E se pudéssemos pagar juros para nós mesmos? Melhorando a rentabilidade nos fundos de pensão (FUNPRESP).

Posted on 09/02/2020. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , , , |

Caros leitores,

A sugestão que trago nesse post provavelmente é bloqueada por um sem número de regras prudenciais de fundos de pensão, mas será que essas regras fazem sentido?

Antes de respondermos essa questão, vamos mostrar o “milagre”.

Fundos de Pensão fechados, como o FUNPRESP, emprestam dinheiro aos seus participantes com taxas relativamente baixas. Hoje a carteira de investimentos do FUNPRESP tem cerca de 0,5% de fluxo de caixa que vem dos seus próprios participantes, que tomam empréstimos e pagam prestações com juros.

E se as regras permitissem que o participante pegasse esse empréstimo e pagasse juros para si mesmo?

Do ponto de vista de finanças (retorno e risco), não há nada de anormal na proposta. Tomemos um exemplo:

A pessoa tem 100.000 reais de patrimônio no FUNPRESP (vou usar como exemplo o FUNPRESP, pois tenho os dados) e quer tomar 100.000 reais emprestado. Hoje bastaria pedir autorização para um consignado e tomar o empréstimo. Normal, isso é feito o tempo inteiro nos dias de hoje. O dinheiro seria disponibilizado na conta e o pagamento das prestações sairia direto do salário do participante para o fundo. Totalmente legal, totalmente permitido.

Para um empréstimo de 48 meses, o FUNPRESP cobra 1,22% de juros ao mês. Isso daria 48 prestações de R$ 2.764,86.

As opções são as seguintes: deixar os R$ 100.000 rendendo na carteira geral ou tomar o empréstimo e pagar para você mesmo (se fosse permitido pela legislação).

Observe na simulação da planilha, considerando uma rentabilidade da carteira geral do FUNPRESP de 5% acima da inflação (9% de juros nominais).

A carteira geral vai começar com 100.000 e subirá a cada mês com base na rentabilidade de 9% ao ano.

Quando você toma o empréstimo, o fundo poderia organizar alguma engenharia financeira para que você recebesse de você mesmo (segregação de carteira). Mais adiante discutiremos como isso seria possível.

Nesse caso, todos as prestações voltariam para você mesmo, ao longo dos 48 meses. Os valores pagos para quitação do empréstimo passariam a render pela carteira própria do fundo.

Os resultados são bem interessantes. Se o FUNPRESP vai mal, a carteira segregada de empréstimos vai bem, se o FUNPRESP vai muito bem (rentabilidade acima das taxas cobradas no empréstimo), a carteira segregada de empréstimos também vai bem. Vejamos na tabela a seguir:

Perceba que as rentabilidades se diferenciam bastante quando o fundo está rendendo pouco (4% ou 5% reais ao ano).

A carteira segregada só perderia no caso de a rentabilidade da carteira própria ser maior do que a taxa do empréstimo.

Se em um ano a carteira própria do fundo rendesse 16%, a carteira segregada de empréstimos perderia dessa rentabilidade (renderia 15,84%).

O que se vê é que esse método reduziria a volatilidade da carteira própria.

 

 

Os problemas e as soluções.

Isso não é possível hoje, mas será que essa proibição faz sentido?

Com relação às coisas boas desse método de segregar a carteira de empréstimos individual, temos que o participante teria um relacionamento inteiramente novo com o financiamento. Mesmo que ele fosse superavitário e não precisasse de empréstimo, como os juros serviriam de “aporte” extra em suas economias, talvez optasse por comprar um carro parcelado em vez de à vista. E o dinheiro que ele teria para comprar o carro à vista, permaneceria aplicado. Você poderia tomar um empréstimo para consumir agora, mas o pagamento geraria ainda mais poupança de longo prazo.

Do ponto de vista prudencial, entendo que segregar a carteira de empréstimos individual não gera qualquer transtorno para o fundo, pois o risco de inadimplência acabaria recaindo sobre quem tem direito àquele fluxo de caixa (o próprio tomador do empréstimo). E, considerando empréstimo consignado de servidores públicos, o risco é baixo anyway (exceto se o governo e o congresso cortarem 25% do salário de todos, aí pode gerar uma quebradeira geral nos consignados, ou na vida privada dos próprios servidores).

A indústria financeira talvez não goste da hipótese. Provavelmente não gostaria, pois muitas pessoas passariam a recorrer a empréstimos em seus próprios fundos de pensão, em vez de acessar bancos.

Um problema que adianto, é que isso não poderia acontecer com 100% da carteira, pois nesse caso não existiria carteira própria para remunerar os pagamentos das prestações do empréstimo.

O governo e a regulação… Bom, aí é que as questões ficam nebulosas.

Se essa atitude fosse tomada por muitas pessoas, o dinheiro seria canalizado mais para consumo do que para investimento privado (ou gasto do governo). Quando colocamos dinheiro no fundo, o fundo empresta para o governo para ganhar entre 6% e 8% ao ano nos títulos público, ou investe em empresas.

Pode haver risco de redução de recursos para comprar títulos públicos, e isso prejudicaria o financiamento do governo. Por outro lado, haveria crescimento do consumo o que geraria mais impostos e mais investimentos privados (empresas crescendo por conta do consumo).

A questão tributária pode ser decisiva sobre o tema.

Ao colocarmos dinheiro no PGBL, temos um benefício fiscal de 27,5% de cara. O governo poderia entender que esse empréstimo pareceria com uma “retirada” simulada. Entendo esse ponto, mas a questão é que isso já ocorre. As pessoas podem retirar a título de empréstimo normalmente, a qualquer hora, a diferença é que o fluxo de caixa gerado é recebido por toda a carteira do fundo e não por uma carteira segregada apenas para o tomador de empréstimo.

Isso é justo? Imagine que 15% das pessoas peguem empréstimos (limite aceito pela regulação para disponibilização de recursos para empréstimo nos fundos de pensão) e paguem cerca de 16% ao ano. Só isso já garantiria uma rentabilidade de 2,4% ao fundo como um todo. E é um esforço exclusivo dos tomadores de empréstimo. Eles garantem, com fluxo de caixa gerado por eles mesmos, um bom retorno para o fundo. Perece que seria mais justo se esse esforço dos tomadores ficasse com eles mesmos.

Tudo isso é permitido, creio que a questão seria de mudança de regulação e de contabilidade mesmo, de questões de liberação de segregação de carteiras dentro do fundo e de ampliação dos limites para disponibilidade de recursos para empréstimos dentro do fundo (hoje, se não me engano, é de 15% da carteira).

Enfim, não vejo problema insolúvel para implementar uma proposta dessa na regulação.

Poderia ser uma solução para liberar bastante dinheiro na economia para consumo e estimular o crescimento, aliado a uma melhora potencial na evolução patrimonial dos fundos de pensão.

Caso o governo tenha receio dos impactos que isso geraria no financiamento da dívida pública, pode começar com uma autorização menor, por exemplo, de 25% do patrimônio individual do participante. Se o participante tomasse 100% de seu patrimônio a título de empréstimo, poderia destinar 1/4 disso para uma carteira segregada. Ou alternativamente, todos os tomadores de empréstimos poderiam participar da rentabilidade de toda a carteira de empréstimos (na proporção em que participam dessa carteira de empréstimos).

Enfim, ideias. Nada é fácil, eu sei, mas isso não impede que a gente tente pensar fora da caixinha. Vai que sai alguma coisa interessante.

Ps. Falando aos participantes do FUNPRESP, com base na regulação atual entendo que a única forma de participar de forma mais ativa dos fluxos de caixa gerados pelos próprios participantes, seria criar um perfil com até 15% de carteira de consignado e 85% de carteira própria. Já há 4 perfis com diferentes percentuais de investimento, criaria mais 1.

Esse perfil só poderia ser escolhido por tomadores de empréstimos (no mínimo 30% da reserva, por exemplo). É imperfeito, mas é justo com os geradores desse fluxo de caixa.

O que pode acontecer é o sucesso da estratégia levar mais pessoas a tomar consignado, o que é bom para o fundo de forma geral, um fluxo de caixa de risco baixo e retorno bem alto.

Se houver necessidade de bloquear novos empréstimos, por ter atingido os limites regulatórios, será o caso de pressionar por um aumento dos limites.

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A Pirataria, a Incompetência Empresarial e uma Solução Jurídica Original

Posted on 10/03/2016. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Música, Política | Tags:, , , , |

Recentemente um órgão internacional de proteção aos direitos autorais revelou que o Brasil era o segundo país onde mais se baixa ou se utiliza, irregularmente, conteúdo protegido, atrás apenas dos Estados Unidos.

Parece que o maior problema seria com games, segundo eles.

Eu não vou “chover no molhado” discutindo a moralidade, legalidade ou as implicações da atitude de usar conteúdo protegido sem pagar, ou pagando muito pouco. Não é o objetivo desse artigo.

Pretendo sugerir que a legislação atual, que criminaliza de forma direta e objetiva a atitude da pirataria, é contraproducente e atrapalha demais o desenvolvimento dos mercados de direitos autorais.

 

A incompetência empresarial

Temos um modelo de entendimento a respeito do mundo empresarial e financeiro extremamente equivocado.

O fato de alguém ser rico, bem sucedido, não faz dele, necessariamente, uma pessoa brilhante.

Na maior parte das vezes, as pessoas são ricas porque compram algo por R$ 10,00 e vendem por R$ 20,00. E fazem isso milhares de vezes por mês.

Essa mesma pessoa não estaria apta, só por ter feito fortuna, a opinar sobre estratégia empresarial, desenvolvimento da indústria ou o futuro da nação. Muitas vezes é apenas um bom comerciante, ou teve uma boa formação técnica e ocupa um cargo de destaque em algum grupo empresarial.

Eu compartilho do entendimento de Carl Icahn e outros investidores ativistas dos EUA, de que as Companhias são, na maioria das vezes, geridas de forma pobre, pouco criativa e pouco inteligente. E na maioria das vezes o sucesso vem por acaso.

Infelizmente o recente boom das commodities no Brasil mostrou isso. Dependendo do vento, até tijolo voa. Ventou muito. Pouca gente continuou voando quando o vento acabou. Quase ninguém, nem o próprio país.

A lógica de Icahn, da qual compartilho, é que a vida empresarial no topo tende a ser conservadora, tende a se preocupar, principalmente, em manter o status quo, na marra, com hordas de advogados, se for necessário.

 

O Napster

Creio que o primeiro grande caso que me incomodou foi o da briga da indústria fonográfica com o Napster.

Escrevi sobre isso em 2001 e enviei para a Enanpad, apenas para deixar registrado. No artigo sugiro uma visão de futuro completamente diferente para a época, mas hoje meio óbvia. A seguir, para quem quiser ler em retrospectiva.

Artigo

O Napster foi o primeiro grande sucesso no compartilhamento de arquivos, quando a internet ainda era, praticamente, uma tartaruga discada. Chegou a ter 100 milhões de usuários, o que para o início dos anos 2.000 era um feito e tanto!

A indústria fonográfica viu no napster uma ameaça, eu vi a redenção. Eu vi, com clareza, um modelo que poderia reduzir extremamente a ineficiência da própria indústria.

Indústrias têm objetivos sociais, aqui não falo de filantropia ou responsabilidades socioambientais, falo da tal “razão social”, o que ela agrega à sociedade e o que faz a sociedade pagar por esses benefícios.

A indústria do entretenimento nos traz estímulo sensorial. Nos traz sentimentos, vibração, memórias, amor, raiva e tudo o que aquela música ou filme conseguir despertar no “consumidor de sensações”.

A razão social ERA distribuir e entregar CDs ou DVDs, quando isso exigia parrudos investimentos em logística. Esse ERA o valor agregado. Não é mais e a indústria demorou a ver isso.

O Napster fez coisas incríveis. Fez você consumir esses sentimentos de outra forma. Não precisava mais comprar 10 músicas para ouvir uma. Não ficava à mercê de um sistema de distribuição e de promoção para ouvir uma música “fora de catálogo”, esperando um “The Best Of”. Não precisava gastar horas no rádio tentando gravar sua música antiga favorita.

E o que fez a indústria contra um garoto que, sozinho, revolucionou o sistema de distribuição de sensações?

Bom, dentro do ambiente empresarial a atitude, conservadora, hipócrita e, claro, destruidora de valor, foi iniciar uma guerra jurídica para destruir o Napster.

Não se deve ouvir seu corpo jurídico nessas horas. Não são especialistas nos negócios que defendem e, jamais, irão sugerir algo que lhes tire as “billable hours” do litígio sem fim.

A estimativa à época era de que a indústria gastou alguns bilhões de dólares, e muitos mais adiante, para destruir um modelo que, obviamente, viria a ser vitorioso NA MARRA anos mais tarde. E a indústria, praticamente, quebrou.

 

A guerra jurídica e a destruição de valor

Tenho muitos amigos defensores do liberalismo econômico puro, acreditam que o “mercado” resolverá suas inconsistências.

Tendo a concordar com eles em muitas coisas, mas não concordo que o mercado seja virtuoso a ponto de nos criar SEMPRE mais valor.

Na verdade acho que a evolução é no sentido de gerar valor, mas, muitas vezes, o corpo empresarial, político e jurídico atuam para nos atrasar por décadas.

Lembro-me de dizer várias vezes a um amigo que trabalhava na Microsoft, isso há mais de uma década, que o modelo de negócios estava errado. Não fazia sentido vender software caro, era muito mais inteligente alugar barato.

Até acho que os dirigentes da pequena e mole (Microsoft) sabiam disso, mas a justificativa era essa: “It´s a multi-billion dollar business”. Não se mexe com isso.

Os libertários acreditam na virtude mundo empresarial, para nos levar a um mundo melhor. Lamento, mas o mundo empresarial, na maioria das vezes, só discute quanto tempo mais eles precisam para amortizar seus investimentos.

Talvez pudéssemos, num mundo ideal de concorrência, onde os lobbies, os corpos jurídicos e os empresários jurássicos estivessem em segundo plano, ter carros a hidrogênio ou movidos a flatulência, ter energia gratuita em casa, ter descoberto a cura do câncer e da Aids, entre outras coisas.

Não temos esses benefícios e jamais saberemos se foi por incompetência técnica, ou porque “you don´t mess with a multi-billion dollars business”. Nas planilhas, tem que se usar AZT e gasolina por mais uns 20 anos para pagar os planos de negócios, as TIRs e os VPLs.

Esse é o mundo, desculpem pela franqueza.

Existe um mundo pior, entretanto. Está na Coréia do Norte, em Cuba etc., onde nem os “multi-billion dollars businesses” existem. Existe apenas o Estado.

Agora me desculpo com o “outro lado”, os estatistas. É inacreditavelmente pior assim.

 

Bill Gates e Steve Jobs

Recomendo ler sobre a vida de Steve Jobs. Ele levou sua Apple às alturas com um monte de loucura empresarial. Em determinado momento contratou o “melhor CEO do mundo”, que vendia água com açúcar e corante (Pepsi).

Em pouco tempo o conselho de administração, que representa quem colocou grana no negócio, expulsou Jobs da empresa para implantar um regime trivial de planos de negócios, taxas de retorno e outras tecnicalidades financeiras.

Como disse no início, dependendo o vento até tijolo voa. No caso, o fim do vento foi a demissão de Jobs. Foi taxado de maluco por querer vender um computador que custava US$ 2.000 por US$ 999. E parece loucura, mas em vez de forçar a engenharia a reduzir esses custos, a Apple trilhou o caminho dos burocratas das taxas internas de retorno e quase faliu.

Talvez falisse com Jobs também, à época, se não fosse possível baixar os custos. Mas custos são diminuídos com boa técnica. Genialidade não se encontra em CEOs que seguem a cartilha do Conselho de Administração, sem questionar.

Jobs voltou e, utilizando muito do que o Napster nos ensinou (com o Ipod), levou a empresa a valer mais do que todas as empresas brasileiras listadas em bolsa juntas.

Recomendo também o filme “Os piratas do vale do silício”, que conta a história de Jobs e de Bill Gates. Piratas que hasteavam bandeiras de piratas.

Bill Gates não é bobo. Usou a pirataria para levar a Microsoft ao monopólio do sistema operacional.

Quem usa Windows há 20 anos ou mais sabe que era caríssimo no início. Um pacote Office com Access era quase impagável para uma pessoa física ou para pequenas empresas.

Mas a pirataria de Windows era recorrente, quase a totalidade dos domicílios brasileiros, que tinham computadores, não tinham cópias legalizadas. Chego a afirmar que, mesmo em empresas, a maioria dos softwares era pirata.

Vale lembrar que, na década de 1990, os computadores não vinham com Windows. Não era fácil e barato como hoje.

E o esforço contra isso, por parte da Microsoft, era mínimo, no início, quando o Windows ainda não era o padrão mundial de sistema operacional.

Se Bill Gates tivesse gastado bilhões para destruir essa pirataria inicial, e efetivamente conseguisse garantir que apenas quem comprasse usaria o Windows, COM CERTEZA, outros sistemas operacionais apareceriam e o Windows jamais teria esse monopólio. Provavelmente nem existiria mais.

A pirataria foi a maior aliada de Bill e ele sabe disso. A facilidade de usar Windows e a suíte Office fez com que, naturalmente, as pessoas só soubessem usar isso. As empresas contratavam pedindo conhecimento em: Windows, Excel, Word etc.. Olha que reserva natural de mercado!

Creio que a prova disso é que nem sistemas operacionais gratuitos, ou planilhas gratuitas conseguiram tirar da Microsoft seu monopólio.

Bill, se pudesse, agradeceria a todos os bilhões de piratas que fizeram do Windows o padrão da computação doméstica e empresarial.

 

A pirataria como reguladora da incompetência empresarial no mundo do entretenimento

É claro que, quando você vira um “multi-billion dollar business” você abandona a pirataria e faz contas sofisticadas, para demonstrar que, por exemplo, uma superinovação precisa esperar de 5 a 10 anos para ser lançada, para não prejudicar os produtos atuais.

E assim caminha a humanidade. Refém das taxas internas de retorno, do judicialismo, dos lobbies para afastar a concorrência e esconder a podridão etc..

Parece-me óbvio, muito óbvio, deveras óbvio, que a modelagem atual de consumo legal de conteúdos protegidos, como Netflix, Itunes, You tube etc., existe porque se impôs na marra.

Existe porque a indústria falhou no protecionismo jurídico e policial. Apesar de AINDA tentar combater esses meios, pelos quais a maioria dos seres humanos vê e ouve seu entretenimento sensorial.

O que é um crime?

É o que está tipificado no código penal.

Quando você gravava os discos emprestados de um amigo num K7, ninguém via nisso um crime. Ainda que pudesse ser.

Há alguns anos, se você soprasse um bafômetro depois de 1 copo de cerveja, seria liberado. Se soprar hoje, será processado como criminoso.

Quem define é o legislador. O que era comum há 20 anos, hoje talvez seja crime inafiançável.

Se o Estado quiser, o cidadão jamais conseguirá viver dentro da lei. Você pode ser processado, por exemplo, por pagar um engraxate de 12 anos. Será estímulo ao trabalho infantil.

O Estado precisa entender que não está lá para isso.

Como o legislador poderia proteger os conteúdos e seus proprietários e, ao mesmo tempo, exigir contrapartida empresarial?

Em vez de, simplesmente, dar garantias de uso da força policial e judicial do Estado contra os consumidores irregulares de conteúdo protegido, deveria exigir que a proprietária dos direitos dê a opção de compra, com as mesmas facilidades, para o consumo do conteúdo.

Explico.

Um filme recém-lançado no cinema.

Para ver esse filme há que se consumir vários outros serviços ou produtos. Gasolina, transporte público, estacionamento, salas, ar-condicionado, energia elétrica, projetores, películas, manutenções etc.

Para quem tem filhos, uma ida ao cinema a 2 pode custar fácil 300 reais, entre baby-sitter e esses consumos casados.

Como é evidentemente possível fazer esse conteúdo chegar com qualidade às casas, entendo que os detentores dos direitos só devam estar aptos, juridicamente, a interpelar quem baixa conteúdos irregularmente se houver a possibilidade de compra pelo meio mais simples, sem vendas casadas.

Aos protecionistas, um parêntese.

Dizer que os cinemas poderiam ir à falência NÃO é um argumento razoável, é protecionista e cartorial. Um negócio deve existir porque agrega valor e não porque é a única forma que a lei ou a indústria nos permite para ver um lançamento.

O cinema vencerá, com certeza, por oferecer segurança, telas e sons maravilhosos, um escurinho para abrigar os namorados, uma pipoca, som, enfim, por ser um EVENTO em si, e não pelo protagonismo imposto por um modelo de negócios arcaico.

Voltando ao novo modelo jurídico…

Imagine se os detentores dos direitos autorais fossem obrigados, para poder interpelar judicialmente um consumidor pirata, a oferecer opções de compra, sem venda casada, ou da mesma forma que ele consegue ver em casa.

Tenha certeza de que o streaming de vídeo já seria o que é hoje em 2004, o Netflix e afins seriam hoje, provavelmente, maiores do que a TV aberta e até do que a TV paga. O Youtube seria hoje, o que será apenas daqui a 10 anos.

Poxa, mas isso iria reduzir a rentabilidade de outras indústrias?

Ai, ai, ai! Olha a verve protecionista atacando de novo!

O que não é justo é que o mundo se atrase apenas por conveniência de gente que não quer inovar, de empresários de planilhas e de VPLs calculados para projetos de 10 anos.

Não é justo que se gaste bilhões de dólares em lobbies do atraso e com corpos jurídicos que existem para proteger esse atraso, em vez de criar modelagens que efetivamente agregam valor ao consumidor.

 

Encerrando.

O mundo de hoje é estranho. Há mecanismos claros para que os modelos de consumo de entretenimento sejam revolucionados a cada ano. A cada minuto até.

Mas o que fazemos?

Preferimos criminalizamos 35% da população suíça. Isso mesmo, aquele país com 3 homicídios por ano, 7 roubos, tem cerca de 3 milhões de usuários ilegais de conteúdo protegido.

Esses suíços são uns picaretas! Cadeia neles!

 

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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