Juros negativos. O fim do capitalismo? Com certeza não, é exatamente o contrário.

Posted on 05/07/2016. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , , , , , , , , |

Esperei bastante, mas infelizmente não consegui ler nenhuma interpretação razoável, ou minimamente coerente, sobre o inacreditável fenômeno dos juros negativos (em países ricos e confiáveis). Acho que ninguém está interessado em revelar as contradições da relação entre o sistema financeiro e os orçamentos públicos.

É tudo tratado como se fosse uma trivialidade, mas não é. Parece non sense uma pessoa investir 1.000 euros para retirar 995 euros após 10 anos, mas não é. Parece inofensivo, mas não é. Parece que será rápido e indolor, mas não será.

Parece o fim do capitalismo, mas é exatamente o contrário.

Ao leitor que não acompanha de perto as finanças internacionais, é isso mesmo que leu. Investir 1.000 euros para retirar 995 euros em 10 anos. Os títulos do governo alemão pagam juros negativos. E são títulos longos. Se segurar por 10 anos, vai perder.

Comecemos pelo fim. Pelo diagnóstico.

Qualquer que seja o caminho de análise uma coisa é certa: há dinheiro demais no mundo. Quando digo dinheiro, quero falar de ativos ultralíquidos, caixa ou equivalente. Não estou falando de patrimônio em ações, em limitadas, em imóveis ou outro ativo físico. É grana. É pila.

Parece bom, poderíamos resolver os problemas do mundo, mas é bem ruim e não, não poderíamos resolver os problemas do mundo. Vai ficar claro adiante.

Taxa de juros é preço do dinheiro.

Se são negativas (preço muito baixo), é porque há bem mais oferta do que demanda por dinheiro. Gente demais querendo emprestar, gente de menos querendo tomar. O tomador de crédito NÃO QUER aquele dinheiro. A única forma de ele externar isso é não remunerando os recursos que recebe, ou exigindo que alguém PAGUE para que ele aceite receber dinheiro.

Isso é uma gigantesca disfunção do sistema financeiro.

A persistir, o sistema de aposentadorias não funcionará mais. Nunca mais.

Um indivíduo que investe R$ 10.000 por ano a uma taxa de 2% ao ano, chegaria a R$ 500.000 em 35 anos (tempo de aposentadoria). Se a taxa fosse negativa (-2%) ao ano, não chegaria nunca a R$ 500 mil. Em 100 anos de indivíduo teria investido R$ 1.000.000 e seu saldo seria de R$ 433 mil.

Os valores são exagerados (os juros não são tão negativos), mas a lógica é válida.

Parte da culpa é do medo da catástrofe financeira

A última estimativa que li, do JP Morgan, indicava haver US$ 6 trilhões investidos em taxas negativas ou bem próximas de zero.

Ao que parece, a mão invisível está no bolso. E não sai de lá.

Na crise das pontocom, início dos anos 2000, houve brutal destruição de valor. Cerca de 4.000 empresas da NASDAQ deixaram de existir. Só o Yahoo fez a bolsa eletrônica perder US$ 90 bi de valor de mercado dos ativos listados.

Isso é capitalismo puro, na veia. Risco privado sofrendo severamente quando age por imprudência, imperícia e vaidade. As empresas sumiram, pois aquela riqueza não existia. O dinheiro sumiu.

Em 2008…

Ah, 2008…

Foi o inverso. Provavelmente foi o momento mais anticapitalista de história da economia moderna.

Tudo que aprendemos sobre livre mercado, baixa intervenção estatal, moral hazard (risco moral), agency costs (conflito de agência), mão invisível, destruição criativa etc., foi jogado no lixo. Por medo. Pavor, diga-se, de ruptura do sistema financeiro.

Será?

Jeremy Irons e o monte de lixo tóxico

Jeremy Irons é o dono de um banco no filme Margin Call (2011). Diante da equipe ele repete o diagnóstico: – Estamos sentados no maior monte de lixo da história do capitalismo. Amanhã vocês vão ligar para todos os seus clientes, parentes, amigos, até para a sua mãe, e vão vender tudo.

A crise de 2008 revelou que o mundo tinha alguns trilhões de dólares em papéis podres.

O que é isso?

Ora, se o banco emprestou US$ 500 mil para o sujeito comprar uma casa, o banco tem os recebíveis do tomador do empréstimo e a casa para retomar, se ele falhar. O tomador falhou com os pagamentos e a casa valia apenas US$ 100 mil. E ainda assim não tinha comprador.

Então é isso. Os bancos e algumas agências governamentais tinham emprestado trilhões. E isso não valia nada.

O que os governos fizeram?

Com medo de uma ruptura drástica, em que bancos grandes CERTAMENTE quebrariam, promovendo um colapso no sistema financeiro, “deram liquidez” para o lixo.

É mais ou menos o seguinte. Você tem um papel que ninguém quer. O governo compra de você por um preço MUITO acima do que valeria no mercado.

Um nome bonitinho, “quantitative easying”, que significou alguns trilhões de dólares dos ORÇAMENTOS PÚBLICOS para dar liquidez a lixo.

Olha uma coisa bem inútil na sua casa. Um carrinho de bebê velho. O governo compra pelo preço de um novo. Você venderia?

Quantitative easying significa “dinheiro correndo frouxo”. Grande parte é dinheiro público. A única fonte de recursos que havia sobrado, em 2008, eram os orçamentos dos países.

Trilhões que não deveriam existir

Qual é o propósito do dinheiro, da instituição “dinheiro”?

É circular. Para circular, ele precisa ser atraente. Para o comerciante que quer vender seu produto, para o produtor rural que quer financiamento, para o empresário que quer ampliar etc.

Aos que pensam, até aqui, que bastaria “pulverizar” esse dinheiro na África ou no América Latina, é importante esclarecer que dinheiro não existe como entidade absoluta. Dinheiro é entidade relativa. Ele faz sentido “em relação” ao que pode comprar ou produzir, não faz sentido absoluto. Nem é real, são só bits e bytes ao redor dos computadores do mundo.

O fluxo dele precisa fazer sentido, se o dinheiro perder o sentido, ele não valerá nada.

Antes de concluir, falemos da China

A China, em meu modesto entendimento, é o motivo subjacente que permitiu esse momento único da história das finanças mundiais.

Há um non sense nas finanças chinesas que, de certa forma, deixa a noção de dinheiro meio perdida.

É um país importante na economia mundial. Talvez o mais importante, em termos de “troca” de mercadorias e “posse” de recursos financeiros líquidos no mundo. Uma irracionalidade duradoura por lá, vai ter impacto em todos os países.

Na década de 1980 o Japão vivia momento semelhante. Sua moeda era artificialmente barata, de forma que seus produtos vendiam como água.

As gestões do governo americano e da comunidade internacional fizeram o Japão liberar o câmbio (quase isso), fazendo com que os japoneses enriquecessem em 5-6 anos. Enriquecessem MUITO. Foi a época em que apartamentos de 2 quartos em Tóquio valiam US$ 2 milhões. Em dinheiro da época.

Gerou uma bolha danada, que estourou em 1989 e durante a década seguinte, mas continuaram ricos. Racionalmente ricos.

A China resiste. Artificialmente ela mantém seus superávits de dólares. Acumula dólares. Não tem o que fazer com esses dólares. Algo próximo a US$ 3,2 trilhões. Vai fazer o quê com isso?

Moeda NÃO EXISTE em termos absolutos.

Moeda é relação. Não dá pra usar de forma irracional. Se fizer, vai destruir valor.

A China faz o quê? Cidades para 1 milhão de pessoas. Todas vazias. Produz aço para projetos que não tem qualquer sentido econômico.

Ou seja, lembra o Richard Pryor no filme “Chuva de Milhões” precisando gastar US$ 30 milhões em 30 dias (para herdar US$ 300 milhões). Isso em 1985. Sem comprar bens! Tinha que GASTAR! Não dá. Fazer o dinheiro sumir. Não dá. É muito difícil.

Quem me lê deve pensar que é mole gastar. Se você receber US$ 10 milhões, vai torrar com facilidade. Mas se é um hedge fund com US$ 1 trilhão, com deveres fiduciários com seus clientes, NÃO vai e não pode torrar.

A beleza do capitalismo

Estou me lixando para as ideologias. Gosto do fato. Gosto da evidência científica. Gosto de análise ética e honesta.

Ao contrário das ideologias dirigistas, que vão até o limite da inteligência de um grupelho de burocratas tarados, o Capitalismo é um sistema maior e mais inteligente do que as nações e seus dirigentes. Mais inteligente do que os banqueiros e do que os financistas. Ele é o caminho escolhido naturalmente, desde o início da sociedade contratual (início da linguagem escrita). Ele é o mercado em que todas as trocas de interesses acontecem.

A resposta natural que o capitalismo está dando a essa disfunção é: JURO NEGATIVO. Dinheiro demais, vamos resolver isso fazendo você PERDER dinheiro.

O interessante é que, dessa vez, quem vai perder mais é quem tem estoque de capital. Não é o pobre e o desvalido. O pobre ou a classe média podem até se beneficiar, pois o dinheiro barato vai acabar gerando negócios que não existiriam em um mundo de juros positivos. Ainda que estejam fadados à destruição de valor.

Foi o que ocorreu no Brasil. O setor de Petróleo empregava gente com exigência de segundo grau e curso técnico de apenas 6 meses, por R$ 8 mil por mês, o mesmo que um gerente de empresa média, com pós-graduação em finanças.

Acabou a bonança do setor, o salário caiu 4 vezes.

Aos que pensam: Ora, por que não investir esse dinheiro na economia, na produção, nas start ups?

Ora queridos! Porque essa cumbuquinha tá cheia.

Se o inventor do Uber conseguiu fazer o que fez com financiamento de US$ 50 milhões, porque pegaria US$ 1 bilhão? Seja em ações ou dívida? Seria estupidez, seria reduzir sua rentabilidade por vontade própria. Quem pega mais do que precisa é porque tem um projeto péssimo. E projeto péssimo é destruição de valor. Mais rápida que o juro zero.

Se você levar a irracionalidade, o “quantitative easying”, para a bolsa e para o setor produtivo, imobiliário, ou qualquer outro da economia real, vai gerar outras bolhas. E os ativos REAIS já estão caríssimos.

O sujeito prefere perder 0,15% ao ano em títulos alemães, do que se arriscar a perder 50% investindo no Linkedin, Google, Exxon, imóveis etc.

Não dá para fugir. Há uma disfunção. Há dinheiro demais.

E os países pobres?

Aqui acho que fica a lição mais importante desse artigo.

Dinheiro não é “realidade” material e objetiva, dinheiro é fluxo, dinheiro é circulação, dinheiro é meio.

Esse dinheiro “salvaria” nações pobres? Será?

Peguemos a Petrobras. Em 2007 chegou a valor US$ 300 bilhões. Recebeu uma capitalização na faixa de US$ 50 bi em 2010. Entre 2007 e 2016 investiu cerca de US$ 400 bilhões (refinarias, novos poços). Valeria então US$ 750 bilhões? NÃO!

Hoje vale US$ 35 bilhões e produz o mesmo que em 2010.

O dinheiro foi usado. Resolveu alguma coisa? O orçamento brasileiro está “garantido” com os bilhões investidos? O povo se beneficiou em quê? A educação, saúde, emprego e segurança estão garantidos?

Em apenas um exemplo vimos que não é difícil fazer US$ 700 bi evaporarem.

As dívidas de Oi, Gol, Usiminas, General Shopping e outras tantas valem 50% do valor de face. Às vezes 20%. Dados públicos, basta olhar na bloomberg.

Dá pra destruir dinheiro, é fácil. Mas isso não ajuda pobre. Não ajuda país pobre.

A África tem (quase) tudo para receber investimentos. Tem povo sedento por bens de consumo, por emprego, por segurança. Tem terra. Tem riquezas naturais. Tem tudo ainda por construir. Casas, fábricas, rodovias etc.

Tenho certeza de que o dinheiro sonha em ir para um ambiente tão promissor.

Mas sabe o que falta?

Incentivo à livre iniciativa. Capitalismo. Mão invisível. Liberdade econômica. Economia de mercado. Respeito a contratos. Respeito à propriedade privada. Países onde essas coisas não existem odeiam dinheiro.

De que adiante haver trilhões de dólares loucos por boas oportunidades de investimento se os governantes desses países NÃO querem esse dinheiro.

O dinheiro só vai para lá se puder voltar. As regras mudam todos os dias. Há corrupção generalizada. Há ainda resquícios de guerras e grupos como o Boko Haram. Você constrói uma ferrovia, e morre de medo do governo mudar as tarifas de uma hora para outra. Morre de medo de tomarem a concessão (vi isso in loco com uma empresa brasileira).

A quem, efetivamente, você daria o dinheiro? A grupos realmente empreendedores ou a grupos ligados aos governos locais?

Investidor só entende como interesse genuíno aquele que multiplicará seu dinheiro.

Não é interesse genuíno enriquecer ainda mais oligarquias tirânicas ou grupos de interesse que não tem qualquer compromisso com a economia de seu país.

Quer dinheiro para investir? Tá sobrando. Mas ele não vai para onde é detestado e maltratado. Dinheiro não troca de mãos se o contrato é maroto.

Acreditem. Se despejássemos alguns trilhões em 10 anos nos países pobres, geraríamos a maior concentração de riqueza de história. E o povo continuaria paupérrimo.

Dei o exemplo da Petrobras. Só uma empresa. Dá pra destruir fácil, fácil. Somos mais pobres hoje do que quando começamos a surfar na ilusão do petróleo. E muito mais endividados, pois foi dívida pública que gerou essas distorções e a ilusão de prosperidade. Vendemos 20 anos do nosso futuro, para viver 5 anos de gala.

A solução?

Ou a bola murcha devagar, está cheíssima, ou explode.

Evitamos a explosão destroçando orçamentos públicos, que não estão sentindo muito, pois os juros estão baixos, então é barato se financiar.

Mas esses orçamentos NÃO estão mais disponíveis.

As quebradeiras no mercado de crédito podem ajudar a reduzir essa abundância de dinheiro. Algumas dívidas soberanas (Venezuela por exemplo) desaparecerão, e também vão ajudar. A Grécia é um super exemplo, sua dívida, impagável, imputou perdas de dezenas de bilhões ao sistema.

Não sei se dá tempo, ou quanto tempo levaria para que o estoque de “cash” se normalize.

Se fosse possível fazer o dinheiro DESAPARECER, mas veja, não é trocar de mãos, é ir para o espaço sideral, sem uso, os juros subiriam, a demanda por dinheiro seria grande, as moedas fortes ficariam mais fortes e países pobres se fartariam de ganhar dinheiro (quanto mais capitalistas forem, se forem socialistas vão sofrer absurdamente), pois ficariam baratos.

A maioria dos países é CREDOR em moeda forte. Até o Brasil. É diferente da época em que a dívida externa massacrava os países periféricos.

O ideal seria que países bem pobres tivessem um surto de livre iniciativa, redução das barreiras comerciais, privatização, fim da corrupção etc., o dinheiro fluiria para lá e a bola ficaria menos cheia. Talvez até voltasse ao equilíbrio virtuoso de longo prazo.

Mas o mundo tá doido. Discute irrelevâncias.

O dinheiro existe. Falta o projeto.

O dinheiro está sem amigos.

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O Brasil está mesmo à beira de um Calote?

Posted on 04/03/2016. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , , |

Primeiro foi a Empíricus a alardear um provável calote nos títulos públicos, por conta do desequilíbrio fiscal brasileiro.

Mas vários outros analistas também indicam, no Brasil e no exterior, que o ritmo de crescimento da relação dívida/PIB seria insustentável e poderia resultar em um possível calote em 2018.

O banqueiro Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio do Pactual e do grupo Garantia, foi mais longe e previu, além do calote, uma quebradeira de bancos, inclusive bancos grandes, para 2018.

Antes de continuar, vale ressaltar que esse seria calote clássico, não o “branco” que muitos tem alardeado. É aquele calote em que o governo, simplesmente, para de pagar os juros, ou o principal. Ou, como na época do Collor, promove uma interrupção de todos os pagamentos e sequestro do principal por algum tempo.

Será que esse calote clássico virá?

A turma do “calote branco”.

Há quem defenda que o governo não precisaria chegar a tanto, pois tem como “imprimir” dinheiro e pagar os juros e o principal. Isso levaria ao tal “calote branco”, pois a emissão de moeda geraria inflação, o que reduziria o ganho real dos investidores.

Mesmo quem tem NTNs, atreladas ao IPCA, perderia, pois o imposto também é pago sobre a correção da inflação.

De que adiantaria ganhar 1% ao mês, se a inflação for de 3%?

Será que esse “calote branco” virá?

Qual a probabilidade dos calotes?

Os analistas não estão errados. Mas também não estão inteiramente certos. Subestimam alguns pontos. Em minha opinião.

A dívida pública está mesmo numa rota insustentável. Ela cresce, nominalmente, quase 2,5% ao mês e, em termos de PIB, quase 10% ao ano. Nesse ritmo chegará fácil a 80% de relação dívida/PIB no início de 2018. O professor Pastore acha que chega a 90% no mesmo período.

Engana-se quem julga nossa dívida pequena ao compará-la com a relação dívida/PIB de 243% do Japão ou de outros países desenvolvidos. Eles financiam suas dívidas em moeda forte e com juro praticamente zero. O custo médio da dívida brasileira é de quase 17% ao ano. Uma relação de 80% significa que pagaríamos 13,6% do PIB só de juros. Insustentável. Inacreditável.

Esse calote, a continuar a letargia política brasileira e sem reformas LIBERALIZANTES, infelizmente é possível e até provável. O ritmo brasileiro está ditado por questões policiais e paroquiais. A continuar assim até 2018, não seria surpreendente um discurso demonizando os rentistas para justificar a tungada nos poupadores.

Esse calote definitivamente é possível e, a continuar na toada política atual, lamento que seja até provável.

(Enquanto escrevo vemos o vazamento da delação de Delcídio e a condução coercitiva de Lula. A ver os desfechos, por enquanto voltemos aos calotes.)

Mas e se o governo imprimir dinheiro e soltar a inflação?

Esse caminho, em minha opinião, não existe.

Ou melhor, existe, mas seria muito pior, em todos os aspectos, do que o calote clássico. Pior para todos, inclusive e principalmente para o governo.

O medo, justificável, das pessoas esclarecidas é que a inflação desenfreada pudesse dar folga orçamentária ao governo, nos mesmos moldes do “imposto inflacionário” das décadas de 1970 a 1990. Ou seja, o governo conseguiria financiar suas contas pela corrosão que a inflação imporia aos brasileiros, principalmente aos mais pobres.

E o medo é mesmo justificável, pois essa inflação e a atitude perdulária iriam requerer ainda mais inflação e dinheiro impresso para continuar programas populares (ou populistas, como queiram), necessários para amenizar as perdas das classes menos abastadas e para manter apoio ao governo.

Enfim, retorno aos desequilíbrios pré-Real.

Não creio ser possível.

Até aqui o leitor deve pensar que estou otimista. Mas não é isso.

Eu entendo que o caminho da perdição orçamentária e do remediação populista não existe, pois, infelizmente, levaria o Brasil à bancarrota ANTES do calote clássico.

O sócio de Jorge Paulo Lemann no Garantia está correto quando afirma que o calote clássico geraria uma quebradeira generalizada nos bancos. É razoável crer que, o governo interrompendo o pagamento da dívida, os balanços dos bancos não resistam.

Porém, o caminho da inflação desenfreada levará ao mesmo lugar, mas antes.

Explico e ficará claro.

Aos brasileiros que não acompanham o noticiário financeiro vale comentar que a percepção de que os bancos brasileiros enfrentarão uma onda de calotes privados é generalizada.

Além de um sem número de matérias e opiniões nesse sentido, isso já se reflete no balanço dos bancos e, principalmente, nos preços de mercado.

Desde que acompanho o mercado, tem quase 14 anos, não me lembro de ter analisado Bradesco e Itaú em patamares tão baixos de índice preço/lucro. Recentemente vi Bradesco a P/L 5,5. É históricamente 60% mais baixo do que a média.

Por que estão baratos com lucros crescentes?

Ricardo Knoepfelmacher, maior gestor de crises do mercado brasileiro, afirmou em uma entrevista recente que sumirão dos balanços dos maiores bancos privados entre 150 e 200 bilhões de reais de dívidas corporativas, entre 2016 e 2017. Ver aqui.

Um misto de hiperendividamento, má gestão e falta de crescimento econômico, além de questões externas ligadas a commodities, o faz crer nesse quadro.

Creio que o noticiário sobre dívidas de empresas como Oi, Usiminas, Petrobras, Sete Brasil entre outras, deixa claro que a preocupação de Ricardo Knoepfelmacher não é em vão.

Segundo ele, não haveria problemas em bancos grandes, já os pequenos e médios, poderiam ter problemas. O Jornal O Globo publicou uma matéria recente sobre os péssimos resultados dos bancos médios. Há 19 bancos com prejuízos nos últimos 2 anos. Isso é muito diferente da realidade de Bradesco, Itaú e BB. O governo parece saber desse perigo, tanto que reeditou a medida que permite aos bancos públicos comprarem carteiras de bancos pequenos.

Todos sabem o que está acontecendo. Tudo o que disse é de conhecimento público.

Por que, então, não haveria como consertar os déficits do orçamento público pelo “calote branco”?

Ora, por um motivo simples.

O que é inflação? É perda de poder aquisitivo.

De que vivem as empresas endividadas? De onde vêm suas receitas? Exceto as puramente exportadoras, as receitas vêm do consumo das famílias (e do governo).

A inflação invade os orçamentos domésticos e vai “expulsando” todos os gastos supérfluos, inicialmente. Após isso, as famílias começam a invadir suas poupanças. Quando não há poupança, ou quando essa termina, as famílias escolhem o que não pagar.

Creio que o noticiário deixa isso claro.

Em 12 meses, 1 milhão de pessoas retiraram os filhos de colégios particulares, outro milhão e meio abandonaram os planos de saúde. É recorde de inadimplência em condomínios, contas de luz, prestação dos carros etc.

E se os itens essenciais dispararem, por conta desse “dinheiro impresso” pelo governo?

Será que as famílias, na maior crise econômica da história brasileira, conseguiriam reajustes salariais expressivos para repor seu poder de compra? Como, se nem emprego parece haver? Como, se os salários estão sendo negociados para baixo, por conta das novas regras aprovados pelo governo (reduzir carga horária e salário)?

Hoje, não há qualquer espaço de manobra nos orçamentos das famílias, e em suas poupanças, para acomodar com pouca “dor” uma inflação descontrolada.

Se a inflação invade o orçamento para necessidades básicas, as pessoas deixam de pagar outras coisas. O carnê das casas Bahia, do carro, as dívidas bancárias etc.

Isso significa que, além do calote das pessoas físicas, os bancos terão que encarar o das pessoas jurídicas, que vivem, essencialmente, da venda dos produtos às famílias e ao governo (que também está sem dinheiro).

E não estamos num momento confortável. Não há qualquer espaço nos balanços das empresas, e dos bancos, para suportar qualquer choque de (falta de) demanda ou de inadimplência.

E, claro, não há espaço orçamentário no governo para salvar ninguém.

O “calote branco”, infelizmente, anteciparia os efeitos do calote clássico e não resolveria o problema orçamentário do governo. A economia colapsaria antes.

Em 1980 e 1990, nós tínhamos inúmeros mecanismos para amenizar a perda de poder aquisitivo imposta pela inflação de 20% ao mês.

Hoje, não há qualquer mecanismo para proteger os orçamentos das famílias.

Inflação alta no curto e médio prazos significaria, nas condições de hoje, calote em efeito dominó. Falta de dinheiro das famílias gera inadimplência civil, inadimplência empresarial e, por fim, inadimplência do estado.

Se alguém no governo imagina que seja uma solução, é melhor esquecer. Não é.

É uma questão de timing. Para uma economia se “acostumar” com uma ciranda inflacionária “redentora” das contas públicas, leva tempo. Não menos do que 3 a 4 anos. Foi o tempo que a Argentina levou para estabelecer gatilhos salariais e outros instrumentos para lidar com inflação de 30% ao ano (a real).

Mas a inflação elevada nos próximos meses, dadas as condições de endividamento das famílias, de queda severa na atividade econômica e da falta de perspectivas no campo político, tenderá ase transformar numa sucessão de calotes, bem antes desses 3 anos. Entre 12 e 18 meses, sendo otimista.

O ideal, hoje, seria deflação, para abrir espaço para mais consumo e quitação de dívidas nos orçamentos familiares.

Não é impossível. Até porque o consumo deve reduzir ainda mais, o que poderia pressionar os preços para baixo.

Seria um bom ciclo, pois permitiria que o BACEN reduzisse um pouco os juros, aliviando a questão orçamentária.

O que fazer então? O calote é inevitável?

Não, o calote não é inevitável.

É relativamente trivial o que deve ser feito. Reformas liberalizantes. Fim do falido “Estado Empreendedor”. Venda de ativos. Concessões. Redução da burocracia, entre outros itens que todos conhecemos.

Isso já foi dito milhões de vezes. Roberto Campos morreu há mais de uma década, mas ainda continua ficando rouco de tanto nos alertar dos motivos de nossa pobreza.

Seria fácil fazer o certo, mas teríamos que ignorar os apelos corporativistas dos que se locupletam da máquina pública brasileira. Infelizmente há muitos nessa condição de dependentes da máquina estatal. De empresários bilionários a pessoas comuns.

Uma guinada nessa direção, ainda que inicial, mas com compromisso REAL, já permitiria um redirecionamento de capitais estrangeiros, de risco, para o Brasil. Já permitiria, em médio prazo, redução significativa dos juros.

Há US$ 6 trilhões aplicados em taxas de juro negativas no mundo. Dois meses de reformas liberalizantes e de respeito às regras e a Argentina renasceu para o sistema financeira internacional, com a expectativa de investimentos de US$ 80 bilhões nos próximos anos.

Imagine quanto poderia vir para o Brasil, se renegarmos o tradicional Império do almoço grátis e da falta de responsabilidade individual e corporativa (accountability)?

A saída é evidente e, creio, rápida. É só seguir a racionalidade econômica mais simples por alguns poucos meses, e direcionar o Estado para o que ele realmente deve fazer.

Apesar dos slogans nacionalistas tais como “O Petróleo é nosso”, “Petrobras, orgulho da nação”, entre outros, o nosso pacto social NÃO É ESSE.

Nosso pacto social espera, em troca dos penosos impostos, serviços públicos de qualidade na área de saúde, educação, segurança, jurídica e previdenciária.

É o que o brasileiro quer, apesar de ter sido convencido de que quer ser sócio de empresas elétricas, de petróleo, de telefonia etc.

É fácil, é simples. É até rápido.

Só falta, infelizmente, o líder.

Ainda não vi.

Não há político REALMENTE interessado em liberar o Brasil das amarras do corporativismo estatal.

Mas tenho esperança.

Ao menos já sabemos o que é errado. Há inúmeras evidências de nossos erros. Aprendamos, pois.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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