Ateísmo

Como resolver problemas filosóficos de 2.500 anos? A mente e o livre-arbítrio.

Posted on 07/09/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Matemática, Richard Dawkins | Tags:, , , , , , , , , , |

Nos vídeos a seguir procuro mostrar como 2 problemas clássicos da filosofia ficam bem menos difíceis quando abandonamos premissas erradas a respeito da realidade e de nossa história.

No primeiro vídeo procuro demonstrar que a dicotomia mente-matéria é incompatível com o darwinismo. Os filósofos clássicos não conheciam Darwin, portanto o homem que Platão conheceu era “o homem que sempre existiu”. E portanto considerou que o pensamento abstrato, sistemático e formal era algo inerente ao ser. Se Platão soubesse da nossa história evolutiva, não poderia ter enunciado sua filosofia idealista. Seria irracional.

No segundo vídeo parto do que foi debatido no primeiro, sobre a incompatibilidade da divisão mente-matéria com nossa história evolutiva, e proponho abandonar um dos preconceitos mais errados da filosofia natural, o que afirmar ser a causalidade uma propriedade da realidade. A causalidade é uma propriedade da história que decidimos contar sobre a realidade. E essa abordagem nos ajuda a entender o problema clássico do livre-arbítrio.

Ambas as propostas são detalhadas no livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”, lançado em português em inglês. (ebook) (versão imprensa).

 

Vídeo 1: A mente está dentro do cérebro?

 

Vídeo 2: O livre-arbítrio existe?

 

 

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Pandemia, Comunismo, OMS, Ciência e o insight de Slavoj Zizek, teórico cultural marxista.

Posted on 01/06/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Finanças, Humor, Política | Tags:, , , , , |

Prezados leitores,

Zizek lançou um livro sobre a Pandemia, pois vê alguns caminhos para a reinvenção do comunismo.

É gente, apesar de algumas pessoas acreditarem que o comunismo não existe mais, Zizek é respeitadíssimo, muito lido e seu livro, lançado pela Boitempo (apresentada nas palavras de um de seus autores assim: “a Boitempo, sem estar linkada a um partido, ela faz o papel que o Gramsci queria: da hegemonia cultural”), já está bombando e dando o que falar!

Como a Pandemia vai ajudar a reinventar o comunismo? Como vai organizar o mundo em um só diapasão, como vai reforçar os valores coletivistas, como vai ajudar na construção da hegemonia cultura e do pensamento único?

Veja no vídeo!

 

Ps. Tenho dificuldade para entender por que esses teóricos Marxistas falam tanto de comunismo, se o comunismo não existe… rsrsrs

Para quem quiser saber mais sobre filosofia da ciência, segue o link do meu livro na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

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A filosofia da COVID19: O Novo Normal.

Posted on 11/05/2020. Filed under: Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , |

No capítulo 10 do livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”, faço um resumo de minha dissertação de mestrado de 1998, explicando como funciona o raciocínio sistêmico.

Em resumo, é um contraponto ao raciocínio linear, aquele que assume, antes de análise aprofundada, direções claras de causa e efeito entre os fenômenos. Ao pensar em sistemas, as relações de causa e efeito são fluidas e o que, sob uma perspectiva, pode estar causando, sob outra perspectiva pode estar sofrendo o efeito. Não há compromisso com uma só direção de análise, uma só proposta de fenômeno.

 

O Novo Normal é um misto de raciocínio linear com raciocínio motivado.

Boa parte das pessoas que veem e enunciam o tal “Novo Normal” parece misturar raciocínio linear com raciocínio motivado. Fazem uma análise trivial e univariada da realidade, adicionando um pouco dos seus desejos mais profundos de mudança da sociedade (alguns bem ditatoriais até). E, infelizmente, creem estar ao lado da “verdade” ou da “ciência”, quando na verdade estão apenas externando um senso comum pouco elaborado, aliado a uma estatística univariada.

O raciocínio sistêmico nos permite investigar 3 variáveis que devem indicar que, ao contrário da visão popularizada pelas profecias de dezenas de milhões de mortes, o mais provável é que voltemos em grande parte ao que éramos antes da pandemia. São elas:

  • Nossa avaliação pessoal de risco;
  • O histórico de nossa reação após grandes pandemias; e
  • A redução de letalidade sistêmica na eventual volta do vírus.

Ressalva: Esse não é um artigo médico-científico, muito menos uma sugestão de comportamento às pessoas. É apenas uma investigação de quem somos nós, como pensamos e de nossa história. Tudo o que está escrito aqui está ao alcance das pessoas, sem necessidade de expertise em ciência médica ou epidemiológica.

Quanto à COVID19, entendo que há previsões para todos os lados, desde que ela terá efeito negativo na mortalidade excessiva, até que será um evento com dezenas de milhões de mortos no mundo (primeiras projeções do Imperial College). O futuro é incerto e o presente nos traz muito medo. Devemos nos proteger, mas sem deixar o pensamento crítico e a estatística multivariada de lado.

Ao leitor que ainda não está preparado para ler mensagens menos trágicas a respeito do futuro, este artigo não é recomendado. Poderá voltar quando a pandemia passar e sentir necessidade de algum enredo de esperança.

 

  1. Nossa percepção de risco não é absoluta, mas relativa.

Nós funcionamos como o sapo cozido. Se jogarmos o sapo em água fervendo ele percebe o risco e consegue escapar, se esquentarmos a água aos poucos ele morre fervido.

Riscos muito graves e muito evidentes nos levam a agir de forma rápida para nos protegermos. Mas riscos graves que permanecem por muitos períodos, acabam sendo incorporados em nossa avaliação de normalidade.

Uma família de classe média/alta de bairros nobres dos diferentes estados brasileiros, não toleraria o risco em que vivem as famílias de classe baixa morando em regiões conflagradas e tomadas por tráfico ou milícia. Não deixaria os filhos saírem para a escola sob barulho de tiros, não deixaria os filhos entrarem em casa se houvesse um cadáver mutilado na porta. Mas isso, em alguns lugares, não é incomum. É um efeito trágico da desigualdade.

Se o risco “descer o morro”, como falamos no RJ, no início os moradores de áreas nobres vão se retrair, mas depois vão passar a dialogar com ele e relaxar os cuidados, pois precisam viver.

É assim. Sempre foi assim. É assim em regiões de guerra civil, sírios negociam com o risco diariamente para viverem com alguma naturalidade.

Essa realidade é inescapável. O risco violento e imediato nos faz retrair e tomar providências rigorosas, o risco violento permanente nos faz negociar e aumentar nossa tolerância para vivermos nossas vidas.

Um outro exemplo. O risco de contrair tuberculose na Rocinha é 15 vezes maior do que a média brasileira, provavelmente 50 a 100 vezes maior do que no Leblon. E as pessoas saem às ruas e levam suas vidas normalmente. Dialogam com o risco excessivo para viverem a vida, que é o objetivo de todos nós.

Infelizmente, para boa parte de quem mora nas periferias, o risco de morte, de doenças endêmicas, de não ter acesso a tratamentos médicos, de filas do SUS, de conhecer alguém que morreu recentemente de forma estúpida e evitável, de ser assaltado e ter sua vida ameaçada é muitíssimo maior do que nas bolhas de classe média e alta do país.

Talvez por isso as pessoas tenham tanta dificuldade de cumprir a quarentena, por já viverem sob regimes elevados de risco. É uma hipótese apenas.

 

  1. Nós voltamos à vida depois da Gripe Espanhola.

Para que a atual pandemia atinja os níveis da Gripe Espanhola (GE), teríamos que atingir entre 200 e 400 milhões de mortes (nas estimativas mais comuns). No Brasil, algo como 200.000 mortes, e concentradas em poucas cidades.

Logo depois da pandemia, houve cuidados e certo medo de sua volta, mas a década de 1920 foi especialmente profícua para o mundo. Os EUA, um dos lugares mais atingidos pela GE, viveram uma década de euforia econômica, cultural, musical e de desenvolvimento, culminando com o Crash da bolsa em 1929, que foi causado exatamente pelo excesso de otimismo. Aliás, o desespero e o desalento gerados após o Crash de 1929 duraram muito mais tempo do que os efeitos da GE. Esse é um perigo que corremos hoje.

A respeito da década de 1920 nós não escrevemos sobre o medo, mas sobre realizações. Realizações científicas, intelectuais, culturais e econômicas. Sobre a década de 1930, após a crise econômica que assolou o mundo inteiro, escrevemos sobre o desalento, a pobreza, a fome, o suicídio e a ascensão de regimes totalitários.

Reflitamos: Diante de um dos eventos mais catastróficos da história, em termos de velocidade de óbitos, superando inclusive as duas grandes guerras, nós fomos capazes de dialogar com o medo e com a história e voltar a viver de forma frutífera. E estávamos muito feridos, pois provavelmente a maioria das pessoas teve algum familiar ou amigo próximo vítima da GE, mas voltamos.

Estão condicionando nossa volta à vida normal a remédios milagrosos e vacinas que nunca existiram (para coronavírus). Após a GE não houve vacina, não houve remédio potente, nosso sistema de saúde continuou péssimo, as pessoas passavam fome em muitos lugares, os hábitos de higiene eram inexistentes e quase todos viviam em condições precárias de saneamento básico. E voltamos.

E o mais importante. A Gripe Espanhola nunca mais voltou a assombrar a humanidade. Não houve mais nenhum evento único com dezenas de milhões de mortes causadas por vírus depois dela.

 

  1. O que esperar da volta da COVID19?

Nós estamos vendo uma destruição enorme do vírus, com excesso de mortalidade em vários locais do mundo. Em outros locais (como em metade da Europa) a mortalidade excessiva ficou negativa.

Por que isso? Por que devastou algumas regiões e outras não? Não sabemos responder ainda.

As coisas, porém, estão fora de perspectiva, pois estamos no meio da pandemia e com muito medo, o que nos leva a uma visão linear do problema. Vemos apenas uma variável: o vírus. E associamos toda a destruição causada exclusivamente a ele, mas isso não é verdade. Ele está tendo muita ajuda para causar essa destruição.

Nós estamos horrorizados com as mortes narradas diariamente, alguns vídeos com pessoas com falta de ar nos fazem entrar em desespero.

Mas, infelizmente, as doenças por patógenos externos que levam à morte não são diferentes, na verdade, algumas são mais assustadoras. As 150.000 mortes anuais por problemas respiratórios no Brasil também acontecem de forma horrível, com as pessoas sufocando ou com falência sistêmica dos órgãos.

Se narrássemos o estado das pessoas que vão a óbito por malária, teríamos um quadro devastador. Falência do fígado, dos rins, rompimento do baço, hipóxia por anemia severa, inchaço cerebral e edema pulmonar. E nós temos remédio e protocolo de tratamento para malária.

Quando a meningite, a encefalite ou a tuberculose levam a óbito, os quadros clínicos em que ficam os pacientes são deprimentes.

O ponto aqui é trazer as coisas para a perspectiva correta. Estamos vendo mortes narradas, mortes horríveis, principalmente, por falta de ar. Ocorre que os outros óbitos que não são narrados, pois estão dentro da normalidade, não são menos horríveis. Todo óbito de doença causada por patógeno é horrendo. A morte por dengue hemorrágica é digna de filme de terror. Desesperadora.

Morrer por doença severa é sempre horrível. Tive um amigo que teve TB no cérebro e foi se deteriorando por 2 meses, perdeu os movimentos, entrou em coma, ficou cego, teve tromboses diversas (como na COVID) até que teve falência múltipla de órgãos. Até então era saudável e tinha 40 anos. Minha mãe morreu de forma inesperada em 2004 após uma infecção hospitalar avassaladora.

Todas essas doenças, que são recorrentes, não precisam de idade ou de comorbidades para destruir, elas matam por si mesmas, pela violência de sua reação no organismo.

Para todas elas nós temos remédio, protocolo testado e aprovado, vacina, preparação dos médicos, protocolo de isolamento eficiente etc., e ainda assim ceifam milhões de vidas todos os anos no mundo.

A maldita COVID, ao contrário, está com um caminho extremamente facilitado.

Nós não temos remédio para enfrenta-la, não temos vacina, não temos protocolo de isolamento, não estamos preparados, não temos imunidade de rebanho (pega em todo mundo), é altamente transmissível e deixa 85% das pessoas assintomáticas, que ficam produzindo e espalhando vírus por até 21 dias, o que ajuda ainda mais a se espalhar.

A COVID é a tempestade perfeita, mas não pelo vírus em si, pela estrutura sistêmica de destruição que ele traz consigo.

Pense de outra forma para entender a perspectiva: O que aconteceria se nós não tivéssemos vacina, remédio, protocolo de isolamento e imunidade de rebanho contra a gripe H1N1?

Hoje não dá para saber, mas em 1919 aconteceu exatamente isso e a gripe levou entre 50 e 100 milhões de vidas.

A questão que se coloca, em termos de futuro, é a seguinte: quando a COVID voltar ela vai trazer os mesmos fatores estruturais que a tornaram tão mortal?

Provavelmente não. Seja por que teremos algum nível de imunidade de rebanho, seja por alguns protocolos de cuidados de higiene ou por tratamentos eficazes. Nós não desenvolvemos vacinas para todas as doenças, mas temos tratamento para praticamente todas. Outro ponto é que saberemos explicar porque alguns lugares foram poupados e outros destruídos.

Tem uma outra coincidência trágica que ajudou demais a COVID a fazer seu estrago no hemisfério norte. As temporadas de gripe na Europa foram fraquíssimas esse ano, não houve mortalidade excessiva alguma (pode ser visto nos gráficos da euromomo.eu). A temporada de gripe de 2014-2015 (é no inverno) matou 217.000 pessoas de 65 anos a mais do que a média. Uma temporada barra pesada de gripe matou quase o dobro do que a COVID até agora na Europa. (ver: https://www.youtube.com/watch?v=hjRyw0QrTLM)

Os professores André Vieira e John Ioannidis (o mais respeitado epidemiologista do mundo) associam a elevada mortalidade da COVID com o fato dela matar os mesmos indivíduos que a gripe comum, como não houve mortalidade excessiva no inverno, havia disponibilidade de pessoas vulneráveis para outra onda de gripes (fora de temporada). Mais um elemento estrutural que ajudou a COVID a ser tão mortal.

COVID + razões estruturais = desastre.

Precisamos conhecer essas questões estruturais tão bem quanto o vírus em si.

Conclusão

Há todos os motivos do mundo para termos medo. O principal deles é a doença ser desconhecida, não ter remédio e infectar a todos e muito rápido, o que deixa os sistemas de saúde lotados.

Porém estamos discutindo aqui se nunca mais seremos os mesmos. Entendo que essa visão não se sustenta, pelos motivos descritos, que resumo a seguir:

  • Nós estamos vivos para viver, é nossa única função orgânica e natural na Terra. Quando encontramos um risco gravíssimo e novo nos recolhemos, mas se esse risco permanecer no longo prazo, acabamos nos acostumando e dialogando com ele para tocarmos nossa vida. Isso não é uma hipótese infundada, é simplesmente uma observação de algo evidente não só em nossa espécie como em todas as outras espécies complexas. Todas dialogam com riscos elevados para cumprir sua função na Terra: viver.
  • Não deixamos de viver após pandemias gravíssimas. Não deixamos de viver quando a varíola matava 2 pessoas a cada 100 em um ano em algumas localidades da Europa no século XVIII. Convivemos com doenças bem mais terríveis do que a COVID há séculos, que continuam matando aos milhões ainda hoje e não deixamos de viver. A década de 1920, pós Gripe Espanhola, foi próspera para o mundo. O ano de 1968 é lembrado pelas revoluções culturais em todo o mundo, não por uma Pandemia mortal (Hong Kong Flu, que matou, em números ajustados para a população da época, 5 vezes mais do que a COVID até agora).
  • Estamos vendo a pandemia sob um regime de excesso de informação. Se tivéssemos esse mesmo excesso de informação sobre outras doenças, ficaríamos ainda mais horrorizados. A COVID é uma doença grave, mas que teve facilidades que nenhuma outra doença recente teve: não tem remédio, não tem vacina, não tem protocolo médico, espalha rápido demais, tem período longo de incubação, tem transmissão por parte de assintomáticos durante semanas e não há imunidade de rebanho. A última vez que tivemos uma doença com algumas dessas facilidades, que atingiu todo o mundo, morreram de 50 a 100 milhões de pessoas. Mais recentemente, a H3N2 matou 1.000.000 de pessoas em 1968 e hoje ela volta todo ano como uma das variações da gripe. E continuamos vivendo.

Hoje eu entendo que não há o que fazer, exceto sentir esse medo e nos recolher. Foi a opção das autoridades e dos cientistas que venceram a narrativa pela luta por nos guiar nessa pandemia. Quem gritou mais alto a maior quantidade de mortes, foi mais ouvido. Faz sentido, pois o medo fala alto mesmo.

Mas, em termos de futuro, não há, até agora, nada que indique que não voltaremos a ser o que sempre fomos.

Mesmo que as autoridades continuem nos forçando ao confinamento e sugerindo que não devamos viver como vivíamos, em alguns meses as pessoas vão se acostumar com o risco e voltar à sua rotina aproximada. Sempre foi assim.

Por que sei isso?

Porque é para isso que estamos aqui. As pessoas enfrentam todas as dificuldades, diariamente. Acordam às 4 da manhã, pegam condução lotada, ganham pouco, passam 14 horas fora de casa para se sustentar, justamente para poder abraçar, amar, tocar, beijar, cuidar e buscar a felicidade. Tomar uma cerveja e torcer pelo seu time. A ideia de que isso não vai mais acontecer é absurdamente insuportável. Surpreende-me que as pessoas a aceitem de forma tão fácil.

Vamos nos proteger para um dia conhecermos a história que estamos escrevendo. Por ora tudo é confusão.

Sorte e saúde a todos!

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A filosofia da COVID19: O papel da ciência.

Posted on 10/05/2020. Filed under: Administração, Ateísmo, Filosofia, Política | Tags:, , , , , , |

Escrevi o livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe” para tentar explicar o caminho que levou o Homo Sapiens Sapiens a ser como é. É basicamente uma história, não contada e não documentada, da razão e da racionalidade, aliada a uma história bem documentada da ciência e da crença em Deus. É, sobretudo, um livro de filosofia da ciência.

E por que a ciência e a racionalidade seriam tão importantes para demonstrar que Deus existe? Simples, porque todas as tentativas de demonstrar a existência Dele acabam no campo da ciência empírica e da lógica formal.

Por isso foi fundamental demonstrar ao leitor os limites da ciência e da racionalidade, para que ele entenda o que significa “existir”, para o campo da filosofia e da ciência, que é necessário entender antes de nos propormos a provar a existência de Deus, ou de qualquer outra entidade.

Link para ebook (versão impressa com envio suspenso pela Pandemia): https://www.amazon.com.br/dp/B083VW3LB9

 

A ciência na Pandemia.

Essa pandemia de COVID19 tem mostrado, com muita clareza, que as pessoas não têm a mais remota ideia do que seja, de fato, ciência.

Em verdade, as ações brutais e violentas em nome da “ciência” que vemos agora reproduzem a violência do positivismo de meados do século XIX, onde tudo aquilo que não poderia ser claramente proposto, modelado e medido não deveria ser considerado conhecimento válido.

Essa agressiva visão foi, em grande parte, responsável pelos movimentos críticos (associados às humanidades e ao ideário coletivista) surgidos nos últimos 150 anos.

No livro apresento uma breve história da ascensão e queda do império iluminista das técnicas e métodos das ciências naturais aplicadas em ciências humanas e sociais.

O rompimento com o positivismo (crença no método científico empírico e mensurável como único caminho para trazer conhecimento verdadeiro para a humanidade) veio da própria ciência natural, que desafiou todos os dogmas clássicos e demonstrou que nossa experiência na ciência é, tão somente, uma alegoria de pensamentos condicionados e, muitas vezes, tautológicos. Há enorme utilidade na ciência natural, mas quando vai fora dos seus limites, pode produzir desastres humanos e sociais.

Heisenberg (físico quântico mais importante da história, ganhador do Nobel) rompeu com o positivismo com uma frase que expressa claramente o que escrevi até o momento neste artigo (em tradução livre):

“Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido naquilo que podemos dizer claramente e o resto, que é melhor deixar passar em silêncio. Mas alguém pode conceber uma filosofia mais sem sentido, visto que o que podemos dizer claramente equivale a quase nada? Se omitirmos tudo o que não está claro, provavelmente ficaremos com tautologias completamente desinteressantes e triviais.”

 

O que mais me assusta nesse positivismo agressivo da COVID19?

É que o uso da ciência como verdade e como instrumento de dominação político-ideológica está se dando em grupos que sempre foram combativos ao positivismo. Grupos que sempre pregaram o pensamento crítico ao cientificismo.

O que antes era inconcebível para os movimentos coletivistas (alguns tratam como movimentos progressistas ou de esquerda), aceitar cegamente ordens de uma ciência positiva, tornou-se lei universal. Não só lei técnica universal (ordens que todos devemos seguir), mas lei moral universal (contrariar a ciência positiva dogmática significaria tornar-se uma pessoa má).

Justamente as pessoas que sempre rejeitaram a aplicação das metodologias das ciências naturais em ciências sociais e humanas, que sempre rejeitaram a estatística, a matemática, o método e a modelagem científicos, e pregaram largas e soltas dialéticas em substituição, para atingir a verdade, estão se escudando na ditadura metodológica que está nos guiando a todos, bilhões de pessoas, sem nenhuma crítica, apenas cega obediência.

 

A ciência se presta a esse grau de segurança?

Não. De forma bem simples, repito: não! Em ciência natural, temos elevados graus de segurança, elétrons não têm opinião e prótons não perdem empregos ou a vida, mas em ciências sociais e humanas, a segurança científica é mínima. Nossa forma de enfrentar a Pandemia prova isso, de forma clara.

Parte significativa do livro procura ilustrar para o leitor leigo em filosofia da ciência, que já há 100 anos, pelo menos, não há qualquer dúvida de que a ciência não é ambiente de certezas. Nunca foi, é verdade, mas fomos cegados pela brilhante filosofia da ciência de Newton-Descartes, que nos trouxe evidências muito claras de que estaríamos, de fato, enunciando a VERDADE e não apenas um conhecimento parcial.

Isso morreu, de forma definitiva, por descobertas da própria ciência natural.

Hoje, ciência é, obrigatoriamente, o campo das ideias humanas, consistentes e coerentes com algum paradigma prático e pragmático, que elabora hipóteses à espera de refutação.

Se a hipótese ou a proposta científica não trouxer consigo caminhos claros e objetivos para sua refutação, não é ciência, é ideologia ou religião.

Tomemos o exemplo dos lockdowns ou quarentenas que estão sendo propostos em vários países do mundo.

Não existe nenhuma forma clara para medir seu sucesso ou demonstrar seu fracasso.

O Imperial College alertou o governo inglês que morreriam cerca de 500.000 britânicos se seguissem o modelo sueco, de não fechar o comércio e escolas e buscar a imunidade de rebanho. O governo adotou, portanto, um lockdown rigoroso, e logo depois o Imperial College reduziu a previsão do número de mortos para 20.000.

Onde está a ciência disso? O que poderia mostrar que esse estudo estava errado? A rigor, pode-se sempre dizer que vidas foram salvas, alegando que haveria mais mortes. Mas isso não é ciência, pois estamos comparando fatos empíricos com modelos matemáticos sobre hipóteses que não aconteceram (a não adoção do lockdown).

Poderíamos argumentar que o estudo estava errado apontando duas evidências:

  1. O modelo inglês está com 50% mais mortes por MM de habitantes que o modelo sueco. Deveria ser um desastre sem precedentes na Suécia, mas não aconteceu e ficou bem melhor do que a Inglaterra.
  2. A previsão de 20.000 mortos após a adoção do lockdown está errada, pois o UK está hoje com mais de 32.000 mortos (ver: https://www.ft.com/content/249daf9a-67c3-11ea-800d-da70cff6e4d3)

Meu interesse não é debater os lockdowns ou os estudos da Imperial College em si, mas mostrar que são apenas propostas metodológicas, jamais deveriam ser tratados como o que a “ciência mandou fazer” ou com a verdade trazida pela ciência.

 

A ciência e os burocratas.

No capítulo 14 do livro discuto brevemente como a ciência não consegue ser balizadora da moralidade, e que acabamos sempre decidindo os caminhos da própria ciência e seus impactos na vida cotidiana através de decisões de burocratas ou de legisladores eleitos.

Hoje precisamos decidir a “moral” dos carros autônomos. Em circunstâncias de acidentes inevitáveis o algoritmo precisará decidir a quem colocar em risco. Se há uma mãe atravessando a rua com uma criança do lado esquerdo e um idoso vindo do lado direito, nosso processo decisório humano desvia o carro para algum dos lados, ou simplesmente continua e atropela a todos. Um computador terá que tratar isso a partir de algoritmos (decisão moral previamente estruturada).

Quem privilegiar? Um grupo de crianças, um grupo de idosos, ou o próprio motorista?

Obviamente que, se deixarmos exclusivamente para a indústria, ela vai programar no interesse de quem paga. Tentamos vender carros seguros para os motoristas, dificilmente venderiam um carro autônomo que, em situação de acidente inevitável, opta por colocar o próprio motorista em risco.

Exceto se… for lei.

Na prática a moralidade do ato não será avaliada pela ciência, pela estatística ou pela verdade universal, mas por um conjunto de burocratas ou legisladores. Em países ditatoriais, pelo ditador. Em ambientes laissez-faire ou dominados pelo lobby das indústrias, será decidido na direção do interesse econômico.

Nada disso é ciência.

O exemplo que trago no livro é o da luta contra a malária na África. A malária atinge cerca de 200 milhões de africanos todo ano, com cerca de 400.000 mortes.

A ciência trouxe uma solução potencialmente definitiva, um mosquito geneticamente modificado que só gera mosquitos machos, o que faria com que a população de mosquitos fosse gradualmente extinta.

A potencial solução encontrou resistências de grupos religiosos locais, que acusaram os cientistas de brincarem de Deus, de grupos políticos, de ambientalistas etc. Nada disso é ciência, mas é o que comanda a ação humana.

Segue parte do livro em que discuto a estranha racionalidade da “não-ação” humana:

Quem entende o mundo de forma sistêmica, sabe que não vivemos de solução em solução, mas de problema em problema. Qualquer ação humana modifica tudo, não é possível fazer apenas “uma coisa”.

Perceba como é curioso nosso processo decisório, como é difícil entender sua racionalidade. As organizações ambientais acusam a ação humana de ser responsável pela extinção de 3 espécies por hora aqui na Terra. E não parece haver muito o que fazer quanto a isso. Quando se vai discutir a eventual extinção de um mosquito específico, que leva miséria e doença às populações humanas mais carentes, decidimos não o fazer. Só nas poucas horas que levei escrevendo e revisando esta parte do livro, 12 espécies foram extintas.

Não pretendo fazer aqui um julgamento de valor, apenas procuro mostrar que a extinção de milhares de espécies, segundo os ambientalistas, acontece todos os anos. Durante o tempo em que nossas instâncias políticas e multilaterais discutiam o uso ou não do mosquito geneticamente modificado, talvez 100.000 espécies tenham encontrado sua extinção. E empreendemos esforços milionários para salvar uma, exatamente aquela que sabemos ser responsável pela malária.

 

Deixemos a ciência em paz para fazer o seu papel.

Ciência é ferramenta de conhecimento, não se presta a justificativas perfeitas para decisões políticas e ideológicas, pois é, por definição, passível de refutação. Na verdade a ciência evolui nesse sentido, de alterar o conhecimento anterior por um modelo melhor.

A sociedade aberta da ciência (capítulo 5 do livro) está funcionando vivamente nessa Pandemia, com milhares de estudos simultâneos em todo o mundo, lutando contra aqueles que querem usá-la para justificar pseudoverdades tribais, pensamento único e sonhos ideológicos e revolucionários.

Não podemos deixar a sociedade fechada, tribal e ideológica se apropriar de um campo do conhecimento humano que é fluido e imperfeito, para justificar ações ditatoriais.

Ciência é liberdade, transparência e, principalmente, apreço pelo contraditório.

O que estamos fazendo hoje é escolhendo lados, isso é tudo, menos ciência. Estamos funcionando como aqueles filmes de tribunais que trazem especialistas que servem apenas para corroborar a hipótese da defesa ou da acusação. No processo judicial, pelo menos, há um juiz para decidir a verossimilhança das hipóteses. Nessa pandemia, não há nada, exceto a opção por aderir cegamente a verdades absolutas inexistentes.

Tudo em nome da pobre ciência, que não tem culpa de nada.

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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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