Por que Trump venceu as eleições nos EUA? Esqueça as análises simplistas, a coisa é ainda mais simples do que parece.

Posted on 09/11/2016. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , , , |

Trump tem um conjunto infinito de características que deveriam tê-lo levado a uma derrota fácil. Mas venceu. E não venceu por causa do muro, do racismo, da xenofobia, da misoginia, da bomba na jihad ou pela “burrice” do americano médio. Foi outro o motivo de sua acachapante vitória.

Trump pensa coisas estranhas e fala coisas mais estranhas ainda. Trump parece ter sonegado impostos. Trump parece mentir sobre sua própria fortuna. Trump conta vantagem sobre sua posição social e suas conquistas amoro$a$. Trump parece ter contratado imigrantes ilegais. Trump fala mal de algumas raças e credos. Trump quer bombardear o inimigo que ataca os EUA. Trump conta piadas sem graça. Trump se refere às mulheres de forma vulgar. Trump é hedonista.

Enfim, Trump é o estereótipo perfeito da afronta à agenda globalista e politicamente correta.

Hillary, ao contrário, é o perfeito clichê politicamente correto.

É amiga de Bono, abraça toda e qualquer minoria (e suas agendas), acolhe todas as religiões e suas bizarrices, está do lado dos artistas progressistas, não gosta de armas, é mulher, preocupa-se com os pobres (mesmo vestindo roupas de 50 mil dólares), não comete gafes politicamente incorretas, conta piadas assépticas, discursa para não ofender, é anti-imperialista etc..

O mundo viu os dois como candidatos ao cargo máximo da democracia ocidental, mas na verdade o que aconteceu foi um embate entre uma agenda opressora e a reação a esta.

Não é o que você está pensando. Não é Trump o ponta de lança da agenda opressora de que estou falando.

Antes de continuar é necessário dizer que não pretendo fazer julgamento de valor sobre o futuro papel de Trump, ou o ex-futuro papel de Hillary na presidência. Isso foi secundário na eleição. Quero apenas sugerir, fora das ideias do main stream, o motivo de Trump ter vencido, mesmo quando forçou a barra para ser estridente, histriônico e politicamente incorreto.

Trump não é “o” americano médio. Não cometa esse erro de análise.

É fácil ler na imprensa hoje a explicação de que ganhou o americano médio idiota. O branco pouco letrado e simplório.

Mas Trump é muito mais do que isso. Trump, ou ao menos o personagem que ele encarnou durante a eleição, é o americano médio, mínimo e máximo.

Trump exibiu praticamente todos os pecados morais, intelectuais e até legais que permeiam a sociedade americana (e mundial).

Não é difícil acreditar que 90%, talvez mais, da população americana tenha alguma das características que considera desprezíveis ou reprováveis em Trump.

Sonegar impostos, contratar imigrantes ilegais, se ofender com agendas de minorias, cometer gafes, contar piadas ruins sobre temas sensíveis, ser vaidoso com suas conquistas, querer explodir o inimigo que lhe ameaça, ser grosseiro, rude e xucro, pintar o cabelo com tintura de mau gosto, colecionar rifles, adorar dinheiro e sucesso, vangloriar-se de conquistas sexuais, trocar sexo por dinheiro etc.

Alguns desses tópicos configuram crime nos EUA (sonegação ou prostituição), mas Hillary e sua campanha preferiram atacar as características comportamentais, os valores de Trump.

Ora, não é evidente que ser um idiota vá gerar alguma atividade criminosa no futuro. Muita gente vive com valores confusos durante sua vida inteira e não cria transtornos para ninguém, talvez para si mesmo. Estaríamos a criminalizar a burrice, a idiotice ou a ignorância?

Não se pode mais ser idiota em paz no mundo?

Ora, somos todos idiotas aos olhos de alguém. Todo mundo é o imbecil de alguém. Com certeza alguém que me lê neste momento está pensando “que idiota!”.

Antigamente o “tiozão deslocado no churras” era motivo de piada interna, alguém da família brincava com ele, as piadas sobre as bobagens que ele fazia e dizia nos encontros de família viravam um elemento de integração até para ele, que curtia ser o centro das atenções, mesmo que por motivos pouco nobres.

Hoje, quando a pessoa destoa em público ou em família, minimamente, do que é politicamente aceito, não há mais espaço para ela no debate familiar ou social. Só é menos execrada que o fumante, ou nem isso.

Não há mais piada engraçada no mundo. Não há mais espaço para alguém que personifique conceitos politicamente incorretos.

São execrados socialmente e sua atitude é vista como a representação clara e inequívoca de valores negativos absolutos como o mal, o ódio, a burrice, o erro.

Donald Trump foi massacrado por cada um dos defeitos que fez questão de projetar.

E há, ao menos, um destes defeitos em cada americano, médio, ou 5 estrelas Bono-style.

Até as pessoas que estrelam a agenda progressista e politicamente correta tem vários dos pecados de Trump em seu currículo, mas são alienados o suficiente para só ver bondade, acerto e inteligência em seus atos e pensamentos.

Wagner Moura e Gregório Duvivier têm a certeza de que estão do lado do bem absoluto, do nirvana intelectual e moral, mas são apenas seres humanos carentes de autocrítica.

Donald Trump venceu porque encarnou a libertação para quem não é, não se considera e não quer ser perfeito.

Qualquer americano que tenha, algum dia na vida, se comportado como Trump, nas mais variadas facetas de sua personalidade, se incomodou quando o bilionário foi tratado como a representação do mal absoluto, do erro evidente, do indesejável e do inaceitável.

O uso equivocado da palavra tolerância

Tolerância não é amar, aceitar, desejar ou incentivar. Tolerar é conviver mesmo sem gostar, mesmo sem amar, mesmo sem aceitar e incentivar.

Reproduzo aqui os significados para a palavra tolerância: 1. ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência; 2. tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo.

É possível ser como Donald Trump e ser tolerante.

Trump se diz contra mexicanos e imigrantes, mas cansou de contratar esses mesmos imigrantes durante décadas, podem até se odiar, mas viveram sua simbiose. Trump trata as mulheres de forma vulgar, mas quem somos nós para criticar sua vida conjugal. É acordo mútuo ou ele sequestrou sua esposa?

Mas é possível ser Wagner Moura e ser tolerante? É possível ser Hillary Clinton e ser tolerante? É possível chamar 25% a 30% do eleitorado americano de “basket of deplorables”, “racist, sexist, homophobic, xenophobic, Islamaphobic…” e ser tolerante?

Aliás, o que isso tem a ver com tolerância? Uma coisa é não gostar de outro grupo, outra é classificá-lo como o mal absoluto, inequívoco e desprezível.

Quem tem um ideal de mudar o outro para só então aceitá-lo pode ser tudo, menos tolerante.

Por definição, só existe tolerância na diferença. Agendas igualitárias são opressivas e intolerantes. Mas é curioso que justamente a blitzkrieg do politicamente correto cobre tolerância, quando, na verdade, quer mesmo é doutrinar e subjugar.

Eu posso não acreditar no que você acredita, não gostar do que você gosta e não compartilhar dos seus valores e ainda assim ser um bom colega de trabalho, parente e até amigo. Mas é impossível ser isso tudo se você me considera deplorável, detestável ou desprezível.

Burrice não é crime, idiotice não é crime, ignorância não é crime. Se o americano é livre, ele pode perfeitamente ser idiota, burro e ignorante. Deveria ser um direito inalienável, cláusula pétrea da constituição, a garantia de poder ser burro livremente.

Não estou chamando os eleitores de Trump, ou ele, de burro. Quem fez isso foi Hillary e a imprensa americana (e brasileira).

Trump criticava características e ações específicas de Hillary e Obama, enquanto os dois preferiram o atacavam por ser “evidentemente” o mal, por estar “inequivocamente” errado. E isso é apenas arrogância intelectual. Deu errado, mesmo contra o pior candidato republicano jamais imaginado.

A perfeição de Jesus Cristo e a perfeição de Hillary Clinton.

Nós aceitamos viver uma ideia de busca da perfeição de comportamento, aceitamos nos penitenciar por fugir da vida em Cristo, em Buda ou em Maomé. Conseguimos depositar nosso sistema de crenças e seguir o misticismo milenar.

Mas qual o critério de superioridade moral e comportamental de Hillary ou do ideário globalista politicamente correto?

Não há, mas mesmo assim Hillary e seus seguidores comportam-se como messias portadores da boa nova, do último código de conduta, do pensamento correto e da ação justa.

É por isso que perderam a eleição contra o perfeito anti-herói.

O maior de todos os idiotas intolerantes não é aquele que acha que está certo. É aquele que tem certeza de que está certo.

E no que tange à certeza arrogante da virtude, Hillary e seus seguidores estão anos-luz à frente de Trump e de seu exército de homens simples, moralmente perseguidos.

Aprendam, engulam a derrota e pratiquem tolerância. Mas a verdadeira, não aquela que pressupõe que eu mude para você me aceitar.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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