A filosofia da COVID19: O papel da ciência.

Posted on 10/05/2020. Filed under: Administração, Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , , , |

Escrevi o livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe” para tentar explicar o caminho que levou o Homo Sapiens Sapiens a ser como é. É basicamente uma história, não contada e não documentada, da razão e da racionalidade, aliada a uma história bem documentada da ciência e da crença em Deus. É, sobretudo, um livro de filosofia da ciência.

E por que a ciência e a racionalidade seriam tão importantes para demonstrar que Deus existe? Simples, porque todas as tentativas de demonstrar a existência Dele acabam no campo da ciência empírica e da lógica formal.

Por isso foi fundamental demonstrar ao leitor os limites da ciência e da racionalidade, para que ele entenda o que significa “existir”, para o campo da filosofia e da ciência, que é necessário entender antes de nos propormos a provar a existência de Deus, ou de qualquer outra entidade.

Link para ebook (versão impressa com envio suspenso pela Pandemia): https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

A ciência na Pandemia.

Essa pandemia de COVID19 tem mostrado, com muita clareza, que as pessoas não têm a mais remota ideia do que seja, de fato, ciência.

Em verdade, as ações brutais e violentas em nome da “ciência” que vemos agora reproduzem a violência do positivismo de meados do século XIX, onde tudo aquilo que não poderia ser claramente proposto, modelado e medido não deveria ser considerado conhecimento válido.

Essa agressiva visão foi, em grande parte, responsável pelos movimentos críticos (associados às humanidades e ao ideário coletivista) surgidos nos últimos 150 anos.

No livro apresento uma breve história da ascensão e queda do império iluminista das técnicas e métodos das ciências naturais aplicadas em ciências humanas e sociais.

O rompimento com o positivismo (crença no método científico empírico e mensurável como único caminho para trazer conhecimento verdadeiro para a humanidade) veio da própria ciência natural, que desafiou todos os dogmas clássicos e demonstrou que nossa experiência na ciência é, tão somente, uma alegoria de pensamentos condicionados e, muitas vezes, tautológicos. Há enorme utilidade na ciência natural, mas quando vai fora dos seus limites, pode produzir desastres humanos e sociais.

Heisenberg (físico quântico mais importante da história, ganhador do Nobel) rompeu com o positivismo com uma frase que expressa claramente o que escrevi até o momento neste artigo (em tradução livre):

“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido naquilo que podemos dizer claramente e o resto, que é melhor deixar passar em silêncio. Mas alguém pode conceber uma filosofia mais sem sentido, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se omitirmos tudo o que não está claro, provavelmente ficaremos com tautologias completamente desinteressantes e triviais.”

 

O que mais me assusta nesse positivismo agressivo da COVID19?

É que o uso da ciência como verdade e como instrumento de dominação político-ideológica está se dando em grupos que sempre foram combativos ao positivismo. Grupos que sempre pregaram o pensamento crítico ao cientificismo.

O que antes era inconcebível para os movimentos coletivistas (alguns tratam como movimentos progressistas ou de esquerda), aceitar cegamente ordens de uma ciência positiva, tornou-se lei universal. Não só lei técnica universal (ordens que todos devemos seguir), mas lei moral universal (contrariar a ciência positiva dogmática significaria tornar-se uma pessoa má).

Justamente as pessoas que sempre rejeitaram a aplicação das metodologias das ciências naturais em ciências sociais e humanas, que sempre rejeitaram a estatística, a matemática, o método e a modelagem científicos, e pregaram largas e soltas dialéticas em substituição, para atingir a verdade, estão se escudando na ditadura metodológica que está nos guiando a todos, bilhões de pessoas, sem nenhuma crítica, apenas cega obediência.

 

A ciência se presta a esse grau de segurança?

Não. De forma bem simples, repito: não! Em ciência natural, temos elevados graus de segurança, elétrons não têm opinião e prótons não perdem empregos ou a vida, mas em ciências sociais e humanas, a segurança científica é mínima. Nossa forma de enfrentar a Pandemia prova isso, de forma clara.

Parte significativa do livro procura ilustrar para o leitor leigo em filosofia da ciência, que já há 100 anos, pelo menos, não há qualquer dúvida de que a ciência não é ambiente de certezas. Nunca foi, é verdade, mas fomos cegados pela brilhante filosofia da ciência de Newton-Descartes, que nos trouxe evidências muito claras de que estaríamos, de fato, enunciando a VERDADE e não apenas um conhecimento parcial.

Isso morreu, de forma definitiva, por descobertas da própria ciência natural.

Hoje, ciência é, obrigatoriamente, o campo das ideias humanas, consistentes e coerentes com algum paradigma prático e pragmático, que elabora hipóteses à espera de refutação.

Se a hipótese ou a proposta científica não trouxer consigo caminhos claros e objetivos para sua refutação, não é ciência, é ideologia ou religião.

Tomemos o exemplo dos lockdowns ou quarentenas que estão sendo propostos em vários países do mundo.

Não existe nenhuma forma clara para medir seu sucesso ou demonstrar seu fracasso.

O Imperial College alertou o governo inglês que morreriam cerca de 500.000 britânicos se seguissem o modelo sueco, de não fechar o comércio e escolas e buscar a imunidade de rebanho. O governo adotou, portanto, um lockdown rigoroso, e logo depois o Imperial College reduziu a previsão do número de mortos para 20.000.

Onde está a ciência disso? O que poderia mostrar que esse estudo estava errado? A rigor, pode-se sempre dizer que vidas foram salvas, alegando que haveria mais mortes. Mas isso não é ciência, pois estamos comparando fatos empíricos com modelos matemáticos sobre hipóteses que não aconteceram (a não adoção do lockdown).

Poderíamos argumentar que o estudo estava errado apontando duas evidências:

  1. O modelo inglês está com 50% mais mortes por MM de habitantes que o modelo sueco. Deveria ser um desastre sem precedentes na Suécia, mas não aconteceu e ficou bem melhor do que a Inglaterra.
  2. A previsão de 20.000 mortos após a adoção do lockdown está errada, pois o UK está hoje com mais de 32.000 mortos (ver: https://www.ft.com/content/249daf9a-67c3-11ea-800d-da70cff6e4d3)

Meu interesse não é debater os lockdowns ou os estudos da Imperial College em si, mas mostrar que são apenas propostas metodológicas, jamais deveriam ser tratados como o que a “ciência mandou fazer” ou com a verdade trazida pela ciência.

 

A ciência e os burocratas.

No capítulo 14 do livro discuto brevemente como a ciência não consegue ser balizadora da moralidade, e que acabamos sempre decidindo os caminhos da própria ciência e seus impactos na vida cotidiana através de decisões de burocratas ou de legisladores eleitos.

Hoje precisamos decidir a “moral” dos carros autônomos. Em circunstâncias de acidentes inevitáveis o algoritmo precisará decidir a quem colocar em risco. Se há uma mãe atravessando a rua com uma criança do lado esquerdo e um idoso vindo do lado direito, nosso processo decisório humano desvia o carro para algum dos lados, ou simplesmente continua e atropela a todos. Um computador terá que tratar isso a partir de algoritmos (decisão moral previamente estruturada).

Quem privilegiar? Um grupo de crianças, um grupo de idosos, ou o próprio motorista?

Obviamente que, se deixarmos exclusivamente para a indústria, ela vai programar no interesse de quem paga. Tentamos vender carros seguros para os motoristas, dificilmente venderiam um carro autônomo que, em situação de acidente inevitável, opta por colocar o próprio motorista em risco.

Exceto se… for lei.

Na prática a moralidade do ato não será avaliada pela ciência, pela estatística ou pela verdade universal, mas por um conjunto de burocratas ou legisladores. Em países ditatoriais, pelo ditador. Em ambientes laissez-faire ou dominados pelo lobby das indústrias, será decidido na direção do interesse econômico.

Nada disso é ciência.

O exemplo que trago no livro é o da luta contra a malária na África. A malária atinge cerca de 200 milhões de africanos todo ano, com cerca de 400.000 mortes.

A ciência trouxe uma solução potencialmente definitiva, um mosquito geneticamente modificado que só gera mosquitos machos, o que faria com que a população de mosquitos fosse gradualmente extinta.

A potencial solução encontrou resistências de grupos religiosos locais, que acusaram os cientistas de brincarem de Deus, de grupos políticos, de ambientalistas etc. Nada disso é ciência, mas é o que comanda a ação humana.

Segue parte do livro em que discuto a estranha racionalidade da “não-ação” humana:

Quem entende o mundo de forma sistêmica, sabe que não vivemos de solução em solução, mas de problema em problema. Qualquer ação humana modifica tudo, não é possível fazer apenas “uma coisa”.

Perceba como é curioso nosso processo decisório, como é difícil entender sua racionalidade. As organizações ambientais acusam a ação humana de ser responsável pela extinção de 3 espécies por hora aqui na Terra. E não parece haver muito o que fazer quanto a isso. Quando se vai discutir a eventual extinção de um mosquito específico, que leva miséria e doença às populações humanas mais carentes, decidimos não o fazer. Só nas poucas horas que levei escrevendo e revisando esta parte do livro, 12 espécies foram extintas.

Não pretendo fazer aqui um julgamento de valor, apenas procuro mostrar que a extinção de milhares de espécies, segundo os ambientalistas, acontece todos os anos. Durante o tempo em que nossas instâncias políticas e multilaterais discutiam o uso ou não do mosquito geneticamente modificado, talvez 100.000 espécies tenham encontrado sua extinção. E empreendemos esforços milionários para salvar uma, exatamente aquela que sabemos ser responsável pela malária.

 

Deixemos a ciência em paz para fazer o seu papel.

Ciência é ferramenta de conhecimento, não se presta a justificativas perfeitas para decisões políticas e ideológicas, pois é, por definição, passível de refutação. Na verdade a ciência evolui nesse sentido, de alterar o conhecimento anterior por um modelo melhor.

A sociedade aberta da ciência (capítulo 5 do livro) está funcionando vivamente nessa Pandemia, com milhares de estudos simultâneos em todo o mundo, lutando contra aqueles que querem usá-la para justificar pseudoverdades tribais, pensamento único e sonhos ideológicos e revolucionários.

Não podemos deixar a sociedade fechada, tribal e ideológica se apropriar de um campo do conhecimento humano que é fluido e imperfeito, para justificar ações ditatoriais.

Ciência é liberdade, transparência e, principalmente, apreço pelo contraditório.

O que estamos fazendo hoje é escolhendo lados, isso é tudo, menos ciência. Estamos funcionando como aqueles filmes de tribunais que trazem especialistas que servem apenas para corroborar a hipótese da defesa ou da acusação. No processo judicial, pelo menos, há um juiz para decidir a verossimilhança das hipóteses. Nessa pandemia, não há nada, exceto a opção por aderir cegamente a verdades absolutas inexistentes.

Tudo em nome da pobre ciência, que não tem culpa de nada.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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