Archive for janeiro \24\-03:00 2022

O Cálculo de Eficácia das Vacinas: Ter Apenas 2 Doses ainda Protege Contra Hospitalização e Óbito?

Posted on 24/01/2022. Filed under: Finanças | Tags:, , , , , |

Eu tomei as duas doses no terceiro trimestre de 2021 e estou sem saber se a eficácia desse regime vacinal contra hospitalização e óbito continua válida. Como saber?

Spoiler: os números que calculei são bem surpreendentes, mas refiz algumas vezes os cálculos e estão certos. Não esperava por isso. Don’t shoot me, I’m only the piano player!

A mudança nos dados do Reino Unido parece permitir isso.

Eu sigo alguns países/regiões que fazem acompanhamento semanal da COVID separando por faixa etária e status vacinal, entre eles o Reino Unido.

Até o report da semana 2, eles misturavam todos os vacinados nos cálculos de eficácia, e na semana 3 passaram a contabilizar apenas os vacinados com 3 doses (após 14 dias da terceira dose) no cálculo da eficácia.

Achei ruim num primeiro momento, mas como eles continuam dividindo os números absolutos de casos, óbitos e hospitalizações entre quem tomou 2 e 3 doses, e como eles também divulgam a quantidade de vacinados em cada regime vacinal e faixa etária, essa mudança acabou trazendo insumos para calcular a eficácia remanescente do regime vacinal completo anterior (2 doses).

Mas antes de mostrar o cálculo (bastante decepcionante), peço ao leitor paciência para tratar de algumas imperfeições nesse tipo de análise de eficácia. 2 problemas:

1. Teste da vida real não é pesquisa científica de eficácia

Nos estudos científicos RCT de eficácia das vacinas, os grupos escolhidos são conhecidos em vários aspectos relevantes, como idade, comorbidades, gênero etc., de forma que podemos pegar, por exemplo, 10.000 indivíduos com status vacinais diferentes e dividi-los em 2 grupos randomizados (ainda que seja necessário reduzir o grupo). Podemos acompanhá-los por alguns meses e calcular a eficácia, de fato, em uma pesquisa científica, randomizada e controlada.

Nos testes da vida real a heterogeneidade dos grupos não é captada.

2. Os denominadores são um problema

Outro problema dos cálculos da vida real é a quantidade de indivíduos não vacinados. O número de vacinados é fácil de saber, assim como a quantidade de doses, data etc., pois há registro oficial de todos, mas os não vacinados seriam “o resto”. E o resto depende, em grande parte, de estimativas. Algumas baseadas em censos com até 10 anos de atraso, outras baseadas em número de registros de seguro social etc., mas via de regra não sabemos ao certo.

Para dar uma ideia da dificuldade, alguns países já reportam mais de 100% de indivíduos vacinados em determinadas faixas etárias, porém continua havendo registro de pessoas, nessa faixa etária, que contraíram, hospitalizaram e morreram e não estavam vacinadas. Isso não seria possível se, de fato, tivéssemos 100% de vacinados nessa faixa.

Os números da Dinamarca, por exemplo, indicam que 104% dos idosos acima de 80 anos receberam 3 doses da vacina, o que é uma impossibilidade matemática. Isso mostra claramente como o número oficial de idosos na faixa etária é bastante subestimado.

Esse site, por exemplo, é usado como referência para eficácia de vacinas, mas os dados são distorcidos, como fica evidente nesse gráfico.

Um site com 104% de indivíduos vacinados com 3 doses não pode ser confiável como indicador de eficácia, mas é usado como referência fidedigna, infelizmente.

Na prática, para fins de estudo epidemiológico, é e será cada vez mais difícil, termos grupos de controle para comparar com os grupos vacinados. Restará apenas a comparação entre países com alta e baixa vacinação, mas, ainda assim essa comparação só seria bem feita se pegasse grupos de ambos os países e randomizasse por idade, status vacinal, comorbidades, hábitos etc..

Mas esse último problema não existe na comparação entre quem tomou 2 ou 3 doses.

Isso é interessante. O número de ambos os grupos é sabido com segurança, pois foram registrados formalmente, com data, social security number etc. e isso dá a possibilidade de calcular a tão importante eficácia remanescente para o regime vacinal de 2 doses.

Por que é importante saber a eficácia remanescente da segunda dose, se bastaria tomar a terceira dose?

Colocando de forma simples, é o “Efeito Orloff”, que parece um termo científico, mas é apenas uma alusão à propaganda de sucesso da Vodka Orloff, com o slogan: “eu sou você, amanhã”. A julgar pela perda de eficácia das 2 doses, não surpreenderia se a terceira dose acabe se tornando, em 3-4 meses, “as duas doses”.

Mas a resposta um pouco mais elaborada tem a ver com a tecnologia vacinal, e infelizmente não cabe debate nesse artigo (daria um artigo por si mesmo). Vamos direto ao cálculo de eficácia das 2 doses.

Infelizmente os dados do UK indicam que há perda importante de eficácia.

Segundo os dados do UK, a terceira dose continua apresentando elevada eficácia contra mortes e hospitalizações em relação ao grupo não vacinado. Ainda que a gente não consiga saber exatamente o número total de não vacinados em cada grupo.

Mas e a eficácia do grupo com duas doses?

O método

Vamos pegar o acumulado de óbitos por faixa etária entre a semana 51 e a semana 2, e comparar com a base vacinal de 19/12/2021, antes de iniciar a semana 51.

Por que isso?

Por que os óbitos aconteceram depois dessa data e seria errado, por exemplo, pegar os dados vacinais de 14 dias antes (05/12) ou do final do período (16/01), portanto optou-se por um período intermediário. A diferença não deve ser grande, pois os idosos estão com terceira dose há um bom tempo.

Dados aqui.

Veja essa comparação abaixo, com 1 mês de diferença (esses dados são da Inglaterra, que serão assumidos representativos do UK, dado o tamanho da população e as regras praticamente idênticas):

Em 19/12:

O total de pessoas com 80+ anos vacinadas com 3 doses era de 2,488 milhões, e o total com apenas com 2 doses era de 337 mil indivíduos (a diferença, pois todo mundo que tomou 3 doses, tomou duas doses).

Em 23/01/2022:

Perceba como cai o número de pessoas com apenas 2 doses.

Se eu utilizasse esse número mais recente, estaria distorcendo a estatística, pois usarei óbitos que aconteceram com base em uma população com status vacinal diferente do de hoje, assim como se utilizasse uma base muito mais antiga.

Os dados de óbitos (em 28 dias) ocorridos até o final da semana 2/2022:

Dados aqui.

Obs. Não se assuste com o número muito mais alto de óbitos entre vacinados, é normal que seja assim em números absolutos, pois é o grupo maior.

O número de vacinados e óbitos (considerando como proxy os dados da Inglaterra, o que não mudará a comparação) nas 4 faixas mais atingidas é (a faixa de X0-X4 e X5-X9 foi somada para ser comparável com a faixa de óbitos):

Os riscos relativos dos regimes vacinais

Por esse método, o risco relativo de óbito para quem tem apenas 2 doses foi 10 vezes maior para a faixa entre 50 e 59 anos, 12,5 vezes maior para a faixa entre 60 e 29 anos, 15 vezes maior para a faixa entre 70 e 79 anos, e 6,28 vezes maior para o grupo com 80 anos ou mais. Queda assustadora de eficácia.

Infelizmente a comparação com o grupo não vacinado não pode ser feita dessa forma, pois não sabemos exatamente quantos são os não vacinados, mas o sistema do UK continua reportando os riscos relativos dos não vacinados. Vou pegar os dados mais atuais (que estão bem próximos do cálculo que fizemos para 3 doses).

Agora comparando o risco do não vacinado com o vacinado com 2 doses, temos o seguinte:

Em termos percentuais, o risco continua maior para não vacinados, porém com uma redução bastante significativa em relação às três doses ou à expectativa inicial das 2 doses.

Para que o leitor entenda melhor esses dados, é o seguinte.

  • Na faixa de 50 a 59 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 213 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 60 a 69 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 134 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 70 a 79 anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 101 não vacinados foram a óbito.
  • Na faixa de 80+ anos para cada 100 pessoas vacinadas com 2 doses que foram a óbito, 139 não vacinados foram a óbito.

Antes da conclusão, uma sugestão metodológica.

Os dados de 2 e 3 doses são comparáveis, pois os denominadores são conhecidos, restando apenas uma questão de ajuste na base vacinal inicial.

Mas poderíamos saber com mais precisão ainda essas taxas, dado que as secretarias de saúde têm as datas exatas de óbito, internação e vacinação, portanto poderiam simplesmente gerar a estatística de forma simples, parametrizada até por prazo (14 dias após a dose X, por exemplo).

Além disso, poderiam associar a estatística não só à mortalidade por COVID, mas à mortalidade geral, que é o indicador final do sucesso de uma política pública: reduzir a “all cause mortality”.

Por que não fazem? Sei lá, mas os números existem e são facilmente compiláveis. Seriam extremamente úteis, pois esses cálculos que fiz são aproximados.

Conclusão

Os números parecem não deixar muita dúvida sobre a queda da eficácia do regime de duas doses. Eu realmente esperava outro resultado.

Quero repetir isso, em caixa alta: EU REALMENTE ESPERAVA OUTRO RESULTADO.

Isso explica a opção dos governos e dos meios de comunicação por não falar abertamente sobre a queda da eficácia regime vacinal inicialmente proposto, e focar em fazer propaganda do booster (terceira dose).

O problema a observar é se a terceira dose vai perder eficácia na mesma proporção e velocidade da segunda dose, entre 90 e 120 dias.

Isso fica particularmente delicado quando sabemos que a onda atual de Omicron BA.1 é de um vírus com proteína S completamente diferente daquela para a qual a terceira dose proveria proteção, e está, aparentemente, no início uma substituição da BA.1 pela BA.2, que tem entre 17 e 20 novas mutações em relação à BA.1. Ainda mais diferente.

Nossa melhor esperança é que o vírus pegue leve. Parece que estamos nas mãos da relação orgânica e não modelável do vírus e de nosso sistema imunológico.

Ler Post Completo | Make a Comment ( 7 so far )

Coisas que Desaprendemos nessa Pandemia: A Inteligência da Imunidade Natural

Posted on 21/01/2022. Filed under: Finanças |

Desaprendemos coisas demais durante essa pandemia, abandonamos não só conhecimento clássico sobre epidemiologia e imunidade, como perdemos a capacidade de fazer bons julgamentos sobre as informações que recebemos.

No dia 19/01/2022 o CDC publicou um estudo que deveria ser avassalador para o racional utilizado para priorização da vacinação. Falaremos dele em breve, primeiro vamos analisar os mecanismos que nos afastaram dos julgamentos racionais e questionamentos mínimos necessários ao processo de conhecimento. Fique até o final, não vai se arrepender!

O que é melhor, vacina ou imunidade natural?

As vacinas são uma invenção fantástica, pois conseguem conferir imunidade contra doenças, sem que as pessoas precisem ficar doentes. E sempre foi esse o racional dessa revolução da medicina, pelo menos até 2020.

Porém nunca fez muito sentido duvidar da superioridade sistêmica da imunidade natural, em termos de proteção contra futura infecção, em comparação à imunidade provocada pela vacina. Há dezenas de estudos para as vacinas mais comuns, como sarampo, varicela e influenza, mostrando o que deveria ser óbvio: a imunidade natural dura mais e funciona melhor:

Influenza: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2703026/

Measles: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8147093/

Varicella: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2839610/

Mas isso nem deveria ser colocado em questão, pois o que faz a tecnologia clássica das vacinas é simular uma infecção e provocar o sistema imunológico, aproximadamente como faz o próprio patógeno. NO MÁXIMO, se poderia aceitar que as pessoas acreditassem que vacina trouxesse uma proteção igual à da infecção natural. Mais proteção, não faz sentido.

A propaganda foi tamanha, que as pessoas simplesmente esqueceram como funcionam as vacinas, esqueceram que elas SEMPRE USAM o nosso próprio sistema imunológico, que elas não são “sucos antivirais”, não são super-heróis que entram em nosso sangue e combatem o vírus. Na verdade, as vacinas não combatem nada, apenas expõem o organismo ao patógeno, de forma controlada, para que o próprio organismo crie suas defesas. O próprio organismo é que cria.

Ah… mas as novas tecnologias…

Esse modelo mental que tomou conta da humanidade é dos mais estranhos em que ela já se meteu na história. Novas tecnologias, inseridas no corpo, sem testes de longo prazo, aplicadas em toda a população adulta da Terra, ao mesmo tempo, é o maior risco não calculado em que a humanidade, voluntariamente, já se meteu.

E o curioso é que a humanidade tem se acreditado ecológica, holística, respeitadora das leis da natureza, da gaia, da mãe Terra, dos animais, do ecossistema etc., não se pode tirar uma perereca albina do seu habitat natural que vai gerar um desequilíbrio imprevisível, mas não questiona uma tecnologia nova injetada em toda a população adulta da Terra, em 1 ano. Não há nada menos ecológico, humanista, holista, Zen ou “quântico” do que isso.

O estudo do CDC

De início preciso colocar aqui que o CDC é uma enorme decepção nessa pandemia. Li umas 2 dúzias de estudos, e até que os números eram honestos, mas a conclusão e a interpretação eram sempre muito fracas, por vezes ilógicas. O estudo sobre máscaras deles era visivelmente (link) contrário ao uso de máscaras, com redução ridícula (tipo 1%) no grau de infecção, e para um leitor mais atento, a interpretação era ainda mais contrária (pelo delay natural entre causa e efeito). Isso gerou uma profusão de “fact checkers” tentando criar uma interpretação diferente que, na verdade, foi tentar dizer que o estudo não significava nada.

Mas significava alguma coisa, e até foi bem montado, comparando o nível de transmissão para diferentes status de obrigatoriedade de máscaras. E o resultado foi pífio. Mas os “fact checkers” já saíram gritando o clássico “veja bem, não é isso que o estudo quis dizer…”.

Dessa vez o estudo do CDC (link) é eloquente em demonstrar a superioridade da imunidade natural de longo prazo sobre a imunidade da vacina. É tão eloquente, que já consigo antever um monte de “fact checkers” tentando distorcer os resultados para que a tal narrativa que ganha bilhões e mantém mandatos políticos vivos, continue de pé.

O estudo está no link acima, mas, para variar, a interpretação do CDC, também traz erros tênues e uma certa ingenuidade nos questionamentos.

A conclusão deles é que, no início, antes da Delta prevalecer, a vacina tinha eficácia mais alta do que a imunidade natural, mas essa interpretação, provavelmente, tem os problemas de sempre com o denominador (número de vacinados) que muda com muita frequência.

O método

De forma resumida, o CDC utilizou dados de Nova Iorque e da Califórnia para comparar 4 grupos, em termos de desfecho da COVID:

  • 1 – Não vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 2 – Vacinados, sem infecção prévia confirmada por exame.
  • 3 – Não vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.
  • 4 – Vacinados, com infecção prévia confirmada por exame.

Eles compararam risco de contrair e hospitalizações (ajustados por idade).

Vou usar a compilação do site Medpage, para facilitar (link).

Outra coisa que farei, não mudará a interpretação, é usar a média entre Nova Iorque e Califórnia, em vez de usar os dados individualmente.

Antes da Delta

Risco de contrair COVID (todos em comparação com não vacinados, sem COVID anterior):

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 19 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 9 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 8,5 vezes menos chance de contrair

Esses números mostram duas coisas, uma razoável e outra estranhíssima: (1) a vacinação foi irrelevante para quem já tinha contraído COVID, o que faz sentido; (2) a vacinação teve mais eficácia em quem não tinha infecção prévia, o que não faz muito sentido.

2 hipóteses aqui:

  • Erro estatístico, o número de vacinados oscilou bastante no período e isso pode ter mascarado o denominador nos 3 grupos (cada movimento em um, mexe nos outros).
  • A vacinação gera uma proteção forte, porém não natural para o organismo, por isso, quando o organismo já teve a doença, e é vacinado, prevalece a imunidade natural e a vacina faz pouco efeito. Em organismos virgens gera uma resposta forte, mas de curtíssimo prazo e específica para um aspecto do vírus (proteína Spike), que acaba virando o principal alvo das mutações.

Após a Delta a coisa se inverteu. Big time.

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 5,5 vezes menos chance de contrair
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 26 vezes menos chance de contrair
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 22 vezes menos chance de contrair

Em resumo, a eficácia caiu quase 4 vezes nos vacinados virgens, e subiu entre 2,6 e 2,8 vezes nos com imunidade natural.

Esses dados são para risco de contrair, os dados da Califórnia permitiram também analisar o risco de hospitalização (mais importante). Aparentemente os dados de NY não permitiram essa comparação.

Comparação para proteção contra internação

Antes da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 27 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 7 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 6 vezes menos chance de internar

Depois da Delta

  • Vacinados sem infecção prévia tinham, em média, 20 vezes menos chance de internar
  • Vacinados com infecção prévia tinham, em média, 57 vezes menos chance de internar
  • Não vacinados com infecção prévia tinham, em média, 53 vezes menos chance de internar

Queda de 25% na eficácia entre vacinados virgens, mas alta de quase 9 vezes na eficácia de quem tinha imunidade natural.

Interpretações razoáveis (algumas óbvias) sobre os números

  • Diante da mutação do vírus, os vacinados virgens tiveram uma alta de quase 4x no risco de contrair, enquanto os que tiveram COVID (vacinados ou não) tiveram seu risco de contrair diminuído em cerca de 3 vezes.
  • A imunidade natural mostrou exatamente o que se espera dela, um comportamento amplo, orgânico e sistêmico no enfrentamento da pandemia, pois enquanto a nova mutação reduziu bastante a eficácia da vacina nos organismos virgens, sem infecção prévia, elevou naturalmente a eficácia dos organismos infectados naturalmente. Não deveria surpreender.
  • A vacinação de indivíduos já infectados não trouxe qualquer diferença relevante na proteção deles. De queda de 9 para 8,5 vezes no risco de contrair (5,5%) ou na queda de 57 para 53 vezes no risco de hospitalizar (7,1%).
  • Obviamente o diferencial no grupo com infecção prévia é a proteção trazida pela própria infecção, não a vacina, pois no outro grupo havia vacina, mas não a imunidade natural, e a queda de eficácia foi brutal (a partir da Delta).

E isso deveria nos levar a algumas mudanças de percepção e de ação, imediatamente:

  • Indivíduos que já contraíram COVID não deveriam ser obrigados a se vacinar, ou tomar booster. Na verdade, não deveriam nem ter entrado na lista de vacinação, pois o pensamento de que a vacina melhoraria sua proteção é anormal e improvável, e foi realmente o que aconteceu na prática, não melhorou, para quem já tinha sido contaminado.
  • Indivíduos que já contraíram COVID, independentemente do status vacinal, são menos propensos a continuar como vetores da pandemia, tanto em termos de contrair, quanto de hospitalizar. Deveriam receber “passaportes vacinais diplomáticos”, pois são, provavelmente, o grupo que nos trará imunidade de rebanho real de longo prazo.

E a Omicron?

Não há dados.

Pelo que estamos vendo, e ainda está no começo na Europa (ao menos os efeitos de hospitalização e óbitos só estão aparecendo agora, em meados de janeiro), a Omicron deve ter levado a proteção vacinal contra contrair a doença a zero ou ao campo negativo. Por que digo isso?

Simples, basta ver os países mais vacinados e que mais fizeram lockdowns e medidas restritivas (contendo a contaminação natural). Portugal tem impressionantes 89,1% de vacinados e 39% de booster. Na semana que se encerrou em 19 de janeiro de 2022, Portugal teve quase 280.000 casos (quase 3% da população), 3 vezes mais do que o pico da onda mais alta. Em 18 de janeiro teve 46 óbitos (média de 7 dias, 35), 10 a mais do que em qualquer dia da primeira onda (fev/mar de 2020). Praticamente não existe “não vacinado” para contrair COVID nesse montante em tão pouco tempo. Não tem estoque de não vacinado para isso.

Outro ponto, o único país em que, até agora, a Omicron chegou e foi embora, foi a África do Sul. Iniciou a onda com 25% de população vacinada (sem booster), e por ser país pobre, provavelmente com uma elevada quantidade de pessoas infectadas naturalmente, a onda subiu muito rápido, mas não ultrapassou significativamente os picos anteriores (23.000 contra 20.000 casos/dia), além de ter voltado muito rápido também (mais rápido que nos picos anteriores). Os óbitos subiram pouco durante a onda, e agora estão altos, porém 80% menores do que nas ondas anteriores (550 contra 122 óbitos/dia hoje).

A observação de outro grupo de países com status vacinal bem diferente e com ondas anteriores semelhantes, ainda está em aberto, mas a depender do que acontecer após a Omicron passar, veremos com mais clareza o impacto do status vacinal. Jordânia, Israel e Palestina.

Conclusão

Não vou me estender. As pessoas podem tirar a conclusão que quiserem, mas uma é inequívoca, não há base epidemiológica, lógica, sistêmica, ecológica, holística, médica, estatística, ou qualquer outra base desejada, para obrigar indivíduos que contraíram COVID a tomar vacina, qualquer uma delas. Ao contrário, eles deveriam ser preservados e virarem “case control” para avaliarmos o que deu certo ou errado com a vacinação.

Eu tenho uma hipótese otimista. Estudo raciocínio sistêmico desde 1996, e estou surpreso com o grau de mecanicismo e de positivismo com que tratamos algo tão complexo como a imunização do planeta inteiro. Foi a maior imprudência sistêmica desde os primeiros testes com aceleradores de partículas.

Eu acredito que o sistema acaba se ajustando da forma mais confortável pra ele, na melhor adaptação possível, e no melhor interesse possível para todos os organismos envolvidos, como sempre aconteceu.

Por isso, entendo que, talvez, a Omicron seja uma cepa de conserto e concerto. Corrigirá qualquer anomalia criada pela ação abrupta do homem positivista no processo natural de diálogo que tivemos com vírus respiratórios desde sempre, e concertará a volta ao equilíbrio ecológico de longo prazo entre os organismos envolvidos.

Mas isso é apenas uma hipótese otimista. A Omicron para mim é uma incógnita. Minha aposta é que não traz os riscos de hipóxia das cepas anteriores, parece outro vírus, mas parece também uma gripe forte, que pode acabar afetando as pessoas que, naturalmente, seriam afetadas por gripes fortes. Isso na Europa e nos EUA é grave também, morrem até 60.000 americanos de gripe por ano e mais de 150.000 europeus.

Ah, e não me arrisco a dizer que ela vai embora facilmente, não são raras as pessoas que conheço com sintomas indo e voltando há semanas. Associavam a gripe, mas…

A ver.

Ler Post Completo | Make a Comment ( 1 so far )

  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...