Bitcoin. O que esperar do Mercado Futuro?

Posted on 11/12/2017. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, |

Em setembro de 2017 escrevi um artigo explicando o que é o Bitcoin, segundo minha percepção é claro.

Em resumo, expliquei que, no meu entendimento, o Bitcoin é como a moeda do Super Mário, ou seja, uma recompensa virtual que você recebe por jogar um determinado jogo. No caso do Bitcoin, seria a recompensa por oferecer capacidade computacional para que o próprio jogo “rode”.

A diferença entre as recompensas que você ganha por seus esforços em um videogame e o Bitcoin é a existência de um mercado secundário (o primário é dentro do jogo) relativamente líquido para comprar suas conquistas virtuais em moeda corrente.

E subiu mais 500% desde então!

É claro que fui confrontado, educadamente, por gente que não concordava com o que escrevi. Mas, creio eu, houve mudanças significativas nos últimos 3 meses que corroboram em grande parte o que está no artigo.

Primeiro, há apenas 3 meses ainda se falava que o Bitcoin viraria uma moeda de uso corrente, e que isso seria seu grande valor. Deveríamos entrar hoje e, quando a moeda fosse aceita em qualquer estabelecimento, estaríamos bastante ricos, pois o poder de compra já estaria nas alturas.

Nada disso fazia sentido e, hoje, acho que faz menos sentido ainda.

O que vimos foi uma quantidade crescente de pessoas aceitando Bitcoin, mas não para fazer disso uma moeda de troca. O quitandeiro que aceita Bitcoin não usa Bitcoin para pagar seu fornecedor. E assim vale para os estabelecimentos que aceitam a “moeda” virtual, eles o fazem EXCLUSIVAMENTE para acumular Bitcoins e não para circular como meio de pagamento.

A prova mais contundente de que Bitcoin não é (e provavelmente não será) moeda é que as narrativas adotadas, inclusive pelos defensores da “moeda” virtual, já não levam em consideração esse futuro.

A principal comparação do Bitcoin hoje é com o Ouro, que evidentemente não é moeda, mas é visto como reserva de valor que também não tem “fundamento”, ou seja, seu preço é dado por compradores e vendedores no mercado futuro e pouquíssimo se negocia no mercado à vista. Em resumo, o valor do OURO não é dado por seu uso (fundamento), mas pela percepção de reserva de valor medida pela negociação de derivativos de ouro.

Bitcoin então seria o novo “Ouro”?

Seria MUITO surpreendente se o Bitcoin virasse uma “commodity sem fundamento” como o Ouro. Isso porque o Ouro levou várias centenas de anos para se tornar o que é. Está presente e era valorizado na história de vários povos, está no imaginário popular há, talvez, 2 milênios (ou mais). Além disso, foi utilizado mundialmente como padrão de conversão e reserva de valor por vários países, inclusive e principalmente os mais desenvolvidos.

Não é impossível, mas parece improvável demais que o Bitcoin consiga, em alguns anos, ocupar o espaço de “commodity irracional universal” que o Ouro ocupa. Chamo de irracional, pois os preços de soja, petróleo, gás, carvão entre outras commodities tem relação direta com seu valor de uso, seu custo de produção, expectativa de demanda, expectativa de oferta etc., já o ouro é mais negociado como reserva de valor e pouca relação tem com seu valor de uso.

E o Mercado Futuro?

Tinha dúvidas se derivativos de Bitcoin iriam encontrar giro relevante em sua estreia, mas parece que tanto a demanda quanto a oferta desses derivativos foram bastante grandes, de forma que é possível acreditar que os contratos futuros e opções terão negociação suficiente para cumprir o papel de proteção (hedge) e de especulação que os derivativos costumam prover.

Coisa que pouca gente sabe é que várias cotações à vista costumam ser derivadas dos contratos a termo (futuros). É estranho, pois os derivativos é que deveriam se movimentar a partir das oscilações do ativo subjacente, porém isso é APENAS uma questão de fluxo, de liquidez e de volume. O mercado que forma preço é o que tem mais liquidez.

As operações com derivativos montam às centenas de trilhões de dólares. A maior parte das negociações envolvendo moedas, por exemplo, ocorre em mercados futuros, a negociação “física”, em que a moeda troca de mãos no mercado à vista, é mínima em comparação com os contratos de proteção e especulação. As operações do Banco Central, de SWAP Cambial, estão aí para demonstrar.

A respeito do futuro do Bitcoin com a introdução de um mercado de derivativos baseados nele apenas podemos especular, pois é tudo muito novo.

Mas provavelmente, caso o mercado tenha realmente grande liquidez, o Bitcoin deve frear sua oscilação.

A expectativa geral era de que o Bitcoin disparasse com a entrada do Mercado Futuro e aumentasse rapidamente seu valor ao longo do tempo. Mas se esse mercado funcionar como funciona para outras commodities, provavelmente o preço do ativo subjacente (ou seja lá o que for o Bitcoin), é que será influenciado pelo preço futuro.

Quem vai dizer qual mercado vai mandar nos preços à vista é a liquidez. Se o mercado futuro girar dezenas de vezes mais que o mercado à vista, provavelmente a lógica e a racionalidade dos traders de derivativos vai se impor sobre a negociação à vista do ativo subjacente. E isso deve frear a irracionalidade econômica do Bitcoin.

Deve, mas nunca podemos saber até que ponto as pessoas estão dispostas a se arriscar. Lembro que em 1997, metade da economia da Albânia foi varrida do mapa por um esquema de pirâmide.

O Bitcoin não é um Esquema Ponzi, não é ilegal, mas tem alguns aspectos parecidos. O principal é convencer milhões de pessoas a investirem com expectativas irracionais de retorno, o segundo aspecto é não ter qualquer fundamento econômico palpável e o terceiro é não ter qualquer regulação.

E por isso cresce, e pode crescer ainda mais. O céu (ou o inferno) é o limite quando não há fundamento. Tudo pode.

Outros riscos

Formação de preços é coisa séria para o mercado. Enquanto no mercado de Bitcoin, completamente desregulado, seria razoavelmente fácil montar uma operação Zé-com-Zé, em que dois ou mais grandes players dão liquidez ao Bitcoin elevando os preços artificialmente, no mercado comum isso é crime. E esses preços são formados nas corretoras, não necessariamente no blockchain.

A vantagem (ou desvantagem) de um mercado futuro forte, é que um grande player pode sair do ativo sem derrubar a cotação à vista. É um risco, pois se alguns tubarões saírem, devagar, as sardinhas não tem condição de manter a cotação. Mas para quem acumulou bilhões é um grande negócio vender no mercado futuro e garantir o preço. Dá para sair sem assustar. Pelo menos no início. Como já disse, o mercado futuro tende a negociar MUITO MAIS do que o próprio estoque da commodity. De valor nocional, o mercado de derivativos mundial beira o quatrilhão de dólares, mais de 10 vezes o PIB mundial.

Mas continua subindo!

A explicação é simples. O Bitcoin já é negociado por mais de 1 milhão de brasileiros. Da vovó ao verdureiro, todos querem comprar Bitcoin. E assim é no mundo. As pessoas com um pouco mais de instrução financeira também compram, mas normalmente com dinheiro de aposta (aquele que pode perder).

Bitcoin não tem fundamento, é só fluxo e, repito, a prova disso é que nem se fala mais nele como moeda, mas como tecnologia ou reserva de valor (como o Ouro). Isso em apenas 3 meses. Ninguém sabe qual será a narrativa para justificar seu valor em 3 meses.

É a moeda do Super Mário, com mercado secundário. E só. O que não significa que você não possa ficar milionário no mundo real. Ou não.

O futuro do Bitcoin chega rápido. Veremos o que acontecerá.

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  • Disclaimer

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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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