O Novo Normal. Vamos voltar a ser o que éramos?

Posted on 03/06/2020. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , |

Prezados Leitores,

Neste vídeo trago evidências que podem indicar que voltaremos a ser o que éramos.

São três vertentes:

1. Como nós avaliamos risco. Se o risco é alto e imediato, nos retraímos por instinto básico de sobrevivência. Se o risco permanece alto, as pessoas dialogam com ele para seguirem a vida.

2. O histórico de pandemias graves não mostrou que elas voltaram com o mesmo risco nos anos seguintes. E não há evidências de que não voltamos à vida normal mesmo depois de crises muito graves.

3. A COVID encontrou muitos “aliados” para ser tão mortal. Esses aliados não devem ser repetir no futuro, ao menos não com essa intensidade.

 

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A filosofia da COVID19: O Novo Normal.

Posted on 11/05/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , |

No capítulo 10 do livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”, faço um resumo de minha dissertação de mestrado de 1998, explicando como funciona o raciocínio sistêmico.

Em resumo, é um contraponto ao raciocínio linear, aquele que assume, antes de análise aprofundada, direções claras de causa e efeito entre os fenômenos. Ao pensar em sistemas, as relações de causa e efeito são fluidas e o que, sob uma perspectiva, pode estar causando, sob outra perspectiva pode estar sofrendo o efeito. Não há compromisso com uma só direção de análise, uma só proposta de fenômeno.

 

O Novo Normal é um misto de raciocínio linear com raciocínio motivado.

Boa parte das pessoas que veem e enunciam o tal “Novo Normal” parece misturar raciocínio linear com raciocínio motivado. Fazem uma análise trivial e univariada da realidade, adicionando um pouco dos seus desejos mais profundos de mudança da sociedade (alguns bem ditatoriais até). E, infelizmente, creem estar ao lado da “verdade” ou da “ciência”, quando na verdade estão apenas externando um senso comum pouco elaborado, aliado a uma estatística univariada.

O raciocínio sistêmico nos permite investigar 3 variáveis que devem indicar que, ao contrário da visão popularizada pelas profecias de dezenas de milhões de mortes, o mais provável é que voltemos em grande parte ao que éramos antes da pandemia. São elas:

  • Nossa avaliação pessoal de risco;
  • O histórico de nossa reação após grandes pandemias; e
  • A redução de letalidade sistêmica na eventual volta do vírus.

Ressalva: Esse não é um artigo médico-científico, muito menos uma sugestão de comportamento às pessoas. É apenas uma investigação de quem somos nós, como pensamos e de nossa história. Tudo o que está escrito aqui está ao alcance das pessoas, sem necessidade de expertise em ciência médica ou epidemiológica.

Quanto à COVID19, entendo que há previsões para todos os lados, desde que ela terá efeito negativo na mortalidade excessiva, até que será um evento com dezenas de milhões de mortos no mundo (primeiras projeções do Imperial College). O futuro é incerto e o presente nos traz muito medo. Devemos nos proteger, mas sem deixar o pensamento crítico e a estatística multivariada de lado.

Ao leitor que ainda não está preparado para ler mensagens menos trágicas a respeito do futuro, este artigo não é recomendado. Poderá voltar quando a pandemia passar e sentir necessidade de algum enredo de esperança.

 

  1. Nossa percepção de risco não é absoluta, mas relativa.

Nós funcionamos como o sapo cozido. Se jogarmos o sapo em água fervendo ele percebe o risco e consegue escapar, se esquentarmos a água aos poucos ele morre fervido.

Riscos muito graves e muito evidentes nos levam a agir de forma rápida para nos protegermos. Mas riscos graves que permanecem por muitos períodos, acabam sendo incorporados em nossa avaliação de normalidade.

Uma família de classe média/alta de bairros nobres dos diferentes estados brasileiros, não toleraria o risco em que vivem as famílias de classe baixa morando em regiões conflagradas e tomadas por tráfico ou milícia. Não deixaria os filhos saírem para a escola sob barulho de tiros, não deixaria os filhos entrarem em casa se houvesse um cadáver mutilado na porta. Mas isso, em alguns lugares, não é incomum. É um efeito trágico da desigualdade.

Se o risco “descer o morro”, como falamos no RJ, no início os moradores de áreas nobres vão se retrair, mas depois vão passar a dialogar com ele e relaxar os cuidados, pois precisam viver.

É assim. Sempre foi assim. É assim em regiões de guerra civil, sírios negociam com o risco diariamente para viverem com alguma naturalidade.

Essa realidade é inescapável. O risco violento e imediato nos faz retrair e tomar providências rigorosas, o risco violento permanente nos faz negociar e aumentar nossa tolerância para vivermos nossas vidas.

Um outro exemplo. O risco de contrair tuberculose na Rocinha é 15 vezes maior do que a média brasileira, provavelmente 50 a 100 vezes maior do que no Leblon. E as pessoas saem às ruas e levam suas vidas normalmente. Dialogam com o risco excessivo para viverem a vida, que é o objetivo de todos nós.

Infelizmente, para boa parte de quem mora nas periferias, o risco de morte, de doenças endêmicas, de não ter acesso a tratamentos médicos, de filas do SUS, de conhecer alguém que morreu recentemente de forma estúpida e evitável, de ser assaltado e ter sua vida ameaçada é muitíssimo maior do que nas bolhas de classe média e alta do país.

Talvez por isso as pessoas tenham tanta dificuldade de cumprir a quarentena, por já viverem sob regimes elevados de risco. É uma hipótese apenas.

 

  1. Nós voltamos à vida depois da Gripe Espanhola.

Para que a atual pandemia atinja os níveis da Gripe Espanhola (GE), teríamos que atingir entre 200 e 400 milhões de mortes (nas estimativas mais comuns). No Brasil, algo como 200.000 mortes, e concentradas em poucas cidades.

Logo depois da pandemia, houve cuidados e certo medo de sua volta, mas a década de 1920 foi especialmente profícua para o mundo. Os EUA, um dos lugares mais atingidos pela GE, viveram uma década de euforia econômica, cultural, musical e de desenvolvimento, culminando com o Crash da bolsa em 1929, que foi causado exatamente pelo excesso de otimismo. Aliás, o desespero e o desalento gerados após o Crash de 1929 duraram muito mais tempo do que os efeitos da GE. Esse é um perigo que corremos hoje.

A respeito da década de 1920 nós não escrevemos sobre o medo, mas sobre realizações. Realizações científicas, intelectuais, culturais e econômicas. Sobre a década de 1930, após a crise econômica que assolou o mundo inteiro, escrevemos sobre o desalento, a pobreza, a fome, o suicídio e a ascensão de regimes totalitários.

Reflitamos: Diante de um dos eventos mais catastróficos da história, em termos de velocidade de óbitos, superando inclusive as duas grandes guerras, nós fomos capazes de dialogar com o medo e com a história e voltar a viver de forma frutífera. E estávamos muito feridos, pois provavelmente a maioria das pessoas teve algum familiar ou amigo próximo vítima da GE, mas voltamos.

Estão condicionando nossa volta à vida normal a remédios milagrosos e vacinas que nunca existiram (para coronavírus). Após a GE não houve vacina, não houve remédio potente, nosso sistema de saúde continuou péssimo, as pessoas passavam fome em muitos lugares, os hábitos de higiene eram inexistentes e quase todos viviam em condições precárias de saneamento básico. E voltamos.

E o mais importante. A Gripe Espanhola nunca mais voltou a assombrar a humanidade. Não houve mais nenhum evento único com dezenas de milhões de mortes causadas por vírus depois dela.

 

  1. O que esperar da volta da COVID19?

Nós estamos vendo uma destruição enorme do vírus, com excesso de mortalidade em vários locais do mundo. Em outros locais (como em metade da Europa) a mortalidade excessiva ficou negativa.

Por que isso? Por que devastou algumas regiões e outras não? Não sabemos responder ainda.

As coisas, porém, estão fora de perspectiva, pois estamos no meio da pandemia e com muito medo, o que nos leva a uma visão linear do problema. Vemos apenas uma variável: o vírus. E associamos toda a destruição causada exclusivamente a ele, mas isso não é verdade. Ele está tendo muita ajuda para causar essa destruição.

Nós estamos horrorizados com as mortes narradas diariamente, alguns vídeos com pessoas com falta de ar nos fazem entrar em desespero.

Mas, infelizmente, as doenças por patógenos externos que levam à morte não são diferentes, na verdade, algumas são mais assustadoras. As 150.000 mortes anuais por problemas respiratórios no Brasil também acontecem de forma horrível, com as pessoas sufocando ou com falência sistêmica dos órgãos.

Se narrássemos o estado das pessoas que vão a óbito por malária, teríamos um quadro devastador. Falência do fígado, dos rins, rompimento do baço, hipóxia por anemia severa, inchaço cerebral e edema pulmonar. E nós temos remédio e protocolo de tratamento para malária.

Quando a meningite, a encefalite ou a tuberculose levam a óbito, os quadros clínicos em que ficam os pacientes são deprimentes.

O ponto aqui é trazer as coisas para a perspectiva correta. Estamos vendo mortes narradas, mortes horríveis, principalmente, por falta de ar. Ocorre que os outros óbitos que não são narrados, pois estão dentro da normalidade, não são menos horríveis. Todo óbito de doença causada por patógeno é horrendo. A morte por dengue hemorrágica é digna de filme de terror. Desesperadora.

Morrer por doença severa é sempre horrível. Tive um amigo que teve TB no cérebro e foi se deteriorando por 2 meses, perdeu os movimentos, entrou em coma, ficou cego, teve tromboses diversas (como na COVID) até que teve falência múltipla de órgãos. Até então era saudável e tinha 40 anos. Minha mãe morreu de forma inesperada em 2004 após uma infecção hospitalar avassaladora.

Todas essas doenças, que são recorrentes, não precisam de idade ou de comorbidades para destruir, elas matam por si mesmas, pela violência de sua reação no organismo.

Para todas elas nós temos remédio, protocolo testado e aprovado, vacina, preparação dos médicos, protocolo de isolamento eficiente etc., e ainda assim ceifam milhões de vidas todos os anos no mundo.

A maldita COVID, ao contrário, está com um caminho extremamente facilitado.

Nós não temos remédio para enfrenta-la, não temos vacina, não temos protocolo de isolamento, não estamos preparados, não temos imunidade de rebanho (pega em todo mundo), é altamente transmissível e deixa 85% das pessoas assintomáticas, que ficam produzindo e espalhando vírus por até 21 dias, o que ajuda ainda mais a se espalhar.

A COVID é a tempestade perfeita, mas não pelo vírus em si, pela estrutura sistêmica de destruição que ele traz consigo.

Pense de outra forma para entender a perspectiva: O que aconteceria se nós não tivéssemos vacina, remédio, protocolo de isolamento e imunidade de rebanho contra a gripe H1N1?

Hoje não dá para saber, mas em 1919 aconteceu exatamente isso e a gripe levou entre 50 e 100 milhões de vidas.

A questão que se coloca, em termos de futuro, é a seguinte: quando a COVID voltar ela vai trazer os mesmos fatores estruturais que a tornaram tão mortal?

Provavelmente não. Seja por que teremos algum nível de imunidade de rebanho, seja por alguns protocolos de cuidados de higiene ou por tratamentos eficazes. Nós não desenvolvemos vacinas para todas as doenças, mas temos tratamento para praticamente todas. Outro ponto é que saberemos explicar porque alguns lugares foram poupados e outros destruídos.

Tem uma outra coincidência trágica que ajudou demais a COVID a fazer seu estrago no hemisfério norte. As temporadas de gripe na Europa foram fraquíssimas esse ano, não houve mortalidade excessiva alguma (pode ser visto nos gráficos da euromomo.eu). A temporada de gripe de 2014-2015 (é no inverno) matou 217.000 pessoas de 65 anos a mais do que a média. Uma temporada barra pesada de gripe matou quase o dobro do que a COVID até agora na Europa. (ver: https://www.youtube.com/watch?v=hjRyw0QrTLM)

Os professores André Vieira e John Ioannidis (o mais respeitado epidemiologista do mundo) associam a elevada mortalidade da COVID com o fato dela matar os mesmos indivíduos que a gripe comum, como não houve mortalidade excessiva no inverno, havia disponibilidade de pessoas vulneráveis para outra onda de gripes (fora de temporada). Mais um elemento estrutural que ajudou a COVID a ser tão mortal.

COVID + razões estruturais = desastre.

Precisamos conhecer essas questões estruturais tão bem quanto o vírus em si.

Conclusão

Há todos os motivos do mundo para termos medo. O principal deles é a doença ser desconhecida, não ter remédio e infectar a todos e muito rápido, o que deixa os sistemas de saúde lotados.

Porém estamos discutindo aqui se nunca mais seremos os mesmos. Entendo que essa visão não se sustenta, pelos motivos descritos, que resumo a seguir:

  • Nós estamos vivos para viver, é nossa única função orgânica e natural na Terra. Quando encontramos um risco gravíssimo e novo nos recolhemos, mas se esse risco permanecer no longo prazo, acabamos nos acostumando e dialogando com ele para tocarmos nossa vida. Isso não é uma hipótese infundada, é simplesmente uma observação de algo evidente não só em nossa espécie como em todas as outras espécies complexas. Todas dialogam com riscos elevados para cumprir sua função na Terra: viver.
  • Não deixamos de viver após pandemias gravíssimas. Não deixamos de viver quando a varíola matava 2 pessoas a cada 100 em um ano em algumas localidades da Europa no século XVIII. Convivemos com doenças bem mais terríveis do que a COVID há séculos, que continuam matando aos milhões ainda hoje e não deixamos de viver. A década de 1920, pós Gripe Espanhola, foi próspera para o mundo. O ano de 1968 é lembrado pelas revoluções culturais em todo o mundo, não por uma Pandemia mortal (Hong Kong Flu, que matou, em números ajustados para a população da época, 5 vezes mais do que a COVID até agora).
  • Estamos vendo a pandemia sob um regime de excesso de informação. Se tivéssemos esse mesmo excesso de informação sobre outras doenças, ficaríamos ainda mais horrorizados. A COVID é uma doença grave, mas que teve facilidades que nenhuma outra doença recente teve: não tem remédio, não tem vacina, não tem protocolo médico, espalha rápido demais, tem período longo de incubação, tem transmissão por parte de assintomáticos durante semanas e não há imunidade de rebanho. A última vez que tivemos uma doença com algumas dessas facilidades, que atingiu todo o mundo, morreram de 50 a 100 milhões de pessoas. Mais recentemente, a H3N2 matou 1.000.000 de pessoas em 1968 e hoje ela volta todo ano como uma das variações da gripe. E continuamos vivendo.

Hoje eu entendo que não há o que fazer, exceto sentir esse medo e nos recolher. Foi a opção das autoridades e dos cientistas que venceram a narrativa pela luta por nos guiar nessa pandemia. Quem gritou mais alto a maior quantidade de mortes, foi mais ouvido. Faz sentido, pois o medo fala alto mesmo.

Mas, em termos de futuro, não há, até agora, nada que indique que não voltaremos a ser o que sempre fomos.

Mesmo que as autoridades continuem nos forçando ao confinamento e sugerindo que não devamos viver como vivíamos, em alguns meses as pessoas vão se acostumar com o risco e voltar à sua rotina aproximada. Sempre foi assim.

Por que sei isso?

Porque é para isso que estamos aqui. As pessoas enfrentam todas as dificuldades, diariamente. Acordam às 4 da manhã, pegam condução lotada, ganham pouco, passam 14 horas fora de casa para se sustentar, justamente para poder abraçar, amar, tocar, beijar, cuidar e buscar a felicidade. Tomar uma cerveja e torcer pelo seu time. A ideia de que isso não vai mais acontecer é absurdamente insuportável. Surpreende-me que as pessoas a aceitem de forma tão fácil.

Vamos nos proteger para um dia conhecermos a história que estamos escrevendo. Por ora tudo é confusão.

Sorte e saúde a todos!

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  • Disclaimer

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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