Coisas que Desaprendemos nessa Pandemia: A Inteligência da Imunidade Natural

Posted on 21/01/2022. Filed under: Finanças |

Desaprendemos coisas demais durante essa pandemia, abandonamos não só conhecimento clássico sobre epidemiologia e imunidade, como perdemos a capacidade de fazer bons julgamentos sobre as informações que recebemos.

No dia 19/01/2022 o CDC publicou um estudo que deveria ser avassalador para o racional utilizado para priorização da vacinação. Falaremos dele em breve, primeiro vamos analisar os mecanismos que nos afastaram dos julgamentos racionais e questionamentos mínimos necessários ao processo de conhecimento. Fique até o final, não vai se arrepender!

O que é melhor, vacina ou imunidade natural?

As vacinas são uma invenção fantástica, pois conseguem conferir imunidade contra doenças, sem que as pessoas precisem ficar doentes. E sempre foi esse o racional dessa revolução da medicina, pelo menos até 2020.

Porém nunca fez muito sentido duvidar da superioridade sistêmica da imunidade natural, em termos de proteção contra futura infecção, em comparação à imunidade provocada pela vacina. Há dezenas de estudos para as vacinas mais comuns, como sarampo, varicela e influenza, mostrando o que deveria ser óbvio: a imunidade natural dura mais e funciona melhor:

Influenza: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2703026/

Measles: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8147093/

Varicella: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2839610/

Mas isso nem deveria ser colocado em questão, pois o que faz a tecnologia clássica das vacinas é simular uma infecção e provocar o sistema imunológico, aproximadamente como faz o próprio patógeno. NO MÁXIMO, se poderia aceitar que as pessoas acreditassem que vacina trouxesse uma proteção igual à da infecção natural. Mais proteção, não faz sentido.

A propaganda foi tamanha, que as pessoas simplesmente esqueceram como funcionam as vacinas, esqueceram que elas SEMPRE USAM o nosso próprio sistema imunológico, que elas não são “sucos antivirais”, não são super-heróis que entram em nosso sangue e combatem o vírus. Na verdade, as vacinas não combatem nada, apenas expõem o organismo ao patógeno, de forma controlada, para que o próprio organismo crie suas defesas. O próprio organismo é que cria.

Ah… mas as novas tecnologias…

Esse modelo mental que tomou conta da humanidade é dos mais estranhos em que ela já se meteu na história. Novas tecnologias, inseridas no corpo, sem testes de longo prazo, aplicadas em toda a população adulta da Terra, ao mesmo tempo, é o maior risco não calculado em que a humanidade, voluntariamente, já se meteu.

E o curioso é que a humanidade tem se acreditado ecológica, holística, respeitadora das leis da natureza, da gaia, da mãe Terra, dos animais, do ecossistema etc., não se pode tirar uma perereca albina do seu habitat natural que vai gerar um desequilíbrio imprevisível, mas não questiona uma tecnologia nova injetada em toda a população adulta da Terra, em 1 ano. Não há nada menos ecológico, humanista, holista, Zen ou “quântico” do que isso.

O estudo do CDC

De início preciso colocar aqui que o CDC é uma enorme decepção nessa pandemia. Li umas 2 dúzias de estudos, e até que os números eram honestos, mas a conclusão e a interpretação eram sempre muito fracas, por vezes ilógicas. O estudo sobre máscaras deles era visivelmente (link) contrário ao uso de máscaras, com redução ridícula (tipo 1%) no grau de infecção, e para um leitor mais atento, a interpretação era ainda mais contrária (pelo delay natural entre causa e efeito). Isso gerou uma profusão de “fact checkers” tentando criar uma interpretação diferente que, na verdade, foi tentar dizer que o estudo não significava nada.

Mas significava alguma coisa, e até foi bem montado, comparando o nível de transmissão para diferentes status de obrigatoriedade de máscaras. E o resultado foi pífio. Mas os “fact checkers” já saíram gritando o clássico “veja bem, não é isso que o estudo quis dizer…”.

Dessa vez o estudo do CDC (link) é eloquente em demonstrar a superioridade da imunidade natural de longo prazo sobre a imunidade da vacina. É tão eloquente, que já consigo antever um monte de “fact checkers” tentando distorcer os resultados para que a tal narrativa que ganha bilhões e mantém mandatos políticos vivos, continue de pé.

O estudo está no link acima, mas, para variar, a interpretação do CDC, também traz erros tênues e uma certa ingenuidade nos questionamentos.

A conclusão deles é que, no início, antes da Delta prevalecer, a vacina tinha eficácia mais alta do que a imunidade natural, mas essa interpretação, provavelmente, tem os problemas de sempre com o denominador (número de vacinados) que muda com muita frequência.

O método

De forma resumida, o CDC utilizou dados de Nova Iorque e da Califórnia para comparar 4 grupos, em termos de desfecho da COVID:

  • 1 – Não vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 2 – Vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 3 – Não vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.
  • 4 – Vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.

Eles compararam risco de contrair e hospitalizações (ajustados por idade).

Vou usar a compilação do site Medpage, para facilitar (link).

Outra coisa que farei, não mudará a interpretação, é usar a média entre Nova Iorque e Califórnia, em vez de usar os dados individualmente.

Antes da Delta

Risco de contrair COVID (todos em comparação com não vacinados, sem COVID anterior):

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 19 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 9 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 8,5 vezes menos chance de contrair

Esses números mostram duas coisas, uma razoável e outra estranhíssima: (1) a vacinação foi irrelevante para quem já tinha contraído COVID, o que faz sentido; (2) a vacinação teve mais eficácia em quem não tinha infecção prévia, o que não faz muito sentido.

2 hipóteses aqui:

  • Erro estatístico, o número de vacinados oscilou bastante no período e isso pode ter mascarado o denominador nos 3 grupos (cada movimento em um, mexe nos outros).
  • A vacinação gera uma proteção forte, porém não natural para o organismo, por isso, quando o organismo já teve a doença, e é vacinado, prevalece a imunidade natural e a vacina faz pouco efeito. Em organismos virgens gera uma resposta forte, mas de curtíssimo prazo e específica para um aspecto do vírus (proteína Spike), que acaba virando o principal alvo das mutações.

Após a Delta a coisa se inverteu. Big time.

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 5,5 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 26 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 22 vezes menos chance de contrair

Em resumo, a eficácia caiu quase 4 vezes nos vacinados virgens, e subiu entre 2,6 e 2,8 vezes nos com imunidade natural.

Esses dados são para risco de contrair, os dados da Califórnia permitiram também analisar o risco de hospitalização (mais importante). Aparentemente os dados de NY não permitiram essa comparação.

Comparação para proteção contra internação

Antes da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 27 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 7 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 6 vezes menos chance de internar

Depois da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 20 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 57 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 53 vezes menos chance de internar

Queda de 25% na eficácia entre vacinados virgens, mas alta de quase 9 vezes na eficácia de quem tinha imunidade natural.

Interpretações razoáveis (algumas óbvias) sobre os números

  • Diante da mutação do vírus, os vacinados virgens tiveram uma alta de quase 4x no risco de contrair, enquanto os que tiveram COVID (vacinados ou não) tiveram seu risco de contrair diminuído em cerca de 3 vezes.
  • A imunidade natural mostrou exatamente o que se espera dela, um comportamento amplo, orgânico e sistêmico no enfrentamento da pandemia, pois enquanto a nova mutação reduziu bastante a eficácia da vacina nos organismos virgens, sem infecção prévia, elevou naturalmente a eficácia dos organismos infectados naturalmente. Não deveria surpreender.
  • A vacinação de indivíduos já infectados não trouxe qualquer diferença relevante na proteção deles. De queda de 9 para 8,5 vezes no risco de contrair (5,5%) ou na queda de 57 para 53 vezes no risco de hospitalizar (7,1%).
  • Obviamente o diferencial no grupo com infecção prévia é a proteção trazida pela própria infecção, não a vacina, pois no outro grupo havia vacina, mas não a imunidade natural, e a queda de eficácia foi brutal (a partir da Delta).

E isso deveria nos levar a algumas mudanças de percepção e de ação, imediatamente:

  • Indivíduos que já contraíram COVID não deveriam ser obrigados a se vacinar, ou tomar booster. Na verdade, não deveriam nem ter entrado na lista de vacinação, pois o pensamento de que a vacina melhoraria sua proteção é anormal e improvável, e foi realmente o que aconteceu na prática, não melhorou, para quem já tinha sido contaminado.
  • Indivíduos que já contraíram COVID, independentemente do status vacinal, são menos propensos a continuar como vetores da pandemia, tanto em termos de contrair, quanto de hospitalizar. Deveriam receber “passaportes vacinais diplomáticos”, pois são, provavelmente, o grupo que nos trará imunidade de rebanho real de longo prazo.

E a Omicron?

Não há dados.

Pelo que estamos vendo, e ainda está no começo na Europa (ao menos os efeitos de hospitalização e óbitos só estão aparecendo agora, em meados de janeiro), a Omicron deve ter levado a proteção vacinal contra contrair a doença a zero ou ao campo negativo. Por que digo isso?

Simples, basta ver os países mais vacinados e que mais fizeram lockdowns e medidas restritivas (contendo a contaminação natural). Portugal tem impressionantes 89,1% de vacinados e 39% de booster. Na semana que se encerrou em 19 de janeiro de 2022, Portugal teve quase 280.000 casos (quase 3% da população), 3 vezes mais do que o pico da onda mais alta. Em 18 de janeiro teve 46 óbitos (média de 7 dias, 35), 10 a mais do que em qualquer dia da primeira onda (fev/mar de 2020). Praticamente não existe “não vacinado” para contrair COVID nesse montante em tão pouco tempo. Não tem estoque de não vacinado para isso.

Outro ponto, o único país em que, até agora, a Omicron chegou e foi embora, foi a África do Sul. Iniciou a onda com 25% de população vacinada (sem booster), e por ser país pobre, provavelmente com uma elevada quantidade de pessoas infectadas naturalmente, a onda subiu muito rápido, mas não ultrapassou significativamente os picos anteriores (23.000 contra 20.000 casos/dia), além de ter voltado muito rápido também (mais rápido que nos picos anteriores). Os óbitos subiram pouco durante a onda, e agora estão altos, porém 80% menores do que nas ondas anteriores (550 contra 122 óbitos/dia hoje).

A observação de outro grupo de países com status vacinal bem diferente e com ondas anteriores semelhantes, ainda está em aberto, mas a depender do que acontecer após a Omicron passar, veremos com mais clareza o impacto do status vacinal. Jordânia, Israel e Palestina.

Conclusão

Não vou me estender. As pessoas podem tirar a conclusão que quiserem, mas uma é inequívoca, não há base epidemiológica, lógica, sistêmica, ecológica, holística, médica, estatística, ou qualquer outra base desejada, para obrigar indivíduos que contraíram COVID a tomar vacina, qualquer uma delas. Ao contrário, eles deveriam ser preservados e virarem “case control” para avaliarmos o que deu certo ou errado com a vacinação.

Eu tenho uma hipótese otimista. Estudo raciocínio sistêmico desde 1996, e estou surpreso com o grau de mecanicismo e de positivismo com que tratamos algo tão complexo como a imunização do planeta inteiro. Foi a maior imprudência sistêmica desde os primeiros testes com aceleradores de partículas.

Eu acredito que o sistema acaba se ajustando da forma mais confortável pra ele, na melhor adaptação possível, e no melhor interesse possível para todos os organismos envolvidos, como sempre aconteceu.

Por isso, entendo que, talvez, a Omicron seja uma cepa de conserto e concerto. Corrigirá qualquer anomalia criada pela ação abrupta do homem positivista no processo natural de diálogo que tivemos com vírus respiratórios desde sempre, e concertará a volta ao equilíbrio ecológico de longo prazo entre os organismos envolvidos.

Mas isso é apenas uma hipótese otimista. A Omicron para mim é uma incógnita. Minha aposta é que não traz os riscos de hipóxia das cepas anteriores, parece outro vírus, mas parece também uma gripe forte, que pode acabar afetando as pessoas que, naturalmente, seriam afetadas por gripes fortes. Isso na Europa e nos EUA é grave também, morrem até 60.000 americanos de gripe por ano e mais de 150.000 europeus.

Ah, e não me arrisco a dizer que ela vai embora facilmente, não são raras as pessoas que conheço com sintomas indo e voltando há semanas. Associavam a gripe, mas…

A ver.

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O artigo abaixo comenta o estudo CDC no qual adultos não vacinados, que testaram positivo três a seis meses antes, eram cinco vezes mais propensos a testar positivo para o vírus do que adultos vacinados, mas faz crítica considerando a escolha do grupo para a pesquisa. No entanto, cita um estudo israelense que encontrou resultados completamte diferentes, pois apurou que as pessoas que receberam a vacina BioNTech-Pfizer que não haviam testado positivo para COVID anteriormente tinham 13 vezes mais chances de serem infectadas pela variante delta do que as pessoas que foram infectadas, mas não vacinadas.
https://www.dw.com/en/omicron-is-natural-immunity-better-than-a-vaccine/a-60425426


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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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