Nem de esquerda, nem de direta. Somos coletivistas ou individualistas.

Posted on 06/08/2018. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , , |

O leitor deve lembrar-se de uma polêmica recente nas redes sociais indagando se o nazismo foi um movimento de direita ou de esquerda.

Os lados contrários apresentaram seus argumentos e, aparentemente, ninguém mudou de opinião. Quem relacionava Hitler à esquerda entendeu que seus argumentos eram suficientes, quem o relacionava à direita, se manteve firme.

Não vou entrar na discussão se Hitler foi de esquerda ou de direita, mas COM CERTEZA ele era um coletivista. Assim como foram Stálin, Mao, Fidel, Mussolini etc.

Os conceitos de esquerda e direita ficaram muito fluidos e difíceis de definir. Tanto é verdade que a nova direita brasileira se define como “conservadora nos costumes” e “liberal na economia” e a esquerda procura se espelhar em regimes europeus bem sucedidos de estado do bem estar social, para defender suas doutrinas.

Mas essa confusão seria desfeita se passássemos a classificar nossos pontos de vista entre o coletivismo e o individualismo, posicionando-nos em algum lugar entre esses dois pontos.

Coletivismo e Individualismo

Por conveniência histórica a esquerda demonizou o conceito de individualismo e enalteceu o conceito de coletivismo, sob o aspecto moral.

O individualista é associado ao egoísmo e ao desdém pelas questões sociais, o coletivista seria alguém preocupado com o outro, que quer resolver os problemas de todos. Criou-se uma falsa dualidade entre egoístas e altruístas.

É uma simplificação conveniente, mas errada.

As pessoas são individualistas ou coletivistas de acordo com sua visão fundamental do direito.

Não pretendo discorrer sobre questões específicas de direito, pois não é minha área, mas apenas sobre como pensam os individualistas e coletivistas a respeito do regime ideal de direito.

Um individualista entende que os direitos individuais são os fundamentais e devem ser respeitados de forma inequívoca para o bem estar da sociedade, sendo esses direitos superiores aos direitos da coletividade.

Um coletivista entende que os direitos da coletividade devem se impor aos direitos individuais. O interesse social será SEMPRE maior do que o individual.

Esquecendo os utópicos, como libertários e anarquistas (que pregam ausência de governo), tanto coletivistas quanto individualistas concordam com a ideia da necessidade de um governo, como garantidor do seu regime de direito.

O individualista puro existe apenas no campo da utopia, pois, como entende ser necessário um governo para garantir os direitos individuais, alguma restrição de liberdade haverá (como a exigência do pagamento de impostos).

Infelizmente, o coletivista puro pode existir no campo da realidade, uma vez que sociedades totalitárias, em que o regime de direito pressupõe a extinção de direitos individuais básicos,  existiram e ainda existem.

A maioria das pessoas, porém, encontra-se entre esses dois extremos.

UM ALERTA!

Muitas pessoas que se consideram “de direita” vão se identificar com traços do coletivismo. Aqui no Brasil fomos instruídos a depender do governo, tanto é fato que a maioria dos aposentados do INSS não guardou dinheiro (previdência individual) entregando seu futuro e sua sorte ao orçamento público. É uma confiança e tanto.

Não se assuste se você se identificar com aspectos do coletivismo, como disse, não há individualista puro e nem todos os aspectos do coletivismo são nocivos.

Não há qualquer julgamento de valor absoluto nesse artigo, apenas minhas opiniões.

Exemplo de visão de direito

Um exemplo polêmico pode demonstrar como os individualistas e coletivistas sentem a função do direito e o papel do Estado.

Até junho de 2008, não era automaticamente crime dirigir sob o efeito de álcool no Brasil. Além disso, a definição de crime no trânsito exigia a demonstração de que o motorista que bebeu expôs os outros a perigo.

Em junho de 2008 foi estabelecida a Lei Seca no país, criminalizando o motorista que tivesse um nível igual ou superior a 0,6 g/L de álcool no sangue.

Em 2012 adotou-se a tolerância zero para quem fosse pego dirigindo após ingerir qualquer volume de bebida alcoólica.

Sempre foi crime matar ou ferir alguém estando bêbado ao volante, mas a Lei Seca passou a tipificar como crime o próprio fato de dirigir após beber, independente das circunstâncias (expor ou não os outros a perigo, estar ou não em condições suficientes de reflexo) ou da existência, ou não, de danos mensuráveis.

Um individualista não concorda com legislações que restringem severamente direitos a fim de coibir um crime potencial (aumento de probabilidade de acidentes). Entende que o regime de direito deveria ser rigoroso com quem efetivamente comete um crime contra o direito de outro indivíduo.

O histórico do Brasil nesse aspecto é péssimo. Além de as penas serem brandas (ainda são), poucas pessoas são realmente punidas. Se você matar alguém no trânsito, mesmo estando bêbado como um gambá, dificilmente permaneceria preso, mesmo hoje.

Para o individualista, o individuo que cometeu o crime, estava bêbado e matou uma pessoa no trânsito por exemplo, deveria ter uma pena elevada, compatível com o dano criado, rapidez no processo e na execução da pena e ônus financeiro, podendo ser processado por danos materiais e lucros cessantes, indenizando a família da vítima.

Se o risco de dirigir bêbado e atropelar alguém for pegar 20 anos de cadeia e perder seu patrimônio, e se esse risco for bem divulgado (publicidade é fundamental), a tendência seria, ao menos nas pessoas conscientes, evitar esse risco. Inconsequentes não se importam com a lei.

Hoje, se você matar alguém no trânsito pode, acredite, ter sua pena de 5 a 8 anos de cadeia convertida em pagamento de cestas básicas. Para o individualista, é inadmissível que a conduta criminosa que tira efetivamente a vida de terceiros tenha pena tão desproporcional ao dano criado.

Para o coletivista criar uma lei punindo rigorosamente a todos, independente das características pessoais, das situações sociais e da quantidade de álcool ingerido, por um crime de caráter potencial (ele não matou, apenas elevou a probabilidade), é o caminho indicado.

A Lei Seca está longe de ser o único exemplo. Recentemente, no Rio de Janeiro, pela quantidade de crimes cometidos por duplas em motocicletas, aventou-se a possibilidade de PROIBIR andar em dupla. Não passou a legislação, mas o princípio era o mesmo, punir a todos pelo crime de uns poucos.

O brasileiro é bastante coletivista, nossa formação, infelizmente, prega a dependência do governo. Quando há algum problema, o brasileiro costuma pensar: – o governo tem que proibir isso!

A Lei Seca deu certo?

Em termos morais e educacionais aparentemente sim, mas não é possível afirmar que houve queda nas mortes no trânsito por conta disso. Apesar das reportagens na imprensa exaltando a lei, não há evidências empíricas de que deu certo. Ao menos as mortes, em termos absolutos, não caíram (até aumentaram).

Veja nos dados do DATASUS (o DPVAT não é um bom indicador, pois pode haver fraude):

http://vias-seguras.com/os_acidentes/estatisticas/estatisticas_nacionais

Ou aqui:

http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/ext10uf.def

Procure por “acidentes de transporte” (dados até 2016).

Obs. Não estou afirmando que não deu certo, só que não é possível ver claramente nas estatísticas a queda nos números do que se queria coibir.

Qual é o problema do direito coletivo?

Chamo de direito coletivo aquele que se propõe a defender determinada coletividade abstrata (conjunto de pessoas com características similares) de outra coletividade abstrata.

O direito individual é bastante claro e bem definido. Quem ofende e quem processa são polos claros na ação. Se há dano material ou moral ao indivíduo, o fato é passível de formação de prova e pode ser debatido com clareza nos tribunais. É possível medir o impacto do crime, o nível da ofensa e o prejuízo criado, COM BASE NA PERCEPÇÃO do ofendido.

Isso é impossível para o direito coletivo. O crime não depende da percepção individual de quem foi ofendido, mas do dano moral coletivo, que sabe-se lá como é medido.

O direito coletivo, na prática, é o direito de todos, mas ao mesmo tempo não é o direito de ninguém em específico.

Esse direito tem mais efeito de ordem moral, pois acaba por punir comportamentos considerados genericamente ofensivos à coletividade, independentemente do dano medido, ou até diante da inexistência de qualquer dano.

O episódio da russa assediada por brasileiros na copa dá um exemplo disso.

Em um tribunal, se a moça pedisse indenização por danos morais ou materiais, teríamos uma medida clara do prejuízo que lhe causou. Inclusive, poderia até entender que não houve dano relevante e que não haveria necessidade de judicialização.

Quando passamos para a moral coletiva, parte das pessoas entendeu que era um dano a todas as mulheres, parte entendeu que era irrelevante. Houve pedidos de condenação moral e de penas que iam deste o espancamento dos caras, à perda de emprego e ao abandono por parte de sua família até, simplesmente, pena nenhuma.

Perceba, é a “justiça” de todos, mas não é a de ninguém em específico. Talvez alguns tenham ficado felizes com os danos sofridos na vida privada dos brasileiros (os que tiveram publicidade), outros podem ter considerado exagero, alguns podem ter ficado com medo, outros aproveitaram para surfar a onda e posar de bons moços (mesmo tendo uma vida privada repleta de episódios REAIS de machismo) e a maioria se calou.

Outro exemplo, para um coletivista, a tal “cultura do estupro” será resolvida a partir de uma agenda cultural para “mudar toda a sociedade”. Quando perguntaram à candidata do PCdoB o que ela faria para acabar com os estupros, ela disse que “combatendo a cultura do estupro” e que queria viver em um país onde não houvesse estupros. Não há qualquer proposta de direito individual aqui, nem para proteger uma vítima específica, nem para apenar um ofensor, apenas uma vaga proposta de revolução cultural, que, por óbvio, deverá atingir a todos. Tanto a vítima quanto o agressor não tem identidade, não tem cara. São estatísticas da agenda coletivista.

Para um individualista, seria resolvida com 50 camburões e 200 processos por assédio após uma micareta. Todos os envolvidos, ofensores e ofendidos, se entendendo na justiça.

Por mais que a sociedade tenha mudado com a forte agenda cultural revolucionária, não me parece que a dança de rostinho colado de 30 anos atrás seja menos respeitosa com as mulheres do que os bailes funks das periferias ou as micaretas dos endinheirados.

Se mudamos, mudamos para pior em termos de respeito ao próximo.

Em resumo o direito individual é claro, assim como os mecanismos para sua imposição. O direito coletivo é turvo, por isso é mais utilizado como instrumento de enforcement da mudança cultural e moral, do que propriamente um sistema organizado para punição e ressarcimento de danos reais.

Pode parecer lindo, mas é muito evidente que não funcionou. Não estamos melhores, nem em números, nem em respeito, nem em percepção.

Talvez tenhamos apenas mais medo, o que promove maior afastamento e menos diálogo. Só isso.

Mas quem somos nós nessa régua do direito?

O individualista máximo “possível” é aquele que entende que o governo existe APENAS para garantir seus direitos individuais básicos. Parece simples, mas não é. É necessário estruturar um sistema legislativo, para definir essa lei, um sistema judiciário e uma força militar e policial.

Os direitos individuais básicos são aqueles que protegem o indivíduo da imposição da força e da arbitrariedade contra sua vida, sua propriedade e sua liberdade. Boa parte dos direitos enunciados na Declaração Universal dos Direitos Humanos diz respeito à proteção contra a imposição da arbitrariedade do Estado e do outro, além do RESPEITO à individualidade.

Um “conservador nos costumes” e “liberal na economia” será um individualista se entender que o direito ao seu conservadorismo não exige extinção ou perseguição da moralidade dos outros, e também se professar a crença no livre mercado, na livre associação e na livre concorrência. E isso vale para proteger o beato do reformista social, e vice-versa.

Para ele, o papel do Estado será garantir, da melhor forma possível, esses dois pontos.

Ele NÃO será um individualista se entender que o Estado precisa impor uma moralidade específica ou se entender que o Estado pode substituir o livre mercado na decisão sobre os interesses subjetivos dos consumidores.

O Estado brasileiro é péssimo como mediador desses objetivos.

Do ponto de vista econômico, evidentemente é capturado por forças oligárquicas que querem EXTINGUIR a concorrência e agir de forma desleal com o consumidor e com o contribuinte.

Isso é absolutamente inequívoco. Foi assim, é assim e, a depender do próximo presidente, continuará sendo assim.

Nesse aspecto PT, MDB e PSDB atuam da forma bem semelhante. São contrários à liberdade econômica, e seu sistema de regulação defende interesses inconfessáveis e concentradores de poder e de processo decisório. Hoje, ao menos, quando são descobertos, vão para a cadeia (exceto o PSDB).

Do ponto de vista do respeito à moralidade alheia, o Estado brasileiro também é péssimo garantidor. As lutas por direitos civis individuais, em vez de ocuparem racionalmente a agenda e o sistema legislativo e a representação política, transformam-se em batalhas morais e culturais altamente opressivas, divisoras da sociedade e promotoras de intolerância.

Um individualista apoiará sempre a igualdade de direitos civis, pois é também uma proteção contra a tirania individual e do Estado contra si. Direitos iguais independente da raça, credo e orientação sexual serão suas bandeiras.

Entretanto não concordará com a imposição de moralidade contrária a seus valores e buscará se proteger desse sistema opressivo. Enquanto a luta for por direitos iguais, o individualista estará dentro, quando for pela repressão moral e revolução cultural, estará fora e lutando contra esse novo modelo de tirania.

Já para o coletivista, o Brasil é um paraíso. Até nosso fracasso como nação é algo positivo para o coletivista puro (que entende o direito coletivo como superior ao direito individual).

Veja o que ocorre na Venezuela. Racionalmente é impossível acreditar que o bolivarianismo trouxe sucesso e prosperidade, sob qualquer ponto de vista, ao povo venezuelano. Porém, o regime ainda é considerado um símbolo para movimentos coletivistas por aqui. PT, PC do B, PSOL estão aí para provar meu ponto.

O sucesso de políticas liberais e individualistas seria algo destruidor para o sonho dos coletivistas, por isso não podem permitir, de maneira alguma, que essas experiências sejam implementadas no Brasil.

Tanto é verdade, que ainda se discute volta de monopólios e reestatização de empresas. Tanto é verdade, que o coletivista sabota qualquer tentativa de promoção da liberdade econômica no Brasil, odeia a concorrência e prefere que o povo maranhense, por exemplo, espere mais 150 anos por saneamento básico, a entregar esse ramo para a iniciativa privada.

Sendo mais preciso quanto a esse ponto, tanto a direita (MDB, PP, PR) quanto a esquerda brasileira, ambas coletivistas, odeiam a iniciativa privada apenas até o ponto em que conseguirem encontrar uma forma de ganhar dinheiro ilícito com ela. Aí tudo fica liberado.

Está aí o Brasil dos últimos 30 anos que não me deixa mentir.

Para o coletivista puro, o regime de direito ideal é aquele que submete o direito à vida, à propriedade e à liberdade ao crivo do Estado.

A ofensa aberta à vida só tem lugar quando o regime coletivista já se consolidou (stalinismo e nazismo), mas a ofensa à propriedade e à liberdade já são amplamente exercidas aqui no país.

Nossa constituição é coletivista. Submete a propriedade à sua função social e submete o poder de avalizar essa função social à burocracia estatal.

Ao contrário do ideal “virtuoso” imaginado pelos coletivistas utópicos, inocentes úteis, a desapropriação de terras acaba, sempre, atendendo ao interesse dos coletivos de poder. São as corporações, as oligarquias e os sistemas de apoio político. Não há “povo”, apenas interesses de repartição de butins e manutenção de poder, sem criação de riqueza.

No âmbito cultural, o país é ainda mais opressivo. Nosso regime de direito impõe, cada vez mais, diferenciação entre coletivos de cidadãos. Mas não só no direito. Há esforço integrado de forças coletivas organizadas para imposição de agendas morais tão modernas quanto confusas.

Uma clássica prisão sem grades stalinista, imposta pela ditadura moral do politicamente correto.

Lamento afirmar aos leitores que mesmo gente que se considera liberal na economia e conservadora nos costumes, volta e meia, acaba se entregando a alguma agenda moral a ser imposta, via governo, ao outro.

Isso é evidente pelo comportamento revelado nas redes sociais.

A socialdemocracia, o coletivismo e o individualismo

É importante notar que é possível haver socialdemocracia tanto sob o ponto de vista coletivista, quanto individualista. É possível ter Estado do bem estar social sob qualquer um desses dois pactos do direito.

A diferença SEMPRE estará no papel do Estado sobre os direitos individuais básicos e sobre a moralidade.

Estados altamente liberais, que não se metem em questões morais e regulam os sistemas sob sua tutela para ampliar as liberdades individuais e proteger a vida e a propriedade, são individualistas.

O dinheiro de impostos, nesses Estados, não volta sob a forma de poder excessivo ao governo, ao contrário, volta como poder ao cidadão. Nesse aspecto, um sistema de vouchers, em que uma mãe recebe uma determinada quantia para matricular seu filho em qualquer escola, é individualista, enquanto um sistema educacional formatado e gerido por uma burocracia estatal tende a ser coletivista.

Perceba que coletivismo e individualismo são posturas relacionadas ao regime de direito e ao papel do Estado nesse balanço entre individuo e coletividade. Não necessariamente uma nação com ampla liberdade individual será uma nação com Estado mínimo (provendo apenas segurança).

Vale relembrar que um individualista está pacificado com um pacto social que pressupõe a existência de um governo, portanto entende que pagar impostos faz parte desse pacto.

A forma da distribuição desses impostos é que poderá trazer liberdade ao indivíduo, ou concentrar poder na burocracia estatal.

Resumindo o ponto fundamental do artigo.

O Brasil é um país fracassado não por ter sido governado até 1994 pela direita, ou desde então pela esquerda. É um país fracassado porque é COLETIVISTA.

É um país que despreza os direitos individuais básicos, de forma proposital e ideológica. É Alckmin fazendo pacto com o PCC, é PT defendendo a “humanidade” de estupradores e pedófilos. Para ambos, que se dane a vítima. É melhor defender uma “categoria” utópica ou um “bem maior” do que desvendar um assassinato ou um estupro e condenar o ofensor canalha a 30 anos de prisão.

Despreza a propriedade. Nossa legislação foi sendo modificada de tal forma que, se invadem sua casa, não basta chamar a polícia para retirar o invasor, será necessário aguardar o judiciário emitir uma ordem para reintegração. E ainda vão discutir se você tem ou não esse direito, a depender da “função social” da sua casa. Tudo decidido pela burocracia estatal, que lhe atinge, mas protege o agressor.

Despreza a individualidade. Sob o pretexto de enfrentar o Status Quo, o patriarcado ou o capitalismo liberal (que é raro por aqui) a elite política e intelectual brasileira cria campos minados ideológicos, com violenta repressão moral, confinando a maioria dos brasileiros a prisões politicamente corretas, das quais não saem com medo de pisar em uma bomba ideológica e sofrer nas mãos de justiceiros sociais.

Despreza a vida e o direito de defesa. O estatuto da legítima defesa no Brasil acabou. O revide precisa ser proporcional, ou seja, sempre que você vencer no revide, poderá (e será) processado pelo Estado com toda sua força, e ainda corre o risco de ter que indenizar o bandido e sua família. Não raro vemos comerciantes e cidadãos que revidaram sendo presos e processados. Postura típica de Estado coletivista, protege o “coletivo de vulneráveis” e estraçalha o direito individual mais básico que é proteger sua vida e de sua família.

Esquerda e direita não são designações suficientes para entendermos a realidade brasileira (e mundial). Nesse aspecto, coletivismo e individualismo funcionam melhor.

É confuso, por exemplo, chamar George Soros, especulador do mercado financeiro, de esquerdista. Mas não é confuso chamá-lo de coletivista.

E assim vale para Fernando Henrique Cardoso, Sarney e a maioria dos políticos brasileiros, que quer concentrar poder nas mãos da burocracia estatal, reduzindo, cada vez mais, as liberdades individuais.

Isso atinge pobres, ricos, pretos, brancos, homo, hétero, trans, cis, e qualquer brasileiro individualista.

Minha posição.

Não consigo ser o individualista máximo possível. Não fico à vontade com a ideia de um governo exclusivamente dedicado à defesa de direitos individuais básicos (segurança).

Viveria tranquilamente sob um pacto de proteção social formatado para garantir serviços de educação básica (não a universitária), saúde pública e, claro, segurança, DESDE QUE o recurso público seja direcionado a prestigiar o emprendedorismo, a meritocracia, a liberdade de escolha, o comércio e o formalismo cultural/educacional.

Poderia ser um programa de vouchers para a família decidir onde gastar com saúde e educação, ou até renda mínima, desde que o governo tenha pouca, ou nenhuma, possibilidade de influir na conduta moral ou orientação política do segurado.

Assim eu topo. Hoje, como está, a impressão que tenho é que meu dinheiro é usado para sustentar tanto a burocracia estatal, quanto para viabilizar sistemas de privilégios e de desvios de verbas públicas.

Em um sistema de liberdade, cada beneficiário é, ao mesmo tempo, um fiscal do serviço prestado. Se recebe um voucher e procura um serviço, dentre várias opções concorrentes, cobra qualidade, pois pode escolher. Pune o mal gestor, pois pode escolher. Ninguém vai tratar o serviço público como algo “de graça”, pois seu custo será claro e evidente.

Quando alguém paga e recebe um mau serviço, reclama. Quando o estado presta um mau serviço, o povo resigna-se, pois não consegue ver com clareza o seu direito.

Um estado assim, que destina os recursos públicos para prover liberdade, eu topo bancar. Hoje, o uso dos recursos públicos apenas fomenta mais insegurança, intolerância, desperdício e corrupção. E eu banco mesmo sem concordar. Coletivismo puro.

 

PS, para quem ainda tiver paciência, aproveito para prestar reverência ao filósofo que melhor definiu o coletivismo.

Karl Popper contra Theodor Adorno e Olavo de Carvalho

Karl Popper é um filósofo da ciência muito lido, tanto por esquerdistas quanto por direitistas.

Mesmo tendo escrito o mais contundente documento antimarxista da história, foi mais contundente do que Hayek e Ayn Rand, Popper conseguiu ter alguns de seus livros lidos (e respeitados) em várias faculdades de ciências humanas e sociais, mesmo as que apresentam forte viés marxista.

Teve a coragem de enfrentar pessoalmente, no campo das ciências sociais, os membros da Escola de Frankfurt e tentar lhes mostrar que as ciências sociais NÃO PRECISAVAM abdicar da lógica formal para serem efetivas. Foi tão bem sucedido que a réplica de Adorno (no debate de 1961) se limitava a dizer que “concordo, mas é insuficiente”.

Marxista típico, Adorno vê um caminho prático proposto por Popper, mas prefere continuar viajando na poesia infrutífera da dialética sem compromisso.

O método dialético, infelizmente, abre espaço para que um charlatão se passe por um perito, para sempre. Talvez por isso tenha tantos defensores.

Em sistemas científicos de verificação e validação (sociedades abertas) isso é muito mais difícil e, se acontecer, o charlatão vai durar pouco (vide a polêmica da Fusão a Frio em 1989).

Mas não é só a esquerda que ataca Popper. Olavo de Carvalho chegou a dizer que o livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” estava entre os 10 piores livros do Século XX.

Ao contrário da visão do filósofo brasileiro, considero, provavelmente, que este livro traz a leitura que falta para os defensores das democracias liberais, da ciência e do direito individual compreenderem o mundo nos últimos três séculos.

No livro, escrito um ano depois de o “Caminho da Servidão” de Hayek, Popper faz a mais brilhante desconstrução de Marx, em termos sociológicos e políticos, e consegue definir o conceito de coletivismo para abarcar as principais experiências sociais de cunho marxista da humanidade.

Consegue reunir Hitler e Stálin em um mesmo grupo, de forma inequívoca.

Popper é ainda muito lido pelas esquerdas. Exceto esse livro.

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A esquerda brasileira e a Revolução Francesa. Entenderam tudo errado.

Posted on 30/11/2016. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , |

Há uma bizarrice nas redes sociais, sugerindo que os movimentos de esquerda que atacaram Brasília no dia 29.11.2016 seriam o povo que tomou a bastilha e derrubou a Monarquia.

Nada mais falso que isso.

Black blocs, MST, MTST, UNE etc., são franjas da mesma monarquia que está implorando por ser derrubada por OUTROS movimentos, estes liberais, pró-mercado e anticorrupção.

Isso mesmo, meu nobre gauchiste, você estaria do lado da Monarquia e do Clero em 1789 e jamais do lado dos que queriam reduzir privilégios, impostos e o poder do Estado.

Primeiro, Segundo e Terceiro Estado.

O Clero, o Primeiro Estado, seria os nossos políticos que recusam qualquer mudança que possa lhes tirar poder. E você apoia! Ontem, mesmo dia 29.11.2016, na câmara o PC do B e o PT foram os partidos que mais atacaram o poder judiciário e rejeitaram a criminalização de enriquecimento ilícito de servidor público e as mudanças nas regras na prescrição de crimes contra o patrimônio público.

Até o ressarcimento aos cofres públicos  de dinheiro roubado do Estado foi negado pela “frente esquerdista” em aliança com PMDB, PP etc. (exatamente como nos governos Lula e Dilma).

A nobreza, o Segundo Estado, era composto pela realeza e por milhares de cortesãos (puxa-sacos), que sobreviviam a base do Estado. Quer coisa mais “de esquerda” do que isso, viver às custas do Estado por subserviência a uma causa? Não é esse o ideal marxista-leninista, o Estado como único provedor inquestionável?

O Terceiro Estado era explorado pelos dois primeiros e incluía burgueses, sans-cullotes e camponeses. Todo o peso dos impostos recaia sobre este último Estado, dado que os dois primeiros tinham isenção tributária e usufruíam do Tesouro da Realeza com gordas pensões, empregos públicos e subvenções.

Luta contra a PEC não faz de você um Jacobino, nem um esquerdista clássico da revolução.

Nossos Girondinos são os membros da Alta Burguesia, que não querem mudanças radicais, mas já entenderam que seus negócios não vão prosperar na continuidade da corrupção estatal. É fácil ver, dado que todos os que se locupletaram de dinheiro público e promessas de políticos estão em recuperação judicial, enrolados com a polícia ou em situação econômica muito pior do que antes da cleptocracia PT-PMDB. Estão aí os gigantes da indústria e do setor financeiro. Até eles querem mudança.

Já nossos Jacobinos são os pequenos empresários, profissionais liberais e trabalhadores em geral que odeiam a pressão do Estado sobre seus bolsos e os péssimos serviços públicos que recebem em troca dessa opressiva carga tributária e regulatória.

Até a “esquerda” jacobina, mais agressiva, não representaria JAMAIS o interesse dos que incendiaram Brasília em 29.11.2016, pois eram, em essência, burgueses, profissionais liberais e artesãos com interesses AINDA mais radicais contra o Estado. Nada a ver com você amigo vermelho.

Coxinhas e vermelhinhos

Os “coxinhas”, em suas diversas matizes, representam os ideais da Revolução Francesa, sem o interesse no período de terror, pois não quer que a Monarquia volte.

São eles que saem às ruas pela prisão de TODOS os políticos envolvidos em falcatruas, pelo aumento das penas, pela redução da impunidade, pelo apoio às medidas anticorrupção, pela redução do poder do Estado, pelo fim do compadrio na indicação de membros do STJ, STF, Tribunais de contas, pela agilidade no STF, enfim, exclusivamente medidas que TIRAM poder do Estado, do “Clero” e da “Monarquia”.

Você, amigo de esquerda, quer, na verdade, a volta de Luís XVI e Maria Antonieta. Nem preciso dizer quem são, não é mesmo?

Quer apenas que as verbas públicas estejam ao seu serviço. Dizem que pensam nos pobres, desvalidos etc., mas se assim fosse, iriam querer a expansão do livre mercado, das empresas, da burguesia, da livre iniciativa, do investimento privado etc., que, por evidente, é o único caminho conhecido pelo homem, em todos os tempos, em todos os povos, para gerar riqueza e retirar as pessoas da miséria.

É claro que o amigo esquerdista não vê isso, pois associa a própria existência da pobreza ao capitalismo, quando, por óbvio, a pobreza é a condição natural do ser humano e jamais poderá ser suplantada SEM liberdade de associação, respeito à propriedade privada e aos contratos.

O fato de existirem pobres e “podres de ricos” numa mesma sociedade não a torna pior do que uma onde só há pobres e miseráveis. Nessa última além de não haver ricos, não há qualquer expectativa para um pobre sair de sua condição, pois não há para onde ir. Procure nascer na Selva (ou na Venezuela) para ver como a pobreza, em ambientes anticapitalistas, é uma condição intransponível. Exceto para o Clero e para a Monarquia, que vocês tanto defendem (Chávez, Fidel, Stálin eram mais absolutistas, para seus povos, que Luis XVI e todos os Papas pós inquisição.)

A constituinte

Vale lembrar aos vermelhinhos que se sentem “do lado certo” da Revolução Francesa Tupiniquim, que a Constituição Francesa pós-Revolução inspirou-se na Constituição dos Estados Unidos da América (de 1787) e foi a síntese do pensamento iluminista liberal e burguês.

Acho que não há nada MENOS esquerdista que isso, não é mesmo?

Vocês não vão mudar o Brasil, representam a falência, representam a continuidade de um Estado paquidérmico de direitos infinitos e deveres incompatíveis com o financiamento desses direitos. Representam o próprio desequilíbrio fiscal, hoje quase intransponível. Representam a crença de que calotes e descumprimentos de contratos, valentia anticapital, nos levariam ao paraíso de um mundo sem dívidas reconhecidas e juros escorchantes.

Estão errados. Há farto material de prova que esse modelo é fracassado, leva à miséria e ao desespero e distribui pobreza, cada vez maior, exceto para o Clero e a Monarquia.

Na verdade, no fundo, vocês querem mesmo é fazer parte desses dois últimos. Apesar de, erroneamente, acharem-se Jacobinos.

Não se iludam, à época vocês dariam suas vidas por Luís XVI e não por Danton.

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O Dia em que o PT Perdeu o Brasil. E não foi em 2016.

Posted on 28/04/2016. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , , , , , |

Eu tenho diferenças conceituais, de visão de mundo, em relação ao PT e à maioria das ideias de esquerda no Brasil.

Nunca fui de esquerda, nunca consegui compartilhar das soluções propostas pela esquerda. Eu realmente achava, já em 2004-2005, que seria impossível o Brasil funcionar da forma como estava sendo planejado. Nem preciso dizer que falei praticamente sozinho por uns 6 a 7 anos.

Combati bastante as ideias de hegemonia do PT. Quando ninguém falava em Gramsci (ou pouquíssima gente) estava lá eu lendo “A revolução Gramscista no Ocidente (de 2002)” e depois os cadernos 3 e 4 de Gramsci. Não recomendo a leitura de Gramsci. Ele escreveu da prisão, então precisou, propositalmente, não fazer sentido. Se conseguirem, leiam o primeiro livro citado.

Vi o Brasil esfacelar seus já frágeis alicerces, tanto morais quanto econômicos, sem se dar conta de que estava construindo um caminho sem volta, de uma ditadura do pensamento, uma prisão sem grades.

 

E entre 2011 e 2012 cheguei a achar que a vitória do PT e de seu projeto seria irreversível. Vi que poderiam garantir um mínimo de crescimento econômico, mesmo em ambiente inóspito aos empreendedores.

Tínhamos chegado a impressionantes 7,25% de meta de juros SELIC. Commodities em alta, país bem avaliado (investment grade), planos de expansão das empresas. Pleno emprego. Superávits primários relevantes. Orçamento equilibrado. E nem sinal de crise.

Nessa época, com esses juros, tudo faria sentido na economia brasileira.

Como os juros eram baixos, mexemos na poupança que deve ter chegado a uns 4,5% a 5% ao ano. Como era baixo o retorno na renda fixa, os investidores tinham apetite por risco, tanto os institucionais quanto as pessoas físicas. Ganhar só 5% ao ano (com inflação de 5%) não era bom, precisavam investir em debêntures de empresas privadas, projetos de expansão, ramo imobiliário etc.

Tudo estava dado para o PT nunca mais sair do poder, ao menos não por motivos de esfacelamento econômico. E, claro, a agenda hegemônica, antes oculta e hoje na boca do povo, poderia seguir seu caminho sem empecilhos.

Um parêntese. Fico feliz de ver que o modelo de hegemonia cultural e intelectual do PT, com base nas ideias de Antonio Gramsci, hoje é evidente para todas as classes sociais. Ao menos para a maioria da população que se interessa por isso. O discurso recente do senador Magno Malta demonstra como isso já está evidente mesmo para quem não é especialista no assunto. Ver aqui.

É divertido ver que os que tratavam desse assunto não falaram em vão.

Espero que, até aqui, os que não compartilham de minhas ideais não se sintam ofendidos. Não há qualquer ofensa em se dizer contrário a um pensamento e explicar os porquês. Não há mesmo.

Aliás, esse é um legado nefasto do atual momento político. Você tem que se desculpar o tempo inteiro, pisar em ovos, para dar sua opinião. Isso é muito ruim para o país.

O que era esse Brasil de 2011-2012?

Seria absurdamente fácil “soltar” o Brasil rumo ao mundo desenvolvido, economicamente falando.

Com o quadro econômico dado, bastaria reduzir subsídios, reduzir a participação de BB, Caixa e BNDES na economia, permitir que a iniciativa privada corresse os riscos que ela estava disposta a correr.

Ao retirar (reduzir) os subsídios do setor produtivo, a concessão de crédito se faria por lógica econômica, não política ou de compadrio. E teríamos, vejam só, superávits ainda maiores e poderíamos reduzir a dívida pública, abrindo espaço para mais quedas de juros e para mais investimentos sociais.

Isso seria extremamente fácil de fazer, bastava não fazer nada. Bastava fazer a conta básica de não mais perder dinheiro com juros subsidiados, bilionários subsidiados etc.

É claro que a velocidade dos investimentos seria outra, pois os bancos privados não concederiam crédito a um monte de tolices econômicas, projetos de VPL negativo, sem o governo para segurar o prejuízo. Teríamos, entretanto, um crescimento saudável, baseado em risco ao setor privado e não ao setor público.

E o mundo? Ao contrário do que tentam vender, o mundo nunca atrapalhou. O excesso de liquidez, grana firme, no mundo, e os juros baixíssimos desde 2009, fariam com que o Brasil recebesse muitos bilhões de dólares de dinheiro de risco.

Enfim, poderíamos ter dado certo. Mas é evidente que não demos certo. Aliás, estamos no pior momento econômico da história do Brasil. Não há qualquer dúvida disso. É o único momento em que a solução fiscal (mais endividamento, mais inflação, mais impostos) não está disponível. E sempre esteve. Hoje não mais.

Como o PT perdeu o Brasil?

É super simples entender.

Dobrando a aposta no Estado empreendedor, no Leviatã absoluto da economia, naquele que dita todas as regras e os caminhos para o desenvolvimento.

O que fizemos?

Dobramos a aposta no BB e na Caixa. Dobramos a aposta no BNDES. Dobramos a aposta no Pré-sal e na Petrobras. Dobramos a aposta no mercado imobiliário. Dobramos a aposta nos campeões nacionais. Dobramos a aposta no país da Copa do mundo e das Olimpíadas. Dobramos a aposta no crescimento pelo crédito e pelo consumo.

E tudo isso com dinheiro público, via Tesouro subsidiando juros para grandes grupos nacionais e internacionais. Pela relação entre BNDES-Tesouro-BACEN, que “criou”, por baixo”, R$ 1,5 trilhão em dinheiro “novo”, que nada mais é do que dívida futura trazida a valor presente. E que nem apareceu nos balanços ainda.

Estimo, sem medo de errar, que, no mínimo, R$ 2 trilhões circularam na economia, SEM JUSTIFICATIVA econômica. Ou seja, dinheiro injetado sem que o sistema produtivo pudesse suportar ou pudesse transformar em ganhos de longo prazo esse montante.

Onde foi parar esse dinheiro?

Fácil demais saber.

Em 2012 um gerente operacional de uma multinacional de telefonia, com 200 pessoas sob seu comando (trabalho de TI), ganhava entre R$ 9 mil e R$ 12 mil por mês. Nessa mesma época, um soldador no sistema Petrobras tinha promessa de salário inicial de R$ 8 mil, podendo chegar a R$ 15 mil. Um operador de guindaste, descobrimos isso quando caiu parte do Itaquerão, ganhava R$ 19 mil. Os ganhos salariais nos setores que o governo elegeu para investir pesado foram astronômicos.

E estamos falando de um gerente de TI com faculdade de primeira linha, MBAs e etc., ganhando bem menos do que pessoas formadas em cursos técnicos. Alguns de menos de 1 ano de duração.

Parte desses R$ 2 tri virou salário, nesses mercados “eleitos” pelo governo.

O problema é que os estádios não dão dinheiro. Os imóveis construídos estão sendo devolvidos. A produção de petróleo cai (caiu uns 8% esse ano) e o preço também. Praticamente todas as empresas que surfaram no crédito barato estão ultra-endividadas e não conseguem gerar caixa de seus negócios.

Essa parte que virou salário ajudou a dar a impressão de que estávamos no caminho certo. Gente ganhando cada vez melhor (nos setores “eleitos”), comprando cada vez mais, tomando dívida de longo prazo, tomando crédito de curto prazo. Vivendo o brazilian dream.

Outra parte desses R$ 2 tri viraram pó mesmo. São refinarias, complexos petroquímicos, imóveis comerciais e residenciais, estádios, expansões de fábricas, expansão de produção, créditos podres etc., que estão sendo baixados a prejuízo, às centenas de bilhões de reais todos os anos. Só no ano passado Vale e Petrobras deram prejuízos na faixa de R$ 80 bilhões, somados.

Vale é privada? Como disse Roberto Campos: “No Brasil a empresa privada é controlada pelo governo. A empresa estatal não é controlada por ninguém.”.

Então é esse o quadro. Torramos R$ 2 trilhões, no mínimo, entre subsídios e investimentos (não naturais) forçados por estatais e pela relação entre o trio BNDES-Tesouro-BACEN, e o resultado econômico é um total fiasco. Nem poderia ser diferente, pois os projetos jamais sairiam do papel se o financiamento e o risco fossem totalmente privados.

Ué, mas o empresário tomou o risco, tomou o empréstimo subsidiado, só porque o governo deu crédito barato?

Sim, mas não é para culpar apenas o empresário que não fez conta. Todos tomaram crédito subsidiado, principalmente os mais pobres. É para culpar, também e principalmente, o governo, que resolveu fazer caridade a bilionários com o nosso dinheiro.

E deu errado, tudo errado.

Os R$ 2 trilhões, que viraram pó no mercado, que não construíram nosso caminho para o desenvolvimento, vão nos atormentar por muitos anos, pois somos nós que vamos pagar essa conta.

Hoje temos repactuação das aposentadorias nos correios. 17% ao mês por 20 anos, é o custo no salário do trabalhador que confiou no sistema.

Temos o estado do RJ que vai pagar os aposentados, com atraso, e não terá dinheiro para comprar gasolina para a polícia e algodão para hospital.

E ainda falamos em “preservar direitos dos trabalhadores”. Sem dinheiro? Será que precisaremos ver o governo federal parando de pagar seus servidores, o que geraria uma quebradeira bancária sem precedentes, para acreditarmos que estamos quebrados?

O Brasil discute se alguém poderia se aposentar aos 50-55 anos, como se o pagamento disso caísse do céu, da graça divina. Como se não fosse outro brasileiro a pagar. Senhores, não é o governo que paga. Governo não tem dinheiro. O dinheiro é nosso.

Talvez esse momento inacreditável que o PT nos proporcionou permita a repactuação federativa e social e traga o Brasil para pensar sua realidade.

Mas e o PT?

Eu acho que perdeu a chance de ver o “projeto” funcionar. Nunca mais voltará com essa vibe hegemônica, esse discurso maniqueísta. Se continuar a existir (dependerá dos desdobramentos policiais) vai precisar fugir dos dinossauros da ditadura militar. Quem manda no PT tem 60 a 70 anos de idade. Não faz a menor ideia do que é o mundo nos anos 2000. Discute problemas que acabaram há 30 anos.

Se você tenta resolver um problema que não existe mais, talvez acabe o recriando. E não é o que estamos vendo?

Não tinha acabado a ditadura militar, a hiperinflação, a década perdida etc.?

Pois é, fomos enfrentar o que já estava morto, olha aí de novo. Chutaram tanto o cadáver que ele ressuscitou!

Senhores, por favor, a partir de 2018, vamos debater problemas atuais. Não queremos mortos-vivos andando pelas ruas no Brasil. Vai que aparece um Juscelino querendo reconstruir a capital federal na Lua, bem longe dos eleitores? Custando 3% do PIB? Xô Exu! Vade Retro!

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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