Red Pill COVID 19: O isolamento vertical

Posted on 08/07/2020. Filed under: Administração, Filosofia, Matemática, Política | Tags:, , , , , , |

Essa Pandemia trouxe alguns dos piores “calls” da história recente da humanidade.

Gosto de pensar em um call como uma aposta comprada firme. É algo que eu compro e acho que vai dar certo.

Hoje vou falar de um dos mais bizarros, a condenação prévia do isolamento vertical.

Antes de apresentar o debate, vou direto aos números, simulando um hipotético isolamento vertical em SP.

A lógica do isolamento vertical é das mais triviais, tentar isolar de forma mais eficiente os mais vulneráveis. Fazemos até sem sentir. Com o filho mais vulnerável temos mais cuidado, com o idoso mais frágil, o mesmo.

No caso da COVID19, desde o início sabíamos que a mortalidade de idosos era desproporcionalmente mais alta do que em jovens. É até mais desproporcional do que para a gripe comum.

Em SP, com base nos dados de mortalidade da SEADE (https://www.seade.gov.br/coronavirus/), e na pirâmide etária do Brasil (dados mais recentes), a chance de uma pessoa acima de 60 anos ir a óbito é 17 VEZES maior do que para alguém mais novo que isso. Na Europa é ainda muito maior, pois 95% dos óbitos ocorreram com idosos acima de 60 anos.

Se o foco é reduzir o número de óbitos (e de hospitalizações), um grupo com mortalidade tão desproporcional deveria ser mais protegido. É um pouco incompreensível que esse debate tenha sido interditado. Adiante discuto os possíveis motivos (a ciência do Imperial College).

A matemática do isolamento vertical é muito óbvia. Se fizermos um isolamento horizontal para “achatar a curva” o vírus nos pega mais devagar, porém na mesma proporção em que nos “trancamos”.

Qualquer redução bem-sucedida na exposição do grupo com 17 vezes mais chance de óbito, reduz a mortalidade geral. Isso não é nem ciência epidemiológica, é matemática vetorial simples.

O índice de mortalidade geral, calculado pelo CDC americano, está em 0,25%. Só que esse número cru esconde uma matriz de mortalidade (vetor). Vai de 0,01% para determinados grupos até 5% em outros. Isso ficará claro nos números aproximados de SP.

Boa parte da mortalidade excessiva na Europa veio de óbitos em casas de repouso. Se tivessem sido bem-sucedidos em proteger esses idosos que não saem de casa, a COVID19 teria ceifado muito menos vidas. Isso está dando inquéritos por lá, e provavelmente vai ter em NY, que mandou idosos que estavam internados de volta aos asilos para liberar espaço nos hospitais.

Os números de SP.

Tomei como base os dados de mortalidade calculados pelo SEADE e a pirâmide etária brasileira (dados mais recentes).

Assumi algumas premissas:

– O vírus se tornaria endêmico e com mortalidade em linha com outros patógenos após termos 40% da população infectada. Não usei 60-70%, pois estima-se hoje que muita gente já seja imune ao COVID19. Talvez esses 40% estejam superdimensionados, pois temos uma redução muito grande na mortalidade em países já com 10% a 15% de população infectada.

– Adotei um deflator de 20 vezes para ajustar a mortalidade geral de SP, para se adequar à previsão do CDC. Nós medidos 5%, pois fazemos poucos testes e desconsideramos pessoas que pegam, se curam (ou nem sentem) e não geram anticorpos.

Com essas premissas, se o vírus pegar a população exatamente na mesma proporção da distribuição etária, SP poderia atingir cerca de 32.000 óbitos até o vírus atingir 40% da população.

Se conseguíssemos reduzir a exposição dos grupos de risco etário (mais de 60 anos) em 50% e 70%, teríamos uma probabilidade de óbitos muitíssimo menor.

O ideal seria que ninguém morresse jamais, nem idosos nem novos, mas essa opção não está na mesa. Quem faz política pública precisa trabalhar com a realidade para reduzir os danos à população e não com um mundo impossível ou raciocínio motivado.

Importante notar que atingir 40% não significa que o vírus vai embora e nunca mais vai matar. Se tornará endêmico, com mortalidade em linha com o de outros patógenos. Os patógenos do passado continuam todos por aí.

Bom, a matemática é essa e ela reflete uma enorme obviedade, proteger quem tem 17 vezes mais chances de morrer tende a reduzir o número geral de óbitos.

Agora vamos discutir os motivos para essas coisas razoavelmente óbvias não terem sido nem debatidas.

O controle possível da Pandemia

O padrão-ouro de controle de epidemias é achar os doentes e quem teve contato e colocá-los em quarentena. Isso foi impossível na COVID19, por 3 motivos:

– Insuficiência de testes no início.

– Enorme velocidade de propagação.

– Assintomáticos transmitiam.

Se não dá para controlar a doença com o padrão-ouro, passa-se às hipóteses de isolamento social.

O isolamento horizontal pressupõe isolar a todos sem distinção de grupos etários, o isolamento de vulneráveis é tentar fazer com que a imunidade de grupo (que é a única coisa que podemos ter, com ou sem vacina) se forme PRIMEIRO em grupos com sistemas imunológicos mais competentes.

100% dos especialistas fala em imunidade de grupo, seja pelo vírus esgotar as pessoas com sistemas imunológicos susceptíveis (que irão a óbito ou sairão com anticorpos ou alguma estrutura de defesa), seja pela vacina (que não é certa e provavelmente chegará tarde, na Europa nem conseguem testar mais, pela redução enorme no número de infecções).

E para as pessoas que não acreditam que nosso sistema imunológico conseguirá ser eficiente contra o vírus, lembro que isso tornaria muito mais difícil termos uma vacina.

Por que nós não buscamos, primeiro, isolar os mais vulneráveis?

Não sei, mas de início houve a ciência. Aquela que errou todas as previsões.

O Imperial College fez previsões catastróficas para o Brasil. Se fizéssemos isolamento horizontal intensivo, teríamos 44.000 óbitos, com isolamento vertical (idosos), isso iria para 529.000, com isolamento social leve, seriam 627.000 óbitos e sem isolamento, 1,1 milhão de óbitos.

Veja na figura abaixo.

Hoje sabemos que é tudo enorme nonsense, mas à época era “a” ciência, não havia outra aceitável.

Foi um call tão errado, que nós DE FATO fizemos um isolamento meia-boca (que mataria 627 mil pessoas segundo o Imperial), com as comunidades mais pobres (a maioria dos brasileiros) vivendo com razoável normalidade, tivemos índices inferiores a 50% de isolamento na maior parte do tempo e ainda estamos 10 vezes abaixo das previsões.

Nessa thread o biólogo Átila chega a falar em 2,6 milhões de mortos no Brasil até agosto “se nada for feito”:

https://twitter.com/oatila/status/1240156469078691842

Por essa lógica do Imperial, a Suécia, que deixou praticamente tudo aberto, teria cerca de 250.000 mortos (0,25% da população). Tem 5.500. Um erro de quase 98%.

As premissas sem sentido

O modelo básico de previsões de epidemias é o SIR (Susceptíveis – Infectados – Removidos). O número de removidos (que não transmitem o vírus) cresce até um patamar que torna a propagação muito difícil e o vírus vira endêmico. Não desaparece, mas não tem potencial para pegar todo mundo.

Há 3 premissas sem sentido:

– Que podemos ficar totalmente presos até a invenção de uma vacina.

– Que o vírus vai desaparecer para sempre.

– Que a única forma de enfrentar um vírus é se escondendo dele. Não é a única, é uma delas e depende da letalidade e da transmissão.

Alemanha x Turquia / Isolamento horizontal x Isolamento vertical.

Não há saída mágica. Países extremamente bem-sucedidos no controle terão um grupo de removidos muito pequeno, portanto ficarão com muitos susceptíveis e sujeitos a outras ondas.

Aconteceu com Israel, que era um exemplo. Quando abriu, os casos dispararam. A decisão atual é fazer restrições mais brandas. Não há milagre.

A Turquia fez apenas isolamento vertical e tem resultados melhores do que os da Alemanha, mesmo com mais casos.

https://www.bbc.com/news/world-europe-52831017

A Alemanha é considerada um dos melhores casos de controle da Pandemia. A Turquia tem praticamente a mesma população, teve mais casos e muito menos mortes (9.103 Alemanha, 5.260 Turquia). Além disso, a Turquia, como não parou, teve uma alta no PIB do primeiro trimestre de 0,6% enquanto a Alemanha teve uma queda de 2,2%.

https://data.oecd.org/gdp/quarterly-gdp.htm#indicator-chart

É claro que a Turquia ainda tem muito mais casos diários do que a Alemanha e mais óbitos. A Alemanha tem ainda uma média de 500 casos por dia e 13 óbitos. A Turquia tem uma média de 1.400 casos por dia e 21 óbitos (médias de 7 dias). A mortalidade proporcional, percebe-se, é bem menor do que na Alemanha.

https://www.worldometers.info/coronavirus/

Apesar de ainda haver mortalidade pela COVID (o vírus não vai embora, isso continuará, como para todos os outros patógenos, tuberculose e malária matam 500.000 pessoas todo ano cada uma e tem tratamento), esses números não são absurdos. A Turquia tem cerca de 1.400 óbitos por dia (death rate 6 por mil), a COVID está representando cerca de 1,5% do total de óbitos diários.

O mais grave dos erros: Interditar debates.

Esse foi o mais grave dos erros. Por algum motivo que me escapa, resolvemos, em manada, interditar alguns debates. Interditamos a discussão sobre protocolos de tratamento e remédios, interditamos o debate sobre isolamento vertical etc.

E isso tudo com base em algo que a ciência nunca dá: certezas.

O debate saiu do campo da racionalidade técnica, da ciência, da matemática, da lógica aristotélica para uma dialética vazia do bem contra o mal.

É, definitivamente, o mal dos nossos tempos. Transformar debate científico em debate moral.

Disclaimer

Aproveitando essa colocação sobre o debate moral, alerto ao leitor que apenas apresento minhas percepções e uso minha visão sobre o tema. Caso discorde, não há necessidade de se ofender. Caso tenha interesse em mostrar alguma falha no argumento ou erro, sinta-se à vontade.

Isso para mim não é luta do bem contra o mal, é política pública. Não culpo os homens públicos, pois foram surpreendidos com uma ciência de um lado só, alarmista e que errou as principais previsões. Como representam uma nação, é melhor errar feio com base no Imperial College do que peitar e ir adiante.

A Suécia peitou e está sofrendo assédio moral da comunidade científica internacional. Não é uma posição fácil.

Por isso o maior de todos os erros foi o que coloquei, interditar debates científicos com discursos morais, acusações de genocídio, guerras político-ideológicas, desejos pelo fim do capitalismo etc.

Dá nisso, obscurantismo e luta política vazia. E as pessoas sofrem, pois poderíamos ter sido mais eficientes.

 

 

 

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Para entender a crise na Grécia. E é importantíssimo entender!

Posted on 29/06/2015. Filed under: Administração, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , |

É amigos,

Estamos, 4 anos depois, discutindo a Grécia e a Zona do Euro novamente.

Reli meus posts de 2011 e, infelizmente, não mudaria uma vírgula da análise feita à época.

Para quem quiser entender a natureza dos problemas, vale a leitura. Não mudou nada.

Em 17/10/2011:

Dívida Grega: Erros que parecem acertos…

Em 19/10/2011:

Bancos x Governos – Erros e Acertos

Em 03/11/2011:

Referendo na Grécia? Enfim uma atitude que combate causas, não sintomas.

Em 07/11/2011:

“A Grécia não é mais um país” ou “Deixe-me ser pobre em paz!”

Em 08/11/2011:

A Itália e a invenção da “Chamada de Margem” política e social

Em 02/12/2011:

Lições da Islândia. A ressurreição de um país.

E vamos acompanhar para ver se, dessa vez, entendem que o problema não é a Grécia, é o Euro.

 

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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