Aleppo. Barbárie e Descaso. Como chegamos até aqui. A Doutrina Obama.

Posted on 21/12/2016. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , , , , , , , |

Os debates sobre Aleppo e seu massacre de crianças, estupros em massa e covas coletivas estão, corretamente, focando na emergência. Na necessidade urgente de viabilizar a saída imediata dos civis do inferno.

Estamos juntos nessa, mas esse artigo pretende debater os motivos que nos trouxeram até aqui. Qual o papel da Doutrina Obama nessa realidade geopolítica?

Em resumo…

Sem entrar em filigranas geopolíticas, a leitura direta do que ocorre na Síria é bem simples.

Após a primavera árabe, que derrubou alguns ditadores e modificou alguns regimes na Ásia e na África, houve um levante na Síria, reprimido de forma violenta.

Os rebeldes, não muito diferentes dos que derrubaram Mubarak e Gaddafi, foram apoiados discretamente por forças estrangeiras, a quem interessava a flexibilização em ditaduras como a da Bashar Al Assad.

Desde o início a Rússia apoiou Assad e vetou qualquer resolução da ONU que pedisse a saída do ditador sírio, ou o diálogo com os rebeldes.

Não há tropas enviadas diretamente por estrangeiros com poder bélico relevante. Não estão lá os boinas azuis, os mariners ou qualquer exército ocidental. Mas Putin está lá, diariamente, com a força militar que a Rússia pode oferecer.

Putin vem enganando, e todos sabem, os ocidentais e seus aliados árabes dizendo que está enfrentando os terroristas do Estado Islâmico e suas derivações, mas na verdade quer garantir uma vitória esmagadora de Assad, seu aliado. A parte “esmagadora” não é figura de linguagem.

Na prática temos um grupo de rebeldes (com os mais variados motivos, alguns bastante retrógrados) lutando com algum apoio do ocidente, algum financiamento “por baixo dos panos”, contra o poderio militar russo. Todo ele e sem limites, sem convenção de Genebra e com um padrão civilizatório digno de Átila, o Huno.

A doutrina Obama

Lamento pelos muitos amigos e familiares que tem apreço pelo presidente “cool” norte-americano, mas a catástrofe de Aleppo, e as que virão, estão em grande parte associadas ao novo modelo de política externa dos EUA.

Obama assumiu os Estados Unidos com alguns propósitos, o mais eloquente deles era retirar as tropas do Oriente Médio. É bem verdade que não cumpriu a promessa, ao menos não completamente.

Porém sua política externa, muitas vezes chamada de “Obama doctrine foreign policy”, deliberadamente retirou os Estados Unidos da posição de única superpotência, líder do mundo livre e do capitalismo, líder do livre mercado e da livre concorrência.

E retirou mesmo. Não há preponderância norte-americana em praticamente nenhum conflito (talvez apenas naqueles iniciados pelos próprios), nem na defesa de qualquer sistema de valores ocidentais. Obama nunca proferiu a expressão “terrorismo Islâmico”. Obama professa o que se vê hoje na Europa, da tolerância como valor em si mesmo, absoluto, sem qualquer avaliação ou julgamento ético e moral.

Quando houve o massacre numa boate LGBT nos EUA, a primeira frase de Obama foi que “aquele era um dia muito triste para a comunidade LGBT”.

Um verdadeiro líder do mundo ocidental diria que é um dia triste para a humanidade. Um líder conciliador não divide, não escolhe o discurso específico para uma minoria e menospreza a dor e o horror compartilhados por milhões de pessoas que não fazem parte dessa minoria, mas que estão do mesmo lado em termos de sofrimento com a tragédia. Foi um discurso sectário. Líderes que dividem são populistas, sanguinários ou ditadores. “Dividir para Conquistar”.

Obama conseguiu desviar o transatlântico de valores dos EUA para o mar aberto da incerteza, moral e civilizatória. Para fora do maniqueísmo, para fora de um ideal civilizatório, para fora de uma “guerra-fria de valores”, para fora de um sistema moral.

Essa atitude de neutralidade é aplaudida por muitos, principalmente pelas pessoas que vivem na platônica realidade do politicamente correto, que pretendem criar um mundo onde não haja discurso que possa ferir outro ser humano, onde não haja conceitos ou preconceitos.

Um bizarro mundo de uniformidade de pensamento, coisa jamais vista na história da humanidade e nem enredada na mais eloquente ficção futurista (pois não é um futuro nem provável, nem verossímil).

Obama está lá na Síria.

Está lá, justamente por não estar. Justamente por ser o musculoso halterofilista, faixa preta em Karatê e armado até os dentes, que se recusa a intervir quando o marido espanca a esposa e os filhos, diante de seus olhos, sob o pretexto de que “faz parte da cultura milenar de onde eles vieram”.

Está lá por realmente acreditar que não há valores que mereçam ser estimulados ou difundidos e professados. Exceto a própria ausência de valor.

A diferença entre uma guerra promovida pelos EUA e o que se verifica em Aleppo.

Alguns leitores argutos devem estar se perguntando sobre as políticas norte-americanas belicosas que justificaram a invasão do Afeganistão e do Iraque, por que seriam menos nocivas do que a Doutrina Obama?

Ora, ora, ora.

Os motivos foram errados e também contrários ao posicionamento da ONU. Algumas pessoas entendem que foi uma guerra comercial e não com o objetivo de instaurar uma democracia no Iraque. E ainda que fosse esse o objetivo, o Iraque deveria ter o “direito” de viver em ditadura, sem intervenção estrangeira, pelo princípio da autodeterminação dos povos.

Parece fazer sentido, mas é importante pontuar a extrema diferença entre uma guerra conduzida pela liderança norte-americana e pela Rússia, por ditaduras teocráticas ou cleptocracias africanas.

Não faz sentido clamar por direitos humanos na Síria. Os protagonistas não fazem ideia do que é isso. É um conceito muito caro aos ocidentais, liderados pelos EUA e Europa, mas que nada significa para Putin ou Assad.

Putin era da KGB, na URSS (recomendo a leitura do livro Sussurros, 800 páginas de horror documentado) os fins justificavam os meios e os seres humanos, a individualidade e a vida, nunca foram fins em si mesmos, apenas meios para os objetivos do poder central e da nomenklatura.

Regimes onde o ser humano é meio, onde a individualidade deve ser sufocada pela coletividade, costumam se apresentar como ditaduras sanguinárias e imorais. E parte do mundo ainda é assim. Mas certamente não os EUA, apesar dos esforços dos ditadores do pensamento (politicamente correto) em fazer o mundo crer que os norte-americanos são os grandes inimigos da paz mundial.

Todas as falhas dos EUA nas guerras que conduziram, sejam elas reais ou narrativas inventadas, encontram caminho legal ou moral para serem expostas e combatidas. Guantánamo, as torturas e as operações secretas são feridas abertas dentro da própria sociedade norte-americana e também no resto do planeta.

E os dirigentes não podem fugir de enfrentar, até judicialmente, essas questões humanitárias e MORAIS.

Haverá o texano que quer aniquilar os terroristas, haverá o californiano que quer dar-lhes rosas. Qualquer que seja o caminho da política norte-americana, ambos serão ouvidos e terão voz ativa. A ambos deverá ser dada explicação e justificativa, racional ou moral.

O padrão civilizatório dos EUA (e do mundo ocidental) é completamente diferente do observado em Putin, Assad, Mugabe, Gaddafi, Sadam etc.

Pensar que o padrão civilizatório ocidental é melhor é cair numa armadilha intelectual. Ele não é e nem precisa ser melhor, basta que seja o padrão que você QUER para sua vida, sua família e seu convívio social.

Basta que você entenda que no seu país as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens, para que você rejeite situações de mutilação genital, apedrejamento por adultério ou proibição de mostrar o rosto e o corpo.

Discutir a “superioridade” é perda de tempo. É o que você quer e isso já é muito importante. É o padrão civilizatório que você deseja para si e para os seus. É o que se manifesta no voto, nos livros, nos discursos, nas narrativas, e em toda a pluralidade que só sociedades livres conseguem gerar.

E é esse padrão que era carregado no tal transatlântico que se perdeu no mar da incerteza moral.

Aleppo mostra que perdemos tudo.

É assustador ver sírios aparecendo na TV clamando aos prantos por ajuda da comunidade internacional, estranhando que “ninguém vá fazer nada” contra a barbárie inacreditável promovida pela Rússia e por Assad. É assustador por que ninguém vai ouvi-los, ou atender a seus apelos.

Há poucos anos havia a expectativa de intervenção econômica e até militar em episódios de barbárie em larga escala, ainda que os esforços fossem insuficientes ou ainda que a Rússia e a China tenham tentado barrar qualquer atuação da ONU contra ditaduras aliadas.

Hoje o máximo que a França faz, após a disseminação de fotos com pilhas de crianças mutiladas em Aleppo, é apagar as luzes da Torre Eiffel.

A ausência da liderança norte-americana é tão nociva para a geopolítica internacional,  e tão confusa para os seus críticos, que nem há mais discurso antiamericano ou anti-imperialista.

Apesar de a Rússia estar esmagando ativistas na Síria, mesmo aquelas vozes engajadas das redes sociais, tão eloquentes para peitar os EUA, simplesmente não criticam Assad ou Putin, apenas clamam por socorro às vítimas. Eles não estão cometendo crimes horrendos? Por que não criticar?

Porque as críticas são tão relevantes para Putin quanto uma mudança momentânea na direção do vento em sua Dacha.

Tanto os massacrados quanto os ativistas de direitos humanos ficaram órfãos da política intervencionista dos EUA. Os massacrados serão, cada vez mais, massacrados e os ativistas vão cansar de espernear em redes sociais a pedir, Deus sabe para quem, ajuda humanitária e um corredor de evacuação de civis em Aleppo.

É muito estranho esse mundo sem polarização e sem liderança. Nós não sabemos lidar com ele. Quem combateu a política externa intervencionista norte-americana deve estar percebendo que, sem ela, até o próprio norte moral e econômico a combater se perdem.

Chega a ser ingênuo cobrar proteção a civis ou respeito aos direitos humanos a Putin e Assad. No modelo civilizatório de ambos, essas “frivolidades ocidentais” nada significam. Além dos próprios Sírios, nós é que sofremos, nós é que nos descabelamos, nós é que gritamos diante de um fenômeno tão macabro levado a cabo por líderes tão desumanos.

Quem se importa com a violação dos direitos humanos dos Sírios somos nós, os ocidentais. O sentido da liberdade individual, da declaração universal dos direitos humanos, das repúblicas modernas e da democracia representativa só existe, como valor inegociável, em nosso modelo civilizatório.

Mesmo quando os Estados e as autoridades de países ocidentais parecem atropelar esses valores republicanos, religiosos ou morais, os caminhos para a crítica livre, para a intervenção jurídica, para a declaração à imprensa, para fazer filmes críticos, para espernear em redes sociais, para ocupar wall street, para votar e mudar o dirigente etc., estão à disposição. E são usados diuturnamente, com muita verborragia e com muito lobby, pelos ativistas dos direitos humanos, entre outros.

Michael Moore, se fizesse o que faz na Rússia, teria sofrido um acidente com plutônio antes de lançar o primeiro filme. Nos EUA é voz eloquente.

A Doutrina Obama deixou os ativistas órfãos. Não sabem o que fazer com a política do multiculturalismo e da autodeterminação dos povos (qualquer que seja o caminho).

Todos os antiamericanos eram valentes e agressivos ao criticar os EUA. Afinam diante de Putin e Assad. Clamam por direitos humanos, mas, como não há interlocutor interessado (Obama está na internet promovendo memes de si mesmo), falam ao vento. E não culpam Putin. E não culpam Assad. Não há nem mais os Estados Unidos para culpar.

Conservadores x Progressistas

Os conservadores não são “aqueles que querem manter tudo como está”. São aqueles que respeitam tradições, pois sabem que raízes levam dezenas, centenas de anos, e trilhões de interações humanas para se firmarem.

É claro que o futuro poderá melhorar essas tradições e até substituí-las por valores que vão continuar nos dando conforto moral e espiritual para viver em sociedade, porém, em alguns casos, não raros, mudamos para pior. Para muito pior.

E disso os conservadores querem se proteger. Destruir uma tradição imperfeita, através de um processo revolucionário, pode descambar para a barbárie e para a falta de parâmetros mínimos de civilidade.

Parece-me que há uma severa inversão civilizatória em curso.

A ausência de uma liderança moral mundial colocou a Nau humana à deriva.

Quem poderia segurar o timão do transatlântico está em seus aposentos presidenciais, fazendo vídeos engraçados para o facebook e acariciando um cachorrinho fofo. E todos em volta estão felizes.

Menos os meninos de Aleppo.

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Por que Trump venceu as eleições nos EUA? Esqueça as análises simplistas, a coisa é ainda mais simples do que parece.

Posted on 09/11/2016. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , , , |

Trump tem um conjunto infinito de características que deveriam tê-lo levado a uma derrota fácil. Mas venceu. E não venceu por causa do muro, do racismo, da xenofobia, da misoginia, da bomba na jihad ou pela “burrice” do americano médio. Foi outro o motivo de sua acachapante vitória.

Trump pensa coisas estranhas e fala coisas mais estranhas ainda. Trump parece ter sonegado impostos. Trump parece mentir sobre sua própria fortuna. Trump conta vantagem sobre sua posição social e suas conquistas amoro$a$. Trump parece ter contratado imigrantes ilegais. Trump fala mal de algumas raças e credos. Trump quer bombardear o inimigo que ataca os EUA. Trump conta piadas sem graça. Trump se refere às mulheres de forma vulgar. Trump é hedonista.

Enfim, Trump é o estereótipo perfeito da afronta à agenda globalista e politicamente correta.

Hillary, ao contrário, é o perfeito clichê politicamente correto.

É amiga de Bono, abraça toda e qualquer minoria (e suas agendas), acolhe todas as religiões e suas bizarrices, está do lado dos artistas progressistas, não gosta de armas, é mulher, preocupa-se com os pobres (mesmo vestindo roupas de 50 mil dólares), não comete gafes politicamente incorretas, conta piadas assépticas, discursa para não ofender, é anti-imperialista etc..

O mundo viu os dois como candidatos ao cargo máximo da democracia ocidental, mas na verdade o que aconteceu foi um embate entre uma agenda opressora e a reação a esta.

Não é o que você está pensando. Não é Trump o ponta de lança da agenda opressora de que estou falando.

Antes de continuar é necessário dizer que não pretendo fazer julgamento de valor sobre o futuro papel de Trump, ou o ex-futuro papel de Hillary na presidência. Isso foi secundário na eleição. Quero apenas sugerir, fora das ideias do main stream, o motivo de Trump ter vencido, mesmo quando forçou a barra para ser estridente, histriônico e politicamente incorreto.

Trump não é “o” americano médio. Não cometa esse erro de análise.

É fácil ler na imprensa hoje a explicação de que ganhou o americano médio idiota. O branco pouco letrado e simplório.

Mas Trump é muito mais do que isso. Trump, ou ao menos o personagem que ele encarnou durante a eleição, é o americano médio, mínimo e máximo.

Trump exibiu praticamente todos os pecados morais, intelectuais e até legais que permeiam a sociedade americana (e mundial).

Não é difícil acreditar que 90%, talvez mais, da população americana tenha alguma das características que considera desprezíveis ou reprováveis em Trump.

Sonegar impostos, contratar imigrantes ilegais, se ofender com agendas de minorias, cometer gafes, contar piadas ruins sobre temas sensíveis, ser vaidoso com suas conquistas, querer explodir o inimigo que lhe ameaça, ser grosseiro, rude e xucro, pintar o cabelo com tintura de mau gosto, colecionar rifles, adorar dinheiro e sucesso, vangloriar-se de conquistas sexuais, trocar sexo por dinheiro etc.

Alguns desses tópicos configuram crime nos EUA (sonegação ou prostituição), mas Hillary e sua campanha preferiram atacar as características comportamentais, os valores de Trump.

Ora, não é evidente que ser um idiota vá gerar alguma atividade criminosa no futuro. Muita gente vive com valores confusos durante sua vida inteira e não cria transtornos para ninguém, talvez para si mesmo. Estaríamos a criminalizar a burrice, a idiotice ou a ignorância?

Não se pode mais ser idiota em paz no mundo?

Ora, somos todos idiotas aos olhos de alguém. Todo mundo é o imbecil de alguém. Com certeza alguém que me lê neste momento está pensando “que idiota!”.

Antigamente o “tiozão deslocado no churras” era motivo de piada interna, alguém da família brincava com ele, as piadas sobre as bobagens que ele fazia e dizia nos encontros de família viravam um elemento de integração até para ele, que curtia ser o centro das atenções, mesmo que por motivos pouco nobres.

Hoje, quando a pessoa destoa em público ou em família, minimamente, do que é politicamente aceito, não há mais espaço para ela no debate familiar ou social. Só é menos execrada que o fumante, ou nem isso.

Não há mais piada engraçada no mundo. Não há mais espaço para alguém que personifique conceitos politicamente incorretos.

São execrados socialmente e sua atitude é vista como a representação clara e inequívoca de valores negativos absolutos como o mal, o ódio, a burrice, o erro.

Donald Trump foi massacrado por cada um dos defeitos que fez questão de projetar.

E há, ao menos, um destes defeitos em cada americano, médio, ou 5 estrelas Bono-style.

Até as pessoas que estrelam a agenda progressista e politicamente correta tem vários dos pecados de Trump em seu currículo, mas são alienados o suficiente para só ver bondade, acerto e inteligência em seus atos e pensamentos.

Wagner Moura e Gregório Duvivier têm a certeza de que estão do lado do bem absoluto, do nirvana intelectual e moral, mas são apenas seres humanos carentes de autocrítica.

Donald Trump venceu porque encarnou a libertação para quem não é, não se considera e não quer ser perfeito.

Qualquer americano que tenha, algum dia na vida, se comportado como Trump, nas mais variadas facetas de sua personalidade, se incomodou quando o bilionário foi tratado como a representação do mal absoluto, do erro evidente, do indesejável e do inaceitável.

O uso equivocado da palavra tolerância

Tolerância não é amar, aceitar, desejar ou incentivar. Tolerar é conviver mesmo sem gostar, mesmo sem amar, mesmo sem aceitar e incentivar.

Reproduzo aqui os significados para a palavra tolerância: 1. ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência; 2. tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo.

É possível ser como Donald Trump e ser tolerante.

Trump se diz contra mexicanos e imigrantes, mas cansou de contratar esses mesmos imigrantes durante décadas, podem até se odiar, mas viveram sua simbiose. Trump trata as mulheres de forma vulgar, mas quem somos nós para criticar sua vida conjugal. É acordo mútuo ou ele sequestrou sua esposa?

Mas é possível ser Wagner Moura e ser tolerante? É possível ser Hillary Clinton e ser tolerante? É possível chamar 25% a 30% do eleitorado americano de “basket of deplorables”, “racist, sexist, homophobic, xenophobic, Islamaphobic…” e ser tolerante?

Aliás, o que isso tem a ver com tolerância? Uma coisa é não gostar de outro grupo, outra é classificá-lo como o mal absoluto, inequívoco e desprezível.

Quem tem um ideal de mudar o outro para só então aceitá-lo pode ser tudo, menos tolerante.

Por definição, só existe tolerância na diferença. Agendas igualitárias são opressivas e intolerantes. Mas é curioso que justamente a blitzkrieg do politicamente correto cobre tolerância, quando, na verdade, quer mesmo é doutrinar e subjugar.

Eu posso não acreditar no que você acredita, não gostar do que você gosta e não compartilhar dos seus valores e ainda assim ser um bom colega de trabalho, parente e até amigo. Mas é impossível ser isso tudo se você me considera deplorável, detestável ou desprezível.

Burrice não é crime, idiotice não é crime, ignorância não é crime. Se o americano é livre, ele pode perfeitamente ser idiota, burro e ignorante. Deveria ser um direito inalienável, cláusula pétrea da constituição, a garantia de poder ser burro livremente.

Não estou chamando os eleitores de Trump, ou ele, de burro. Quem fez isso foi Hillary e a imprensa americana (e brasileira).

Trump criticava características e ações específicas de Hillary e Obama, enquanto os dois preferiram o atacavam por ser “evidentemente” o mal, por estar “inequivocamente” errado. E isso é apenas arrogância intelectual. Deu errado, mesmo contra o pior candidato republicano jamais imaginado.

A perfeição de Jesus Cristo e a perfeição de Hillary Clinton.

Nós aceitamos viver uma ideia de busca da perfeição de comportamento, aceitamos nos penitenciar por fugir da vida em Cristo, em Buda ou em Maomé. Conseguimos depositar nosso sistema de crenças e seguir o misticismo milenar.

Mas qual o critério de superioridade moral e comportamental de Hillary ou do ideário globalista politicamente correto?

Não há, mas mesmo assim Hillary e seus seguidores comportam-se como messias portadores da boa nova, do último código de conduta, do pensamento correto e da ação justa.

É por isso que perderam a eleição contra o perfeito anti-herói.

O maior de todos os idiotas intolerantes não é aquele que acha que está certo. É aquele que tem certeza de que está certo.

E no que tange à certeza arrogante da virtude, Hillary e seus seguidores estão anos-luz à frente de Trump e de seu exército de homens simples, moralmente perseguidos.

Aprendam, engulam a derrota e pratiquem tolerância. Mas a verdadeira, não aquela que pressupõe que eu mude para você me aceitar.

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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