E se pudéssemos pagar juros para nós mesmos? Melhorando a rentabilidade nos fundos de pensão (FUNPRESP).

Posted on 09/02/2020. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , , , |

Caros leitores,

A sugestão que trago nesse post provavelmente é bloqueada por um sem número de regras prudenciais de fundos de pensão, mas será que essas regras fazem sentido?

Antes de respondermos essa questão, vamos mostrar o “milagre”.

Fundos de Pensão fechados, como o FUNPRESP, emprestam dinheiro aos seus participantes com taxas relativamente baixas. Hoje a carteira de investimentos do FUNPRESP tem cerca de 0,5% de fluxo de caixa que vem dos seus próprios participantes, que tomam empréstimos e pagam prestações com juros.

E se as regras permitissem que o participante pegasse esse empréstimo e pagasse juros para si mesmo?

Do ponto de vista de finanças (retorno e risco), não há nada de anormal na proposta. Tomemos um exemplo:

A pessoa tem 100.000 reais de patrimônio no FUNPRESP (vou usar como exemplo o FUNPRESP, pois tenho os dados) e quer tomar 100.000 reais emprestado. Hoje bastaria pedir autorização para um consignado e tomar o empréstimo. Normal, isso é feito o tempo inteiro nos dias de hoje. O dinheiro seria disponibilizado na conta e o pagamento das prestações sairia direto do salário do participante para o fundo. Totalmente legal, totalmente permitido.

Para um empréstimo de 48 meses, o FUNPRESP cobra 1,22% de juros ao mês. Isso daria 48 prestações de R$ 2.764,86.

As opções são as seguintes: deixar os R$ 100.000 rendendo na carteira geral ou tomar o empréstimo e pagar para você mesmo (se fosse permitido pela legislação).

Observe na simulação da planilha, considerando uma rentabilidade da carteira geral do FUNPRESP de 5% acima da inflação (9% de juros nominais).

A carteira geral vai começar com 100.000 e subirá a cada mês com base na rentabilidade de 9% ao ano.

Quando você toma o empréstimo, o fundo poderia organizar alguma engenharia financeira para que você recebesse de você mesmo (segregação de carteira). Mais adiante discutiremos como isso seria possível.

Nesse caso, todos as prestações voltariam para você mesmo, ao longo dos 48 meses. Os valores pagos para quitação do empréstimo passariam a render pela carteira própria do fundo.

Os resultados são bem interessantes. Se o FUNPRESP vai mal, a carteira segregada de empréstimos vai bem, se o FUNPRESP vai muito bem (rentabilidade acima das taxas cobradas no empréstimo), a carteira segregada de empréstimos também vai bem. Vejamos na tabela a seguir:

Perceba que as rentabilidades se diferenciam bastante quando o fundo está rendendo pouco (4% ou 5% reais ao ano).

A carteira segregada só perderia no caso de a rentabilidade da carteira própria ser maior do que a taxa do empréstimo.

Se em um ano a carteira própria do fundo rendesse 16%, a carteira segregada de empréstimos perderia dessa rentabilidade (renderia 15,84%).

O que se vê é que esse método reduziria a volatilidade da carteira própria.

 

 

Os problemas e as soluções.

Isso não é possível hoje, mas será que essa proibição faz sentido?

Com relação às coisas boas desse método de segregar a carteira de empréstimos individual, temos que o participante teria um relacionamento inteiramente novo com o financiamento. Mesmo que ele fosse superavitário e não precisasse de empréstimo, como os juros serviriam de “aporte” extra em suas economias, talvez optasse por comprar um carro parcelado em vez de à vista. E o dinheiro que ele teria para comprar o carro à vista, permaneceria aplicado. Você poderia tomar um empréstimo para consumir agora, mas o pagamento geraria ainda mais poupança de longo prazo.

Do ponto de vista prudencial, entendo que segregar a carteira de empréstimos individual não gera qualquer transtorno para o fundo, pois o risco de inadimplência acabaria recaindo sobre quem tem direito àquele fluxo de caixa (o próprio tomador do empréstimo). E, considerando empréstimo consignado de servidores públicos, o risco é baixo anyway (exceto se o governo e o congresso cortarem 25% do salário de todos, aí pode gerar uma quebradeira geral nos consignados, ou na vida privada dos próprios servidores).

A indústria financeira talvez não goste da hipótese. Provavelmente não gostaria, pois muitas pessoas passariam a recorrer a empréstimos em seus próprios fundos de pensão, em vez de acessar bancos.

Um problema que adianto, é que isso não poderia acontecer com 100% da carteira, pois nesse caso não existiria carteira própria para remunerar os pagamentos das prestações do empréstimo.

O governo e a regulação… Bom, aí é que as questões ficam nebulosas.

Se essa atitude fosse tomada por muitas pessoas, o dinheiro seria canalizado mais para consumo do que para investimento privado (ou gasto do governo). Quando colocamos dinheiro no fundo, o fundo empresta para o governo para ganhar entre 6% e 8% ao ano nos títulos público, ou investe em empresas.

Pode haver risco de redução de recursos para comprar títulos públicos, e isso prejudicaria o financiamento do governo. Por outro lado, haveria crescimento do consumo o que geraria mais impostos e mais investimentos privados (empresas crescendo por conta do consumo).

A questão tributária pode ser decisiva sobre o tema.

Ao colocarmos dinheiro no PGBL, temos um benefício fiscal de 27,5% de cara. O governo poderia entender que esse empréstimo pareceria com uma “retirada” simulada. Entendo esse ponto, mas a questão é que isso já ocorre. As pessoas podem retirar a título de empréstimo normalmente, a qualquer hora, a diferença é que o fluxo de caixa gerado é recebido por toda a carteira do fundo e não por uma carteira segregada apenas para o tomador de empréstimo.

Isso é justo? Imagine que 15% das pessoas peguem empréstimos (limite aceito pela regulação para disponibilização de recursos para empréstimo nos fundos de pensão) e paguem cerca de 16% ao ano. Só isso já garantiria uma rentabilidade de 2,4% ao fundo como um todo. E é um esforço exclusivo dos tomadores de empréstimo. Eles garantem, com fluxo de caixa gerado por eles mesmos, um bom retorno para o fundo. Perece que seria mais justo se esse esforço dos tomadores ficasse com eles mesmos.

Tudo isso é permitido, creio que a questão seria de mudança de regulação e de contabilidade mesmo, de questões de liberação de segregação de carteiras dentro do fundo e de ampliação dos limites para disponibilidade de recursos para empréstimos dentro do fundo (hoje, se não me engano, é de 15% da carteira).

Enfim, não vejo problema insolúvel para implementar uma proposta dessa na regulação.

Poderia ser uma solução para liberar bastante dinheiro na economia para consumo e estimular o crescimento, aliado a uma melhora potencial na evolução patrimonial dos fundos de pensão.

Caso o governo tenha receio dos impactos que isso geraria no financiamento da dívida pública, pode começar com uma autorização menor, por exemplo, de 25% do patrimônio individual do participante. Se o participante tomasse 100% de seu patrimônio a título de empréstimo, poderia destinar 1/4 disso para uma carteira segregada. Ou alternativamente, todos os tomadores de empréstimos poderiam participar da rentabilidade de toda a carteira de empréstimos (na proporção em que participam dessa carteira de empréstimos).

Enfim, ideias. Nada é fácil, eu sei, mas isso não impede que a gente tente pensar fora da caixinha. Vai que sai alguma coisa interessante.

Ps. Falando aos participantes do FUNPRESP, com base na regulação atual entendo que a única forma de participar de forma mais ativa dos fluxos de caixa gerados pelos próprios participantes, seria criar um perfil com até 15% de carteira de consignado e 85% de carteira própria. Já há 4 perfis com diferentes percentuais de investimento, criaria mais 1.

Esse perfil só poderia ser escolhido por tomadores de empréstimos (no mínimo 30% da reserva, por exemplo). É imperfeito, mas é justo com os geradores desse fluxo de caixa.

O que pode acontecer é o sucesso da estratégia levar mais pessoas a tomar consignado, o que é bom para o fundo de forma geral, um fluxo de caixa de risco baixo e retorno bem alto.

Se houver necessidade de bloquear novos empréstimos, por ter atingido os limites regulatórios, será o caso de pressionar por um aumento dos limites.

Ler Post Completo | Make a Comment ( None so far )

A Verdadeira Injustiça Tributária Brasileira não é como você pensa.

Posted on 12/05/2016. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , |

Frequentemente reclamamos que a carga tributária no Brasil é alta. Se compararmos a carga tributária com o retorno que nos proporciona, como cidadãos, ficamos mais aborrecidos ainda, pois o resultado é pífio.

Há ainda críticas indicando a necessidade de fazer os mais ricos pagarem mais impostos, para aliviar o peso sobre os mais pobres.

Mas esses números sobre os impostos, tanto sobre a renda quanto sobre o consumo, não explicam adequadamente o peso dos impostos na vida dos brasileiros.

 

Como entender a “injustiça” tributária no Brasil

Primeiro, esqueçamos, por enquanto, as empresas. Ainda que achássemos que as empresas, por serem “ricas”, poderiam pagar mais impostos (não concordo), esses impostos seriam pagos, direta ou indiretamente por nós, através do consumo e dos preços majorados pelos custos tributários.

 

Categorias fiscais de brasileiros

Precisamos dividir os brasileiros em grupos, a partir de sua relação com a fazenda pública, para verificar qual a VERDADEIRA carga tributária de cada grupo.

A relação com a fazenda pública é o fluxo de dinheiro entre o indivíduo ou a família e o governo. Não são só impostos. Vejamos.

 

Grupo 1 – Duplo 100% – Os mais pobres

Qual a carga tributária de quem tem 100% de sua renda proveniente de subsídios do governo e consome 100% do que recebe?

Estou tratando de subsídios, bolsas etc. NÃO trato de aposentadorias, pois entendo que não deveriam estar nessa categoria.

A pessoa que tem 100% de sua renda proveniente do governo e gasta tudo, paga, de volta em impostos, 40% sobre esse consumo. Em média.

Sua carga tributária seria: +40% – 100% = – 60%

Não vou entrar no mérito de multiplicadores econômicos, mas, grosso modo, a relação dessas pessoas com a fazenda pública é positiva para eles, pois têm carga tributária negativa (recebe mais do que paga).

Apesar de ser um grupo grande no Brasil, seu custo (descontado o retorno tributário do seu consumo) não chega a R$ 15 bilhões ao ano. Entre 1% e 1,5% do orçamento público federal.

Podemos até discutir se as bolsas (federais, estaduais ou municipais) desestimulam o empreendedorismo, mas certamente os custos são bem pequenos, em termos orçamentários. NÃO SÃO os mais pobres os que criam transtornos severos aos orçamentos públicos.

 

Grupo 2 – Grupo 0%-100% CD – Classes C e D em equilíbrio

Esse grupo é aquele que não recebe qualquer subsídio (renda direta) e gasta tudo que ganha.

Nesse grupo falaremos de quem não tem renda suficiente para pagar Imposto de Renda direto na fonte (de forma simplificada, classes C e D)

Seria uma renda familiar entre 2.000 e 4.000 por mês (com 2 pessoas trabalhando).

Essa pessoa/família recebe e gasta 100% da renda.

 

Parêntese previdenciário!

Veja que não coloco INSS nessa conta, pois entendo que é uma contrapartida da contribuição previdenciária. Quem paga por 35-40 anos 11% do salário (mais o percentual do empregador) poderia receber até MAIS do que o INSS paga, se esse dinheiro fosse investido privadamente.

Dessa forma não vejo sentido em tratar o dinheiro de aposentadoria como “subsídio ou benefício” do governo. Se há desequilíbrio, a CULPA é de quem faz as leis.

 

Voltando à carga tributária…

Esses brasileiros têm uma carga tributária de + 40%, pois consomem tudo que gastam.

A fazenda pública não lhes dá nada (em termos de subsídio, bolsas etc.) e a carga tributária de 40% sobre o consumo pesa sobre 100% de sua renda, pois gasta tudo o que ganha.

Dos R$ 4.000 ganhos, R$ 4.000 são gastos. Desses R$ 4.000, R$ 1.600, em média, são tributos sobre consumo.

 

Grupo 3 – Grupo 0%-100% AB – Classes A e B em equilíbrio

Esse é o grupo em que incide o imposto de renda pessoa física e que gasta toda a renda disponível. É a tal classe média alta (classes A e B).

São pessoas com renda bruta média familiar entre R$ 5.000 e R$ 20.000 por mês. Pode até ser maior a renda para estar nesse grupo, desde que GASTEM tudo.

Em média, esse grupo já deixa 20% de sua renda direta para pagar o leão, de forma que gasta os 80% restantes. Desses 80%, 40% são de impostos sobre o consumo (pois gasta tudo). Seriam, sobre a renda total, um percentual de 32%.

Em resumo, o sujeito ganha R$ 10.000 (após INSS), mas só recebe R$ 8.000 e gasta tudo, o que significa que pagará R$ 3.200 de impostos sobre o consumo.

Essa pessoa pagou R$ 2.000 de IRPF + R$ 3.200 de imposto sobre consumo = R$ 5.200.

Sua carga tributária (retirando contribuição previdenciária) é de 52%.

Relembrando que estou tratando como “carga tributária” a relação dessa pessoa com a fazenda pública.

Ela não recebe NADA e paga sobre a renda e sobre o consumo.

 

Quem mais sofre com os tributos

Esses dois grupos são gigantes (classes ABCD que gasta tudo que ganha), a maioria esmagadora dos brasileiros. São os que mais pagam e, normalmente, pagam 2 vezes, pois têm planos de saúde, escola particular e pagam por segurança privada, seguros caros etc.

Aqui não falo de sofrimento “pessoal”, mas tributário.

 

Agora vamos falar de grupos com situação mais amena.

 

Importante! Os grupos superavitários são geradores de poupança privada. São ALTAMENTE benéficos para nossa economia. Como temos pouca poupança privada, o governo acaba “tomando” tudo e pouco sobra para investimento produtivo (apenas juros).

Se houvesse MUITA oferta de poupança privada (muitos superavitários), o custo do dinheiro cairia, as empresas poderiam se financiar sem depender de subsídios governamentais, etc.

 

Grupo 4 – Grupo 10%-10%– Classes pouco Superavitárias

Chamei de 10% – 10%, mas poderiam ser outros percentuais BAIXOS.

São as pessoas que conseguem poupar e investir.

Por que coloquei 10% como se recebesse algo do governo?

Porque o governo é o maior devedor da nação, provavelmente o investimento dessa família, direta ou indiretamente, receberá juros do governo.

Com dívida pública bruta de mais de R$ 4 trilhões, sobra muito pouco para receber juros de dívida privada.

Se a família guarda 10% do que ganha, sua carga tributária seria (supondo classe A e B):

Ganha R$ 20.000, guarda R$ 2.000, paga R$ 4.000 de IRPF e sobram R$ 14.000. Consome os R$ 14.000 e paga 40% de imposto sobre o consumo.

No total repassaria de imposto R$ 4.000 da renda + R$ 5.600 de consumo = R$ 9.600, de um total de R$ 20.000. 48% de carga tributária antes dos juros.

 

E o recebimento de juros?

Em 1 ano juntando 10% da renda, daria para acumular (a 0,35% de juros líquidos de impostos e inflação), cerca de R$ 24.500, o que daria de juros cerca de R$ 85 por mês no segundo ano.

Como já descontamos a inflação, dá para projetar a carga tributária decrescente do superavitário.

Relembrando que estamos tratando de fluxo financeiro da fazenda pública como carga tributária.

O volume de juros recebidos ZERARIA a carga tributária desse indivíduo em 42 anos.

Acumulando a 0,35% ao mês, ele teria um montante de R$ 2,62 milhões no ano 42 e receberia, de juros mensais (0,35% ao mês), mais do que os R$ 9.600 que paga de CARGA tributária direta.

O fluxo de tributos e juros com a fazenda pública faria a pessoa passar de 48% de fluxo negativo tributário para 0% em 41 anos. Claro, considerando os juros gigantescos de hoje.

 

Grupo 4 – Grupo X%-40%– Classes MUITO Superavitárias

Aqui há 2 pontos. Normalmente quem é MUITO superavitário, paga menos imposto de renda, às vezes não paga nada.

Mas vou considerar que pagam os mesmos 20% das classes altas pouco superavitárias (ou em equilíbrio).

Uma pessoa com renda de R$ 80.000 por mês e que poupa 40% da renda teria a seguinte configuração mensal:

Dos R$ 80.000, R$ 16.000 iriam para o IRPF, R$ 32.000 iriam para a poupança e R$ 32.000 para consumo (o que dá R$ 12.800 como imposto sobre consumo).

A carga tributária desse grupo já partiria de 36% (R$ 28.800 em R$ 80.000).

Pra “zerar” seu fluxo negativo com a fazenda pública (supondo que recebe juros APENAS do governo), levaria 15 anos. Os juros mensais seriam de R$ 28.800 no ano 15 e equilibrariam o fluxo de impostos pagos.

Alguns leitores devem estar pensando que são esses os “marajás” brasileiros. Ledo engano. Estes estão na ponta dos bons moços do orçamento. Fazem esforços de poupança, destinando parte para o financiamento do gasto público. Em sua maioria são trabalhadores ou empreendedores bem sucedidos que geram empregos e divisas, não são cupins de orçamento, pelo contrário.

 

Grupo 5 – Donos do orçamento público

Esse grupo não tem carga tributária calculável. São os comandantes do orçamento público. Não estou falando de servidores que trabalham e recebem apenas seus vencimentos, dentro das normas republicanas, dentro dos tetos constitucionais etc., estes estão em algum dos grupos acima.

Falo dos que têm acesso e poder sobre o orçamento público para, dentro da lei, incluir benefícios que, praticamente, fazem com que o estado retire qualquer preocupação de subsistência de suas vidas.

Se o servidor tem sua saúde integralmente custeada pelo Estado (privada, nos melhores hospitais), se conta com auxílio para moradia, mesmo morando em sua cidade natal ou tendo imóvel próprio na cidade, se não precisa se preocupar com custos de vestimenta, se não paga por sua própria gasolina, se o Estado reembolsa as melhores escolas para seus filhos, se, com uma canetada, decide sobre o orçamento como lhe convier, criando benefícios retroativos, criando espaço para que sua necessidade de caixa seja satisfeita pelos cofres públicos, ele estará na melhor situação tributária do Brasil. Isso é melhor que ser rico.

Não precisará de esforço de poupança. Não precisará se preocupar com sua subsistência, mesmo que viva em altíssimo nível.

Não há que se falar em carga tributária para quem tem o orçamento público à sua disposição.

Normalmente os servidores do executivo (federais, estaduais ou municipais) não estão nessa categoria. Não fazem as leis e não tem orçamento próprio.

Já no legislativo e no judiciário, seja por fazerem as leis ou por terem poder discricionário sobre o seu orçamento, o risco de distorções como essas é bem maior.

E não falo de “orelhada”. Vi na minha família.

Meu avô era aposentado do Senado. Como taquígrafo. Ganhava, antes de morrer há alguns anos, uns R$ 30.000 por mês.

Eu não lembro de meu avô trabalhando no Senado. Acho que trabalhou, no máximo, uns 10 a 12 anos lá. No final da década de 1960 já cuidava de seu negócio no RJ.

Meu avô adoeceu e, antes de morrer, passou uns 200 dias (num período de 3 ou 4 anos) no Pro Cardíaco, um dos mais caros e melhores hospitais do RJ.

Não custou menos de que R$ 5 milhões ao Senado, chutando baixo. Várias operações com os melhores médicos.

Tem gente que se sente à vontade quando um familiar tem um benefício extravagante, ainda que legal.

Eu não. Como escrevi no artigo sobre Kant, o comportamento moral pressupõe que nossos atos (e também os atos que recaem sobre nós), possam servir de regra universal.

É impossível, para mim, não ficar incomodado com algo tão extravagante e desproporcional.

 

O que fazer para reduzir a injustiça tributária brasileira?

Já dá para ver que a chave é o uso do orçamento público.

O grupo que vive de renda baixíssima proveniente do Estado não traz qualquer transtorno relevante para o orçamento público. Provavelmente até traz benefícios. Aqui o ponto é, tão somente, exigir contrapartidas que tenham sinergia com o desenvolvimento do país e dessas pessoas. Escola, cultura formal, esportes etc.

Quanto aos grupos que vivem no limite de suas rendas, não há mais sacrifícios a demandar. Ao contrário, deveriam ter alívio dessa carga tributária. Tanto na parte da renda quanto na parte do consumo.

Quanto aos grupos superavitários, o Brasil precisa fazer o dever de casa. Tem que “precisar” menos de financiamento privado, “precisar” menos de dívida. EQUILÍBRIO ORÇAMENTÁRIO. Isso acontecendo, os juros cairiam e boa parte da poupança dos superavitários iria para projetos de risco privado.

Tivemos isso no Brasil, quando os juros da dívida pública (meta SELIC) estavam em 7,25% ao ano. Grande migração para projetos privados mais arriscados. Já escrevi sobre como perdemos esse momento. Tem que voltar.

 

Já no grupo que comanda orçamento público próprio, é preciso que entendam em que situação está o Brasil.

Há um número relevante de servidores que recebem além do teto constitucional. Há um número significativo de valores pagos a título de benefícios extravagantes. Benefícios que nem mesmo grandes empresas na iniciativa privada conseguem pagar.

Tudo (ou quase tudo) dentro da lei e do normativo dos órgãos e poderes.

Há as “garantias constitucionais” dos direitos adquiridos.

Mas é preciso lembrar que o direito adquirido, que tem por base o orçamento público, é também dever imposto a terceiros, pois deverá ser pago com deveres do contribuinte. O direito de um sobre o orçamento público é sempre dever do outro, contribuinte desse orçamento.

Eu não tenho ideia do volume de recursos que o respeito ao teto constitucional ou a extinção (ou redução a valores razoáveis) de benefícios extravagantes poderia economizar.

Mas não é o ponto. Evidentemente não é o ponto.

É o pacto social. Não me parece que o sacrifício de pagar 40 a 52% da renda, sem conseguir poupar nada, endividadíssimo (isso é outro problema), de 85% dos contribuintes deva ser destinado a extravagâncias e superpoderes sobre o orçamento público.

O ajuste virá.

É recomendável que os poderes RECONHEÇAM sua posição destoante na realidade brasileira, e proponham soluções parcimoniosas e adequadas ao orçamento público.

A continuar o desastre orçamentário brasileiro haverá espaço para lideranças diversas, de liberais a populistas, bastante hostis ao uso despudorado do orçamento público.

Recentemente (atualizo este artigo em novembro de 2016), o Estado do Rio de Janeiro está estudando impor contribuições previdenciárias extras que podem fazer os descontos irem até 30% do salário dos servidores para sanear a previdência. A regra na iniciativa privada é essa, se há rombo atuarial, todos são chamados a saldar. É lei. É justo, pois no mundo privado, se não há dinheiro para pagar, não há direito a garantir.

O caminho é traumático, mas o orçamento e o endividamento atingiram situações de calamidade.

Está na hora de quem comanda o próprio salário, os próprios benefícios e as próprias regras, tudo baseado em orçamento público, oferecer sua cota de sacrifício. Será bem menor do que a de todos os outros contribuintes.

Ou é isso, ou veremos a quebradeira do Estado brasileiro em não mais que 3 anos.

Curta nossa página no facebook: https://www.facebook.com/pauloportinhoRJ/

 

Ler Post Completo | Make a Comment ( 3 so far )

  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...