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O Dia em que o PT Perdeu o Brasil. E não foi em 2016.

Posted on 28/04/2016. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , , , , , |

Eu tenho diferenças conceituais, de visão de mundo, em relação ao PT e à maioria das ideias de esquerda no Brasil.

Nunca fui de esquerda, nunca consegui compartilhar das soluções propostas pela esquerda. Eu realmente achava, já em 2004-2005, que seria impossível o Brasil funcionar da forma como estava sendo planejado. Nem preciso dizer que falei praticamente sozinho por uns 6 a 7 anos.

Combati bastante as ideias de hegemonia do PT. Quando ninguém falava em Gramsci (ou pouquíssima gente) estava lá eu lendo “A revolução Gramscista no Ocidente (de 2002)” e depois os cadernos 3 e 4 de Gramsci. Não recomendo a leitura de Gramsci. Ele escreveu da prisão, então precisou, propositalmente, não fazer sentido. Se conseguirem, leiam o primeiro livro citado.

Vi o Brasil esfacelar seus já frágeis alicerces, tanto morais quanto econômicos, sem se dar conta de que estava construindo um caminho sem volta, de uma ditadura do pensamento, uma prisão sem grades.

 

E entre 2011 e 2012 cheguei a achar que a vitória do PT e de seu projeto seria irreversível. Vi que poderiam garantir um mínimo de crescimento econômico, mesmo em ambiente inóspito aos empreendedores.

Tínhamos chegado a impressionantes 7,25% de meta de juros SELIC. Commodities em alta, país bem avaliado (investment grade), planos de expansão das empresas. Pleno emprego. Superávits primários relevantes. Orçamento equilibrado. E nem sinal de crise.

Nessa época, com esses juros, tudo faria sentido na economia brasileira.

Como os juros eram baixos, mexemos na poupança que deve ter chegado a uns 4,5% a 5% ao ano. Como era baixo o retorno na renda fixa, os investidores tinham apetite por risco, tanto os institucionais quanto as pessoas físicas. Ganhar só 5% ao ano (com inflação de 5%) não era bom, precisavam investir em debêntures de empresas privadas, projetos de expansão, ramo imobiliário etc.

Tudo estava dado para o PT nunca mais sair do poder, ao menos não por motivos de esfacelamento econômico. E, claro, a agenda hegemônica, antes oculta e hoje na boca do povo, poderia seguir seu caminho sem empecilhos.

Um parêntese. Fico feliz de ver que o modelo de hegemonia cultural e intelectual do PT, com base nas ideias de Antonio Gramsci, hoje é evidente para todas as classes sociais. Ao menos para a maioria da população que se interessa por isso. O discurso recente do senador Magno Malta demonstra como isso já está evidente mesmo para quem não é especialista no assunto. Ver aqui.

É divertido ver que os que tratavam desse assunto não falaram em vão.

Espero que, até aqui, os que não compartilham de minhas ideais não se sintam ofendidos. Não há qualquer ofensa em se dizer contrário a um pensamento e explicar os porquês. Não há mesmo.

Aliás, esse é um legado nefasto do atual momento político. Você tem que se desculpar o tempo inteiro, pisar em ovos, para dar sua opinião. Isso é muito ruim para o país.

O que era esse Brasil de 2011-2012?

Seria absurdamente fácil “soltar” o Brasil rumo ao mundo desenvolvido, economicamente falando.

Com o quadro econômico dado, bastaria reduzir subsídios, reduzir a participação de BB, Caixa e BNDES na economia, permitir que a iniciativa privada corresse os riscos que ela estava disposta a correr.

Ao retirar (reduzir) os subsídios do setor produtivo, a concessão de crédito se faria por lógica econômica, não política ou de compadrio. E teríamos, vejam só, superávits ainda maiores e poderíamos reduzir a dívida pública, abrindo espaço para mais quedas de juros e para mais investimentos sociais.

Isso seria extremamente fácil de fazer, bastava não fazer nada. Bastava fazer a conta básica de não mais perder dinheiro com juros subsidiados, bilionários subsidiados etc.

É claro que a velocidade dos investimentos seria outra, pois os bancos privados não concederiam crédito a um monte de tolices econômicas, projetos de VPL negativo, sem o governo para segurar o prejuízo. Teríamos, entretanto, um crescimento saudável, baseado em risco ao setor privado e não ao setor público.

E o mundo? Ao contrário do que tentam vender, o mundo nunca atrapalhou. O excesso de liquidez, grana firme, no mundo, e os juros baixíssimos desde 2009, fariam com que o Brasil recebesse muitos bilhões de dólares de dinheiro de risco.

Enfim, poderíamos ter dado certo. Mas é evidente que não demos certo. Aliás, estamos no pior momento econômico da história do Brasil. Não há qualquer dúvida disso. É o único momento em que a solução fiscal (mais endividamento, mais inflação, mais impostos) não está disponível. E sempre esteve. Hoje não mais.

Como o PT perdeu o Brasil?

É super simples entender.

Dobrando a aposta no Estado empreendedor, no Leviatã absoluto da economia, naquele que dita todas as regras e os caminhos para o desenvolvimento.

O que fizemos?

Dobramos a aposta no BB e na Caixa. Dobramos a aposta no BNDES. Dobramos a aposta no Pré-sal e na Petrobras. Dobramos a aposta no mercado imobiliário. Dobramos a aposta nos campeões nacionais. Dobramos a aposta no país da Copa do mundo e das Olimpíadas. Dobramos a aposta no crescimento pelo crédito e pelo consumo.

E tudo isso com dinheiro público, via Tesouro subsidiando juros para grandes grupos nacionais e internacionais. Pela relação entre BNDES-Tesouro-BACEN, que “criou”, por baixo”, R$ 1,5 trilhão em dinheiro “novo”, que nada mais é do que dívida futura trazida a valor presente. E que nem apareceu nos balanços ainda.

Estimo, sem medo de errar, que, no mínimo, R$ 2 trilhões circularam na economia, SEM JUSTIFICATIVA econômica. Ou seja, dinheiro injetado sem que o sistema produtivo pudesse suportar ou pudesse transformar em ganhos de longo prazo esse montante.

Onde foi parar esse dinheiro?

Fácil demais saber.

Em 2012 um gerente operacional de uma multinacional de telefonia, com 200 pessoas sob seu comando (trabalho de TI), ganhava entre R$ 9 mil e R$ 12 mil por mês. Nessa mesma época, um soldador no sistema Petrobras tinha promessa de salário inicial de R$ 8 mil, podendo chegar a R$ 15 mil. Um operador de guindaste, descobrimos isso quando caiu parte do Itaquerão, ganhava R$ 19 mil. Os ganhos salariais nos setores que o governo elegeu para investir pesado foram astronômicos.

E estamos falando de um gerente de TI com faculdade de primeira linha, MBAs e etc., ganhando bem menos do que pessoas formadas em cursos técnicos. Alguns de menos de 1 ano de duração.

Parte desses R$ 2 tri virou salário, nesses mercados “eleitos” pelo governo.

O problema é que os estádios não dão dinheiro. Os imóveis construídos estão sendo devolvidos. A produção de petróleo cai (caiu uns 8% esse ano) e o preço também. Praticamente todas as empresas que surfaram no crédito barato estão ultra-endividadas e não conseguem gerar caixa de seus negócios.

Essa parte que virou salário ajudou a dar a impressão de que estávamos no caminho certo. Gente ganhando cada vez melhor (nos setores “eleitos”), comprando cada vez mais, tomando dívida de longo prazo, tomando crédito de curto prazo. Vivendo o brazilian dream.

Outra parte desses R$ 2 tri viraram pó mesmo. São refinarias, complexos petroquímicos, imóveis comerciais e residenciais, estádios, expansões de fábricas, expansão de produção, créditos podres etc., que estão sendo baixados a prejuízo, às centenas de bilhões de reais todos os anos. Só no ano passado Vale e Petrobras deram prejuízos na faixa de R$ 80 bilhões, somados.

Vale é privada? Como disse Roberto Campos: “No Brasil a empresa privada é controlada pelo governo. A empresa estatal não é controlada por ninguém.”.

Então é esse o quadro. Torramos R$ 2 trilhões, no mínimo, entre subsídios e investimentos (não naturais) forçados por estatais e pela relação entre o trio BNDES-Tesouro-BACEN, e o resultado econômico é um total fiasco. Nem poderia ser diferente, pois os projetos jamais sairiam do papel se o financiamento e o risco fossem totalmente privados.

Ué, mas o empresário tomou o risco, tomou o empréstimo subsidiado, só porque o governo deu crédito barato?

Sim, mas não é para culpar apenas o empresário que não fez conta. Todos tomaram crédito subsidiado, principalmente os mais pobres. É para culpar, também e principalmente, o governo, que resolveu fazer caridade a bilionários com o nosso dinheiro.

E deu errado, tudo errado.

Os R$ 2 trilhões, que viraram pó no mercado, que não construíram nosso caminho para o desenvolvimento, vão nos atormentar por muitos anos, pois somos nós que vamos pagar essa conta.

Hoje temos repactuação das aposentadorias nos correios. 17% ao mês por 20 anos, é o custo no salário do trabalhador que confiou no sistema.

Temos o estado do RJ que vai pagar os aposentados, com atraso, e não terá dinheiro para comprar gasolina para a polícia e algodão para hospital.

E ainda falamos em “preservar direitos dos trabalhadores”. Sem dinheiro? Será que precisaremos ver o governo federal parando de pagar seus servidores, o que geraria uma quebradeira bancária sem precedentes, para acreditarmos que estamos quebrados?

O Brasil discute se alguém poderia se aposentar aos 50-55 anos, como se o pagamento disso caísse do céu, da graça divina. Como se não fosse outro brasileiro a pagar. Senhores, não é o governo que paga. Governo não tem dinheiro. O dinheiro é nosso.

Talvez esse momento inacreditável que o PT nos proporcionou permita a repactuação federativa e social e traga o Brasil para pensar sua realidade.

Mas e o PT?

Eu acho que perdeu a chance de ver o “projeto” funcionar. Nunca mais voltará com essa vibe hegemônica, esse discurso maniqueísta. Se continuar a existir (dependerá dos desdobramentos policiais) vai precisar fugir dos dinossauros da ditadura militar. Quem manda no PT tem 60 a 70 anos de idade. Não faz a menor ideia do que é o mundo nos anos 2000. Discute problemas que acabaram há 30 anos.

Se você tenta resolver um problema que não existe mais, talvez acabe o recriando. E não é o que estamos vendo?

Não tinha acabado a ditadura militar, a hiperinflação, a década perdida etc.?

Pois é, fomos enfrentar o que já estava morto, olha aí de novo. Chutaram tanto o cadáver que ele ressuscitou!

Senhores, por favor, a partir de 2018, vamos debater problemas atuais. Não queremos mortos-vivos andando pelas ruas no Brasil. Vai que aparece um Juscelino querendo reconstruir a capital federal na Lua, bem longe dos eleitores? Custando 3% do PIB? Xô Exu! Vade Retro!

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Não existem juros simples. Nem juros compostos. O falso dilema do STF.

Posted on 26/04/2016. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , , , |

O Brasil é um país interessante. Volta e meia temos que reinventar a roda, rediscutir temas já pacificados em todo o mundo.

O caso da ciclovia do RJ é um clássico do retrocesso, do revisionismo intelectual e tecnológico que vivemos. 2 corpos de engenharia, da prefeitura e da Concremat fazem projetos técnicos. O básico inicial e o executivo. E ninguém calcula o impacto de um evento corriqueiro (ondas batendo).

Não é incapacidade de calcular, pois um aluno de engenharia com 1 período de hidrodinâmica calcula isso. É outro nível de incompetência. Seria como um cirurgião esquecer de fechar o paciente.

Isso me lembra uma resenha crítica que escrevi sobre o filme Idiocracy, em 2011. Nos EUA dos anos 2505 não se consegue fazer projetos de engenharia, dada a mediocridade da população. Parece que no Brasil de 2016 também não. Pelo menos chegamos primeiro em algo!

Mas o caso de “revisionismo intelectual” nesse caso é dos estados, superendividados, que querem que os juros acumulados sobre o principal de suas dívidas corram sob o regime de juros simples e não de juros compostos.

Aqui vou deixar claro que não li os contratos para saber se há caminho jurídico, mas entendo que os contratos devam se submeter à lógica financeira e não ser distorcidos por advogados competentes para “encaixar” uma lógica disfuncional e caótica. Potencialmente destruidora.

 

Num empréstimo há: Taxa, periodicidade e maturidade.

Qual é a taxa do empréstimo? 10%? Errado! Tem que ter a periodicidade. É 10% ao ano, 15% ao ano, 12% ao ano com pagamento de juros semestral e assim vai.

Nos EUA, quando falamos em 12% ao ano, capitalizados mensalmente, significa que teremos 1/12 avos dessa taxa aplicados ao mês. Seria 1% ao mês.

A taxa SELIC, ou o CDI, costumam ter cálculo diário, mas são explicitadas em termos anuais (14,25% e 14,13% respectivamente).

Não existem juros simples ou compostos, essa nomenclatura é apenas um indicativo de como se procedem os cálculos, mas, na prática, o que existe é a taxa e a periodicidade, além do regime de pagamento ou acúmulo dos juros no saldo devedor.

 

10% ao ano, empréstimo de 1.000.000, período de 10 anos.

É pacífico que, ao final do primeiro ano, o saldo devedor estará em 1.100.000. A taxa de 10% ao ano, do ano 2, incidirá sobre 1.000.000 ou 1.100.000?

Se incidir sobre 1.000.000 o que acontecerá com os outros 100.000 devidos?

Não haverá incidência de juros sobre eles? Por quê? Qual a justificativa para que esses 100.000 não se submetam aos juros do empréstimo? Qual a cláusula contratual que cria um montante da dívida sobre o qual não correm juros? Há alguma dúvida de que os 100.000 são devidos?

O período é anual, o montante devido é 1.100.000. Qual a fundamentação matemática para que a taxa anual do segundo ano não seja aplicada sobre os 100.000 de juros do primeiro ano?

Pode até haver fundamentação jurídica, seria um estupro à matemática financeira, mas no Brasil a lógica parece render-se ao casuísmo.

Se a taxa fosse de 100% em 10 anos, não haveria dúvida de que o montante devido seria de 2.000.000 em 10 anos, sem capitalizações parciais.

Não há juros compostos ou juros simples, são ferramentas matemáticas apenas, usadas para agilizar os cálculos a depender das condições contratuais. O que há são as condições do contrato de empréstimo. É taxa anual? É capitalizada mensalmente? Acaba em 10 anos? O devedor pagará os juros intermediários ou acumulará até o final dos 10 anos?

A prova da bobagem

Imagine um mundo onde fosse possível captar (tomar empréstimo) a 12% ao ano e investir a 12% ao ano.

R$ 1.000.000, taxa de 12% ao ano, maturidade em 11 anos.

Imagine que seja possível pagar o saldo devedor somente ao final, a juros simples.

O tomador (devedor) pega, então, os R$ 1.000.000 e investe a 12% ao ano, com maturidade de 1 ano. Os R$ 1.120.000 do primeiro ano, ele retira ao final do contrato e reinveste a 12% ao ano. Assim sucessivamente até o 11º ano.

Em 11 anos, o devedor vai pagar, a juros simples, R$ 2.320.000 (R$ 1.000.000 + 11 x R$ 120.000)    .

Porém, ao reinvestir a 12% ao ano, com maturidade de 1 ano, TAMBÉM POR JUROS SIMPLES (pois reaplicará o ganho mais o principal), por 11 anos seguidos, ele terá R$ 3.478.550, o que lhe daria um lucro de R$ 1.158.550.

O que o impediria de fazer isso?

Por que juros “simples” de 12% ao ano com maturidade de 1 ano, reinvestidos por 11 anos seguidos, dariam um retorno muito maior do que juros “simples” de 12% ao ano acumulados por 11 anos seguidos?

Aí o leitor pode pensar: – Ah, mas o primeiro está a juros simples, o segundo a juros compostos! Esse é o meu ponto. Não há juros simples ou compostos, apenas as cláusulas contratuais. Nada me impediria de retirar meu dinheiro ao final do primeiro ano reaplicar aos mesmos 12%. Isso transformaria “juros simples” em “juros compostos”, o que  demonstra que esses conceitos não dizem respeito aos juros em si, mas ao tipo de contrato.

Ainda que os juros de curto prazo sejam menores, sempre haverá um horizonte suficientemente longo para que haja lucro na operação, com risco zero.

E nem é verdade que SEMPRE as taxas de juros de curto prazo serão menores do que as de longo prazo. Em pleno ano de 2016 os juros para 2019 no Tesouro Direto (12,6% ao ano) são menores do que os de curtíssimo prazo (14,25% ao ano).

Que me desculpem os senhores governadores, os senhores advogados, mas devedor que quer corrigir seus saldos devedores a juros simples e aceita se capitalizar a juros compostos não age de boa-fé. Não vai ser assim que vão sair do buraco.

Escrevo com absoluta certeza de que o STF vai negar o pleito dos governadores. Não faz qualquer sentido. Se aprovarem, preparem-se. Nenhum contrato estará a salvo no Brasil.

E tudo por um revisionismo conceitual, intelectual e tecnológico. E casuístico.

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É possível lutar contra a corrupção se utilizando de anti-heróis reconhecidamente corruptos? Immanuel Kant nos explica.

Posted on 21/04/2016. Filed under: Filosofia, Humor, Matemática, Política |

Para qualquer pessoa que discuta política nos dias de hoje é meio óbvio que a questão está centrada na dimensão ética e moral. Tanto para justificar, quanto para desqualificar qualquer objetivo.

Seja a viabilidade ou inviabilidade do impeachment, seja a nomeação de Lula, sejam as supostas relações “internacionais” dos movimentos sociais liberais (novidade por aqui) etc..

Um amigo, professor de filosofia, especialista em Immanuel Kant me questionou sobre como seria possível entender como legítimo um processo de impeachment conduzido por uma câmara infestada de políticos envolvidos nas mais intrincadas redes de corrupção, imoralidade etc.

Lembrou-me que um dos mais respeitados conceitos sobre moral, o Imperativo Categórico, poderia estar sendo descumprido.

E aí, como seria possível justificar apoio a um processo de impeachment liderado por gente em quem não confiamos?

Ou, como seria possível justificar o voto em um político em quem não confiamos ou não temos afinidade, apenas para que outro não vença?

Utilitarismo? Opção pelo menos nocivo? Limpeza gradual? Depois a gente cuida do bandido menos poderoso?

Dá para analisar exclusivamente do ponto de vista moral, de uma justificativa que seja, de fato, ética, ou será necessário SEMPRE recorrer à ordem prática (utilitarismo) para ter essa resposta?

Vamos ver.

O Imperativo Categórico (IC), o uso do acostamento e a atitude de furar a fila

Mesmo você leitor, que não está familiarizado com Kant, tem o Imperativo Categórico bem entendido na sua estrutura moral.

Se você nunca entendeu claramente o que seria o IC, vai dirimir essa dúvida nos próximos parágrafos.

Por que você se incomoda quando um motorista passa correndo pelo acostamento, enquanto você espera pacientemente no trânsito?

Por que você se incomoda quando alguém fura a fila, enquanto você, pacientemente, espera sua vez?

Melhor: por que você ESPERA e não fura a fila ou invade o acostamento como os outros?

Você pode até pensar que o medo da multa, sanção social, cara feia, risco de ser agredido etc., são os motivos que fazem as pessoas não transgredirem, porém, para Kant, é a dimensão moral que faz as pessoas evitarem a transgressão.

Kant explica que, para se pretender ético, o ser humano precisa agir de forma que sua atitude pudesse ser uma lei universal. (Importante, aqui não faço distinção entre ética e moral, não é necessária essa distinção aos objetivos do texto, basta o entendimento corriqueiro dos termos).

Na verdade, seria uma obrigação incondicional que o ser humano “sente”, independente de suas vontades ou desejos pessoais.

Trocando em miúdos, significa pensar: se todos agissem como eu, nesse caso, como seria o mundo?

– Se todos furassem fila ou pegassem o acostamento, como seria o mundo?

– Se todos respeitassem a fila e deixassem o acostamento livre, como seria o mundo?

O Imperativo Categórico indicaria que a atitude moral seria a segunda, evidentemente, pois é a única que poderia ser uma “lei universal”, a outra, a da transgressão, resultaria em caos.

Em tese, saber, interiormente, que sua atitude levaria o mundo ao caos se fosse reproduzida por todos, traz a clara percepção de que isso é errado e deveria servir de freio moral para suas atitudes.

Perceba que aqui não falo de seguir a legislação, apenas de uma evidência de que sua atitude imoral tornaria o mundo caótico, o que deveria servir para balizar uma conduta moral.

Mas o Imperativo Categórico funciona em qualquer situação?

O problema do IC é trabalhar com fragmentos muito simplificados da realidade. A atitude de pegar o acostamento ou ir atrás de uma ambulância para cortar o trânsito seria profundamente imoral, ou plenamente justificável, se soubermos os detalhes. Detalhes que, normalmente, não sabemos.

Perceba:

– Se todas as pessoas que estão com parentes enfermos seguissem a ambulância no trânsito, isso levaria ao caos no trânsito?

Poder, legalmente, matar uma pessoa sã é certamente algo que não poderia ser generalizado, caso contrário seria o caos social. Mas leia o que segue:

– Poder matar uma pessoa que ameaça sua vida de forma iminente, presente e imediata, com uma arma em punho apontada para você, por exemplo, é um direito que levaria o mundo ao caos?

Esse último exemplo é bem mais grave do que os relativos ao trânsito, e, mesmo que a legítima defesa esteja prevista em todos os códigos penais, desde sempre, o homicídio ainda é algo gravíssimo e, provavelmente, o indivíduo que matou será processado e obrigado a provar que realmente o fez em legítima defesa, e que não havia alternativa viável.

A imperfeição de todos nós

Considero a estratégia de apelar à nossa imperfeição moral, enquanto seres humanos, para justificar desvios próprios ou de terceiros, uma simplificação oportunista dos conceitos de ética e moral. Essa estratégia, apesar de bem mal educada, é usada e abusada por políticos para “neutralizar” a indignação das pessoas com a corrupção. Poxa, mas você jogou papel no chão, como pode falar de caixa 2 de campanha? Por aí.

É louvável apelar aos brasileiros para que não transgridam a moral em atitudes simples, como não furar a fila, não andar no acostamento ou não subornar um guarda. Realmente a mudança na estrutura e na hierarquia de valores é o que poderá melhorar o país. Precisamos melhorar esses valores por aqui.

Mas é imoral acusar a imperfeição do outro para justificar a sua própria, ou para aliviar algum delito próprio que consideramos menor ou justificável.

Se todos fizessem isso não haveria mais ser humano moral, pois não há ser humano perfeito. Todos iriam buscar uma escala de delitos justificáveis, ou comparativamente menores, para ficarem em “paz” ou se defender de suas próprias transgressões.

Isso não é ético, isso é caótico.

Mas como ser ético sem ser perfeito?

Há três formulações ligadas ao Imperativo Categórico. A fórmula da lei universal, da qual já tratamos, a fórmula da humanidade e a fórmula da autonomia.

fórmula da humanidade parte do pressuposto que nenhum ser humano vale mais do que outro e diz que devemos agir de tal maneira a usar a humanidade do outro como fim e não como meio.

Em outras palavras, não se deve utilizar alguém como mero instrumento de nossos objetivos pessoais. Não é imoral utilizar alguém como meio, mas é FUNDAMENTAL que essa pessoa esteja ciente desse uso e em concordância de que é, também, o que ela deseja.

Em resumo, para agir moralmente com outro ser humano é fundamental preservar o livre arbítrio desse interlocutor. Quem está sendo enganado, tem seu livre arbítrio cerceado pelo enganador. Isso é imoral.

fórmula da autonomia diz respeito à capacidade dos seres racionais de “legislar” sobre a lei moral, ou seja, de ser capaz de redigir seus próprios códigos morais e viver de acordo com eles.

Pecadilhos cotidianos

É claro que costumamos nos considerar éticos e que agimos de acordo com preceitos morais que consideramos valiosos. Mas também é claro que somos imperfeitos.

No mundo real é impossível agir em qualquer atividade complexa, por tempo suficiente, sem transgredir.

Imagine você alugando sua casa para um estrangeiro na olimpíada. Ele paga em dólar e não conseguirá, mesmo que queira, declarar ao fisco brasileiro a renda que lhe deu. Você declararia a renda e pagaria imposto?

Isso vale para qualquer verba recebida. Músicos, artistas de rua, proprietários de taxis, gente que compra e vende na internet, artesãos etc., declarariam a íntegra de seus ganhos, caso houvesse imposto a pagar, ainda que a autoridade fiscal jamais pudesse saber disso?

Comprar regularmente uma bala ou um chiclete de um menor de 9 anos nas ruas pode ser visto como estímulo ao trabalho infantil. Assim como pagar a um menor de 10 anos para engraxar seus sapatos semanalmente, também. Trabalho infantil é crime, com previsão constitucional.

Se você ganha um carro do seu pai. Quais os desdobramentos fiscais esperados: seu pai registra a doação a você e paga o imposto. Se ele não fizer isso, você, ao vender o carro, deveria pagar imposto sobre ganho de capital sobre todo o valor da venda. Alguém faz isso?

Baixar filmes ou séries sem pagar? É ilegal, mas 1/3 da população Suíça faz.

Beber e dirigir não era crime. Depois passou a ser, a partir de determinados níveis de álcool no sangue. Hoje é tolerância zero, bombom de licor e Listerine já pegam.

Não estou discutindo a moralidade desses atos, deixemos para depois, mas apenas ilustrando a impossibilidade prática de ser perfeitamente moral (sem transgressões à lei) sob um pesado arcabouço legal, tributário, constitucional, penal, cível etc.

No universo de Kant estávamos sob decisões morais mais simples, sem a superestrutura legal que tipifica milhões de possíveis delitos, alguns a depender tão somente da interpretação do agente da lei ou da avaliação de um colegiado. As pressões éticas eram mais “universais” do que práticas. Não eram impostas pelo homem, pelos lobbies, pelas corporações, pelo ativismo, pela pressão das minorias, pelo politicamente correto etc.

É bem razoável crer que não é possível a um cidadão comum sequer saber se cumpre na totalidade e a contento todo o rigor burocrático do estado ou se age de acordo com os inúmeros códigos morais presentes na sociedade em que vive.

Já não estamos mais no campo da razoabilidade ou das obrigações morais fundamentais de Kant.

Creio que o que fica claro em Kant, e em qualquer estudo que se faça sobre ética e moral, é que os princípios indicam, mas não resolvem.

Seríamos, pois, seres imorais, por sermos imperfeitos?

Certamente que não.

Quando quiserem convencê-lo de que jogar papel no chão ou baixar filmes na internet o colocaria no mesmo patamar (i)moral de quem rouba dinheiro público, mata por queima de arquivo ou frauda fundos de pensão de gente humilde, lembre-se de que o Imperativo Categórico não foi pensado para tipificar atitudes cotidianas contra códigos casuísticos criados pelo próprio homem, mas para trabalhar conceitos gerais de moralidade.

E, certamente, o código moral que condenaria jogar lixo no chão ou o download ilegal, não está no mesmo nível do código moral que condenaria o crime do colarinho branco, a fraude eleitoral, o homicídio por motivo vil, a formação de quadrilha e outros crimes que existem desde o primeiro código penal ou eleitoral.

Não é uma questão do “tamanho da pena”, mas da existência do crime moral a priori. Não temos sistema de esgoto ou coleta de lixo em muitas cidades do planeta, assim como nem todos os países tipificam como crime o download de conteúdos protegidos. Mas em todos esses lugares os crimes contra a pessoa, contra a boa-fé pública e contra o patrimônio são tipificados e tem previsão de punição. Em alguns lugares, punição severíssima.

Não é necessário ser perfeito para ser ético. É meio óbvio isso, nem precisaria dizer, mas no Brasil desses novos tempos parece que o indivíduo deve portar uma certa “credencial” de perfeição para que sua opinião moral tenha validade. Bobagem. É só estratégia retórica, não tem embasamento teórico e, muito menos, prático.

Mas como ter, então, uma postura ética e moral em um mundo ultracomplexo? Como ter uma postura ética e moral, precisando optar pelo político A ou B?

É evidente que as pessoas preferem se considerar éticas ao avaliar seu próprio comportamento. Buscam isso, se policiam para ser assim e se penalizam por agir de forma diferente.

Mas haveria pessoas que agem deliberadamente de forma antiética ou imoral, estuprando por vontade própria as proposições morais de Kant? Sim, os psicopatas se comportam dessa maneira. Sem qualquer empatia por valores universais, pela humanidade, agem exclusivamente por interesse próprio, utilizando a tudo e a todos como meios para levar a efeito sua insanidade.

Mas há também pessoas psicologicamente saudáveis que agem de forma imoral. Na maioria das vezes, o fazem por desconhecimento de suas próprias motivações, por falta de estímulo suficiente para a mudança ou por dificuldade de confrontar-se com suas próprias atitudes injustificáveis. Se demoram muito a mudar, correm o risco de perder a própria capacidade de perceber seu estado de sanidade mental e moral. Por isso um ambiente crítico é tão importante para manutenção da sanidade. Pessoas que vivem cercadas de aduladores, que aplaudem qualquer besteira que fazem, costumam perder a capacidade de discernir o que é razoável e o que não é. Artistas e políticos têm esses problemas.

Esse texto não pretende debater sobre as pessoas que não conseguem mudar, mas apenas sobre os que pretendem viver uma existência altiva, vertical, em que possam reconhecer seus próprios atos e valores. Não só para si mesmos, mas para quem os cerca e para quem vier a ter contato com sua obra.

É necessário saber! É necessário ter consciência de suas próprias transgressões e de suas verdadeiras motivações.

É extremamente difícil saber o que, realmente, nos move. Talvez não exista o ser humano plenamente consciente de todas as suas motivações, de todos os seus drives, de todos os seus pecados (contra si mesmo e contra os outros).

Se não é fácil saber o que nos move, e é a única forma de medirmos nossa moral, ou de modificarmos nossa conduta para algo que consideramos ético (a partir da identificação de um desvio), resta-nos, apenas, a reflexão incessante e a dúvida constante sobre nossa própria postura.

Provavelmente o “ser humano ético possível” será aquele em constante mudança de seu comportamento e de seu entendimento das coisas. Aqui não falo dos imperativos categóricos morais a priori (que não trariam espaço para dúvidas, precisam ser respeitados por todos, pois seriam valores perenes), mas da interpretação do cotidiano, dos fatos, das versões, do mundo. A Metamorfose Ambulante de Raul Seixas parece ter sido um esboço de resposta às prisões impostas pelos falsos pressupostos e pelas verdades absolutas.

Como ser ético votando em quem não confiamos?

Não é sua opinião política, suas decisões utilitárias ou seu viés ideológico que vai medir a moralidade do seu comportamento.

Gastar de alguém é, e sempre será, gostar de algumas poucas facetas daquele alguém. Quem gosta de Chico Buarque, gosta de determinados aspectos do que ele consegue externar, FORA de sua privacidade. Assim como quem gosta de Bolsonaro e Jean Wyllis não o fazem pela plenitude das ideias e atos daquelas pessoas. Apenas determinados aspectos de suas atitudes (ínfimos em comparação com o que, realmente, são) são aprovados ou desaprovados pelos seguidores.

Ninguém merece a prisão de ser obrigado a defender a priori tudo o que vem do outro, daquele que gostamos. Isso é um dos caminhos mais rápidos e infalíveis para a imoralidade: justificar atitudes de outrem, apenas pela empatia à pessoa e não pela avaliação moral do ato.

Para ter atitude ética é FUNDAMENTAL reconhecer os verdadeiros motivos de seus atos e os drives de suas ideias. Se eles são misteriosos para você, investigue-os de forma humilde. Se você crê saber o que lhe move, então relate, revele, diga ao seu interlocutor. Garanta condições para o debate moralmente saudável.

Quem é contra o estado empreendedor, dinheiro público para grandes empresas, cotas raciais, bolsas, politização do ensino fundamental, comunismo, marxismo, gramscismo, e é a favor de reduzir o tamanho do estado, da venda de estatais, da meritocracia, do rigor penal, da intransigência com a corrupção, etc., precisa revelar essas ideias e buscar os argumentos que explicam e justificam, PARA VOCÊ MESMO, sua posição. Assim será capaz de defendê-las em público.

O contrário também é válido. Revele todas as suas convicções ditas progressistas. Revele-se contrário à meritocracia, se o for, contrário ao capitalismo, se o for, a favor do regime cubano ou venezuelano, se o for. Tenha seus argumentos afiados, logicamente encadeados e formulados. Saiba com clareza como explicar e como justificar para VOCÊ MESMO, suas posições, suas crenças e seus pressupostos.

Para você o “petróleo é nosso” é uma verdade intocável? Pergunte-se por que e tente se colocar no lugar de quem não concorda, partindo do pressuposto que seu interlocutor é um ser humano ético. Acredita em meritocracia ou no capitalismo liberal? Faça o mesmo.

Aprender é mudar. Se não há mudança, não há aprendizado. Professor não é aquele que sabe mais, mas aquele que conquista a mudança no outro.

Quando ambos estiverem afiados em seus argumentos, teremos um bom caminho. Ao menos um bom início, pois todos os objetivos estarão revelados. As crenças, os pressupostos, as justificativas e, principalmente, a sua verdadeira posição diante do interlocutor, estarão expostos.

Mas não revelar seus objetivos ao debater é afronta direta à moral kantiana. É usar o ser humano como meio exclusivo para fins que ele desconhece, não sabe avaliar e, talvez, não queira. E como não sabe, estará privado de seu livre arbítrio.

Por isso é preciso que você mesmo justifique, com clareza, seu próprio código moral. Que você “legisle” sobre sua própria lei moral, respeitando as formulações de Kant. Essa é uma previsão Kantiana. Uma prescrição Kantiana.

O Brasil precisará descobrir se é progressista ou conservador em seus costumes, se é liberal ou intervencionista na economia, se concorda em abandonar o eurocentrismo na educação ou quer mantê-lo, se é de tabuada ou é construtivista, se as leis de incentivo à cultura devem indistinguir o pancadão do funk do balé clássico, e por aí vai.

Não conseguimos discutir isso nos últimos 40 anos. Melhorou com as redes sociais, ao menos é possível debater entre quem pensa igual e incrementar as justificativas racionais e morais para os diversos entendimentos de mundo. Mas é necessário permear a eloquência entre lados opostos.

Quem quiser defender seu ponto de vista, a hora é essa, mas não dá mais para se esconder atrás do maniqueísmo e do politicamente correto. Não há mais “verdades” autorreveladas ao povo brasileiro. Nós estamos confusos e precisamos nos ajudar. E só seremos ajudados sob pressupostos éticos e morais.

Conclusão?

Não queria ter que concluir, pois, parece-me, já disse tudo o que deveria.

Mas como o texto começou com uma pergunta, vale reunir o que tratei para respondê-la.

O que fica claro no texto é que o julgamento de moralidade de cada pessoa depende apenas das atitudes dela própria. É injusto e preconceituoso julgar a moral de uma pessoa apenas pelas páginas que curte no facebook ou por gostar de Chico Buarque, Bolsonaro e Jean Wyllis. Ou por curtir funk e sertanejo.

Assim como você defender o impeachment, ou ser contra ele, não o faz patrocinador ou adulador da imoralidade de Eduardo Cunha ou de Dilma Rousseff (Lula, se preferir).

Conheça-se, seja capaz de criar um código moral pessoal robusto, defensável, e que lhe confira paz e altivez para agir.

Kant nos deu vários caminhos para aprendermos a viver de forma ética. As formulações do Imperativo Categórico são preciosas para nos guiar.

Se o impeachment for capitaneado por um escroque como Eduardo Cunha, ou derrubado por um não menos escroque como Renan Calheiros, isso não tem NADA A VER com sua posição pessoal contra ou a favor do impeachment.

É um falso pressuposto. O pressuposto da perfeição moral do ato complexo. Esqueçam, isso não existe. A moralidade e a ética estão à disposição de quem quer se conhecer.

Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Bolsonaro, Jean Wyllis etc., não são balizadores morais de nada. Você é. Você é quem importa, de fato.

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Conhecimento Googliano e as Viúvas do Decoreba

Posted on 05/04/2016. Filed under: Filosofia, Humor, Matemática, Política | Tags:, , , , , , , , , , |

Fiz uma prova há alguns dias, sobre Fundos de Investimento, no Ibmec. Sem consulta.

Eis que surgiram questões que exigiam o tradicional “decoreba”. Não faço uma prova que precisa decorar desde o colégio. Nem na engenharia, nem no Mestrado precisei “decorar” qualquer coisa para fazer uma prova.

Uns dias antes dessa prova, um amigo de longa data não quis nem escutar minhas ideias a respeito da situação do Brasil, porque eu não tinha lido um livro do Raimundo Faoro, e não era qualquer edição, tinha que ser das primeiras.

Esses dois eventos me levaram a escrever esse texto, para demonstrar que o Google nos libertou para sermos, de fato, inteligentes. Veremos.

 

Conhecimento Googliano x Conhecimento Real

No tempo das enciclopédias de 50 Kg e 10.000 reais era uma grande vantagem a erudição e a capacidade de armazenar grande quantidade de informações para poder utilizá-las em seus trabalhos científicos, artigos ou até conversas de bar. Era caríssimo ter esse conhecimento à mão.

Mas hoje não faz tanta diferença ser capaz de responder questões diretas como definições, fórmulas ou trechos do pensamento de alguém.

Lembro de um dos filmes de terror da série Demian, em que o garoto, filho daquele de quem não se fala o nome, começou a ser desafiado pelo professor a dizer a data precisa de vários eventos históricos. Acertou todas. Como o Google acertaria. E sem ser filho do tranca-rua. Aos novos, o nome do tranca-rua não é Valdemort.

É claro que a erudição é desejável, mas é só 1 dos instrumentos para análise da realidade. E, com o advento do Google (e outras ferramentas) e com a inacreditável facilidade para se dispor da informação imediatamente, a custo praticamente zero, creio que há caminhos e instrumentos mais dinâmicos para o desenvolvimento do trabalho científico (ou corriqueiro) e de pensamento relevante.

 

Pensamento linear-mecanicista-newtoniano

Sempre ouvimos falar que o conhecimento do complexo precisa do conhecimento do básico. Isso nos guiou em nossa jornada nas escolas e universidades, desde sempre. Faz parte do método científico.

Mas não é assim que aprendemos ou produzimos. É inegável que o conhecimento, em praticamente todas as áreas, é construído de forma orgânica, múltipla, multidisciplinar, holística e não de forma mecânica. Se o leitor discorda dessa premissa, talvez não se interesse pelo que vem a seguir.

É claro que há ferramentas basilares, como a lógica formal (teoria geral dos conjuntos), os idiomas como o português e a matemática (que é linguagem), mas aprendemos a falar com lógica muito antes de aprendermos lógica formalmente.

Quem tem filhos pequenos deve ter percebido que a formação lógica das frases e do comportamento, o significado do não, do sim, a identificação das diferenças e das combinações lógicas surgem de forma natural. Nenhum pai ou mãe precisa explicar. A própria convivência com o idioma, que é um arcabouço lógico-matemático, organiza a ideia da criança.

Digo isso para ressaltar que o aprendizado é um organismo complexo e provém, basicamente, da necessidade.

Observe o trabalho de Einstein, Newton, Mendel, Darwin etc. Não havia nem cálculo diferencial para Newton trabalhar sua física. Ele construiu essa matemática. Ao mesmo tempo, Leibniz criava, praticamente, a mesma matemática sem ter contato com Newton e com necessidades diferentes.

O trabalho científico realmente inovador surge de hipóteses que não estavam disponíveis exclusivamente à erudição.

Einstein chegou a um impasse sem solução na teoria geral da relatividade, até se deparar com a geometria de Riemann, que a desenvolveu por puro desafio lógico. Einstein não conhecia a ferramenta. O verdadeiro caminho do conhecimento não é linear. Ainda que seja útil ter vasto conhecimento, não necessariamente vai lhe garantir relevante produção científica, filosófica ou política. Einstein não conhecia a geometria Riemanianna. E ela foi imprescindível.

Precisaremos ler Marx no original em alemão, para iniciarmos um estudo econômico crítico ao capitalismo? Por que um livro de 150 anos deveria ser o início da trajetória do conhecimento, se temos, talvez, 3 ou 4 livros escritos nos últimos 15 anos, por gente séria e competente, debatendo, apresentando e discutindo as ideias de Marx, reconhecidos como especialistas ou intérpretes do filósofo prussiano?

Não faria mais sentido que a investigação começasse pelo mais recente e que, posteriormente, desencadeasse um conjunto de outras leituras necessárias para aprofundar o conhecimento?

Não é assim que aprendemos quase tudo na vida? A partir da necessidade, a partir da experiência cotidiana, a partir das demandas que as próprias perguntas que fazemos a nós mesmos vão indicar, a partir da nossa capacidade de perceber lacunas em nosso conhecimento e do nosso talento (ou esforço) para preenchê-las?

Há 30 anos seria uma grande vantagem partir de uma bibliografia parruda, extensa, exaustiva, para formular uma questão científica relevante.

Hoje, me arrisco a dizer, pode mais atrapalhar do que ajudar.

Para escrever um parecer jurídico em 1985 o advogado enciclopédico valia ouro. Hoje, me parece muito mais razoável que, a partir do conhecimento que se tem, se construa a argumentação após a visita a dezenas de sites ou fontes online confiáveis que não só ajudarão na construção da narrativa, mas indicarão algumas dezenas de livros, artigos, pareceres, doutrinas e caminhos úteis à elaboração do parecer.

Essa é a dinâmica que não tem volta. Os jovens serão assim. Aliás, é bem provável que nossa “memória erudita” seja armazenada em HD externo em breve, à disposição ao piscar de um olho num Google glass ou Google brain-cloud.

Se aparecer esse brand “brain-cloud”, vocês leram aqui primeiro… Opa… verifiquei no Google e brain-cloud já é uma expressão amplamente utilizada, para inteligência artificial, para bandas de rock, para armazenamento à distância etc.. Quanto tempo levaria para saber isso em 1984? Capisce? Uau! Quanto tempo levaria para saber a grafia correta de capisce em 1971? É até difícil saber quantas inserções eu fiz no Google para construir esse texto…

40 dias. É o tempo que levaria pra escrever esse texto, com a mesma investigação bibliográfica e documental, em 1991, quando estava na PUC.

Ainda bem que ainda não preciso do Google para saber onde estava em 1991. Já os novinhos, saberão pelo facebook onde estavam em 2010…

 

O que é preciso para não escrever besteira?

Mesmo os eruditos e acumuladores de informações não estão livres de escrever bobagem, de pecar na lógica, de chegar a conclusões erradas ou mistificadoras.

O que garantirá a higidez do texto e do discurso NÃO é, em essência, a erudição, mas a metodologia do pensamento, a perspicácia de descobrir o que não se sabe e a humildade para reconhecer que a “verdade” não está disponível como fato, apenas como caminho.

Na prática é fazer ciência. O cientista de fato é aquele que preza a lógica formal, evita ao máximo a polarização e reconhece erros em seu trabalho com certa facilidade e até com alívio, dado que é muito desagradável publicar algo com erro. Não se agarra às premissas ou a um resultado ainda não revelado que considera “superior” aos outros. Desconfia das próprias premissas.

O tema “Capitalismo de Estado no Brasil”, por exemplo, poderia ser investigado a partir da observação crítica dos últimos 10 anos, ainda que o interessado não tenha lido todos (ou muitos) livros sobre o assunto.

É desejável que tenha lido 300 livros sobre o assunto? Não dá para responder. Pode ser (e normalmente é) contraproducente esperar até que o background bibliográfico seja vasto para se partir à investigação do fenômeno, principalmente pela atualidade deste fenômeno. Ele muda a toda hora. Tanto o homem da ciência muda, quanto o método que ele usa muda. Se muda tudo, por que deveríamos aceitar, sem questionar, que é imprescindível ler o que se falava do tema em 1978?

Fosse assim, não teríamos genética, teologia, física, química, evolucionismo etc. A maioria (se não todos) dos reais avanços da ciência se deu por caminhos nunca dantes navegados, com conhecimento original sendo criado. Não raro, os únicos ferramentais relevantes eram a lógica formal e a capacidade de fugir dos grilhões da erudição engessante da época.

 

O Google (e outros) como árvore do conhecimento necessário

Fica aqui um parêntese. É meio óbvio que não estou discutindo aqui se o Google é fonte confiável, até por que isso seria uma bobagem, uma vez que o Google não é fonte, apenas meio, ferramenta. Só digo, e isso é um pouco óbvio, que é uma ferramenta relevante para preencher o vazio inicial de um trabalho inovador.

É evidente também que o vazio inicial para quem é capaz de produzir um trabalho não é um vácuo intelectual, mas sim um terreno adubado, à disposição do plantio.

É importante também dizer que o investigador precisa ser correto e honesto intelectualmente. Como já disse, eruditos ou não eruditos com viés, jamais serão cientistas, apenas serão manipuladores de opiniões.

Crio que meu artigo sobre ideologia e ciência poderá ajudar a elucidar esse aspecto. Clicando aqui.

Se fôssemos começar a escrever seriamente sobre “Capitalismo de Estado no Brasil Atual”, me parece que o status quo seria o ponto de partida mais provável. Raimundo Faoro e até Roberto Campos (um erudito bem mais significativo em economia brasileira), poderiam ser acessórios. Luxuosos acessórios, mas não seriam a fonte primária a aguçar o interesse do pesquisador e, provavelmente, não serão os questionamentos de outrora os relevantes para hoje.

Ainda que os mundos se pareçam, acreditar que são sempre iguais é apenas resquício de nossa linearidade newtoniana. Nenhum mundo é igual. Nem no segundo seguinte.

Ao investigador sério, honesto e metodologicamente preparado, as pesquisas via internet podem trazer: dezenas de artigos recentes, teses e dissertações, opiniões, livros relacionados, críticas aos livros, definições, reflexões, aulas, PDFs etc., e até a opinião de um barbudo estoniano, que ninguém leu ou se importou, que trará a luz necessária ao breakthrough científico. Whoever the hell seja esse barbudo.

Pensem comigo queridíssimos leitores que me acompanharam até aqui. Não faz muito mais sentido percorrer esse caminho sugerido no texto? Um caminho direto ao ponto, sem a necessidade de uma “bibliografia imprescindível”, intimidante, para compreender como o fenômeno era visto no século XIX?

Será que é necessário ler Raimundo Faoro, Celso Furtado ou Sérgio Buarque de Holanda para se vir apto a discorrer sobre um fenômeno que assola o país em 2016?

Aí é que meu ponto fica mais eloquente: você NUNCA saberá de antemão.

Os trabalhos relevantes e recentes incorporam à base do conhecimento dos autores clássicos, 100, 200, 400 anos de vivência e história que esses escritores não conheceram.

Ler os livros de Schumpeter é algo engraçado, pois ele mesmo corrige as premissas que basearam seus trabalhos anteriores, e reformula suas teorias. Para quê você leria os livros que ele mesmo considera equivocados? Leia os outros!

Por que leria os livros que Fernando Henrique Cardoso escreveu, não concorda mais e faz questão de que todos esqueçam?

Pode ser que, durante a investigação, você considere razoável ler esse material, mas, repito, de antemão, você NUNCA saberá se ajuda ou não no caminho da sua investigação séria e honesta.

 

Charles Chaplin e Henry Ford. Paulo Portinho e Larry Page.

Entendedores entenderão. Mas eu vou parar o texto, com uma vergonha avassaladora por ter o atrevimento de me inserir nesse subtítulo.

Pelo impeachment de Paulo Portinho da frase que associa a libertação do trabalho mecânico à libertação do conhecimento enciclopédico!

Companheiros, uni-vos!

Atualização após 24 horas de críticas inteligentes!

Pelos comentários em redes sociais, percebi que o texto pode sugerir a “desvalorização” dos clássicos. Não é isso, e o experimento a seguir demonstrará com clareza:

Imagine uma pessoa capaz, bem formada, com ótima interpretação de texto, lógica formal impecável, porém sem qualquer background na filosofia da ética e da moral. Considere 2 estratégias:

  1. Inicia a investigação pela web, lê por 4 ou 5 semanas vários artigos, críticas, blogs, aulas online, apresentações de powerpoint, opiniões, livros recentes, enfim, lê o equivalente a 3.000 páginas sobre sobre Kant e sua filosofia da moral. Após essa investigação, decide ler a Crítica da Razão Pura, a Crítica da Razão Prática e a Metafísica da Moral.
  2. É aconselhado a estudar os mesmos 3 livros imprescindíveis de Kant, os lê e depois procura acesso às críticas, opiniões, aulas, artigos, livros recentes, etc., dedicando também várias horas e páginas para formar seu conhecimento.

A não-linearidade ensina a entender que os resultados, em termos de conhecimento sobre a filosofia moral de Kant, NÃO serão idênticos.

E, entendo, não há como asseverar categoricamente que é melhor, mais profícuo, mais interessante, mais correto etc., começar dos clássicos ou terminar por eles (se necessário).

Conhecer Kant de fonte primária, após conhecê-lo profundamente de fonte secundária, não é um procedimento didático/pedagógico inferior a seguir o pressuposto clássico linear de ir da fonte primária para a secundária.

É um procedimento diferente. E, por experiência própria, é sensacional ler fragmentos de Marx depois de ler as críticas e as defesas que fazem de seu pensamento. Você tem mais interesse. Tem outro tipo de capacidade intelectual para entendê-lo com a profundidade que a modernidade exige. É mais divertido também.

É uma ideia super simples, mas robusta e aderente aos pressupostos libertadores que física das partículas nos trouxe nos últimos 100 anos.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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