Red Pill COVID19: Por que optamos por usar dados errados?

Posted on 29/06/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , |

A coisa que mais me impressiona nesta pandemia é o uso deliberado de dados errados para avaliarmos nossas curvas de infecção e óbitos.

Nós temos atrasos de até 3 meses para comprovar um óbito ou uma infecção e continuamos usando esses dados, com atrasos, para nos guiar na gestão pública e nas críticas da imprensa.

E a imprensa critica, de forma até agressiva, os gestores públicos por quererem reabrir os estados, porém baseia suas críticas em dados errados.

Os dados da Suécia

Poderíamos fazer o mesmo que a Suécia, que divulga para consumo externo o número de casos e óbitos por dia de registro (quando sai o resultado positivo) e para consumo interno apresenta os dados por dia de evento (quando de fato ocorreu a infecção ou o óbito). É bem verdade que lá o atraso é mínimo, não passa de 1 semana.

Veja a diferença:

O caso do Rio de Janeiro

A imprensa se decidiu que a “ciência” mandou fechar todos os estados por tempo indeterminado. Para sempre, se for necessário. Não há decisão alguma de abrir ou flexibilizar que não seja chamada de genocídio, maldade ou coisa parecida. Antes o alvo era o presidente, hoje o alvo são todos os gestores públicos.

Esse, na minha opinião, JAMAIS deveria ser o papel da imprensa, esse tipo de militância por algo extremamente grave e incerto. O gestor tem responsabilidades que a imprensa não tem.

A imprensa não precisa se preocupar com orçamento público, salário de médicos, outras doenças etc., os gestores precisam. Foram 51% a mais de óbitos por causas cardíacas registrados nesse período. Reduzimos em 70% o número cirurgias relacionadas ao câncer. Entre 35.000 e 40.000 de diagnósticos positivos de câncer por mês estão deixando de ser feitos.

O gestor público é gestor de tudo. Considero irresponsável a atuação da imprensa. Irresponsável como eu jamais imaginaria que poderia ser. Jogar pedra em governadores exigindo que o estado permaneça fechado por tempo indeterminado é inaceitável. A imprensa não está sentada na cadeira do gestor e não está nem aí para os outros milhões de problemas que o gestor precisa enfrentar. Humildade e responsabilidade andam em falta.

Mas além de irresponsável, está baseada em dados errados.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/29/ocupacao-de-uti-na-rede-privada-do-rio-cai-para-67percent-mas-taxa-de-contagio-ainda-preocupa-diz-associacao-de-hospitais.ghtml

Essa reportagem é do dia 29/06 e traz conclusões baseadas em fatos completamente errados. Eu tenho dificuldade de entender os motivos. Vamos aos erros.

O pico da pandemia no RJ foi em final de abril, começo de maio se considerarmos os óbitos e casos de COVID e SRAG.

Alguns estados podem estar no início da Pandemia, mas os mais afetados PROVAVELMENTE já estão na descendente há algumas semanas.

Veja os gráficos abaixo:

http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html

Pelo gráfico do registro de óbito, usado pelo jornal, teríamos um pico na primeira semana de junho, com um platô daí por diante.

Pelo gráfico da DATA de óbito ou de início dos sintomas, o pico de óbitos seria em 30/04. O mesmo vale para os casos. O RJ tem batido recordes recentes de registos de casos e óbitos, mas isso é derivado de um estoque enorme de casos em análise.

O recorde de número de casos em um dia (por registro) é de 6.061 em 19/06, mas por data de EVENTO (início dos sintomas) é 2.890 em 20/04. São 2 meses de diferença e 60% menor.

Dá para confiar nos dados por data do evento?

A data de óbito e a data do registro da coleta de sangue em quem fez o exame dá para confiar sem problemas.

As pessoas que criticam essa análise por data do evento, dizem que o número de óbitos pode aumentar. Claro que pode. Por isso é que deveríamos ter 2 números, por exemplo: o número de óbitos CONFIRMADOS para a data de 30/04 e o número de óbitos INVESTIGADOS ocorridos em 30/04. Ninguém tem dúvida da data do óbito em si, apenas se foi ou não COVID. Teríamos, por exemplo, 243 óbitos confirmados + 30 em investigação, assim saberíamos que NO MÁXIMO, chegaríamos a 273 naquele dia.

Estou acompanhando os dados do RJ desde quando o recorde de óbitos por dia era em 05/05. Achei que com o andamento da pandemia esse recorde andaria para frente, mas ele foi para trás. Chegou a 26/04 e hoje está em 30/04.

Outro ponto de corrobora essa visão é que estamos vendo redução constante, desde o início de maio, no número de internações.

O que não faz sentido é a análise dos jornais, pois estão concluindo que estamos no pior momento, com recordes de casos e isso NÃO ESTÁ se verificando no número de sepultamentos (Crivella já disse que teremos menos sepultamentos em junho de 2020 do que em junho de 2019) e no número de internações.

Se há possibilidade de erro no uso dos dados por data do evento, com o uso por data da confirmação do exame o erro não é uma possibilidade, mas uma certeza.

Matemática epidemiológica

Os modelos básicos são do tipo SIR (susceptíveis, infectados e removidos). Uma epidemia corre rápido quando há muitos susceptíveis e um número razoável de infectados. Ela começa a reduzir quando os removidos (pessoas que não transmitem mais e nem se contaminam mais) aumenta.

Apesar do alarmismo de que a imunidade não dura, não há evidências relevantes de reinfecção no mundo e, principalmente, já sabemos que há muita gente não susceptível ao vírus.

A imprensa trata o fato de termos centenas de milhares de curados e milhões de assintomáticos e não susceptíveis como “terraplanismo epidemiológico”, como irrelevante, mas na ausência de vacina são esses que vão proteger os mais vulneráveis quando tudo reabrir.

https://www.youtube.com/watch?v=gxAaO2rsdIs

Esse vídeo mostra claramente os efeitos de cada tipo de ação para segurar a epidemia. Ficam claros os motivos para o distanciamento social falhar, pois pequenas imperfeições já fazem com que o modelo fure.

E nós nunca teremos “pequenas imperfeições” pois entre 30% e 40% das pessoas precisam continuar trabalhando, caso contrário não comeríamos, não teríamos coleta de lixo, água tratada, energia elétrica etc. Não surpreende que continua havendo casos diários mesmo em locais com bons resultados na contenção da Pandemia.

Sinto-me completamente impotente diante desse quadro.

É razoavelmente óbvio que o pico de uma pandemia é dado pela data do EVENTO e não pela data do REGISTRO. A data do registro pode atrasar 2 meses, o que parece ser o caso no Rio de Janeiro.

Eu não sei mais o que fazer para que esse debate apareça na imprensa. É extremamente angustiante que ninguém na grande imprensa, nem especialistas que são convocados a falar, se importem com esse uso viesado e equivocado tanto dos números da Pandemia no Brasil quanto da lógica da matemática epidemiológica.

Muita gente fala que isso é apenas uma tentativa de manipulação da opinião pública. Eu ainda acredito que seja apenas má formação matemática. Os jornalistas não conseguem ter a sensibilidade necessária para orientar suas percepções de forma correta.

Por isso vemos esse debate insano nos jornais e nas TVs, governadores querendo abrir, pois estão vendo redução forte no número de óbitos e internações, e a imprensa alarmando as pessoas para recordes que, de fato, ocorreram 40 dias antes.

Não sei mais o que fazer. A mim parece que a ciência morreu. É a idade das trevas jornalísticas.

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Red Pill COVID19: A baixa mortalidade nos estados do Sul do Brasil.

Posted on 23/06/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Política | Tags:, , |

Essa série “red pill” não é para contar “verdades” sobre a COVID, mas para debater hipóteses fora das limitações da mídia e da luta política. A pílula vermelha é aquela que permite ver a Matrix, ou seja, fugir do condicionamento e das ilusões.

O Brasil está razoavelmente intrigado com o fato de alguns estados terem sido muito mais atingidos que outros. A mortalidade por MM de habitantes chegou a 20 vezes mais na comparação entre alguns estados do Norte e Nordeste e os estados do Sul e do Centro-Oeste.

Imunidade cruzada

Ninguém sabe exatamente como funciona a relação entre o nosso sistema imunológico e a COVID. Sabemos que algumas pessoas ficam expostas ao vírus e não pegam, ou se pegam, não desenvolvem anticorpos e não têm sintomas. Temos pessoas que desenvolvem anticorpos, mas que desaparecem em poucos meses. Temos pessoas que ficam extremamente vulneráveis e são internadas ou vão a óbito.

A mortalidade absoluta do vírus já foi estimada pelo CDC dos EUA em 0,26%, o que é condizente com a pesquisa brasileira com profissionais de saúde, onde 83.000 tinham sido contaminados com 169 óbitos (à época da pesquisa), 0,2%.

Sabemos também que nosso sistema imunológico é constantemente “treinado” para enfrentar patógenos e que, quanto maior nossa exposição, mas competente nosso sistema fica. Essa é a lógica da maioria das vacinas, treinar nosso sistema imunológico para que seja competente no enfrentamento de determinado patógeno, com a vantagem de não sofrer as consequências do patógeno.

Há uma hipótese já bem estudada e avançada indicando que nem todos são susceptíveis ao vírus. E que muitos de nós o enfrenta com base em memórias imunológicas de outros vírus semelhantes. A isso chamamos imunidade cruzada. O organismo não enfrenta os patógenos apenas com anticorpos específicos, há outras ferramentas.

A hipótese do Sul do Brasil

Nada do que será sugerido aqui é verdade ou provado. Isso não é um trabalho científico, mas um trabalho exploratório para levantamento de hipóteses, que se forem de interesse podem ser estudadas e provadas, ou descartadas.

Praticamente todos os estados do país começaram a sofrer com excesso de síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) no final de fevereiro. A hipótese óbvia é que a COVID estava por aqui muito antes de virar notícia e de virar luta política. Quanto a isso não há muita dúvida, apesar de a luta política ter transformado tudo o que deveria ser técnico em algo moral. Uma enorme perda de tempo.

Essa evolução na SRAG aconteceu também nos estados menos atingidos pela COVID, como os estados do Sul e do Centro-Oeste. Todos foram impactados de forma mais agressiva em finais de fevereiro (semanas 9 a 11).

A hipótese que me parece plausível é que esses estados, por serem reiteradamente mais atingidos por síndromes respiratórias, desde sempre, tenham levado os moradores a desenvolverem sistemas imunológicos mais competentes para lidar com esses patógenos.

Há outras variáveis, as quais não temos acesso, como a quantidade de infectados no início do surto, mas pelos gráficos a seguir deve ficar claro que a hipótese de imunidade “treinada” pode ter alguma relação.

Estados com incidência elevada de SRAG todo ano

Os gráficos a seguir mostram alguns dos estados com menor incidência de COVID e óbitos no país. Perceba que as curvas coloridas, que são históricos e previsões de incidência de SRAG oscilam entre 1 e 2 casos por 100.000 habitantes por semana epidemiológica.

Todos apresentaram elevações e níveis de infecção e internação entre 4 e 6 por 100.000 habitantes.

O número de óbitos de COVID por 100.000 habitantes (22/06, fonte: painel interativo do Ministério da Saúde): MS (2), SC (4), RS (4) e PR (4).

Estados que não são impactados por SRAG de forma relevante

O número de óbitos de COVID nos 4 estados mostrados no gráfico abaixo é: AM (65), CE (61), PA (54), RJ (52).

 

Análise dos dados e outliers

Apesar da escala não ajudar, pelos dados de 2019, podemos ver que o índice “normal” de internações (pico da curva verde em 2019) por SRAG nos estados estudados foi o seguinte:

Menos atingidos por síndromes respiratórias (por 100.000 habitantes por semana): AM (0,1), PA (0,15), CE (0,08) e RJ (0,09).

Mais atingidos por síndromes respiratórias (por 100.000 habitantes por semana): RS (0,8), SC (0,6), PR (0,7) e MS (0,6).

São os estados com mais óbitos por COVID no Brasil e os com menos óbitos (excluindo MG).

É claro que podemos sempre pensar que esses estados receberam MENOS turistas, mas não podemos negar que tiveram uma alta muito grande nos casos de SRAG na mesma época dos estados mais afetados. Os efeitos estavam lá também. Devemos lembrar que já se fala em COVID em Agosto na China e a Itália informou que já havia sinais da COVID nos esgotos do país em dezembro de 2019.

Nós temos 3 outliers, pontos fora de Curva, que podem ter outras explicações.

Pernambuco e SP têm índices mais altos de incidência de SRAG (respectivamente 0,3 e 0,2 por 100.000 habitantes para 2019), mas ambos tiveram alta mortalidade. PE (44) e SP (28). A explicação pode estar no grande volume de tráfego de estrangeiros e no carnaval muito frequentado.

MG não tem um índice tão alto de SRAG, é semelhante ao de SP, e tem uma das mais baixas mortalidades do país. E não se deve à subnotificação de COVID, pois a mortalidade por SRAG também é baixa em relação ao país (0,7 por 100.000 habitantes por semana, enquanto o Amazonas bateu 14, vinte vezes mais). O caso de MG não é fácil de explicar, pois o Carnaval lá também é forte. Talvez receba muito menos turistas estrangeiros.

O futuro nos estados do Sul

Devemos observar o futuro da epidemia nos estados ainda menos afetados para verificar se a hipótese se confirma, de que populações mais expostas a patógenos respiratórios podem ser menos susceptíveis à COVID.

Há um perigo nesses estados que é a competição dos dois patógenos. Está chegando justamente a época de gripe, em que há uma alta nas internações e óbitos.

Minha impressão é que a COVID já está por lá há algum tempo e o aumento nas internações e óbitos não será exclusivo da COVID, mas da temporada de gripe que já é grave nesses estados e nessas épocas. Devemos ver um aumento nas internações, mas acredito que não chegará nem perto do nível encontrado nos estados do N e NE.

Posso estar enganado, é claro, algumas coisas, porém, são inequívocas:

– A COVID está fazendo estrago desde o final de fevereiro. Pelo período de incubação da doença, provavelmente começou a se espalhar entre os dias 20 e 25 de fevereiro (semana 10 vai até 01 de março).

– Nós estamos analisando os dados de forma errada no Brasil. Para efeitos de precisão dos dados, precisamos saber se esses casos de SRAG foram, de fato, COVID, mas para nos guiarmos em políticas públicas, isso NÃO é necessário. Já deveríamos estar olhando os gráficos da SRAG como proxys da COVID há muito tempo.

– Nossas curvas reais devem estar inclinadas para a esquerda em relação ao que estamos vendo nos noticiários. Se considerarmos apenas os óbitos e casos por DATA DE EVENTO já teremos picos e platôs acontecendo entre final de abril e maio na maioria dos estados mais atingidos. Se utilizássemos as curvas de SRAG, a curva iria ainda mais para trás, talvez entre final de março e início de abril, em alguns estados.

– Em resumo, os números que vemos todos os dias na TV podem não ter significado gerencial algum, ao contrário, podem estar nos levando a analisar tudo errado.

É uma hipótese, não é algo político, moral ou ideológico.

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A filosofia da COVID19: O papel da ciência.

Posted on 10/05/2020. Filed under: Administração, Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , , , |

Escrevi o livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe” para tentar explicar o caminho que levou o Homo Sapiens Sapiens a ser como é. É basicamente uma história, não contada e não documentada, da razão e da racionalidade, aliada a uma história bem documentada da ciência e da crença em Deus. É, sobretudo, um livro de filosofia da ciência.

E por que a ciência e a racionalidade seriam tão importantes para demonstrar que Deus existe? Simples, porque todas as tentativas de demonstrar a existência Dele acabam no campo da ciência empírica e da lógica formal.

Por isso foi fundamental demonstrar ao leitor os limites da ciência e da racionalidade, para que ele entenda o que significa “existir”, para o campo da filosofia e da ciência, que é necessário entender antes de nos propormos a provar a existência de Deus, ou de qualquer outra entidade.

Link para ebook (versão impressa com envio suspenso pela Pandemia): https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

A ciência na Pandemia.

Essa pandemia de COVID19 tem mostrado, com muita clareza, que as pessoas não têm a mais remota ideia do que seja, de fato, ciência.

Em verdade, as ações brutais e violentas em nome da “ciência” que vemos agora reproduzem a violência do positivismo de meados do século XIX, onde tudo aquilo que não poderia ser claramente proposto, modelado e medido não deveria ser considerado conhecimento válido.

Essa agressiva visão foi, em grande parte, responsável pelos movimentos críticos (associados às humanidades e ao ideário coletivista) surgidos nos últimos 150 anos.

No livro apresento uma breve história da ascensão e queda do império iluminista das técnicas e métodos das ciências naturais aplicadas em ciências humanas e sociais.

O rompimento com o positivismo (crença no método científico empírico e mensurável como único caminho para trazer conhecimento verdadeiro para a humanidade) veio da própria ciência natural, que desafiou todos os dogmas clássicos e demonstrou que nossa experiência na ciência é, tão somente, uma alegoria de pensamentos condicionados e, muitas vezes, tautológicos. Há enorme utilidade na ciência natural, mas quando vai fora dos seus limites, pode produzir desastres humanos e sociais.

Heisenberg (físico quântico mais importante da história, ganhador do Nobel) rompeu com o positivismo com uma frase que expressa claramente o que escrevi até o momento neste artigo (em tradução livre):

“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido naquilo que podemos dizer claramente e o resto, que é melhor deixar passar em silêncio. Mas alguém pode conceber uma filosofia mais sem sentido, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se omitirmos tudo o que não está claro, provavelmente ficaremos com tautologias completamente desinteressantes e triviais.”

 

O que mais me assusta nesse positivismo agressivo da COVID19?

É que o uso da ciência como verdade e como instrumento de dominação político-ideológica está se dando em grupos que sempre foram combativos ao positivismo. Grupos que sempre pregaram o pensamento crítico ao cientificismo.

O que antes era inconcebível para os movimentos coletivistas (alguns tratam como movimentos progressistas ou de esquerda), aceitar cegamente ordens de uma ciência positiva, tornou-se lei universal. Não só lei técnica universal (ordens que todos devemos seguir), mas lei moral universal (contrariar a ciência positiva dogmática significaria tornar-se uma pessoa má).

Justamente as pessoas que sempre rejeitaram a aplicação das metodologias das ciências naturais em ciências sociais e humanas, que sempre rejeitaram a estatística, a matemática, o método e a modelagem científicos, e pregaram largas e soltas dialéticas em substituição, para atingir a verdade, estão se escudando na ditadura metodológica que está nos guiando a todos, bilhões de pessoas, sem nenhuma crítica, apenas cega obediência.

 

A ciência se presta a esse grau de segurança?

Não. De forma bem simples, repito: não! Em ciência natural, temos elevados graus de segurança, elétrons não têm opinião e prótons não perdem empregos ou a vida, mas em ciências sociais e humanas, a segurança científica é mínima. Nossa forma de enfrentar a Pandemia prova isso, de forma clara.

Parte significativa do livro procura ilustrar para o leitor leigo em filosofia da ciência, que já há 100 anos, pelo menos, não há qualquer dúvida de que a ciência não é ambiente de certezas. Nunca foi, é verdade, mas fomos cegados pela brilhante filosofia da ciência de Newton-Descartes, que nos trouxe evidências muito claras de que estaríamos, de fato, enunciando a VERDADE e não apenas um conhecimento parcial.

Isso morreu, de forma definitiva, por descobertas da própria ciência natural.

Hoje, ciência é, obrigatoriamente, o campo das ideias humanas, consistentes e coerentes com algum paradigma prático e pragmático, que elabora hipóteses à espera de refutação.

Se a hipótese ou a proposta científica não trouxer consigo caminhos claros e objetivos para sua refutação, não é ciência, é ideologia ou religião.

Tomemos o exemplo dos lockdowns ou quarentenas que estão sendo propostos em vários países do mundo.

Não existe nenhuma forma clara para medir seu sucesso ou demonstrar seu fracasso.

O Imperial College alertou o governo inglês que morreriam cerca de 500.000 britânicos se seguissem o modelo sueco, de não fechar o comércio e escolas e buscar a imunidade de rebanho. O governo adotou, portanto, um lockdown rigoroso, e logo depois o Imperial College reduziu a previsão do número de mortos para 20.000.

Onde está a ciência disso? O que poderia mostrar que esse estudo estava errado? A rigor, pode-se sempre dizer que vidas foram salvas, alegando que haveria mais mortes. Mas isso não é ciência, pois estamos comparando fatos empíricos com modelos matemáticos sobre hipóteses que não aconteceram (a não adoção do lockdown).

Poderíamos argumentar que o estudo estava errado apontando duas evidências:

  1. O modelo inglês está com 50% mais mortes por MM de habitantes que o modelo sueco. Deveria ser um desastre sem precedentes na Suécia, mas não aconteceu e ficou bem melhor do que a Inglaterra.
  2. A previsão de 20.000 mortos após a adoção do lockdown está errada, pois o UK está hoje com mais de 32.000 mortos (ver: https://www.ft.com/content/249daf9a-67c3-11ea-800d-da70cff6e4d3)

Meu interesse não é debater os lockdowns ou os estudos da Imperial College em si, mas mostrar que são apenas propostas metodológicas, jamais deveriam ser tratados como o que a “ciência mandou fazer” ou com a verdade trazida pela ciência.

 

A ciência e os burocratas.

No capítulo 14 do livro discuto brevemente como a ciência não consegue ser balizadora da moralidade, e que acabamos sempre decidindo os caminhos da própria ciência e seus impactos na vida cotidiana através de decisões de burocratas ou de legisladores eleitos.

Hoje precisamos decidir a “moral” dos carros autônomos. Em circunstâncias de acidentes inevitáveis o algoritmo precisará decidir a quem colocar em risco. Se há uma mãe atravessando a rua com uma criança do lado esquerdo e um idoso vindo do lado direito, nosso processo decisório humano desvia o carro para algum dos lados, ou simplesmente continua e atropela a todos. Um computador terá que tratar isso a partir de algoritmos (decisão moral previamente estruturada).

Quem privilegiar? Um grupo de crianças, um grupo de idosos, ou o próprio motorista?

Obviamente que, se deixarmos exclusivamente para a indústria, ela vai programar no interesse de quem paga. Tentamos vender carros seguros para os motoristas, dificilmente venderiam um carro autônomo que, em situação de acidente inevitável, opta por colocar o próprio motorista em risco.

Exceto se… for lei.

Na prática a moralidade do ato não será avaliada pela ciência, pela estatística ou pela verdade universal, mas por um conjunto de burocratas ou legisladores. Em países ditatoriais, pelo ditador. Em ambientes laissez-faire ou dominados pelo lobby das indústrias, será decidido na direção do interesse econômico.

Nada disso é ciência.

O exemplo que trago no livro é o da luta contra a malária na África. A malária atinge cerca de 200 milhões de africanos todo ano, com cerca de 400.000 mortes.

A ciência trouxe uma solução potencialmente definitiva, um mosquito geneticamente modificado que só gera mosquitos machos, o que faria com que a população de mosquitos fosse gradualmente extinta.

A potencial solução encontrou resistências de grupos religiosos locais, que acusaram os cientistas de brincarem de Deus, de grupos políticos, de ambientalistas etc. Nada disso é ciência, mas é o que comanda a ação humana.

Segue parte do livro em que discuto a estranha racionalidade da “não-ação” humana:

Quem entende o mundo de forma sistêmica, sabe que não vivemos de solução em solução, mas de problema em problema. Qualquer ação humana modifica tudo, não é possível fazer apenas “uma coisa”.

Perceba como é curioso nosso processo decisório, como é difícil entender sua racionalidade. As organizações ambientais acusam a ação humana de ser responsável pela extinção de 3 espécies por hora aqui na Terra. E não parece haver muito o que fazer quanto a isso. Quando se vai discutir a eventual extinção de um mosquito específico, que leva miséria e doença às populações humanas mais carentes, decidimos não o fazer. Só nas poucas horas que levei escrevendo e revisando esta parte do livro, 12 espécies foram extintas.

Não pretendo fazer aqui um julgamento de valor, apenas procuro mostrar que a extinção de milhares de espécies, segundo os ambientalistas, acontece todos os anos. Durante o tempo em que nossas instâncias políticas e multilaterais discutiam o uso ou não do mosquito geneticamente modificado, talvez 100.000 espécies tenham encontrado sua extinção. E empreendemos esforços milionários para salvar uma, exatamente aquela que sabemos ser responsável pela malária.

 

Deixemos a ciência em paz para fazer o seu papel.

Ciência é ferramenta de conhecimento, não se presta a justificativas perfeitas para decisões políticas e ideológicas, pois é, por definição, passível de refutação. Na verdade a ciência evolui nesse sentido, de alterar o conhecimento anterior por um modelo melhor.

A sociedade aberta da ciência (capítulo 5 do livro) está funcionando vivamente nessa Pandemia, com milhares de estudos simultâneos em todo o mundo, lutando contra aqueles que querem usá-la para justificar pseudoverdades tribais, pensamento único e sonhos ideológicos e revolucionários.

Não podemos deixar a sociedade fechada, tribal e ideológica se apropriar de um campo do conhecimento humano que é fluido e imperfeito, para justificar ações ditatoriais.

Ciência é liberdade, transparência e, principalmente, apreço pelo contraditório.

O que estamos fazendo hoje é escolhendo lados, isso é tudo, menos ciência. Estamos funcionando como aqueles filmes de tribunais que trazem especialistas que servem apenas para corroborar a hipótese da defesa ou da acusação. No processo judicial, pelo menos, há um juiz para decidir a verossimilhança das hipóteses. Nessa pandemia, não há nada, exceto a opção por aderir cegamente a verdades absolutas inexistentes.

Tudo em nome da pobre ciência, que não tem culpa de nada.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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