Números da eficácia das vacinas no Reino Unido. Week 36 to 39 – 2021

Posted on 14/10/2021. Filed under: Finanças |

Recebi recentemente um resumo dos dados sobre vacinação, infecção, hospitalização e óbitos no Reino Unido, para as semanas 36 a 39. Um documento bem completo, porém, resumido e sem a possibilidade de baixarmos os dados brutos (link aqui).

Primeiro desafio: Número de vacinados e de não vacinados.

Um dos problemas das tabelas é que não temos os dados brutos, portanto precisei estimar com base nas taxas por 100.000 divulgadas.

O ideal seria termos os dados de todas as populações (vacinados, vacinados 1 dose, vacinados >=21 dias 1 dose, vacinados 2 doses e booster). Aí conseguiríamos saber a eficácia de cada regime.

Com os dados que temos, consigo apenas estimar as populações de não vacinados e vacinados com 2 doses, que são essas:

Eficácia da imunização (para não contrair o vírus).

Pela leitura da primeira tabela já fica claro que a eficácia da vacina para evitar que a pessoa pegue a doença está negativa (o risco de contrair é maior para quem está vacinado).

Na faixa de 40-49, por exemplo, temos 1.281 infectados por 100.000 nos vacinados, e 690 por 100.000 nos não vacinados, isso dá um risco 85% maior de contrair COVID se estiver vacinado nessa faixa etária.

A NHS explica assim: “** Interpretation of the case rates in vaccinated and unvaccinated population is particularly susceptible to changes in denominators and should be interpreted with extra caution.

Essa explicação é ruim, pois as taxas de vacinação com 2 doses permanecem praticamente inalteradas da semana 32 em diante para as faixas mais idosas.

Outro problema é que o denominador crescer é favorável à eficácia (reduz a taxa) e o denominador dos vacinados só cresce, enquanto o dos não vacinados sempre diminui (pois cada vacinado passa a somar de um lado e subtrair do outro).

Enfim, acho que não faz sentido essa explicação da NHS para os números de eficácia.

Uma explicação mais plausível seria que, no grupo de não vacinados, exista muita gente que não o tenha feito por já ter contraído COVID. Se for esse mesmo o caso, podemos ter um número desproporcional de pessoas com imunidade naturalmente adquirida no grupo de não vacinados.

Os números de eficácia são os seguintes (para proteção contra infecção):

Não, não há erro nenhum. Veja na tabela original que os rates por 100.000 são bem maiores para os vacinados, o que mostra que o risco relativo é maior para eles. Não briguemos com números oficiais.

Proteção contra hospitalização e mortes.

Apesar de ser bem estranho ver o grupo vacinado se infectando mais, proporcionalmente, do que o grupo não vacinado, a eficácia contra hospitalização e mortes continua alta (os dados originais estão no link acima).

Conclusões e coisas para as quais não tenho dados para saber

  • Se a ideia do passaporte vacinal é o vacinado se proteger contra o não vacinado (o que já não é lá uma ideia muito brilhante), no UK isso não faz qualquer sentido.
  • Vejo muitas chamadas no Brasil e nos EUA afirmando que “95% das pessoas que morreram eram não vacinadas” e coisa semelhante. Os dados de países com vacinação semelhante (Israel e UK) não corroboram isso. Em números absolutos, óbitos e hospitalizações obviamente ocorrem mais entre os vacinados, pois existem bem mais vacinados do que não vacinados. Proporcionalmente há menos internados e óbitos de vacinados, mas em número absoluto não. Veja o caso inglês, foram 2.281 óbitos de vacinados contra 609 de não vacinados em 4 semanas, mesmo com eficácia alta das vacinas.
  • O perfil inglês é completamente diferente do de Israel. Em Israel houve uma alta enorme nos casos, mesmo com ampla vacinação, mas essa alta funcionou como uma onda semelhante às anteriores (com menos óbitos e mais casos). No UK a coisa foi diferente, os casos subiram para um patamar alto (35.000 casos por dia) e assim permanecem há semanas. Não parece uma onda, mas uma maré alta. Também não faço ideia do motivo, talvez a diferença nas vacinas (Astrazeneca majoritária no UK e Pfizer em Israel).
  • As vacinas modernas são muito especializadas, geram resposta imunológica apenas para um aspecto do vírus, exatamente o aspecto que está em constante mutação. Pode ser que uma infecção pós-vacinação melhore, de fato, a imunidade do infectado curado. Já estão especulando a utilidade da infecção pós-vacinação. É um pouco de hipocrisia falar isso e ao mesmo tempo negar a validade da imunidade natural, mas não é uma hipótese ruim que uma infecção pós-vacinação possa “consertar” alguma fragilidade sistêmica das vacinas. Mas ainda assim é só uma hipótese.

Ps. peço ao leitor que leia o texto sem procurar vieses políticos. Não é essa minha intenção.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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