicos, em que se precisava definir um padrão de comportamento e moral para toda a sociedade, gradualmente a razão formal e a lógica aristotélica da não contradição, foram assumindo papel fundamental como árbitros de conflitos provenientes da ação natural do Homem.

De forma resumida, o Homem aceitava Deus como árbitro dos conflitos humanos, naturais e inerentes da vida complexa que vivemos, até hoje aceita, porém, parou de forçar o argumento teológico e dogmático na esfera do debate público. Nessa esfera de debate, o argumento passou a ser racional e objetivo, com base no Positivismo e no Racionalismo.

Ambas as instâncias arbitrais, Revelação e Razão, trazem elementos de tradição, ou seja, a Lei tende a ser conservadora e evita ao máximo a revolução, sob risco de ver desmoronar o edifício legal construído em milênios de análises, de práticas, de jurisprudências e avaliações da ação humana, para desenvolvimento de códigos de conduta que enriqueceram a sociedade e que a fizeram cada vez menos injusta.

A Linguagem Neutra de Gênero não encontra respaldo no Direito Natural ou no Direito Positivo.

O Homem aceita ser julgado por Deus e/ou aceita ser julgado por um arcabouço legal construído com base na razão e na filosofia do direito positivo, mas não aceita ser julgado por um ato revolucionário sem respaldo em alguma espécie de tradição ou racionalidade formal.

O “faz o que eu mando”, não funciona com indivíduos adultos e livres. Para ele entregar a terceiros o julgamento do que é certo ou errado, é preciso que esse terceiro seja reconhecidamente um perito, que se vale da tradição que sobreviveu ao teste do tempo, ou de justificativa racional inequívoca (lógica aristotélica) ou suficientemente demonstrada de forma empírica.

A justificativa de criar uma linguagem nova, que não permita que alguém se sinta ofendido, tem vários problemas. O primeiro é achar que a linguagem é objetivamente ofensiva, ou seja, que uma palavra ou um uso gramatical seriam, independentemente da situação subjacente, ofensivos. Não são. Basta ver a mais bem-sucedida campanha contra uma palavra na história do movimento identitário: a proibição da N-word. A N-word é totalmente proibida nos EUA, mas apenas para brancos. Comediantes negros usam o tempo inteiro, e todos acham graça. Inclusive os brancos, que não podem usá-la (é tão proibida e estigmatizada, que não vou usá-la aqui, infelizmente o leitor precisará procurar no google, caso não conheça a expressão).

A pessoa não-negra não usa, por força da coerção social e dos riscos de cancelamento e processos penais que correria se usasse, mas não por força de convencimento com base na Lei Revelada, Natural ou na tradição, ou na Lei Demonstrada, da razão e da razoabilidade.

Um segundo problema é submeter o objetivo principal da linguagem, que é promover a comunicação de qualidade entre indivíduos que compartilham aqueles códigos, a uma agenda de supremacia ou combate à supremacia de alguns poucos indivíduos que impõem sua vontade social e política de forma coercitiva. A Agenda nunca é de um grupo social inteiro, mas de um grupo mais ativo na militância.

Essa questão do uso da linguagem como elemento de controle e dominação, através da alteração constante de seus significados, não é nova e foi tema do livro 1984, com o dicionário da novilíngua, que ensinava as pessoas a ter raciocínio inconsistente e ilógico, o que garantia o poder permanente ao regime, pois neutralizava a capacidade de criticar. Quem não consegue reconhecer uma inconsistência intelectual não é racional. Quem não consegue reconhecer uma inconsistência intelectual não é íntegro o suficiente para ser confiável.

Recentemente até o Putin lembrou que essa estratégia de usar a linguagem como elemento político, através da alteração constante de seus símbolos e significados, era corriqueira na URSS. E deu errado, segundo o próprio Putin, que tinha papel de destaque naquele regime.

Não há caminho natural ou negocial para aceitação ou convencimento da LNG

Para quem delega o direito de arbitrar sobre o que é certo ou errado ao Direito Revelado ou Natural (palavra de Deus ou de acordo com a natureza do Homem) ou ao Direito Demonstrado (direito positivo, baseado no sistema lógico), a LNG não tem apelo.

A LNG não é, evidentemente, uma verdade revelada, não é a Palavra de Deus, na verdade nem é tema de debate nas escrituras, apesar da questão subjacente, do gênero e da sexualidade, ser tratada nas escrituras e, também nesse caso, as variedades de gênero e/ou sexualidade fluida propostas pela modernidade, também não encontram respaldo nas tradições reveladas.

Já no direito positivo, no debate público focado na razão, a questão da igualdade perante a lei é facilmente demonstrável como uma evolução civilizatória. Sempre que houver defesa de direitos civis, a racionalidade aristotélica vai conseguir ser usada para arbitrar questões de liberdade individual e coletiva.

Porém, no caso específico da LNG, a questão não é de direitos civis, nem é para ser matéria de lei positiva.

Ao contrário, as leis que garantem a liberdade individual e o direito à crença, protegem o indivíduo de ser obrigado, sem qualquer plausibilidade técnica ou social, a respeitar regras gramaticais fluidas criadas por pequenos grupos militantes sem qualquer discussão ampla na sociedade e, principalmente, criadas por gente sem qualquer expertise em linguística.

Uma coisa é alguém pedir para ser chamado de “ela”, entendo que, em termos de regras de convivência social, é razoável que alguém possa ser chamado do que quiser, outra coisa é criar regras gramaticais sem respaldo na técnica linguística, e forçar as pessoas a seguirem, com criação de palavras e significados fluidos que não fazem sentido para a maioria esmagadora das pessoas. E criar punições e perseguições públicas para quem erra seu uso, transformando o erro em transgressão moral, passível de punições graves.

Conclusão

A questão não é técnica ou de justiça, não é de direito ou de idioma. Se fosse, os argumentos seriam técnicos e aristotélicos, ou seja, sem contradição desnecessária e colocados da forma mais objetiva possível.

As pessoas têm uma dificuldade enorme de aceitar a LNG, pois não delegam seu julgamento sobre o que é certo e errado de forma leniente, a qualquer um e a qualquer apelo. A maioria das pessoas muda de opinião sobre algo importante com base em um misto de tradição e racionalidade. Para os mais religiosos, a tradição falará mais alto e a racionalidade precisará ser impecável, para movê-los ao novo entendimento. Tem sido essa a história do Ocidente há 500 anos. Para os racionalistas/positivistas, idem, a racionalidade também precisa ser impecável para substituir uma outra crença intelectual firme e enraizada.

Como a base da imposição social da LNG não é racional ou tradicional, é de interesse de grupos, que não deveriam ter ascendência política sobre outros grupos, as pessoas relutam em aceitar e provavelmente não o farão voluntariamente.

Resta a técnica da URSS, coerção. No mundo moderno isso se dá através dos cancelamentos sociais, do menosprezo à posição religiosa, da penetração nos principais meios de comunicação e na inclusão da exigência da LNG em várias instâncias culturais, como cinema, teatro, escolas, currículos, trabalho etc.

É um momento delicado para a humanidade. A Lei Natural dialogava com a Lei Positiva, através da razão e da razoabilidade. Ambas não dialogam com o irracionalismo pós-modernista, que transforma todos os elementos da cultura humana em armas de guerra político-ideológica.

Dá para o mundo ser melhor do que hoje, sem necessariamente voltarmos ao passado, mas me parece que essas imposições revolucionárias contra a tradição e a razão não são o caminho. Podem levar a mais sectarismo e afastamento.

* Eu não utilizo a expressão Lei Natural (ou Direito Natural) na minha abordagem filosófica, pois julgo ser mais uma convenção natural do que uma Lei propriamente dita. Mas para os objetivos desse texto, a expressão funciona sem reparos.

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Números da eficácia das vacinas no Reino Unido. Week 36 to 39 – 2021

Posted on 14/10/2021. Filed under: Finanças |

Recebi recentemente um resumo dos dados sobre vacinação, infecção, hospitalização e óbitos no Reino Unido, para as semanas 36 a 39. Um documento bem completo, porém, resumido e sem a possibilidade de baixarmos os dados brutos (link aqui).

Primeiro desafio: Número de vacinados e de não vacinados.

Um dos problemas das tabelas é que não temos os dados brutos, portanto precisei estimar com base nas taxas por 100.000 divulgadas.

O ideal seria termos os dados de todas as populações (vacinados, vacinados 1 dose, vacinados >=21 dias 1 dose, vacinados 2 doses e booster). Aí conseguiríamos saber a eficácia de cada regime.

Com os dados que temos, consigo apenas estimar as populações de não vacinados e vacinados com 2 doses, que são essas:

Eficácia da imunização (para não contrair o vírus).

Pela leitura da primeira tabela já fica claro que a eficácia da vacina para evitar que a pessoa pegue a doença está negativa (o risco de contrair é maior para quem está vacinado).

Na faixa de 40-49, por exemplo, temos 1.281 infectados por 100.000 nos vacinados, e 690 por 100.000 nos não vacinados, isso dá um risco 85% maior de contrair COVID se estiver vacinado nessa faixa etária.

A NHS explica assim: “** Interpretation of the case rates in vaccinated and unvaccinated population is particularly susceptible to changes in denominators and should be interpreted with extra caution.

Essa explicação é ruim, pois as taxas de vacinação com 2 doses permanecem praticamente inalteradas da semana 32 em diante para as faixas mais idosas.

Outro problema é que o denominador crescer é favorável à eficácia (reduz a taxa) e o denominador dos vacinados só cresce, enquanto o dos não vacinados sempre diminui (pois cada vacinado passa a somar de um lado e subtrair do outro).

Enfim, acho que não faz sentido essa explicação da NHS para os números de eficácia.

Uma explicação mais plausível seria que, no grupo de não vacinados, exista muita gente que não o tenha feito por já ter contraído COVID. Se for esse mesmo o caso, podemos ter um número desproporcional de pessoas com imunidade naturalmente adquirida no grupo de não vacinados.

Os números de eficácia são os seguintes (para proteção contra infecção):

Não, não há erro nenhum. Veja na tabela original que os rates por 100.000 são bem maiores para os vacinados, o que mostra que o risco relativo é maior para eles. Não briguemos com números oficiais.

Proteção contra hospitalização e mortes.

Apesar de ser bem estranho ver o grupo vacinado se infectando mais, proporcionalmente, do que o grupo não vacinado, a eficácia contra hospitalização e mortes continua alta (os dados originais estão no link acima).

Conclusões e coisas para as quais não tenho dados para saber

  • Se a ideia do passaporte vacinal é o vacinado se proteger contra o não vacinado (o que já não é lá uma ideia muito brilhante), no UK isso não faz qualquer sentido.
  • Vejo muitas chamadas no Brasil e nos EUA afirmando que “95% das pessoas que morreram eram não vacinadas” e coisa semelhante. Os dados de países com vacinação semelhante (Israel e UK) não corroboram isso. Em números absolutos, óbitos e hospitalizações obviamente ocorrem mais entre os vacinados, pois existem bem mais vacinados do que não vacinados. Proporcionalmente há menos internados e óbitos de vacinados, mas em número absoluto não. Veja o caso inglês, foram 2.281 óbitos de vacinados contra 609 de não vacinados em 4 semanas, mesmo com eficácia alta das vacinas.
  • O perfil inglês é completamente diferente do de Israel. Em Israel houve uma alta enorme nos casos, mesmo com ampla vacinação, mas essa alta funcionou como uma onda semelhante às anteriores (com menos óbitos e mais casos). No UK a coisa foi diferente, os casos subiram para um patamar alto (35.000 casos por dia) e assim permanecem há semanas. Não parece uma onda, mas uma maré alta. Também não faço ideia do motivo, talvez a diferença nas vacinas (Astrazeneca majoritária no UK e Pfizer em Israel).
  • As vacinas modernas são muito especializadas, geram resposta imunológica apenas para um aspecto do vírus, exatamente o aspecto que está em constante mutação. Pode ser que uma infecção pós-vacinação melhore, de fato, a imunidade do infectado curado. Já estão especulando a utilidade da infecção pós-vacinação. É um pouco de hipocrisia falar isso e ao mesmo tempo negar a validade da imunidade natural, mas não é uma hipótese ruim que uma infecção pós-vacinação possa “consertar” alguma fragilidade sistêmica das vacinas. Mas ainda assim é só uma hipótese.

Ps. peço ao leitor que leia o texto sem procurar vieses políticos. Não é essa minha intenção.

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Goliath, Dr. Bull e como o mundo via a medicina antes da Pandemia.

Posted on 11/10/2021. Filed under: Finanças |

Já há alguns anos diagnostiquei a origem de minha predileção por seriados americanos de advogados e tribunais. A angústia de viver em um país onde a justiça não funciona e a impunidade impera transforma esses seriados em terapia de longo prazo.

Na ficção, na maioria das vezes, a justiça prevalece, a lei burra é derrotada pela moral superior, a autoridade que abusa é contida, e os bons valores, a boa razão e a boa-fé constituem o fundamento básico do sistema legal.

É uma forma de desopilar, de ter esperança, ainda que na ficção, de que o bem acabará por prevalecer.

Goliath, Dr. Bull, a indústria farmacêutica e os médicos heróis.

Recentemente terminei uma série com Billy Bob Thornton, em que o ex-marido de Angelina Jolie representa um advogado defenestrado de um dos maiores escritórios jurídicos dos EUA, que passou a enfrentar, sozinho, adversários imensos e poderosos. O nome da série é Goliath, em alusão à luta desproporcional entre o pequeno Davi e o gigante Golias.

O embate desproporcional da última temporada é justamente contra as grandes farmacêuticas, retratando a epidemia de vício em opioides nos EUA. Os números recentes indicam cerca de 50.000 mortes por overdose de “pain killers”, com um custo de US$ 78 bilhões a cada ano. E milhões de pessoas vivendo na dependência, um desastre para si mesmos e para as famílias.

O que se vê nos 8 episódios da temporada é o que o mundo sempre pensou das grandes farmacêuticas e de seu relacionamento com o poder público e político:

  • FDA não tem dinheiro para fazer os testes, portanto aprova a partir de testes feitos pela própria indústria.
  • Propinas a agentes reguladores, presentes extravagantes e prêmios milionários para os médicos que mais prescrevem, cursos em resorts caríssimos para profissionais de saúde conhecerem as maravilhas dos opioides, favores a juízes etc.
  • Ciência fajuta, negação da capacidade de viciar (como a indústria tabagista fez por anos), efeitos colaterais ignorados, efeitos de longo prazo abafados.
  • Lobby para ampliar a base de usuários, antes de uso restrito a pacientes com dor excruciante, agora receitado até para dor muscular temporária em atletas.

Por acaso, ao terminar a série, coloquei o 18° episódio da segunda temporada de Dr. Bull, um cientista forense que ajuda pessoas a vencer pleitos em tribunais do júri.

Esse episódio contou a história de uma Dra que receitava óleo de canabidiol (derivado da maconha) para seus pacientes na Virgínia, porém precisava comprar em Nova Iorque, pois no seu estado era proibido o uso.

A Dra conheceu a substância após ver o filho definhar em uma quimioterapia contra leucemia, e passou a usar o remédio para seus outros pacientes, que viviam em grande desconforto, falta de apetite, dor e náusea.

Após ser parada pela polícia, levando o remédio para seu estado de origem, foi presa e toda a força do governo federal pesou sobre sua cabeça. Ameaça de prisão federal por 20 anos, conselho tutelar tomou o filho dela alegando maus tratos e que a criança não estava recebendo tratamento adequado, colocaram médico burocrata para depor, que nunca usou o remédio, para fazer a caveira dela, tratando-a como criminosa, tentaram cassar sua licença, transformá-la em uma incompetente etc.

Em ambos os casos, nos seriados, a vitória do povo miúdo, do little guy, foi acachapante. A palavra final no tribunal do júri é de representantes do povo americano e eles entregaram a justiça e a moral em sua melhor estirpe, contra dois Golias, o governo federal e a indústria farmacêutica.

E me senti mais leve vendo, ainda que na ficção, uma vitória maiúscula do que considero moralmente correto, limpo, liberal e honesto.

Mas isso era antigamente… em tempos imemoriais… em 2019.

Hoje não é mais assim.

A indústria farmacêutica se transformou em bastião da moralidade, da técnica, da prudência, da temperança, da ciência, da ética, enfim, o oráculo da saúde pública.

Em poucos meses, uma história que as pessoas entendiam ser regada a propina, cooptação de agências governamentais, talidomida, junk Science e conflito de interesses se transformou numa fábula maniqueísta em que a indústria representa o bem absoluto e não pode, de forma alguma, ser questionada, pois é a nossa única salvação.

Não há nada que você possa, individualmente, fazer. Não há exercício, não há vida saudável, não há alimentação equilibrada, não há reforço da imunidade natural que possa ser feito. Tudo aquilo que você aprendeu no passado para cuidar da sua saúde, esqueça!, entregue para quem entende, a indústria resolve. E se questionar, é negacionista!

Ao mesmo tempo em que canonizavam a Big Pharma, passavam a demonizar os médicos interessados em salvar vidas. Aqueles com o mesmo perfil dos autodidatas que, por quase uma década, atenderam pacientes com HIV, contra a recomendação da FDA e o contra próprio Dr. Fauci (ele mesmo), descobrindo em meses coisas que a indústria e o sistema regulatório ou levaram anos para referendar, ou nunca o fizeram.

O curioso é que a gente conta essa história do atraso da FDA na aprovação de um tratamento para a AIDS, hoje em retrospectiva, demonizando a indústria, a FDA, Dr. Fauci e a própria burocracia do governo americano, e idolatrando os médicos que colocaram as carreiras em risco para ajudar os pacientes quando a burocracia estatal, o interesse da indústria e os “médicos algoritmo” se recusavam, e mesmo proibiam as intervenções que eram a única opção de quem via a morte cada vez mais perto.

Agora no último biênio, a história se repete, com script idêntico (veja a carta escrita em 1988 contra o Dr. Fauci) e com os mesmos personagens, e nós que, até 2019 não tínhamos dúvida sobre qual era o lado certo, hoje somos versões diferentes de nós mesmos.

Onde estão aquelas pessoas?

Fico me perguntando, por que pessoas que, até 2019, claramente defendiam a autonomia médica, desconfiavam da corrupção da grande indústria, aplaudiam Patch Adams, choravam com Óleo de Lorenzo, vibravam com a coragem dos contrabandistas de antirretrovirais em Clube de Compras Dallas, passaram a ser fervorosos defensores de tudo o que condenavam no passado, e se tornaram ferozes algozes de tudo o que defendiam, também no passado recente?

Isso não é bom. Quando a pessoa muda dessa forma, a gente perde a confiança. A razão não é apenas uma técnica para resolver problemas objetivos, é também um dos balizadores da moral e do caráter. A razão permite que você fundamente para si mesmo suas ações e consiga se qualificar, aos seus próprios olhos e aos olhos da sociedade, como uma pessoa íntegra. Ser íntegro significa não ser uma coletânea de partes difusas e inconsistentes. Não ter 2, 3 ou 20 caras. A confiança que temos na sua personalidade, no seu julgamento e no seu comportamento é o que diferencia você de todo o resto. Uma pessoa de moral e racionalidade fraturadas e fragmentadas é uma pessoa cotidianamente irreconhecível.

Hoje, com pesar, vejo que as pessoas estão pacificadas em representarem publicamente versões diferentes de si mesmas a cada nova demanda social. Se as redes exigirem que se acredite em algo que conflita com o que se acreditava antes, e as pessoas aderem imediata e irrefletidamente, pois o like aparece na telinha e o reconhecimento momentâneo é reconfortante, ainda que isso o afaste daquele “eu” que você foi um dia. Ontem.

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Paulo Freire, de Patrono a Meme. Como os conservadores viraram o jogo da propaganda.

Posted on 30/09/2021. Filed under: Finanças |

Passado o burburinho da “comemoração” dos 100 anos de Paulo Freire, vale fazer uma análise dos embates entre coletivistas e conservadores nas redes sociais, em torno da responsabilidade de Freire sobre o desastre que é a educação pública brasileira.

O foco do artigo é mostrar como os conservadores deixaram de ser vítimas ingênuas e indefesas da propaganda ostensiva pró-Freire, e levaram os coletivistas às cordas, forçando-os a defender o barbudo da crescente percepção popular de que é o patrono de um desastre.

A estratégia para atingir uma hegemonia moral, cultural e intelectual.

Uma das principais estratégias para atingir uma hegemonia moral, cultural e intelectual é ocultar esse objetivo de quem você busca dominar. Ninguém pode saber que você tem uma agenda de controle. Todos precisam achar que você debate limpo, dentro da racionalidade e razoabilidade, com base em valores em comum. Por isso as pautas hegemônicas da esquerda nacional, até um passado recente, nunca foram tema tratado abertamente pelos candidatos coletivistas ao executivo.

A agenda só pode ser revelada em 2 ocasiões: quando a vitória está consagrada e a hegemonia moral, cultural e intelectual já está estabelecida, então todos aceitarão qualquer impostura ou irracionalidade proposta pelo vencedor, ou quando esse plano de hegemonia corre sério risco de ruir.

A situação atual do mundo é curiosa. Aparentemente a agenda de controle acabou se tornando explícita por ambos os motivos, em parte por já ter obtido uma dominação expressiva nas elites econômicas, políticas e artísticas do ocidente (financiadores e formadores de opinião), e em parte pelo fato de os conservadores a terem percebido antes da hora e revidado vigorosamente para evitar a dominação pelo pensamento único.

E Paulo Freire é uma das frentes mais eloquentes do revide conservador.

A defesa ostensiva que os coletivistas passaram a fazer de Freire é “tiro no pé”. Tem efeito contrário, tanto nos conservadores, quanto na sociedade.

Algo bem interessante aconteceu nesse centenário. Recebi várias indicações de podcasts, vídeos e textos, enviados por amigos que defendem Freire, e tive oportunidade de ler e ouvir alguns deles.

Todos falavam corretamente sobre a influência de Paulo Freire na educação brasileira. Falavam da educação libertadora, do sócio construtivismo (o tempo das classes desabonadas era outro e devia ser respeitado), falaram dos “diferentes saberes”, de evitar a educação bancária, de não formar cidadãos para serem opressores (ser opressor, na literatura de Freire, significa vencer na vida pela moral burguesa, virar patrão), da posição de igualdade do professor, em contraponto à posição de autoridade, que conhecimento não se mede, de que não há certo ou errado etc.

E todos também falavam corretamente que o método de educação de adultos não foi implantado do país de forma generalizada e menos ainda em crianças, e que, portanto, não seria responsável pela produção em massa de analfabetos funcionais em que se tornou nosso sistema educacional.

Nada disso é falso. Realmente estão falando sobre a influência real de Freire na formação de professores e educadores brasileiros, mas o que os defensores de Freire não entenderam é que, em vez de essa defesa enfraquecer o conservador que os levou para o corner, e fazê-lo parar com os golpes e baixar a guarda, deu ainda mais força e mais certeza de que Freire precisa ser combatido.

Deu motivos para o conservador associar todo o fracasso da educação brasileira diretamente ao seu so called patrono.

O conservador quer preservar estruturas que considera terem sobrevivido ao teste do tempo, entregando bons resultados. Freire é um inimigo declarado dessas tradições.

Em termos de educação e formação, é fácil saber o que o conservador quer preservar: hierarquia e respeito à autoridade do professor, ensino clássico, método tradicional, distinção objetiva entre certo e errado, método científico como delimitador dessa distinção, meritocracia demonstrada nas notas e avaliações, educação voltada a vencer na vida e pró-mercado, estimular valores de pertencimento de grupo, defender a família e não a substituir no papel de educação moral, escolas militares, escolas religiosas etc.

No passado, ingenuamente, o conservador ouvia os discursos que falavam de Paulo Freire e não se incomodava, pois vinham envernizados com uma retórica repleta de platitudes que os deixavam aparentemente inofensivos. Jargões como “educação inclusiva” ou “formar mentes críticas” eram um verniz para ninguém debater, de fato, a filosofia revolucionária e anti-capitalista de Freire. Hoje o verniz já não protege mais.

E, como as platitudes perderam o efeito, a defesa precisou ser mais elaborada e, por conseguinte, mostrou claramente ao conservador que tudo o que ele considera errado na educação brasileira, coisas como desrespeito ao professor, falta de hierarquia, formar pessoas despreparadas para o mercado, analfabetismo funcional em larga escala (o tempo do aluno que nunca chegou), desrespeito por tradições etc., são coisas, de fato, associadas à forma com Paulo Freire via a educação.

Em resumo, a defesa, enfim honesta e aberta, feita pelos coletivistas, jogou querosene na fogueira e fez o conservador entender, ainda mais, como a visão sócio construtivista de Freire é nociva aos valores desse grupo.

Como os conservadores viraram esse jogo contra o legado de Paulo Freire?

Vários fatores me vêm à mente, mas o principal deles foi passar a combater propaganda com contrapropaganda, e não mais com artigos publicados, livros sobre teoria crítica, debates sofisticados sobre gramscismo e revolução cultural etc.

Reconheço que houve muito desenvolvimento intelectual robusto nas hostes conservadoras para conhecer e enfrentar as ideias de teóricos marxistas, estruturalistas, pós-estruturalistas, pós-modernistas, críticos etc., mas isso apenas ajudou a criar um repositório de pensamento sofisticado anti-coletivista, ainda que não tenha atingido o mainstream acadêmico.

A grande virada para o movimento conservador foi ter se popularizado como narrativa popular e começado a combater propaganda com contrapropaganda no debate público.

O que colocou o coletivista no corner, ao desacreditar popularmente a imagem de Paulo Freire, descrédito esse que cresce a olhos vistos, não foram debates empolados e sofisticados sobre marxismo e gramscismo, mas o uso da mesma arma do coletivista no debate público: propaganda.

Durante a guerra fria, o que manteve o americano médio com medo do comunismo não foram os debates acadêmicos empolados (até porque, no meio acadêmico, já se construía uma hegemonia coletivista), mas a contrapropaganda do governo americano contra a tentativa de influência das ideias soviéticas.

Em vez de contrapor Marx com Hayek e Bohm-Bawerk, simplifica e espalha que comunista come criancinha e pronto. Não importa de onde veio a ideia, não é para explicar, mas para propagar, disseminar e inserir isso no subconsciente da massa.

Os conservadores se ofendem com essa proposta de usar contrapropaganda para enfrentar propaganda, mas é um poor judgment sobre como a moral se forma em sociedade.

O conservador não gosta desse tipo de estratégia, pois é, realmente, algo de baixo valor intelectual e moral. Concordo. O caminho virtuoso seria promover grandes debates gregos sobre a verdade, a democracia, a liberdade, a virtude, a moral etc., com todos os debatedores receptivos à descoberta e à síntese de uma dialética bem-feita e honesta. Lindo demais.

O problema sempre foi que, enquanto o conservador pensa assim, seu adversário ideológico entende que a estratégia de tergiversar, de sofismar, de forçar a propaganda em vez do debate, de usar argumentos retóricos, de mentir com método, é o caminho para pavimentar a hegemonia anti-capitalista (luta de classes) e anti-racionalista (teoria crítica).

O conservador ingênuo, nesse embate, entra em franca desvantagem, pois parte de uma má avaliação (poor judgment) do processo educacional do homem, a forma como ele cria seu sistema de valores e de referências. Não é através da racionalidade nua e crua, da demonstração intelectual, da aceitação de axiomas lógicos e imperativos categóricos, mas através do exemplo, da mitologia, da história, da tradição, da autoridade, entre outras experiências que sintetizam nossos valores, antes mesmo de serem racionalizadas como tal.

Kant não “inventou” a moral humana, apenas a descreveu sob uma perspectiva lógico-filosófica. Ao criar uma narrativa causal muito sofisticada, aquela moralidade que cresceu naturalmente ganhou robustez intelectual e se transformou em matéria a ser debatida nas esferas da alta cultura. Mas, na prática, as referências que Kant percebeu e descreveu no homem foram adquiridas de forma simples, pela própria evolução da sociedade e do relacionamento entre indivíduos livres.

Por isso ninguém precisa da sofisticação de Kant ou de Aristóteles para ter uma percepção razoável do que é uma ação moral ou racional, que seja funcional para determinada tribo, cidade ou país.

A propaganda é usada para entregar meias-verdades e falácias que levam o alvo a mudar sua opinião sem refletir, às vezes de forma sub-reptícia e sem qualquer honestidade intelectual. E ela é bem-sucedida justamente por usar os mesmos mecanismos que formaram naturalmente a ética e a moral das pessoas. Só que a propaganda coletivista não é natural e não se alinha ao interesse das pessoas e de suas comunidades, não vai ao encontro do interesse da preservação da harmonia e da tradição, mas na direção de uma agenda revolucionária, destruidora das referências e alicerces sociais, intelectuais e morais daquela população específica.

Debate grego em Arena romana. Um quer falar, o outro quer soltar os leões.

Pelo exposto é que entendo ser ingênuo o conservador achar que a forma de enfrentar a propaganda é com um debate ontológico sobre a verdade e a virtude, com o debate grego dialético e honesto de ideias. Não é, pois a formação moral não vem só do convencimento racional, aliás, o convencimento racional está mais para uma racionalização a posteriori do que propriamente para uma moral adquirida racionalmente a priori. Nós desenvolvemos os valores na vida, no cotidiano, no exemplo, na tentativa e erro, na tradição familiar e religiosa etc., e, se buscarmos estudar a origem desses valores, os vestiremos com uma racionalização sofisticada, mas, na prática, já estão presentes no dia-a-dia e não foram adquiridos no convencimento racional. Isso é razoavelmente evidente e tem farta correlação com a história humana.

É por isso que  não é funcional combater propaganda com debate grego. É como propor uma prova de matemática para decidir uma briga de faca. São jogos diferentes, arenas diferentes e propostas diferentes.

Embate grego precisa de arena grega, embate romano precisa do Coliseu.

O conservador entrava de livro na mão (a bíblia, o Fedro de Platão, a Lei de Bastiat ou a Principia Mathematica de Newton) e era jogado aos leões do relativismo moral e intelectual no embate proposto e conduzido pelo coletivista.

Hoje, mais experiente, o conservador mantém para si e para os seus o bom debate dialético, mas para consumo público e embate ideológico, entra preparado para capturar e soltar os leões de volta no parquinho tatibitate do coletivista.

É minha impressão.

Para mais sobre a história da racionalidade e do embate entre positivismo, religião e teoria crítica, leia meu livro sobre filosofia da ciência:

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A China vai salvar a Evergrande?

Posted on 24/09/2021. Filed under: Finanças |

Enquanto escrevo essas palavras, essa pergunta ainda não tem resposta. Porém quero abordar o assunto por outro prisma.

Nós já vimos o Ocidente bail out (resgatar) praticamente todos os setores. Desde 2008 vem comprando títulos de bancos para manter sua liquidez, e, de 2020 em diante, vem injetando dinheiro diretamente nas famílias para enfrentarem a pandemia.

O primeiro movimento inchou os balanços dos Bancos Centrais e criou o excesso de capital (dinheiro para financiamento e investimento) que inflou ativos pelo mundo. O segundo movimento está inchando as dívidas soberanas e gerando inflação. Inflação gerada por  2 fatores que, juntos, são explosivos: excesso de demanda e escassez de oferta.

Democracias ocidentais vivem de evitar o caos agora, e empurrar o problema para o próximo mandato.

Ocidentais são fáceis de ler. Em democracias, em momentos turbulentos e imprevisíveis, todos tomam o caminho de menor dano imediato à própria imagem política. E deixam o longo prazo para resolver depois, ou para estourar no colo de outro dirigente. Por isso toda vez que o mercado dá um solavanco, a solução que TODOS pensam é sempre mais dinheiro público e mais estímulos, mesmo que isso crie mais dependência e não gere riqueza, exceto para poucos. Além de deixar uma dívida cada vez mais impagável para gerações futuras.

O Ocidente vem jogando esse jogo de too big to fail, too many to fail e too rich to jail há anos e ninguém sabe como parar. Quanto mais dinheiro é bombeado no jogo, mais viciados os players ficam nas ações dos governos.

Porém o caso da Evergrande é emblemático, pois são muitos credores em dólar e estrangeiros. O valor da dívida da Companhia já desabou nos mercados, atingindo 30 cents por dólar, nível praticamente de default, de fundo abutre.

A grande questão que se coloca aos mercados é se a China vai entrar na dança de bombear dinheiro público para resgatar esse negócio e acalmar credores, ou vai deixar quebrar.

Caso salve a empresa, permanece a questão de que a Evergrande não é a única, e o setor não é o único que passa por problemas na China. E adotar esse precedente de bail out pode acabar viciando o mercado de credores internacionais, criando, como no Ocidente, uma dependência de dinheiro público para que os mercados não sucumbam. Em toda crise precisará vir mais dinheiro público, e cresce o vício. E a situação fica cada vez mais explosiva, obrigando os governos a não parar mais de injetar morfina num sistema financeiro deformado por uma interferência estatal hipertrofiada.

Mas a China não é uma democracia.

Lá a bomba não vai explodir no colo de outro. Não terá eleição para expulsar quem tomou a decisão dura de “deixar quebrar”. Lá a coisa é imprevisível. O cálculo é, de fato, de longo prazo. Diria até que pensam na eternidade, em nunca sair do poder.

E dessa enorme diferença, a China pode agir de forma ortodoxa e deixar quebrar, levando credores juntos à bancarrota e tentando preservar apenas as aparências e controlar os danos internos (que é do interesse do PCCh, manter a ordem).

OBS: Sim, eu escrevi “agir de forma ortodoxa”. No capitalismo, quebra quem é incompetente ou tomou risco demais, ficar salvando todo mundo é que é heterodoxo.

Com controle sem limites sobre a vida social dos chineses e sobre a informação que chega até eles, culpariam qualquer estrangeiro e chamariam o povo para se unir diante de uma crise econômica “passageira”, para que pareça só um solavanco em direção aos planos de grandeza perene da China. E se durar 10 anos, tudo bem, segue a manipulação pelo tempo que for necessário.

Lema do Partido – 1984 -George Orwell

O mercado é, majoritariamente, reativo.

O mercado se ajusta às ações dos players mais importantes. Quando os governos direcionaram capital e caixa para os mercados financeiros (crise do Subprime) e para as pessoas (na Pandemia), o mercado reagiu e, rapidamente, se tornou dependente dessa ação estatal, hoje em nível global.

Se o governo chinês se mostrar favorável ao bail out, pode trazer uma leitura ao mercado de que existe mais um caixa infinito com que se pode contar para agir no limite da (ir)racionalidade financeira.

Eu não sei o que vai acontecer, mas entendo que não devemos “ler” o governo chinês como lemos democracias ocidentais. Se eles precisarem jogar 200 milhões de pessoas de volta à pobreza para corrigir rumos de longo prazo, não hesitarão. Não há eleições no ano que vem. Nem no próximo e, se depender deles, não haverá nunca.

O Ocidente depende demais de um player imprevisível.

Disclaimer: O autor do artigo trabalha na Comissão de Valores Mobiliários e as opiniões aqui descritas representam apenas e exclusivamente sua opinião e não, necessariamente, a opinião da autarquia (disclaimer disposto conforme orientação do Ofício nº 13/2020/CE-CVM).

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Dados da vacinação em Israel. Dúvidas sobre os cálculos de eficácia da terceira dose. Ago/Set 2021

Posted on 18/09/2021. Filed under: Finanças |

Desde 30 de julho, Israel iniciou um booster com a terceira dose da vacina da Pfizer para maiores de 60 anos, e 20 dias depois, iniciou a terceira dose para maiores de 40 anos.

O que percebi, após destrinchar os dados, é que, aparentemente, a terceira dose está sacrificando os dados de eficácia da segunda dose. Eu tinha percebido isso no dia em que alteraram a forma de divulgar os dados, mas decidi esperar alguns dias para ver se era erro na transição. E, aparentemente, é mesmo erro na transição dos dados. Isso ficará claro ao final do artigo.

Israel apresenta dados brutos com alguma qualidade para que possamos acompanhar a evolução dos testes vacinais (essa é a quarta fase das vacinas) no link a seguir. Até recentemente não apresentavam dados sobre mortalidade, mas há cerca de uma semana liberaram esses dados. Infelizmente ainda sem discriminação etária adequada.

https://datadashboard.health.gov.il/COVID-19/general

Resultados mais recentes (Agosto/Setembro).

Acompanho os dados de Israel com atenção há alguns meses, e no início, a eficácia das vacinas parecia espetacularmente alta, porém houve coincidência com uma queda brutal nos casos, até o início de abril. As pessoas associavam isso à alta vacinação em Israel (já superior a 55% em 2 doses, mais de 70% dos adultos).

Agora, Israel enfrenta uma onda que já ultrapassou a anterior em casos (com cerca de metade dos óbitos), mesmo com uma população massivamente vacinada, e com 30% da população já com a terceira dose.

Há algumas semanas eles alteraram a forma de divulgar os dados e, agora, são três grupos: vacinados com impulso (3ª dose), vacinados sem impulso e não vacinados.

Vamos aos principais resultados.

ALERTA: Estou fazendo os cálculos sobre eficácia conforme a literatura, mas não é a forma que considero certa de fazer. Para sabermos realmente o efeito das vacinas, temos que dividir em 4 grupos: (i) não vacinados que nunca tiveram contato com o vírus; (ii) não vacinados que já tiveram contato com o vírus; (iii) vacinados que não tinham sido infectados antes; e (iv) vacinados que já tinham sido infectados.

Sem essa divisão nós temos uma noção da eficácia, mas não conseguimos isolar o efeito exclusivo das vacinas.

Risco relativo de contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

É possível inferir pelos dados a queda na eficácia para a vacinação sem impulso. O risco para o não vacinado é sempre maior, mas muito mais próximo do que no início da vacinação. Por exemplo, de cada 1.000 pessoas de cada grupo de 70 a 79 anos, 54 vacinados (sem impulso) contraem a doença e 85 não vacinados. É uma queda de eficácia que ficará mais clara a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

A queda de eficácia para quem tomou apenas 2 doses é brutal. Com esses números a vacina não teria aprovação em lugar nenhum.

A gente pode associar o motivo à variante Delta, mas, se fosse realmente isso, o que explicaria a ainda alta eficácia para quem tomou a terceira dose?

As hipóteses são: (i) eficácia cai muito com o tempo; ou (ii) a vacinação com terceira dose é muito recente para ter dados consistentes; ou (iii) a terceira dose aumenta a imunidade de fato.

Vamos ver o que aconteceu com os riscos de contrair COVID grave:

Risco relativo de contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

O que fica bastante claro é que os riscos são muito baixos para adolescentes, tendo tomado ou não a vacina.

Como os números são extremamente baixos até os 29 anos (15 casos em um grupo de 685 mil jovens não vacinados, 21 casos graves por milhão), deve-se sopesar com os riscos associados à própria vacinação. Infelizmente esse tem sido um debate interditado e nós não temos acesso a dados confiáveis sobre efeitos adversos. O que consegui apurar, o CDC, é que a taxa de miocardite em MENINOS por MM de doses aplicadas nos EUA foi de 47,4 para o grupo entre 12 e 15 e 76,7 para o grupo entre 16-17 anos (somando as duas doses). Para meninas foi muito mais baixa.

Mas, repito, falta informação mais detalhada sobre os riscos, ao menos a informação não chega facilmente a todos. Quanto aos riscos de longo prazo, só saberemos no longo prazo mesmo.

https://www.cdc.gov/vaccines/acip/meetings/downloads/slides-2021-08-30/05-COVID-Lee-508.pdf

Não dá para saber a mortalidade nos grupos, mas deve ser mínima também, pois Israel informou a mortalidade nos últimos 28 dias e houve apenas 48 óbitos em todo o grupo menor de 60 anos.

Aparentemente a vacina mantém a redução de risco da gravidade da doença, ainda que em menor escala do que no passado. Veja a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

Infelizmente o dado de eficácia contra mortalidade não dá para ser calculado adequadamente, pois não temos a distribuição por faixa etária e, ainda pior, os óbitos entre agosto e setembro podem se referir a infecções ocorridas semanas ou até meses atrás. Tentei calcular, mas nada faz sentido.

Questões sobre a terceira dose

Os dados parecem formidáveis para a terceira dose, e bem inferiores para vacinação completa anterior, mas entendo que isso tem um viés difícil de contornar.

Os dados de vacinados e vacinados com impulso se confundem demais nesses 45 dias de vacinação da terceira dose. O denominador dos cálculos de risco muda muito rápido. Em 30 de julho havia ZERO vacinados com terceira dose, em 15/09, 2,8 milhões. Os casos em aberto há semanas podem estar contabilizados como vacinados sem impulso, mas quando ele contraiu esse número (base do denominador) era de 4 milhões de pessoas, em 15/09 eram 2,6 milhões. Na hora que fazemos o cálculo, dá errado. Mascara os números.

Uma evidência de que o que digo tem fundamento está no cálculo para o grupo que quase não tomou booster (12-15), onde a eficácia é MAIOR para os vacinados com 2 doses apenas do que para quem tomou o booster.

Em resumo, minha opinião é que esses números da terceira dose acabam amplificando artificialmente a eficácia do booster e sacrificando a eficácia da vacinação normal.

Sendo ainda mais claro, entendo que os números acima de 90% de eficácia para a terceira dose e abaixo de 50% para a vacinação padrão são fruto apenas de um ajuste estatístico, com a base (denominador) do risco flutuando muito e muito rápido. Nem é tão boa a terceira dose, nem é tão ruim a segunda.

A título de curiosidade, refiz os cálculos de eficácia contra infecção e doença grave, e a situação muda radicalmente, mas fica bem mais próxima das eficácias que eu vinha calculando antes de dividirem em 2 grupos de vacinados.

Com dados completos eu conseguiria verificar isso, mas certamente esses dados devem ser estratégicos e não serão divulgados (discriminando a trajetória de quem pegou, internou e morreu).

Questões sobre infectados após a vacinação.

A infecção em vacinados é uma faca de dois gumes. Por um lado, como há risco baixo de contrair a doença grave, a infecção natural vencida pode corrigir a imunologia gerada pela vacina e amplificá-la, deixando a pessoa ainda menos vulnerável. Por outro lado, com esse nível muito alto de infecções em organismos que deveriam ter uma competência extremamente elevada para enfrentar o vírus, há a preocupação pelo potencial de geração de variantes, dada a pressão evolutiva que é imposta ao vírus, ao vencer um vacinado.

Só o tempo dirá se estamos ou não perto do fim desse maldição.

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O que é ser de direita no século XXI? O conservador-liberal: a quimera direitista.

Posted on 12/08/2021. Filed under: Finanças |

A nova direita nacional costuma se classificar como conservadora nos costumes e liberal na economia, porém ser liberal na economia não é garantia de ser de direita. As questões são bem mais profundas. Veremos em detalhes.

Neste artigo endereço 5 questões fundamentais para a adequada caracterização do movimento de “direita” neste século XXI.

Para qualificarmos adequadamente um movimento como sendo de direita, é necessário entender e pacificar a história de conflitos entre o conservadorismo e o liberalismo nos últimos 250 anos. Sem isso, o “conservador-liberal” soa como uma quimera direitista, um oximoro.

O leitor verá uma proposta inovadora que, provavelmente, não será bem recebida por parte da direita (que verá não ser, de fato, de direita) e refutada por parte da esquerda (que verá não ter sobrado muita coisa do progressismo liberal dos séculos XVIII e XIX em suas pautas).

  • São as seguintes questões:
    1. Conservadorismo é condição para ser de direita, mas não é suficiente.
    2. Conservadores enfrentaram liberais em questões de direitos civis no século passado, e estiveram, muitas vezes, do lado errado.
    3. O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.
    4. Liberalismo clássico não é liberalismo econômico. O clássico dá fundamento ao econômico, mas o econômico não garante o clássico.
    5. A esquerda do século XXI não é liberal.

Conservadorismo é condição para ser de direita, mas não é suficiente.

Não há direitista revolucionário. Preservar tradições que trouxeram prosperidade à humanidade, ainda que controversas ou excludentes, e evitar que os grandes feitos da raça humana se percam em processos revolucionários, está na base de ser de direita.

A leitura de autores como Russell Kirk, Thomas Sowell, Roger Scruton, entre outros, mostra a essência do conservadorismo, afastando-o da ideia equivocada do imobilismo irrefletido, que é o estereótipo mais comum, utilizado para desmerecer o movimento.

O conservadorismo não é imutável, porém a incorporação de novos valores às tradições que o conservador preserva deve ser amplamente debatida, lenta, não-revolucionária e construtora de uma tradição renovada, porém não inteiramente destruída. Enfim, uma tradição pode ser reformada se for de maneira lenta, sopesada, escrutinada, debatida e, principalmente, se provar seu valor no teste do tempo.

Mas ser conservador não garante ser de direita. Isso deveria ser razoavelmente claro, pois a história é plena de movimentos totalitários de cunho coletivista que buscaram preservar, em grande parte, valores e tradições de seus povos. A URSS e a China, por exemplo, romperam com parte da estrutura agrária de seus países, mas preservaram e valorizaram questões culturais, artísticas, históricas e filosóficas de seus povos.

Para ficar em exemplos recentes, o ministro Barroso chegou a sugerir que a Venezuela era uma ditadura de direita, por ser conservadora. Durante os protestos de 2021 em Cuba, alguns movimentos de esquerda ensaiaram associar Cuba ao conservadorismo. Não, não é suficiente ser conservador para ser de direita e, obviamente, o ministro está errado em associar a Venezuela à direita, exclusivamente por haver conservadorismo cultural em sua ideologia política e social. Não é aí que reside a diferença fundamental entre o movimento direitista e esquerdista. Talvez o ministro não saiba, pois isso é confuso mesmo.

Conservadores enfrentaram liberais em questões de direitos civis no século passado, e estiveram, muitas vezes, do lado errado.

Esta parte promete ser a mais controversa do artigo, mas entendo que dá sentido e resolve questões em aberto sobre essa tendência apresentada pelo conservador do século XXI de atrair para si a denominação de liberal.

O liberalismo, em seus primórdios, buscava reformar sistemas que oprimiam a liberdade individual. E atacou, a depender do que era o poder autoritário em determinado país, a monarquia, o clero ou a aristocracia. E nessa época, o conservador era tratado como reacionário, por reagir às reformas e ao progresso liberalizante.

O foco básico do liberalismo clássico era a proteção do indivíduo contra a potencial tirania do Estado e de suas estruturas de poder. Por isso seus movimentos acabaram culminando no estabelecimento de um sistema legal que seria compartilhado por todos, sem privilégios de classe, raça, credo, gênero etc., através do direito positivado. Essa foi parte significativa da luta dos liberais por mais de 200 anos.

Certa vez perguntaram ao Thomas Sowell o que ele diria para os ativistas de direitos civis. Ele respondeu que os mandaria para casa, pois venceram. Sim, o liberalismo clássico venceu no Ocidente, mas se vê em perigo nos dias de hoje, só que, dessa vez, a ameaça não vem do conservadorismo.

Voltando à história, nos EUA, como não havia nenhuma estrutura francamente dominante de burguesia, aristocracia, clero ou monarquia, contra a qual o liberalismo pudesse se insurgir, os ideais de liberdade foram mais facilmente adotados, sendo a Constituição Americana, em vigor desde 1789, provavelmente o documento liberal mais efetivo e influente da história.

O conservador de hoje tem dificuldade de entender o conservadorismo dos séculos XIX e XX, pois não consegue compreender como ideais de liberdade individual não faziam parte dos valores conservadores da época. Hoje a liberdade individual, em contraponto ao coletivismo, estatal, estrutural ou cultural, é um dos valores mais cultuados por conservadores de direita. Mas isso não era verdade há 200 anos.

E nessa questão mora um dos fundamentos da confusão que temos hoje nos movimentos que se intitulam de esquerda ou direita.

Nos séculos XVIII e XIX, essa definição era irrelevante (direita e esquerda), sendo mais comum falarmos de conservadorismo e liberalismo, falar de tradição e liberdade, direito natural e direito positivo. E conservadorismo e liberalismo eram vistos como posições antagônicas no quadro político, social, legal e moral.

Como a direita nunca negou suas raízes conservadoras, o conservadorismo permanece como característica inequívoca da direita.

Já o esquerdista atual ainda continua se proclamando liberal e/ou progressista, mesmo que a agenda atual da esquerda não tenha qualquer relação com a agenda liberal clássica, que lutou contra a escravidão, a favor do sufrágio universal e pela equalização de direitos civis. Tudo isso foi feito com foco no indivíduo e contra o poder estatal e não em nome da luta de classes, gêneros, raças ou buscando um estado hipertrofiado para garantir uma igualdade utópica e inexistente entre indivíduos.

O liberalismo clássico prega o respeito à pluralidade dos indivíduos, a agenda da esquerda nos últimos 50 anos, uma exige uma comunhão plena de valores, moralidade, recursos, renda entre outras medidas que poderiam refletir, eventualmente, desigualdade.

Temos, portanto, essa questão da esquerda americana sendo chamada de liberal, o que fazia sentido enquanto o espectro político se situava apenas entre progresso e reação, porém, desde que a esquerda passou a ser eminentemente coletivista e buscar reparações históricas em nome da igualdade de resultados (e não perante a lei), se afastou de forma irreconciliável dos princípios mais básicos do liberalismo e do combate à autoridade estatal.

Quem defende a Constituição Americana hoje, quem defende a liberdade de expressão, independente do conteúdo, quem luta contra a tirania do estado sobre o indivíduo são os republicanos. Isso é razoavelmente inequívoco. Creio que mesmo os esquerdistas concordariam com essa avaliação.

Nos EUA de hoje, as pautas da esquerda estão associadas ao aumento do estado, aumento da regulação, negação da história americana, desprezo pelos símbolos americanos, retirada de armas em circulação, reparações históricas, hostilização dos Founding Fathers etc., o que não guarda qualquer relação com o liberalismo clássico.

 O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.

O conservadorismo incorporou vitórias do liberalismo clássico em seu sistema de valores.

O conservadorismo que permanece vigente e se mantém como força política e social precisou da incorporação de novos valores, sob risco de ser acusado, justamente, de imobilismo irrefletido e de perder o apelo a jovens críticos.

Qualquer bom autor conservador sabe que a questão não é “nunca mudar”, mas manter princípios básicos e mudar, sempre, de forma devagar e cautelosa, para evitar jogar fora o que deveria ser preservado.

O conservador atual considera o que já foi tratado como transgressão cultural como algo clássico. Ouve Beatles e Led Zeppelin e os trata como clássicos do Rock e do Pop. Houve integração aos valores conservadores de manifestações culturais, políticas e sociais que se mostraram, diante do teste do tempo, de alto valor ou dignas de preservação.

Isso não deveria surpreender ninguém, pois faz parte do debate que o conservador trava com a história. Aquilo que surge da livre manifestação artística, cultural, filosófica, científica e intelectual, aquilo que surge como fruto da expressão da liberdade individual em todas essas áreas, será incorporado após anos de escrutínio público e após mostrar um valor meritório e que deva ser preservado.

Por isso temos, hoje, muitos conservadores de direita defendendo direitos iguais perante a lei, o que era pauta exclusiva dos liberais nos séculos passados, e se mostrando contrários a políticas afirmativas e/ou segregação social praticada pela cultura do cancelamento em redes sociais (que é coletivismo, não liberalismo).

O espectro ideológico mais relevante nos dias de hoje opõe liberalismo clássico e coletivismo, opõe a defesa de direitos iguais na lei e a defesa de igualdade de resultados, opõe redução da opressão estatal sobre o indivíduo e aumento do poder estatal sobre a moralidade e o comportamento do cidadão.

Nesse aspecto, grande parte dos valores do liberalismo clássico foram incorporados pelo conservadorismo, ficando o coletivista atual com uma ideia distorcida de liberalismo. A influência marxista deslocou o foco da liberdade do âmbito individual e o posicionou em algo que só pode ser obtido pela coletividade, por isso a esquerda atual não vê problemas em retirar os direitos individuais em nome de um direito coletivo difuso, que é o direito de todos, mas não atende diretamente a ninguém.

E aqui surge mais uma questão delicada, motivo pelo qual não podemos assumir a priori que um defensor do liberalismo econômico seja, necessariamente, de direita. Pode não ser, e muitos dos que apareceram nas últimas eleições brasileiras como representantes de uma nova direita, defendem fervorosamente a redução do estado na economia, privatizações etc., mas são notavelmente coletivistas em suas visões de direito, liberdade e moralidade.

Liberalismo clássico não é liberalismo econômico. O clássico dá fundamento ao econômico, mas o econômico não garante o clássico.

Podemos associar o liberalismo econômico à defesa do livre mercado, à livre iniciativa e ao respeito à propriedade privada material. Busca-se redução da participação do estado, menos regulação, leis que promovam a concorrência etc.

Ocorre que esse tipo de abordagem econômica não necessariamente resulta em um ambiente de garantia ao liberalismo clássico, aquele que tem foco nas liberdades individuais fundamentais.

Uma distinção deve facilitar o entendimento dessa abordagem. Podemos ter um sistema contratual que garante plenamente o cumprimento de contratos entre nós e terceiros. Isso deve garantir que seus bens, seu dinheiro, seus ativos não serão usurpados pelo poder do estado ou por algum elemento fora-da-lei. Isso é uma garantia básica para o capitalismo florescer.

Ocorre que alguns contratos, de cunho liberal e não econômico, podem não ser garantidos por esse mesmo sistema que garante a propriedade privada material e as transações comerciais.

A liberdade de expressão, de credo, de defender a si e sua família contra o arbítrio do mais forte, de criar os seus de acordo com seus valores, de ir e vir, de buscar a vitória por mérito próprio entre outros direitos fundamentais, necessários para que uma pessoa possa ser e sentir-se dona de si mesma, podem não estar garantidos, mesmo sob um regime de grande liberdade econômica.

E temos exemplos disso em países comunistas e mesmo em democracias ocidentais. Fartos exemplos.

A China ostenta os melhores indicadores econômicos da história do capitalismo. Nunca ninguém cresceu tanto por tanto tempo. Recorde de produtividade, recorde de retirar pessoas da pobreza extrema, recorde de acúmulo de capitais, recorde de novos bilionários, recorde de participantes no mercado de capitais, recorde de poupança interna privada, recorde de poupança externa, praticamente nenhuma legislação trabalhista, ambiente contrário a sindicatos etc., porém, ninguém está autorizado a ter opinião própria.

Recentemente um bilionário chinês ousou criticar o sistema financeiro de seu país, desapareceu e voltou , aparentemente, “lobotomizado”. Parecia outra pessoa.

A questão material está garantida. Faça bilhões e seja bilionário. Consuma o melhor que o capitalismo pode lhe oferecer. Seja um nababo. Use Armani e dirija uma Ferrari. Mas sua alma, que é essencialmente o que diferencia você do outro, ou de um autômato operando pelo sucesso coletivo nacional, não é mais sua. É cada vez menos sua (alma aqui não tem sentido religioso ou metafísico, apenas uma referência ao que forma a individualidade de alguém – ontologia).

E esse controle, hoje, se amplia, através de sistemas de crédito social que garantem o microgerenciamento da moralidade do povo chinês, que perde ou ganha pontos por agir de acordo com uma cartilha moral do partido comunista, em um ambiente de vigilância ininterrupta. Isso é uma distopia autoritária que só víamos em ficções do século passado. Hoje é mais real do que o pior pesadelo de Orwell. E mais eficiente, pois a prosperidade gerada por um capitalismo quase selvagem de um lado, banca a obediência e a anulação da individualidade do outro.

Mas isso ocorre também nas democracias ocidentais.

O problema da falta de regulação e do “laissez-faire, laissez-passer” do liberalismo econômico é que, nem sempre, as forças econômicas se organizam em ambientes virtuosos competitivos. Principalmente se o capitalista não acredita nos valores do capitalismo e do liberalismo econômico ou clássico. Acreditem, alguns capitalistas de hoje não acreditam nem mesmo na meritocracia. Alguns não acreditam nem em valor presente líquido (VPL) positivo.

Hoje temos redes sociais de grandes corporações atuando como juízes da moralidade pública e privada, como senhores da verdade científica (que não existe, ver Karl Popper) e como censores de interpretações e opiniões que consideram inadequadas.

Entre 2020 e 2021 vivemos uma hipertrofia do poder das corporações sobre o debate público, seja pela cooptação das agências de regulação, seja pelo abuso de poder econômico, seja pela imposição de aceitação social, ainda que sob risco de perder mercado.

E tudo isso é frontalmente contrário ao liberalismo clássico. E não é uma ação do estado para reduzir liberdades individuais ou econômicas. É um capitalismo que deseja operar sem restrições estatais, porém não respeita as máximas do liberalismo clássico e cria instrumentos opressivos que, pasmem, chegam a assediar moralmente seus próprios consumidores, como faz o Uber em suas campanhas. O Uber é um exemplo de empresa que abriu o capital alertando que poderia, jamais, dar lucro. Perceba que o capitalismo sem respeito às liberdades individuais pode se tornar um instrumento de opressão, tão irracional e autoritário quando o aparelho estatal.

Uma das frases mais atribuídas aos liberais é a que diz o seguinte: posso não concordar com nada do que você diz, mas darei minha vida pelo seu direito de dizê-lo. O capitalista de hoje, em grande parte, vai frontalmente contra essa máxima liberal elementar.

É um capitalismo que quer ser livre de amarras estatais e de tradições morais, para formar uma nova moralidade coletiva em que todos devem se manifestar da mesma forma. E o mais curioso é que o faz com completa anuência e efusiva participação de coletivistas.

Pode-se até argumentar que esse controle arbitrário mental e moral, poderia trazer retorno econômico às empresas, mas isso não é liberalismo, muito menos o tipo de livre mercado que desejamos, seria apenas mais uma hierarquia forçada aos indivíduos, agindo em interesse próprio e sufocando a liberdade individual com abuso de poder econômico, tal e qual um estado totalitário. Aliás, muito semelhante à crítica que Marx fazia do capitalismo.

Boa parte dos liberais econômicos brasileiros, que procuravam se mostrar de direita há alguns anos, são, na verdade, coletivistas e antiliberais.

A esquerda do século XXI não é liberal.

Aqui entra Marx, que é, de fato, um divisor de águas no pensamento político, social e econômico.

Marx criou uma enorme confusão ao propor a ideia de que há uma (super)estrutura que impede as pessoas de serem livres, e que, para acabar com essa condição alienante e aprisionante, a estrutura precisa ser destruída.

Em seu tempo, essa estrutura era o capitalismo irrestrito do início da revolução industrial que trazia imensos graus de liberdade ao proprietário dos meios de produção, e pouquíssimos ao proletário.

Talvez sem querer ele tenha confrontado as doutrinas individualistas da época, aquelas que atribuem primordialmente à ação do indivíduo seu sucesso ou fracasso, como o cristianismo, o conservadorismo e o liberalismo clássico.

As doutrinas citadas consideram que o homem crescerá ou sucumbirá por seus próprios esforços, independentemente das oportunidades serem radicalmente diferentes. Um proletário trabalhador, crente e sem vícios viverá bem e encontrará a salvação, enquanto um proprietário de terras rico, porém descrente, alcoólatra e arrogante encontrará o infortúnio pessoal, na Terra ou na eternidade.

Como são doutrinas idealistas ou espiritualistas, a questão de ter mais ou menos recursos materiais não é decisiva. Já o marxismo é essencialmente materialista e considera, de fato, que a condição de riqueza material é superior à condição de pobreza material, sobre qualquer aspecto que se queira (material ou não). O rico estará melhor do que o pobre e ponto, não importa se este último recebe o amor da família diariamente, ou se se realiza na fé religiosa, e o primeiro convive com interesses mesquinhos em casa e pratica o mal a outrem. Para Marx, de forma simplificada, a estrutura beneficia o rico, mesmo que ele seja um inepto. A crença na filosofia moral do marxismo retira o poder do indivíduo e coloca-o na coletividade, que seria a única força que poderia destruir a estrutura opressora. Proletários de todo o mundo, uni-vos!

Não vou me estender neste artigo sobre a inconsistência desse pensamento, tanto do ponto de vista histórico quanto econômico, filosófico e sociológico, nem tratarei aqui da fragilidade intelectual dessa abordagem, pois escrevi um livro sobre filosofia da ciência e racionalidade que trata do assunto. Para mais detalhes, acessar a versão impressa AQUI e a versão online AQUI.

Voltando ao tema, ao retirar do indivíduo o poder sobre si mesmo, sobre sua vida, sobre seus resultados, sobre sua felicidade, sobre seu destino, sobre a própria interpretação que tem sobre seus feitos, e associar os fracassos ou sucessos a facilidades ou dificuldades determinadas quase que exclusivamente por uma estrutura social, econômica e ideológica, Marx criou uma variante do liberalismo que acredita que só seremos livres se todos mudarem, se tudo mudar, se todas as barreiras forem removidas, se todos viverem a mesma moral e a mesma percepção de justiça.

Acreditar nisso é necessário para formar o homem marxista, aquele que será o material humano final para a utopia de um mundo sem estados e sem países, onde todos trabalharão o que podem e receberão o que precisam. Muitos capitalistas e “democratas” ocidentais de hoje pregam isso abertamente, talvez sem perceber a relação com o marxismo.

O liberal clássico entende que o melhor mundo possível é aquele em que os indivíduos possam decidir por si mesmos quais potenciais de liberdade perseguir. Mas, obviamente, uma pessoa de um metro e cinquenta não terá facilidade para perseguir o potencial de liberdade de ser um jogador de basquete competitivo, assim como uma pessoa sem porte e saúde de atleta não perseguirá o potencial de liberdade de ser o mais forte da tribo.

O homem liberal, por ser responsável único por seu sucesso ou fracasso, busca perseguir o potencial de liberdade que lhe permite maior sucesso, e se organiza para ter a melhor vida possível dentro de suas restrições e facilidades. Potencial de liberdade significa os caminhos possíveis para percorrer. Nem todos estão à disposição, como caminhar não estará disponível para um paraplégico ou enxergar para um cego. A percepção da realidade como ela é, é variável inseparável da função de sucesso e felicidade para um indivíduo que se responsabiliza por si mesmo. O liberalismo é realista.

Seguir o marxismo e suas derivações é acreditar que “ninguém está salvo se todos não estiveram salvos”, o que é um julgamento paupérrimo sobre a realidade material. Muita gente está salva, muita gente está protegida, muita gente está em perigo, mas se considera salva, muita gente está desprotegida, mas se considera segura, assim como alguns estão ricos e se consideram falidos, outros estão plenos e se consideram vazios e assim por diante. E o tempo não para, a vida é aqui e agora, não é para quando uma utopia chegar. Ao nível do indivíduo, o coletivismo falha invariavelmente, pois trata a todos como obrigatoriamente iguais.

Por acreditar ser defensor dessa nova visão de “liberdade”, em que o homem não é nem responsável nem recipiente final da mesma, mas a coletividade é, a esquerda do século XXI ainda continua ostentando a denominação de liberal, apesar de o marxismo, na verdade, ferir o liberalismo de morte, ao torna-lo etéreo, impraticável, utópico e inatingível.

Marx conseguiu seguidores e arrebatou corações e mentes com sua guerra contra o capitalismo, porém, com a vitória evidente do capitalismo no ocidente, todas as profecias econômicas marxistas foram por água abaixo.

O capitalismo não sucumbiu, as pessoas não ficaram nominalmente mais pobres, os outros capitalistas não foram engolidos pela competição e o sistema, como um todo, trouxe enorme prosperidade aos países e povos ocidentais, ao menos para aqueles que ostentam melhores indicadores de liberdade econômica. A rigor, o capitalismo, enquanto sistema econômico e racional de alocação de valores, funcionou até em estados ditatoriais, como já tratamos sobre a China. Mas o capitalismo não é, e nunca foi, uma doutrina moral. O liberalismo é.

A ideia da ditadura do proletariado morreu. A esquerda atual não é mais sindical ou trabalhista. É mais fácil vermos um conservador pedindo sanções econômicas contra a China para trazer empregos de volta aos EUA, do que um coletivista moderno.

Mas como a estrutura mental já estava preparada, Marx não foi embora. Bastou deslocar a (super)estrutura de alienação do eixo burguesia-proletariado, para outras hierarquias sociais, comportamentais e biológicas como hetero-homo, homem-mulher, branco-negro, cis-trans, carnívoro-vegano, religioso-ateu etc.

A aderência massiva da esquerda moderna à luta contra “supremacias tradicionais e conservadoras” é uma derivação do pressuposto marxista de que ninguém pode ser livre enquanto viver sob o capitalismo, dessa forma ninguém pode ser livre sem a destruição do patriarcado, da heteronormatividade, do consumo de proteína animal, da religiosidade etc., pois são condições subjacentes que favorecem quem se encaixa nos padrões das “supremacias”.

Não cabe aqui, neste artigo, discutir a justiça de cada pleito, pois como tudo na vida, há nuances demais para afirmações categóricas. O objetivo é apenas demonstrar que isso não é liberalismo clássico, pois precisa forçar uma sociedade inteira à mudança, não reconhecendo os direitos básicos ao credo, ao livre arbítrio, a ir e vir, ao livre discurso, à livre associação etc.

A arma do revolucionário cultural não é a foice e o martelo, nem tanques ou bombas nucleares, mas a cultura do cancelamento, os fact checkers, a perseguição implacável aos conservadores, a pseudociência das certezas, o jornalismo engajado, a academia, entre outros grupos que valorizam mais a aceitação social e os likes no insta do que a própria dignidade acadêmica, higidez intelectual e livre-arbítrio.

É isso o que sobrou para a esquerda no século XXI.

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O risco de futilidade nas futuras pesquisas sobre medicamentos contra COVID

Posted on 30/07/2021. Filed under: Finanças |

Depois da corrida pelas vacinas, os grandes laboratórios passaram agora a apostar em novos medicamentos e/ou no reposicionamento de antigos para tratar COVID, seja a partir dos primeiros sintomas ou em casos graves.

O problema é que, caso as vacinas deem certo, ou seja, pelo menos reduzam de forma significativa a mortalidade e as internações, dificilmente conseguiremos montar um experimento que possa entregar significância estatística para corroborar a indicação de determinado remédio em larga escala, principalmente para cuidados no início dos sintomas.

Futilidade em experimentos científicos

Diz-se que uma pesquisa é fútil quando sua modelagem, seu desenho, não permitem evidenciar se um remédio difere do placebo.

Pegue os testes com vacinas. Aqui no Brasil foram 12.000 pessoas para entregar cerca de 250 pessoas infectadas em 5-6 meses. Com 250 pessoas infectadas, foi possível mostrar que a CORONAVAC tinha eficácia de 50,38%, com significância estatística (p-value < 0,05). Se o estudo tivesse sido montado com 1.200 pessoas, continuaríamos precisando de 250 casos para entregar o resultado, ou seja, talvez levasse anos para conseguir acumular essa quantidade. O estudo seria interrompido por futilidade.

Mas temos algo mais recente que corrobora o que escrevo.

No dia 28/07/2021, saiu um estudo sobre a avaliação de segurança e eficácia da vacina da Pfizer, por um período de 6 meses. Foram 44.000 voluntários, metade no grupo placebo, metade no grupo vacina.

Em 6 meses, houve 81 casos de COVID no grupo Vacina e 873 no grupo placebo, mostrando grande eficácia contra infecção, porém, foram 18 óbitos no grupo vacina e 16 óbitos no grupo placebo (ambos all cause mortality).

Cerca de 20.000 voluntários que não tomaram vacina entregaram, em 6 meses 873 casos. E no grupo que tomou vacina, apenas 81.

Os “grandes testes” que estão sendo feitos com remédios para tratamento inicial estão utilizando 1.000 até 3.000 voluntários, ou seja, entregarão pouquíssimos casos e, mesmo que se ache uma redução de 90% na mortalidade ou na infecção, serão tão poucos casos que não haverá significâncias estatística. Risco gigante de futilidade.

Um mundo vacinado e infectado complica demais a pesquisa

Outra questão é que, cada vez mais, não haverá grupo de voluntários não vacinados. E, também complicado, não haverá voluntários suficientes que ainda não tenha tido contato com o vírus.

Temos, hoje, 5 grupos que, infelizmente, não estão sendo divididos nas pesquisas:

  1. não vacinados que nunca tiveram COVID;
  2. não vacinados que tiveram COVID;
  3. vacinados que nunca tiveram COVID;
  4. vacinados que tomaram a vacina depois de ter COVID; e
  5. vacinados que pegaram a COVID depois de tomar a vacina.

São 5 grupos completamente diferentes e que deveriam entregar respostas imunológicas diferentes. Estamos falando de terceira dose, mas nem mesmo sabemos se uma infecção leve após a vacina geraria suficiente resposta imunológica para evitar novas infecções. Ou seja, esses novos picos na Europa, com mortalidade baixíssima, podem ter efeito de aumentar a imunidade das pessoas já vacinadas.

Isso já complica severamente as pesquisas sobre vacinas, pois sem dividir os grupos, não conseguimos isolar os efeitos de todas as formas de exposição, e ainda existe o agravante de haver várias marcas e várias tecnologias de vacina. Um pesadelo estatístico, um pesadelo para a modelagem científica.

Agora imagine pesquisas com remédios para uso inicial, nos primeiros sintomas. Teríamos que trabalhar com dezenas de milhares de voluntários, provavelmente quase todos vacinados e/ou já infectados no passado, para obter números mínimos de infecções e demonstrar a eficácia estatisticamente. E se a medida final for mortalidade, fica ainda mais difícil obter resultado estatístico, pois, como ficou claro na pesquisa com a vacina da Pfizer, em 40.000 pessoas, acompanhadas por 6 meses, houve apenas 34 óbitos, sendo que a maioria deles por questões alheias à COVID (1 óbito por COVID no grupo vacina e 2 no grupo placebo – ver quadro ao final).

Como resolver isso?

Sugeriria que os experimentos mudassem o foco da análise clínica para a análise subclínica. Deve-se fazer exames de sangue e de imagem nos voluntários para acompanhar, diariamente se possível, a evolução, pelo menos, de indicadores de coagulação e inflamação.

Isso poderia mostrar se o remédio tem potencial para reduzir os efeitos nocivos da COVID no organismo antes deles aparecerem no quadro clínico (falta de ar, trombose e embolia, por exemplo, costumam ser a manifestação clínica de algo que começa bem antes nos exames de sangue) e teríamos milhares de resultados para trabalhar, pois mesmo quando as pessoas se curam sozinhas, há uma batalha imunológica que pode deixar sequelas.

Se os remédios conseguirem barrar essa tempestade imunológica, ou reduzir seus efeitos, terão comprovação para uso.

Remédios para internados e casos severos

Para casos severos esse problema da modelagem é menos grave, pois já se parte de uma pessoa internada ou com sintomas graves. Nesse caso, como ainda é alto o índice de mortalidade para as pessoas que agravam e internam, provavelmente a variável de interesse para análise terá muitos resultados e será possível extrair significância estatística.

O problema é que, como a COVID grave gera um quadro devastador no organismo, o remédio ou será um milagre anti-inflamatório e anticoagulante, ou terá resultados pequenos, ainda que com relevância estatística.

What if…

Tudo o que escrevi depende, claro, de termos vacinas funcionais e eficazes. Se as vacinas realmente fizerem o serviço de longo prazo, provavelmente teremos pouco espaço para boas pesquisas de remédios eficazes. Não significa que não vão aparecer, provavelmente os eficazes já estão circulando há algum tempo off label, como aconteceu com o protocolo antiviral para AIDS, que levou anos para aprovação, mas era amplamente usado no mercado paralelo.

Se as vacinas não funcionarem como esperado, ou tiverem eficácia de curto prazo apenas, ou ainda se uma variante muito esperta conseguir escapar da vacina e passar a gerar problemas mesmo em vacinados, aí certamente haverá condições de montar bons estudos científicos, sem risco de futilidade, para demonstrar (ou não) a eficácia de medicamentos.

Uma coisa já é reconhecida até pelos fabricantes de vacina. O combo correto para enfrentamento da COVID é vacina + tratamento no início dos sintomas + protocolos para casos graves. Precisamos de eficácia nesses 3 pivôs, para que a pandemia fique, definitivamente, para trás.

PS. Este artigo não tem intenção de polêmica, de falar bem ou mal de qualquer abordagem, apenas discutir um problema razoavelmente evidente para a formatação de novos estudos científicos e propor diferentes abordagens para evitar o risco de futilidade nas pesquisas.

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Quem é o Verdadeiro Inimigo da Ciência: A Religião ou a Teoria Crítica?

Posted on 28/04/2021. Filed under: Finanças |

Quando tratamos de questões envolvendo marxismo, pós-modernismo, teoria crítica, pós-estruturalismo há sempre o risco de polêmica.

O vídeo a seguir é um questionamento aos (novos) ateus sobre quem seria o verdadeiro inimigo da ciência, se a religião ou a Teoria Crítica do Conhecimento (que renega o método científico como única, ou melhor, forma de sistematizar a realidade e/ou a verdade sobre a natureza).

Para quem gosta desse debate, escrevi um livro em resposta ao “Deus, um delírio” de Richard Dawkins, onde trato de questões de filosofia da ciência, natureza da verdade e da realidade objetiva e termino com uma complexa e inédita prova racional da existência de Deus (não é confortável para pessoas muito religiosas, devo alertar).

O livro está disponível gratuitamente para quem tem Kindle unlimited na Amazon:

ebook: https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

Versão impressa: https://www.americanas.com.br/produto/1985665997

Divirtam-se (apesar de ser um vídeo denso e razoavelmente preocupante):

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Vai amortizar financiamento imobiliário? Em termos financeiros ($$$) é melhor reduzir o valor da prestação.

Posted on 26/04/2021. Filed under: Finanças |

É isso.

Muita gente tem a impressão de que é sempre melhor reduzir o prazo do financiamento, mas nesse vídeo mostro que, em condições aproximadamente iguais, as contas mostram que se gasta MENOS amortizando para reduzir o valor da prestação.

Há duas questões importantes, não financeiras:

1- A redução da prestação acaba por reduzir a pressão financeira sobre as famílias, nem sempre essa “sobra” vai ser usada para acelerar outras amortizações.

2- Do ponto de vista psicológico e comportamental, não dá para saber o que é melhor. Tem gente que prefere manter a pressão enorme de uma prestação pesada e cara para se obrigar a economizar mais e reduzir o PRAZO. Vai de cada um.

Vejam no vídeo a seguir:

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Moço, o senhor é comunista? 7 motivos (certos e errados) para chamar alguém de comunista.

Posted on 24/04/2021. Filed under: Finanças |

Virou moda chamar as pessoas de comunista no Brasil.

Mas que característica política, econômica, filosófica e moral das pessoas justificaria que fossem chamadas de comunista?

Nesse vídeo procuro debater o que é e o que não é característica do Marxismo e seus derivados.

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Dólar alto: mocinho ou bandido?

Posted on 23/04/2021. Filed under: Finanças |

Há três tipos de ciclos/círculo: o vicioso, o virtuoso e o misto.

No ciclo vicioso, as atitudes negativas e destruidoras alimentam-se a si mesmas levando o sistema a colapsar. É o caso de um casamento em crise, que leva a pessoa a beber, o que aprofunda a crise do casamento levando-o ao fim.

No ciclo virtuoso as atitudes positivas alimentam-se a si mesmas e levam o sistema ao progresso. É quando a dedicação e estudo levam a mais oportunidades de trabalho e pesquisa, o que culmina na excelência, prestígio e fortuna.

E há o ciclo misto, em que um desequilíbrio forte em uma área leva a um contraponto de equilíbrio em outra área.

É o que acontece com o dólar, que explico nesse vídeo (que é continuação desse aqui em que falei o mesmo, porém com o dólar ainda a 4 reais).

Dólar alto cria pressões terríveis por um lado, mas gera alívios enormes em outro. Isso é um ciclo misto.

Divirtam-se:

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Bitcoin: O que o IPO da COINBASE, maior corretora de criptos dos EUA, pode nos mostrar?

Posted on 21/04/2021. Filed under: Finanças |

Prezados leitores,

Aconteceu algo importante no mundo das criptomoedas, mas ainda sem a devida avaliação de impacto.

A abertura de capital da maior corretora de criptos dos EUA deve nos ajudar a conhecer melhor como funciona esse mercado, qual é seu real tamanho e, principalmente, qual o mecanismo de formação de preço das criptos.

O vídeo a seguir é uma continuação desse, em que discutimos a precificação do Bitcoin (clique no link). Divirtam-se.

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Histórias do meu querido errejota. Como o Big Brother Brasil 1 acabou com o icônico Bar Zeppelin.

Posted on 19/04/2021. Filed under: Finanças |

Caros leitores,

A seguir um vídeo abordando lugares icônicos, e que não existem mais, de um Rio de Janeiro que dá saudades.

Aos mais jovens, um relato de como nós músicos fazíamos para procurar uma música desejada e rara ANTES das facilidades da internet.

Divirtam-se com o Bar Zeppelin, a Modern Sound e um pouco de música.

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Mitos da Privatização – Fugindo das Armadilhas Ideológicas

Posted on 07/04/2021. Filed under: Finanças |

Prezados leitores,

Segue uma série com 2 vídeos sobre os principais mitos da Privatização no Brasil.

As pessoas podem ser contra ou a favor da privatização, mas o debate precisa afastar os motivos não-racionais e ideológicos, sob risco de ficarmos ainda mais presos em um pseudo-capitalismo tupiniquim.

Os mitos são:

Vídeo 1:

Mito #1: Vendemos mesmo as Riquezas Nacionais?

Mito #2: Qual é a verdadeira riqueza que uma empresa gera para o povo e o Estado brasileiros?

Vídeo 2:

Mito #3: As estatais foram vendidas a preço de banana?

Mito #4: A questão estratégica. O que é e o que não é razoável.

Divirtam-se!

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Em homenagem a Raymundo Magliano, o visionário.

Posted on 11/01/2021. Filed under: Finanças |

Hoje nos deixou Raymundo Magliano, presidente da Bovespa que promoveu a mais importante revolução da história do mercado de capitais brasileiro.

Olhando o sucesso da bolsa hoje, pode-se ter a falsa impressão de que sempre foi assim, mas não é verdade. Antes de Magliano, a bolsa era um clube com poucos operadores e com acesso limitado e impensável para pequenos investidores.

Se hoje consideramos fundamental que a bolsa seja destino para os pequenos investidores, com seus 100 reais por mês, devemos a ele. Todo o trabalho que desenvolvemos no Instituto Nacional de Investidores, deve-se à obra desse gentleman, desse visionário.

A ação da Bovespa pela popularização do investimento em ações preparou o caminho para as corretoras, os professores, os educadores financeiros e outros profissionais de varejo que hoje tornam o caminho do pequeno investidor muito mais confortável para investir em ações.

E nos deixou cedo demais. Espero que o mercado de ações não economize em render homenagens a Magliano.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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