Pandemia, Comunismo, OMS, Ciência e o insight de Slavoj Zizek, teórico cultural marxista.

Posted on 01/06/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , |

Prezados leitores,

Zizek lançou um livro sobre a Pandemia, pois vê alguns caminhos para a reinvenção do comunismo.

É gente, apesar de algumas pessoas acreditarem que o comunismo não existe mais, Zizek é respeitadíssimo, muito lido e seu livro, lançado pela Boitempo (apresentada nas palavras de um de seus autores assim: “a Boitempo, sem estar linkada a um partido, ela faz o papel que o Gramsci queria: da hegemonia cultural”), já está bombando e dando o que falar!

Como a Pandemia vai ajudar a reinventar o comunismo? Como vai organizar o mundo em um só diapasão, como vai reforçar os valores coletivistas, como vai ajudar na construção da hegemonia cultura e do pensamento único?

Veja no vídeo!

 

Ps. Tenho dificuldade para entender por que esses teóricos Marxistas falam tanto de comunismo, se o comunismo não existe… rsrsrs

Para quem quiser saber mais sobre filosofia da ciência, segue o link do meu livro na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

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A filosofia da COVID19: Cloroquina, o remédio politizado.

Posted on 14/05/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Política | Tags:, , , |

A ciência, de uma hora para outra, virou ambiente de certezas. Não há nada menos científico do que a certeza e do que a escolha de resultados que confirmam nossos vieses.

O caso da Cloroquina (HCQ) mostra claramente a falta que faz a humildade e um senso de julgamento minimamente equilibrado para que o diálogo traga bons resultados práticos nessa Pandemia.

Antes de continuarmos, alerto que não faço ideia se o tratamento funciona. Não é o que vou discutir aqui. Vou discutir algumas disfunções do comportamento humano, que foram escancarados durante essa Pandemia.

 

O remédio politizado

Nunca tinha ouvido falar de HCQ na vida. A primeira vez que soube do remédio foi pela imprensa, porque foi indicada como panaceia pelo Bolsonaro e pelo Trump.

Desse dia em diante todas as notícias de grandes jornais e da mídia mais relevante foram no sentido de desacreditar o remédio.

Mas a HCQ não desapareceu, apesar de a imprensa dar certeza diária de que não funciona. Continuei recebendo informações em redes sociais e em mídia de médio porte.

A primeira vez que tive contato com o protocolo de uso de HCQ + AZT + Zinco foi através de um monte de matérias sobre o caso da Prevent Senior. Eles são um plano de saúde para a terceira idade e foram os primeiros a enfrentar volume elevado de pacientes com COVID no Brasil. Eles têm 470.000 clientes de terceira idade, o equivalente a uma cidade de 2 milhões de habitantes. Quase todos os clientes são do grupo de risco.

O diretor presidente avisou que, no surgimento dos primeiros sintomas, passaram a mandar um kit com HCQ + AZT + Zinco para os pacientes em casa.

Deu certo? Dá certo? Ele afirma que sim.

Podemos afirmar que não há dúvida de que ele acredita que funciona. Usou nele mesmo e em toda a família, inclusive na mãe idosa. Ele é presidente de um plano de saúde, não quer que as pessoas fiquem 10-15 dias internadas. Isso é custo altíssimo pra ele.

Funcionou o coquetel? Não sei. Sei que os clientes receberam o tratamento, e não há motivos para achar que os médicos e o plano são irresponsáveis, pois todos estão com seus CRMs e registros na berlinda.

E o coquetel continuou na mídia paralela e nas redes sociais. Na grande mídia, apenas saiam notícias que desabonavam o uso.

Alguns médicos famosos procuraram esconder o uso do remédio, outros falaram que usaram. Mais mistério, menos ciência, mais política, menos respeito e transparência.

O médico do Doria, Dr. David Uip, escondeu seu protocolo de tratamento (que incluía a HCQ). Acabou dando a impressão de que é coisa para médico rico usar e deixar os pobres por conta do sistema imunológico.

Continuo recebendo em redes sociais, de gente séria e de confiança, relatos de médicos, áudios, vídeos, falando desse protocolo ou com variantes como uso de anticoagulantes a partir de determinado d-dímero ou suplemento de vitamina D.

Funciona? Como vou saber, se isso se tornou um submundo de prescrições “proibidas”?

O Jornal O Globo estampou a seguinte manchete, com os dizeres de um dos maiores infectologistas do país: ‘O médico me ofereceu Cloroquina. Eu disse: Me respeite’. Eu penso: chamou de idiotas ou crentes os médicos que usam.

Dentro da reportagem lemos ele falando: “escrevi várias vezes para amigos dizendo que eu aposto que os estudos bem feitos com cloroquina — aqueles randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo — não mostrarão eficácia, particularmente para cloroquina com azitromicina.”. Pelo que pude entender, o não funcionamento é a “aposta” dele. Mas recomenda que não façam uso. Em que isso é ciência, eu não sei.

 

O protocolo do SUS

Com sintomas, vai pra casa e toma dipirona.

Se você é de classe média ou média-alta, acessa um médico disposto a lhe receitar algum coquetel e a lhe acompanhar. Se é desprotegido, está por conta de si mesmo.

Dá certo o coquetel? Repito: não faço ideia.

Mas nem todos podem acessar um tratamento de imediato, e vão ficar na angústia de permanecer em casa torcendo pelo melhor e com medo de, quando precisar de internação, ser tarde demais. Ou não ter vaga.

Talvez uma dipirona seja mais certo do que usar algum coquetel não aprovado pela ciência. Mas só quem pode optar é quem tem recursos.

 

O estudo que “destruiu” a cloroquina

Há alguns dias veio a manchete definitiva “Maior estudo já feito com hidroxicloroquina mostra que droga não traz benefício no tratamento da covid19”.

Acabou. Chegou a prova! Eu, como sempre, li o estudo.

Eu tenho um pouco de dificuldade para entender por que há pesquisadores que não fazem questionamentos básicos sobre seus estudos, que lhes poupariam tempo e dinheiro. Não sei se há verba já empenhada, se precisam publicar, ou se há má-fé. Não deve ser má-fé, pois qualquer pessoa que lesse o estudo veria que a metodologia não presta. Não precisa ser médico ou estatístico. Beira o ridículo.

Os defensores da HCQ criticaram o estudo por ser feito em hospitalizados e por não usar o zinco e a AZT. Mas se lessem o estudo teriam outros motivos, mais graves, para criticá-lo. Não vou fazer uma análise extensiva dos erros metodológicos, mas ilustrar alguns e colocar um link para quem quiser ver outros debates:

Os pacientes tratados com HCQ estavam mais doentes do que os que não foram tratados. Já é, em si, inacreditável que o pesquisador comece a pesquisa com um viés desse nível. Mas piora.

 

Os pacientes não tratados com HCQ eram mais novos (18,6% tinha menos 40 anos, contra 9,9% do grupo HCQ) e havia mais mulheres (que morrem bem menos). Mais um viés inexplicável.

 

Os pacientes tratados com HCQ tinham mais diabetes (37,1% contra 33,6%) e hipertensão (49,1% conta 6,7%). O número de hipertensos é assustadoramente mais alto no grupo HCQ. Não dá para entender o estudo sair com um viés desse tamanho. Esse volume de hipertensos praticamente garante que o grupo tratado com HCQ tenha mais comorbidades acumuladas (138,9% de presença de comorbidades contra 92,6% no grupo não tratado).

O estudo fica ainda mais “viesado” quando o pesquisador, em vez de comparar separadamente pessoas que evoluíram para óbito ou para entubação, resolveu juntar os dois, para prejudicar o grupo com HCQ. Quando os dados são separados, a mortalidade do grupo HCQ desaba. Mas é um pouco complexa essa análise, portanto indico a discussão que aconteceu no twitter sobre o caso. O estudo original está disponível para análise.

https://twitter.com/dperetti/status/1259154540630364162

Não é necessário conhecimento profundo de estatística para ver os vieses injustificáveis.

E a ciência deu seu veredito final, através da grande imprensa, a partir desse estudo. É a ciência que eu “curto” nas redes sociais. Aquela que me permite xingar o outro de idiota.

 

O estudo que ninguém viu, não saiu na grande imprensa e que não é “a ciência que me permite chamar o outro de idiota”

Praticamente na mesma época, foi publicada uma matéria com o seguinte título “Hydroxychloroquine, Azithromycin, and Zinc Triple-Combo Proved to be Effective in Coronavirus Patients, Study Says”. Foi publicada no Daily Mail.

Levei uns 30 minutos procurando o artigo original e percebi que, mesmo o estudo tendo sido publicado no dia 08 de maio, não houve repercussão na grande mídia. O estudo que “destruiu” a HCQ teve ampla repercussão. Mundo inteiro. Toda a principal mídia do planeta repercutiu.

O estudo que comprovou a eficácia do coquetel não é um estudo sobre a HCQ+AZT em si, mas sobre o zinco. O interessante dele é que usa o coquetel que as pessoas têm falado há quase 2 meses e que a imprensa tem tentado nos convencer que não serve pra nada. Todos os grupos estavam no HCQ+AZT, um grupo recebeu zinco, outro não.

https://www.sciencetimes.com/articles/25658/20200512/hydroxychloroquine-azithromycin-zinc-triple-combo-proved-effective-coronavirus-patients-study.htm

O estudo original pode ser lido aqui:

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.02.20080036v1

Só a leitura dos quadros do estudo já mostra que eles procuraram eliminar os vieses. Não há viés de NADA. De raça, gênero, tabaco, remédios que estavam tomando, condições preexistentes etc. Como um estudo deve ser.

Apresento a seguir a tabela com os resultados. Falam por si. Mesmo para quem não é estatístico e não sabe interpretar um p-value.

O estudo não é sobre o uso antes da hospitalização, mas depois.

77% dos tratados com o coquetel + Zinco receberam alta sem UTI e sem respirador, 68% sem zinco.

De quem foi para UTI 73,6% morreram com Zinco e 74,4% sem zinco.

De quem não foi para UTI, apenas 6,9% do grupo que tomou zinco foi a óbito, enquanto 13,2% dos que não tomaram foram a óbito (ou foram transferidos por estarem em estado terminal/ moved to hospice).

 

O coquetel funciona?

Não sei. A análise é sobre nós, nosso comportamento e nossos vieses.

Essa pandemia trouxe à tona evidências de que nossa interpretação da ciência, do positivismo, da moral e do direito estão nos levando, literalmente, a um fundamentalismo moral. Uma crença quase religiosa de que somos melhores, éticos e que estamos do lado certo do mundo, da vida, do coletivo, da história e da ciência. A verdade é aquilo em que nós acreditamos. O resto é lixo, maldade, genocídio etc.

Quando alguém faz, propõe ou age em desacordo com essa micro-moralidade, nós atacamos essa pessoa, jogamos a empatia na lata do lixo, pois somos moralmente infalíveis e o outro é o inferno que me atrapalha.

A ciência não vai trazer nenhuma resposta perfeita agora. Mesmo depois não trará, pois temos remédios e vacina para a gripe e ela matou quase 2x mais idosos na Itália na temporada de 2014-2015 do que a COVID matou agora. A ciência nos deu a vacina e o remédio, mas não deu a garantia de sucesso, nem evitou uma brutal mortalidade excessiva.

Se estamos diante de enormes incertezas, é razoável que as pessoas escolham em que acreditar. As nossas escolhas falam mais sobre a nossa moralidade do que sobre a nossa racionalidade. A ciência não nos dá respostas precisas, mas a gente pode escolher a imprecisão que leva à cura, à melhora das pessoas e à esperança nessa Pandemia. Mas quem faz isso é chamado de negacionista, terraplanista, genocida, idiota e gado.

Não devemos deixar nossas preferências políticas nos embrutecer. Estamos nos escravizando voluntariamente para defender posições políticas. Libertemo-nos.

Eu ainda não sei se tomaria o coquetel, se precisasse. Talvez eu não precisasse viver essa insegurança se o remédio não tivesse sido politizado e se não houvesse massificação de um viés político-ideológico. Sofremos todos com essa irresponsabilidade de “ter certeza de que não dá”.

Se no futuro descobrirmos que funciona, teremos bloqueado o uso de medicamentos baratos e acessíveis para gente pobre, apenas para provar que estamos certos. E com bastante truculência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A galera da ciência, aquela que tem certeza de tudo e só aceita informações que corroboram suas crenças, expulsaram o debate sobre a cloroquina da imprensa. 100% das informações em grandes mídias desaconselhavam o uso.

Recentemente fizeram “o maior estudo do mundo” que provaria que a HCQ não funciona, não serve pra nada.

 

 

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A filosofia da COVID19: O papel da ciência.

Posted on 10/05/2020. Filed under: Administração, Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , , , |

Escrevi o livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe” para tentar explicar o caminho que levou o Homo Sapiens Sapiens a ser como é. É basicamente uma história, não contada e não documentada, da razão e da racionalidade, aliada a uma história bem documentada da ciência e da crença em Deus. É, sobretudo, um livro de filosofia da ciência.

E por que a ciência e a racionalidade seriam tão importantes para demonstrar que Deus existe? Simples, porque todas as tentativas de demonstrar a existência Dele acabam no campo da ciência empírica e da lógica formal.

Por isso foi fundamental demonstrar ao leitor os limites da ciência e da racionalidade, para que ele entenda o que significa “existir”, para o campo da filosofia e da ciência, que é necessário entender antes de nos propormos a provar a existência de Deus, ou de qualquer outra entidade.

Link para ebook (versão impressa com envio suspenso pela Pandemia): https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

A ciência na Pandemia.

Essa pandemia de COVID19 tem mostrado, com muita clareza, que as pessoas não têm a mais remota ideia do que seja, de fato, ciência.

Em verdade, as ações brutais e violentas em nome da “ciência” que vemos agora reproduzem a violência do positivismo de meados do século XIX, onde tudo aquilo que não poderia ser claramente proposto, modelado e medido não deveria ser considerado conhecimento válido.

Essa agressiva visão foi, em grande parte, responsável pelos movimentos críticos (associados às humanidades e ao ideário coletivista) surgidos nos últimos 150 anos.

No livro apresento uma breve história da ascensão e queda do império iluminista das técnicas e métodos das ciências naturais aplicadas em ciências humanas e sociais.

O rompimento com o positivismo (crença no método científico empírico e mensurável como único caminho para trazer conhecimento verdadeiro para a humanidade) veio da própria ciência natural, que desafiou todos os dogmas clássicos e demonstrou que nossa experiência na ciência é, tão somente, uma alegoria de pensamentos condicionados e, muitas vezes, tautológicos. Há enorme utilidade na ciência natural, mas quando vai fora dos seus limites, pode produzir desastres humanos e sociais.

Heisenberg (físico quântico mais importante da história, ganhador do Nobel) rompeu com o positivismo com uma frase que expressa claramente o que escrevi até o momento neste artigo (em tradução livre):

“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido naquilo que podemos dizer claramente e o resto, que é melhor deixar passar em silêncio. Mas alguém pode conceber uma filosofia mais sem sentido, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se omitirmos tudo o que não está claro, provavelmente ficaremos com tautologias completamente desinteressantes e triviais.”

 

O que mais me assusta nesse positivismo agressivo da COVID19?

É que o uso da ciência como verdade e como instrumento de dominação político-ideológica está se dando em grupos que sempre foram combativos ao positivismo. Grupos que sempre pregaram o pensamento crítico ao cientificismo.

O que antes era inconcebível para os movimentos coletivistas (alguns tratam como movimentos progressistas ou de esquerda), aceitar cegamente ordens de uma ciência positiva, tornou-se lei universal. Não só lei técnica universal (ordens que todos devemos seguir), mas lei moral universal (contrariar a ciência positiva dogmática significaria tornar-se uma pessoa má).

Justamente as pessoas que sempre rejeitaram a aplicação das metodologias das ciências naturais em ciências sociais e humanas, que sempre rejeitaram a estatística, a matemática, o método e a modelagem científicos, e pregaram largas e soltas dialéticas em substituição, para atingir a verdade, estão se escudando na ditadura metodológica que está nos guiando a todos, bilhões de pessoas, sem nenhuma crítica, apenas cega obediência.

 

A ciência se presta a esse grau de segurança?

Não. De forma bem simples, repito: não! Em ciência natural, temos elevados graus de segurança, elétrons não têm opinião e prótons não perdem empregos ou a vida, mas em ciências sociais e humanas, a segurança científica é mínima. Nossa forma de enfrentar a Pandemia prova isso, de forma clara.

Parte significativa do livro procura ilustrar para o leitor leigo em filosofia da ciência, que já há 100 anos, pelo menos, não há qualquer dúvida de que a ciência não é ambiente de certezas. Nunca foi, é verdade, mas fomos cegados pela brilhante filosofia da ciência de Newton-Descartes, que nos trouxe evidências muito claras de que estaríamos, de fato, enunciando a VERDADE e não apenas um conhecimento parcial.

Isso morreu, de forma definitiva, por descobertas da própria ciência natural.

Hoje, ciência é, obrigatoriamente, o campo das ideias humanas, consistentes e coerentes com algum paradigma prático e pragmático, que elabora hipóteses à espera de refutação.

Se a hipótese ou a proposta científica não trouxer consigo caminhos claros e objetivos para sua refutação, não é ciência, é ideologia ou religião.

Tomemos o exemplo dos lockdowns ou quarentenas que estão sendo propostos em vários países do mundo.

Não existe nenhuma forma clara para medir seu sucesso ou demonstrar seu fracasso.

O Imperial College alertou o governo inglês que morreriam cerca de 500.000 britânicos se seguissem o modelo sueco, de não fechar o comércio e escolas e buscar a imunidade de rebanho. O governo adotou, portanto, um lockdown rigoroso, e logo depois o Imperial College reduziu a previsão do número de mortos para 20.000.

Onde está a ciência disso? O que poderia mostrar que esse estudo estava errado? A rigor, pode-se sempre dizer que vidas foram salvas, alegando que haveria mais mortes. Mas isso não é ciência, pois estamos comparando fatos empíricos com modelos matemáticos sobre hipóteses que não aconteceram (a não adoção do lockdown).

Poderíamos argumentar que o estudo estava errado apontando duas evidências:

  1. O modelo inglês está com 50% mais mortes por MM de habitantes que o modelo sueco. Deveria ser um desastre sem precedentes na Suécia, mas não aconteceu e ficou bem melhor do que a Inglaterra.
  2. A previsão de 20.000 mortos após a adoção do lockdown está errada, pois o UK está hoje com mais de 32.000 mortos (ver: https://www.ft.com/content/249daf9a-67c3-11ea-800d-da70cff6e4d3)

Meu interesse não é debater os lockdowns ou os estudos da Imperial College em si, mas mostrar que são apenas propostas metodológicas, jamais deveriam ser tratados como o que a “ciência mandou fazer” ou com a verdade trazida pela ciência.

 

A ciência e os burocratas.

No capítulo 14 do livro discuto brevemente como a ciência não consegue ser balizadora da moralidade, e que acabamos sempre decidindo os caminhos da própria ciência e seus impactos na vida cotidiana através de decisões de burocratas ou de legisladores eleitos.

Hoje precisamos decidir a “moral” dos carros autônomos. Em circunstâncias de acidentes inevitáveis o algoritmo precisará decidir a quem colocar em risco. Se há uma mãe atravessando a rua com uma criança do lado esquerdo e um idoso vindo do lado direito, nosso processo decisório humano desvia o carro para algum dos lados, ou simplesmente continua e atropela a todos. Um computador terá que tratar isso a partir de algoritmos (decisão moral previamente estruturada).

Quem privilegiar? Um grupo de crianças, um grupo de idosos, ou o próprio motorista?

Obviamente que, se deixarmos exclusivamente para a indústria, ela vai programar no interesse de quem paga. Tentamos vender carros seguros para os motoristas, dificilmente venderiam um carro autônomo que, em situação de acidente inevitável, opta por colocar o próprio motorista em risco.

Exceto se… for lei.

Na prática a moralidade do ato não será avaliada pela ciência, pela estatística ou pela verdade universal, mas por um conjunto de burocratas ou legisladores. Em países ditatoriais, pelo ditador. Em ambientes laissez-faire ou dominados pelo lobby das indústrias, será decidido na direção do interesse econômico.

Nada disso é ciência.

O exemplo que trago no livro é o da luta contra a malária na África. A malária atinge cerca de 200 milhões de africanos todo ano, com cerca de 400.000 mortes.

A ciência trouxe uma solução potencialmente definitiva, um mosquito geneticamente modificado que só gera mosquitos machos, o que faria com que a população de mosquitos fosse gradualmente extinta.

A potencial solução encontrou resistências de grupos religiosos locais, que acusaram os cientistas de brincarem de Deus, de grupos políticos, de ambientalistas etc. Nada disso é ciência, mas é o que comanda a ação humana.

Segue parte do livro em que discuto a estranha racionalidade da “não-ação” humana:

Quem entende o mundo de forma sistêmica, sabe que não vivemos de solução em solução, mas de problema em problema. Qualquer ação humana modifica tudo, não é possível fazer apenas “uma coisa”.

Perceba como é curioso nosso processo decisório, como é difícil entender sua racionalidade. As organizações ambientais acusam a ação humana de ser responsável pela extinção de 3 espécies por hora aqui na Terra. E não parece haver muito o que fazer quanto a isso. Quando se vai discutir a eventual extinção de um mosquito específico, que leva miséria e doença às populações humanas mais carentes, decidimos não o fazer. Só nas poucas horas que levei escrevendo e revisando esta parte do livro, 12 espécies foram extintas.

Não pretendo fazer aqui um julgamento de valor, apenas procuro mostrar que a extinção de milhares de espécies, segundo os ambientalistas, acontece todos os anos. Durante o tempo em que nossas instâncias políticas e multilaterais discutiam o uso ou não do mosquito geneticamente modificado, talvez 100.000 espécies tenham encontrado sua extinção. E empreendemos esforços milionários para salvar uma, exatamente aquela que sabemos ser responsável pela malária.

 

Deixemos a ciência em paz para fazer o seu papel.

Ciência é ferramenta de conhecimento, não se presta a justificativas perfeitas para decisões políticas e ideológicas, pois é, por definição, passível de refutação. Na verdade a ciência evolui nesse sentido, de alterar o conhecimento anterior por um modelo melhor.

A sociedade aberta da ciência (capítulo 5 do livro) está funcionando vivamente nessa Pandemia, com milhares de estudos simultâneos em todo o mundo, lutando contra aqueles que querem usá-la para justificar pseudoverdades tribais, pensamento único e sonhos ideológicos e revolucionários.

Não podemos deixar a sociedade fechada, tribal e ideológica se apropriar de um campo do conhecimento humano que é fluido e imperfeito, para justificar ações ditatoriais.

Ciência é liberdade, transparência e, principalmente, apreço pelo contraditório.

O que estamos fazendo hoje é escolhendo lados, isso é tudo, menos ciência. Estamos funcionando como aqueles filmes de tribunais que trazem especialistas que servem apenas para corroborar a hipótese da defesa ou da acusação. No processo judicial, pelo menos, há um juiz para decidir a verossimilhança das hipóteses. Nessa pandemia, não há nada, exceto a opção por aderir cegamente a verdades absolutas inexistentes.

Tudo em nome da pobre ciência, que não tem culpa de nada.

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E se o Banco Central (DE FATO) emprestasse dinheiro pra nós? Agora falando sério.

Posted on 12/04/2020. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, , |

Prezados,

No vídeo em que brinquei sugerindo que o BACEN poderia emprestar dinheiro para as pessoas físicas, muita gente levou a sério.

Pois bem, o vídeo era uma brincadeira, pois não fiz uma avaliação mínima sobre a viabilidade, mas dado o interesse que chegou até mim, e as dúvidas, pretendo esclarecer alguns pontos.

A ideia, para quem não viu o vídeo, seria simples. Assim como o BACEN está agora autorizado a emprestar diretamente para empresas, poderia emprestar para pessoas físicas quitarem seu brutal endividamento.

Os bancos centrais do mundo inteiro regulam a oferta de moeda. Desde 2008 os BCs pelo mundo têm tentado capitalizar o sistema financeiro para que os bancos repassem esse crédito para investimentos. Sem sucesso. Destruiu a rentabilidade dos bancos, aumentou a alavancagem e nada de gerar grande crescimento econômico. Um fracasso que está cobrando seu preço agora, nessa crise do COVID19.

E esse insucesso é porque as pessoas não tomam o crédito. Nem as empresas. É dinheiro demais e projeto de menos.

No Brasil temos, hoje, o mesmo problema, com uma “pitada de sal tupiniquim”. O dinheiro liberado às centenas de bilhões pelo BACEN está “empoçado” nos bancos. E os motivos são óbvios. Tomar crédito em banco, no Brasil, é mortal. O banco se capitaliza a 3,75%, ou perto disso, e repassa a 20%, 30%, 300%.

Outro problema é que os bancos estão negando 60% do crédito. E não estão errados, há previsão de quebra de até 80% de restaurantes, por exemplo, se o lockdown durar 2 meses. Vão emprestar para quem vai morrer em 2 meses?

Bom, não está funcionando dar liquidez aos bancos para emprestar. E não vai funcionar.

  1. Isso não é imprimir dinheiro

Acho que a primeira dúvida que todos têm é se isso não seria “imprimir dinheiro”. Precisamos esclarecer o que é imprimir dinheiro.

O BACEN regula a oferta monetária aos trilhões. Uma pequena mudança nos compulsórios ou em regras prudenciais dos bancos pode liberar ou retirar de circulação centenas de bilhões de reais.

Isso NÃO é imprimir dinheiro. Isso é regular a oferta de moeda e buscar meta de juros.

As pessoas estão CERTAS ao dizer que isso, por si, não gera inflação, pois é como o processo de acelerar ou frear um carro. Se queremos manter o carro a 80 por hora, vamos ter que frear numa ladeira íngreme, e acelerar fortemente numa subida.

Imprimir dinheiro é uma coisinha específica: Usar o BACEN para financiar diretamente os gastos do governo. É emitir títulos e o BACEN usar sua liberdade para ampliar a base monetária para comprar os títulos no MERCADO PRIMÁRIO.

Isso é “imprimir dinheiro” como?

Simples. O BACEN trabalha no mercado SECUNDÁRIO de títulos públicos. Portanto ele não atua dando liquidez ao caixa do governo central diretamente, mas apenas regulando a oferta de dinheiro e títulos

E para isso tem um “colchão de liquidez” colossal, há pouco tempo era coisa de quase R$ 1 trilhão.

Essas ações no mercado secundário é que permitem a regulação da taxa de juros e da base monetária.

Mas esses títulos foram originalmente emitidos para terceiros no mercado primário, o BACEN só regula seu fluxo de demanda e oferta no mercado secundário (dívida já tomada e assumida por terceiros). Há uma forma do governo capitalizar o BACEN diretamente, para evitar que este fique sem títulos para regular o mercado, mas isso também não é financiar o Tesouro, pois o BACEN não paga ao governo pela emissão de títulos, apenas é capitalizado com eles.

Imprimir dinheiro é o BACEN aumentar, por exemplo, a base monetária em 500 bilhões e usar essa liquidez para comprar títulos DIRETAMENTE do Tesouro, dando grana para o governo gastar.

Isso é proibido pela CF e por todo o arcabouço que nos tirou da hiperinflação. Se voltar, a inflação começará em 10%, depois 20% e não há limite. Estou certo disso, pois é a história do Brasil, a história da Argentina, do Zimbábue, da Venezuela etc.

Claro que o leitor pode acreditar que os políticos vão mudar as leis e a constituição federal para imprimir dinheiro “só essa vez”. Eu não me permito essa ingenuidade.

  1. Isso não é a proposta do Ciro. Banco Comercial não tem condição de regular oferta monetária.

Ciro queria usar o Banco do Brasil para quitar as dívidas do pessoal do SPC. O BACEN cria moeda, ele existe justamente para regular liquidez do sistema. E faz isso às centenas de bilhões regularmente.

Bancos comerciais não tem essa “bala na agulha”. Suas disponibilidades não fariam cócegas no sistema monetário. BB e caixa, juntos, não têm R$ 30 bilhões de disponibilidades, e comprometida com seus correntistas. O resto do balanço é ativo comprometido com passivo. Não dá para “usar”.

Basta olhar para o passado recente pós-crise de 2008 para ver que bancos não conseguem nem mesmo dar vazão à liquidez que os bancos centrais injetaram nos Quantitative Easing.

Um banco comercial não pode ser voluntarioso na concessão de crédito, pois quebra. E rápido, com uma inadimplência grande. Além disso vive de spread, tem custos elevados e alta inadimplência. E limitações para cobrança.

No caso específico de usar o BB, tem que combinar com os acionistas privados, pois é companhia aberta. Provavelmente, na assembleia, isso seria rejeitado e, provavelmente, o controlador não poderia votar, por ter interesse particular no caso.

  1. BACEN não é banco comercial

Se alguém inadimplir com o Itaú, poderá passar a vida inteira sem se relacionar com o Itaú. Mas não poderá passar a vida inteira sem se relacionar com o governo.

As formas de “cobrança” de um empréstimo do BACEN para CPFs são, potencialmente, infinitas, dado que todo CPF se relaciona com o governo diariamente através do seu consumo e da receita federal.

Basta uma lei para garantir o pagamento através das rendas declaradas do devedor. Basta estar no mercado formal de trabalho, basta declarar IR, enfim, ele vai pagar.

  1. Prejuízo do BACEN não é prejuízo de Banco comercial

O BACEN consegue absorver prejuízos gigantes, os bancos comerciais já quebram com um prejuízo razoavelmente pequeno. Um prejuízo de R$ 20 bi para o Banco do Brasil iria gerar uma enorme necessidade de capitalização, para recuperar a capacidade de emprestar (regras prudenciais). O banco, ou quebra, ou fica muito menor.

Isso não existe para o BACEN. O prejuízo dele é de fluxo, não compromete seu patrimônio e ele não está sujeito às mesmas regras prudenciais de bancos comerciais.

  1. A brincadeira do vídeo NÃO falou de emprestar dinheiro para as pessoas gastarem, mas para aliviar o endividamento e seus efeitos.

A ideia não era capitalizar as pessoas para gastarem, mas para trocarem suas dívidas caras, por dívidas baratas.

Trocar um consignado a 20% ao ano por um empréstimo a 3,75% permitiria conceder uma carência de até 6 meses e ainda voltar com uma prestação menor.

Por exemplo, R$ 50.000 para pagar em 60 meses, a 20% ao ano + IOF, taxas bancárias, taxa de administração, tarifa de abertura de crédito etc., geraria uma prestação próxima a R$ 1.350 por mês.

Tomando no BACEN com juros de 3,75% e sem parte dos custos acima (BACEN não é instituição comercial), seria possível dar 6 meses de carência (o principal iria para R$ 50.928) e a prestação, quando voltasse, seria de R$ 930.

Em conta de padaria, seria um alívio de quase R$ 25.000 no período inteiro do empréstimo.

Se pegarmos dívidas mais caras, como para comprar carro, CDC etc., o alívio é ainda maior.

  1. Problema número 1: excesso de liquidez?

Vamos considerar que o BACEN se prepare para absorver 500 bilhões da carteira livre de crédito a pessoas físicas. É muito, mas menos de 10% do crédito ampliado a empresas e pessoas físicas. É muito, provavelmente não seria necessário tanto, a carteira de consignados total é de pouco mais de R$ 140 bi.

Isso funcionaria como uma “brincadeira” de ciranda no próprio sistema financeiro. Esses 500 bi voltariam às carteiras dos originadores do crédito (bancos), pois os empréstimos seriam quitados. Isso viraria “liquidez”, provavelmente indesejada, pois os bancos não teriam para quem emprestar imediatamente.

A liquidez pode ser enxugada pelo próprio BACEN, ou seja, o dinheiro acabaria voltando para o Banco Central, podendo ser liberado no futuro em um momento de economia aquecida.

Em resumo, o BACEN emprestaria, e o dinheiro voltaria para o próprio BACEN. Não há motivo para alarde nesse movimento. É como funciona o jogo.

  1. Problema número 2: A queda nos “negócios bancários”

Preferi escrever negócios bancários do que lucro dos bancos.

Haveria, obviamente, um enxugamento nas carteiras de crédito de onde os bancos tiram spreads expressivos. Mas não é nada substantivo e não há a menor possibilidade de quebrar bancos, pois, ao contrário, eles aumentariam sua liquidez com a quitação antecipada de empréstimos.

O que vai acontecer é uma queda no lucro. As carteiras de crédito direcionado e outros não será afetada, e grande parte do “negócio bancário” estaria preservado.

Mas, obviamente, teríamos uma redução razoável no lucro dos bancos. E duradoura, pelo menos de 3 a 5 anos, enquanto durar a recessão (ou depressão).

O que poderia acontecer, após essa crise MONUMENTAL que estamos contratando, e que ainda é desconhecida, seria o próprio BACEN vender essa carteira para os bancos comerciais.

Como o BACEN não tem estrutura de banco comercial, provavelmente a operacionalização dessa troca de dívidas seria feita através dos próprios bancos comerciais, aquela “queda na prestação” e a carência nós perceberíamos mantendo nosso empréstimo no próprio banco de origem, que ganharia apenas pela operacionalização (a tal taxa de administração), mas perderia o spread.

Uma carteira de R$ 500 bi a 3,75% poderia ser vendida por R$ 370 bi para que os bancos ganhassem os mesmos 20% ao ano.

O BACEN perderia R$ 130 bi, o que, repito, não é de forma alguma grave para o sistema financeiro.

Na verdade, R$ 130 bi de custos para aliviar 50 milhões de famílias e/ou indivíduos não é nada. Peanuts. Além de não ser “gasto público”, mas uma redução na carteira do BACEN.

Nada disso é trânsito de dinheiro no caixa do governo. É só controle de liquidez.

Os bancos centrais do mundo inteiro têm aumentado suas carteiras fazendo exatamente isso, mas comprando essas carteiras podres de crédito diretamente dos bancos, e também títulos de empresas.

É praticamente a mesma coisa, mas não gera qualquer alívio para o tomador de crédito na ponta.

Em países desenvolvidos esse alívio não seria tão grande, pois os juros já são extremamente baixos, mas no Brasil, chegam a 20%, 30%, 50% até 350% ao ano.

Com juros de 3,75% na SELIC é até difícil explicar a existência de linhas de crédito a 15% ao mês. AO MÊS.

Talvez esse “tranco” do BACEN funcione até como um gatilho para que os spreads caiam na marra.

  1. Questões ideológicas.

As pessoas refratárias ao proposto, normalmente baseiam-se no conceito de Moral Hazard (risco moral) ou no princípio de que as pessoas não devem ser “salvas” pelo governo.

Compreendo e acho que estão certas.

Mas, infelizmente, esse “salvamento” pelo governo acontece diariamente nas operações corriqueiras do próprio BACEN. Sempre que há um evento de liquidez, um default, o banco acaba absorvendo algum prejuízo para manter o sistema funcionando.

O BACEN foi autorizado a comprar títulos de empresas pequenas. Empresas para quem os bancos não vão emprestar, pois o risco de colapsarem é gigante, se a economia permanecer mais algumas semanas fechada.

A operação de salvar empresas pequenas é MUITO MAIS arriscada e com muito mais moral hazard do que emprestar para pessoas físicas.

De que adianta uma promissória de uma empresa que pode falir em dois meses? O BACEN não tem instrumentos para recuperar esse crédito. E só vai recuperar parte disso.

Uma pessoa física, salvo em caso de falecimento precoce, permanecerá oferecendo seus fluxos de caixa para quitar o empréstimo.

Enfim, só não fazemos isso por questões de princípios mesmo.

Não gosto da ideia em tempos normais, mas em tempos em que o próprio governo determinou o fechamento de empresas e contratou o desemprego de uns 15 a 20 milhões de brasileiros (a mais do que já tínhamos), é algo a considerar.

PS. Este é apenas um artigo exploratório, dado que algumas pessoas levaram a sério o vídeo que fiz sugerindo, em tom de brincadeira, que o BACEN emprestasse dinheiro para nós. Não pretende ser uma proposta de nada, apenas ideias sobre um debate incipiente e inédito no Brasil.

 

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Imprimir dinheiro? Henrique Meirelles está ERRADO!

Posted on 09/04/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , |

O ex-ministro Henrique Meirelles está errado ao pedir para imprimir dinheiro, ainda aos 35 minutos do primeiro tempo da crise.

É fácil demonstrar isso, e o farei neste artigo.

Entendo o lado dos governadores. Eles foram voluntaristas alardeando que deveríamos fechar a economia para salvarmos as pessoas. Quando temos medo de morrer, o protocolo do medo é a resposta evolutiva básica.

Contudo confesso-me um pouco decepcionado com gestores públicos que não conseguiram ver questões óbvias de segunda ordem. Entendo o Zema seguir o desespero (justificável) e fechar MG, mas é um pouco naive achar que isso não acabaria com o dinheiro para pagar os servidores já no mês seguinte. Foi o que aconteceu. É o que está acontecendo. I see dead budgets everywhere!

Essa crise nos entregou dois problemas graves de início (além das questões médicas): impedimos as pessoas de produzirem, asfixiando a geração de impostos, e as convencemos de que os contratos não deveriam ser cumpridos, matando de vez as arrecadações (por meses, talvez anos).

Vejo com um certo ar quixotesco na luta do presidente do BACEN para tentar fazer as pessoas acreditarem que devem honrar contratos. Depois desse clima de “guerra dos mundos”, em que cada governador assumiu a postura de presidente dos EUA em Independence Day e partiu voluntarioso para destruir o inimigo alienígena, creio que é uma luta inglória. Too little, too late.

A Federação foi a primeira a decidir por quebrar os contratos mais básicos que são os direitos fundamentais e ir e vir, de trabalhar, de busca de felicidade, de decidir seu caminho etc. Isso, em termos institucionais, é uma espécie de suicídio federativo. É o estado negando a si mesmo seu papel e, simultaneamente, tirando de si os meios próprios para cumprir esse papel. É um estado moderno decidindo sua própria morte.

Não estou indo contra os governadores ou prefeitos, o protocolo do medo é muito forte e estamos todos com medo dos ETs. Mas nosso papel de cidadão é ter medo mesmo, estou em casa preocupadíssimo, pois já me convenceram que sair às ruas é uma roleta russa. Uma arma com 1.000 cavidades e uma bala. Mas o papel dos governantes é garantir que nossa sociedade contratual continue de pé, para que os sobreviventes do ataque do vírus possam voltar para suas vidas ao fim dessa loucura.

 

O fim da sociedade contratual.

Quando os Vice-Reis engomados decidiram romper o contrato social mais básico, por um medo justificável, não deixaram aos habitantes de Vera Cruz outra alternativa senão romperem eles mesmos os seus contratos pessoais. E isso ainda está sendo ampliado, com waivers generalizados para toda a sorte de dívidas, de cartões de crédito a hipotecas, de contas de luz a impostos.

Contratamos o fim do estado brasileiro para breve. Mas ele ainda não acabou, ainda tem jogo. Ainda estamos aos 35 do primeiro tempo, pois a queda de arrecadação dos entes federativos ainda não chegou ao fundo do poço, chegará em maio.

Como já dito, Pindorama deveria ser o último a desonrar contratos, mas, infelizmente, por motivo de força maior, já descumpriu vários pontos do contrato social e de nossa constituição. Por força do vírus maldito estamos vivendo cenas que nem em Estado de Sítio o governo brasileiro teria autonomia para performar.

Temos prefeituras dando mata-leão em vendedores ambulantes, guardas municipais expulsando banhistas no tapa das praias. Coisa que nem um Estado Marcial faria. E são prefeitos fazendo, não militares brucutus, a SS ou o exército vermelho de Stalin.

E tudo isso com amplo apoio da mídia e de grande parte da população. Eu entendo. Acho estranho, mas entendo.

Contudo, se desonrarmos os últimos bastiões contratuais da república, aí ela acaba mesmo. Estaremos entregando o jogo ainda no primeiro tempo. E a federação acaba. Isso não é uma hipérbole, repito: ISSO NÃO É UMA HIPÉRBOLE.

 

Meirelles propõe a impressão de dinheiro. Por que isso é o descumprimento último de contratos?

Simples. Por que, parafraseando o avô do presidente do BACEN, não existe uma pequena inflação, da mesma forma que não existe uma pequena gravidez. E adiciono: não existe imprimir dinheiro “só essa vez”.

As pessoas estão preocupadas com a geração de inflação, mas isso é o menor dos problemas. A inflação vai chegar depois do estrago. O problema principal é destruir o sistema de financiamento da dívida pública, e do próprio Estado Brasileiro.

Pensemos.

É razoável que as pessoas entendam que imprimir “pouco dinheiro” não gere desequilíbrio generalizado no sistema monetário (poder de compra em circulação). Um pequeno falsário não aumenta a inflação em sua pequena cidade.

Mas se o objetivo é imprimir “pouco dinheiro”, por que não usar os meios tradicionais de emissão de dívida? Se o sistema está disfuncional para levantar 50-100 bilhões de reais, já estamos quebrados e não sabemos. Lamento, mas, se isso é verdade, quebramos.

Agora, se o objetivo é imprimir 500 bilhões, 1 trilhão ou mais, por que alguém, em algum tempo no futuro, voltaria a emprestar dinheiro para Pindorama? Não é a Nhá Margareth “dos olhinho azul” e o Nhô Wilhelm que financiam a dívida pública. Estrangeiros são peanuts nesse mercado. Quem financia a dívida pública é a crença no futuro do Brasil que os próprios brasileiros têm. Os empresários, pequenos poupadores e TODOS os aposentados, de hoje e, principalmente, do futuro.

Lamento queridos, mas há uma verdade inexorável no mercado financeiro: ele vive o futuro no presente. O nome disso é valor presente líquido.

Não vão esperar a inflação, não vão esperar o fim da Pandemia, não vão esperar o Thanos, vão mandar os juros nas alturas, pois o risco de termos “impressão de dinheiro” para cobrirmos buracos menores (e certos de acontecer no futuro) é enorme. Risco futuro impacta preços presentes. Isso é aula 000001, tatibitati, massinha ZERO do curso de finanças.

Não haverá título a salvo, nem de inflação (pois ele oscila com o cupom de juros e não com a inflação que é adicionada a posteriori). Para os queridos que acham que títulos pós-fixados estariam livres, peço que voltem às crises do final do governo FHC para ver que a “meta da SELIC” não valia mais nada. O governo tinha que pagar mais, mesmo em pós-fixados (aqueles ágios e deságios de hoje, pequeninos, eram enormes em 2002).

Pois bem, já chutamos o balde em quase tudo no pacto social. De certa forma capitulamos diante do virus, antes dele nos matar. Não estou criticando, entendo que o protocolo do medo seja forte demais para ser enfrentado, ninguém quer morrer. Estou em casa convencido a ter muito medo.

Se chutarmos o resto, não haverá Federação. Repito pela segunda vez: Isso não é uma hipérbole.

Faltam poucas coisas para serem destruídas aqui em Terra Brasilis, e estamos caminhando a passos largos para fazê-lo. O Plano Mansueto se tornou o embrião de uma bomba nuclear no orçamento federal, com todos os entes federativos se refestelando no cadáver do orçamento público. Todo mundo que estava nadando nu vai comprar roupa roubando de si mesmo, roubando seu próprio futuro.

Agora estamos querendo imprimir dinheiro, jogando no lixo a última racionalidade do período pós-inflacionário, que é a LRF e o sistema de financiamento do déficit público.

Não é possível destruir tudo e preservar tudo ao mesmo tempo. You can´t eat the cake and have it too. Se formos no caminho da heterodoxia isso não vai levar os mercados a dançar alegremente com essa irracionalidade. O mercado vai manter-se tentando reduzir seus prejuízos e, nesse caso, seria uma enorme corrida ao dólar, e não só por vias bancárias, uma fuga enorme dos títulos públicos, o que significa, na prática juros nas alturas.

 

Isso não seria uma previsão catastrofista, Portinho?

Respondo: para começar isso nem é uma previsão, é só uma lembrança. Tenho 47 anos, nada disso é novo. Me bancarizei em um país assim. Tive dinheiro confiscado, tive que lembrar o nome de 5 moedas em 10 anos, vi a minha mãe guardar notas de empréstimo compulsório, vi contas bancárias gerando correção de 1% por dia útil etc.

Para falar pela terceira vez de Roberto Campos, esse texto não é uma previsão é uma Lanterna na Popa.

 

Don´t do funny things.

Não é mais uma questão de salvar vidas e salvar a economia. Num cenário como esse, de total descumprimento de contratos, o Átila Iamarino vai parecer uma Pollyanna de previsões cadavéricas. Vão lembrar dele como aquele menino otimista. As vidas estão sendo destruídas pelo vírus, a economia, por nós. Voluntariamente e de forma anormalmente rápida.

Please: don´t do funny things.

 

Ps. Se você leu esse texto e o achou alarmista, quero me desculpar, pois tentei ser didático e não alarmista. Eu achei o texto até otimista, pois ainda podemos vencer sem esfacelar a federação. Podemos empobrecer com dignidade.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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