Dados da vacinação em Israel. Dúvidas sobre os cálculos de eficácia da terceira dose. Ago/Set 2021

Posted on 18/09/2021. Filed under: Finanças |

Desde 30 de julho, Israel iniciou um booster com a terceira dose da vacina da Pfizer para maiores de 60 anos, e 20 dias depois, iniciou a terceira dose para maiores de 40 anos.

O que percebi, após destrinchar os dados, é que, aparentemente, a terceira dose está sacrificando os dados de eficácia da segunda dose. Eu tinha percebido isso no dia em que alteraram a forma de divulgar os dados, mas decidi esperar alguns dias para ver se era erro na transição. E, aparentemente, é mesmo erro na transição dos dados. Isso ficará claro ao final do artigo.

Israel apresenta dados brutos com alguma qualidade para que possamos acompanhar a evolução dos testes vacinais (essa é a quarta fase das vacinas) no link a seguir. Até recentemente não apresentavam dados sobre mortalidade, mas há cerca de uma semana liberaram esses dados. Infelizmente ainda sem discriminação etária adequada.

https://datadashboard.health.gov.il/COVID-19/general

Resultados mais recentes (Agosto/Setembro).

Acompanho os dados de Israel com atenção há alguns meses, e no início, a eficácia das vacinas parecia espetacularmente alta, porém houve coincidência com uma queda brutal nos casos, até o início de abril. As pessoas associavam isso à alta vacinação em Israel (já superior a 55% em 2 doses, mais de 70% dos adultos).

Agora, Israel enfrenta uma onda que já ultrapassou a anterior em casos (com cerca de metade dos óbitos), mesmo com uma população massivamente vacinada, e com 30% da população já com a terceira dose.

Há algumas semanas eles alteraram a forma de divulgar os dados e, agora, são três grupos: vacinados com impulso (3ª dose), vacinados sem impulso e não vacinados.

Vamos aos principais resultados.

ALERTA: Estou fazendo os cálculos sobre eficácia conforme a literatura, mas não é a forma que considero certa de fazer. Para sabermos realmente o efeito das vacinas, temos que dividir em 4 grupos: (i) não vacinados que nunca tiveram contato com o vírus; (ii) não vacinados que já tiveram contato com o vírus; (iii) vacinados que não tinham sido infectados antes; e (iv) vacinados que já tinham sido infectados.

Sem essa divisão nós temos uma noção da eficácia, mas não conseguimos isolar o efeito exclusivo das vacinas.

Risco relativo de contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

É possível inferir pelos dados a queda na eficácia para a vacinação sem impulso. O risco para o não vacinado é sempre maior, mas muito mais próximo do que no início da vacinação. Por exemplo, de cada 1.000 pessoas de cada grupo de 70 a 79 anos, 54 vacinados (sem impulso) contraem a doença e 85 não vacinados. É uma queda de eficácia que ficará mais clara a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID por faixa etária e por status de imunização:

A queda de eficácia para quem tomou apenas 2 doses é brutal. Com esses números a vacina não teria aprovação em lugar nenhum.

A gente pode associar o motivo à variante Delta, mas, se fosse realmente isso, o que explicaria a ainda alta eficácia para quem tomou a terceira dose?

As hipóteses são: (i) eficácia cai muito com o tempo; ou (ii) a vacinação com terceira dose é muito recente para ter dados consistentes; ou (iii) a terceira dose aumenta a imunidade de fato.

Vamos ver o que aconteceu com os riscos de contrair COVID grave:

Risco relativo de contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

O que fica bastante claro é que os riscos são muito baixos para adolescentes, tendo tomado ou não a vacina.

Como os números são extremamente baixos até os 29 anos (15 casos em um grupo de 685 mil jovens não vacinados, 21 casos graves por milhão), deve-se sopesar com os riscos associados à própria vacinação. Infelizmente esse tem sido um debate interditado e nós não temos acesso a dados confiáveis sobre efeitos adversos. O que consegui apurar, o CDC, é que a taxa de miocardite em MENINOS por MM de doses aplicadas nos EUA foi de 47,4 para o grupo entre 12 e 15 e 76,7 para o grupo entre 16-17 anos (somando as duas doses). Para meninas foi muito mais baixa.

Mas, repito, falta informação mais detalhada sobre os riscos, ao menos a informação não chega facilmente a todos. Quanto aos riscos de longo prazo, só saberemos no longo prazo mesmo.

https://www.cdc.gov/vaccines/acip/meetings/downloads/slides-2021-08-30/05-COVID-Lee-508.pdf

Não dá para saber a mortalidade nos grupos, mas deve ser mínima também, pois Israel informou a mortalidade nos últimos 28 dias e houve apenas 48 óbitos em todo o grupo menor de 60 anos.

Aparentemente a vacina mantém a redução de risco da gravidade da doença, ainda que em menor escala do que no passado. Veja a seguir.

Eficácia para evitar contrair COVID GRAVE por faixa etária e por status de imunização:

Infelizmente o dado de eficácia contra mortalidade não dá para ser calculado adequadamente, pois não temos a distribuição por faixa etária e, ainda pior, os óbitos entre agosto e setembro podem se referir a infecções ocorridas semanas ou até meses atrás. Tentei calcular, mas nada faz sentido.

Questões sobre a terceira dose

Os dados parecem formidáveis para a terceira dose, e bem inferiores para vacinação completa anterior, mas entendo que isso tem um viés difícil de contornar.

Os dados de vacinados e vacinados com impulso se confundem demais nesses 45 dias de vacinação da terceira dose. O denominador dos cálculos de risco muda muito rápido. Em 30 de julho havia ZERO vacinados com terceira dose, em 15/09, 2,8 milhões. Os casos em aberto há semanas podem estar contabilizados como vacinados sem impulso, mas quando ele contraiu esse número (base do denominador) era de 4 milhões de pessoas, em 15/09 eram 2,6 milhões. Na hora que fazemos o cálculo, dá errado. Mascara os números.

Uma evidência de que o que digo tem fundamento está no cálculo para o grupo que quase não tomou booster (12-15), onde a eficácia é MAIOR para os vacinados com 2 doses apenas do que para quem tomou o booster.

Em resumo, minha opinião é que esses números da terceira dose acabam amplificando artificialmente a eficácia do booster e sacrificando a eficácia da vacinação normal.

Sendo ainda mais claro, entendo que os números acima de 90% de eficácia para a terceira dose e abaixo de 50% para a vacinação padrão são fruto apenas de um ajuste estatístico, com a base (denominador) do risco flutuando muito e muito rápido. Nem é tão boa a terceira dose, nem é tão ruim a segunda.

A título de curiosidade, refiz os cálculos de eficácia contra infecção e doença grave, e a situação muda radicalmente, mas fica bem mais próxima das eficácias que eu vinha calculando antes de dividirem em 2 grupos de vacinados.

Com dados completos eu conseguiria verificar isso, mas certamente esses dados devem ser estratégicos e não serão divulgados (discriminando a trajetória de quem pegou, internou e morreu).

Questões sobre infectados após a vacinação.

A infecção em vacinados é uma faca de dois gumes. Por um lado, como há risco baixo de contrair a doença grave, a infecção natural vencida pode corrigir a imunologia gerada pela vacina e amplificá-la, deixando a pessoa ainda menos vulnerável. Por outro lado, com esse nível muito alto de infecções em organismos que deveriam ter uma competência extremamente elevada para enfrentar o vírus, há a preocupação pelo potencial de geração de variantes, dada a pressão evolutiva que é imposta ao vírus, ao vencer um vacinado.

Só o tempo dirá se estamos ou não perto do fim desse maldição.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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