Red Pill COVID19: A incrível polêmica entre óbitos por de data evento e por data de confirmação.

Posted on 02/07/2020. Filed under: Administração, Matemática, Política | Tags:, , |

É um pouco estranho que ainda existam dúvidas sobre o erro de considerar os óbitos por data de confirmação (exame positivo) como mensurador da evolução da PANDEMIA.

Acompanhar a evolução pelos óbitos por data do evento (quando de fato ocorreu o óbito ou o início dos sintomas) tem problemas, que são facilmente solucionáveis, mas acompanhar por confirmação do exame NÃO tem solução, é sempre errado e sempre vai trazer informações distorcidas e irrelevantes.

Vamos ter poucas confirmações quando a curva estiver no início e muitas quando estiver no final, ou seja, um péssimo indicador, pois vamos achar que é pouco, justamente quando temos que nos preocupar, e vamos achar que é muito, justamente quando estamos na descendente.

Red Pill logo de início.

Antes de explicar as falhas graves de se usar as datas de confirmação dos exames, principalmente com os atrasos de 3 meses como vemos no Brasil, vamos entregar logo a pílula vermelha e acabar com essa polêmica sem sentido. Sigam a orientação aristotélica:

  • Para sepultamento o óbito precisa de registro (famílias obrigadas a informar em até 24 horas).
  • O registro em cidades grandes (onde ocorreram a esmagadora maioria dos óbitos) tem, no máximo, 10 dias de atraso para chegar nos bancos de dados. Sendo que SP e RJ e grandes capitais isso não passa de 5 dias.
  • Cada óbito registrado associado à Pandemia tem 2 status: confirmado ou suspeito.
  • Cada óbito, suspeito ou confirmado, tem o registro da data em que ocorreu.
  • Cada dia, portanto, tem dois dados relevantes: óbitos confirmados e óbitos sob suspeita.
  • Entreguem os dois dados (óbitos confirmados e sob suspeita POR DIA de ocorrência) e acabou a polêmica.

Para controle da pandemia, é mais importante sabermos a curva potencial do que a curva “perfeita”.

Ninguém “escondeu” 10.000 óbitos ocorridos, eles foram registrados, no máximo são 10.000 óbitos em investigação, sabemos em que dia estão (de fato e potencialmente).

Para os estatísticos puristas, bastaria termos todos os dados que seria possível fazer um tracking dos atrasos e identificar um padrão (ainda que crescente). Isso é fácil demais, não é Rocket Science. Mas não dá para ser feito sem os dados.

Não há nenhuma justificativa razoável para os dados não serem todos entregues ao público. Não é papel do gestor público prejulgar a nossa capacidade de avaliar os dados corretamente. Há estatísticos brilhantes, facilitem o acesso aos dados e teremos modelos brilhantes surgindo. Quem está fazendo estatística no Brasil de hoje são os jornalistas. Isso não está funcionando.

Como esse gráfico de óbitos e casos por confirmação de exame levam a erros graves.

Erro #1: Tratar o Brasil como se fosse um caso único.

O Brasil é como uma Europa. Cada estado é como um país. Cada um teve sua própria curva de casos, cada um tem seu próprio método de verificação dos dados, cada um tem seu próprio sistema de registros, cada um tem seus laboratórios, cada um tem seus problemas.

O governador de Minas Gerais disse que priorizou gastar o pouco dinheiro que tinha em aumento de UTIs e compra de respiradores, deixando os testes só para profissionais de saúde e pessoas hospitalizadas. Resultado: tem um backlog imenso de amostras coletadas nos últimos 3 meses. É capaz de chegarmos a outubro vendo recordes de casos em MG e anunciando uma curva crescente da Pandemia no estado, mesmo contando casos de abril. É algo completamente absurdo.

Tratar o Brasil como um todo homogêneo para tomar decisões ou avaliar a curva da COVID é como propor que a Áustria e Itália devam usar as mesmas medidas.

Todos os estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes já passaram pelo pico de mortalidade, o que pode ser visto por qualquer indicador que se queira EXCETO pela estranha opção de olhar as curvas pela data de confirmação dos exames (que têm atrasos de até 3 meses).

Se não quer olhar pelo gráfico de óbitos por dia, olhe pelo número de sepultamentos (não há “sepultamento confirmado por exames”), olhe pelo número de internações, olhe pelo número de óbitos por SRAG. Na figura abaixo temos os casos de SRAG que foram a óbito nos 6 principais estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes. O atraso já está contabilizado, pois estamos na semana 27 e os dados são até a semana 24-25.

Fonte: http://info.gripe.fiocruz.br/ (óbitos)

Erro #2: Os impactos dos erros e do backlog são maiores quando os números são menores!

As pessoas que querem “provar” que não se deve usar a curva de óbitos por DATA efetiva, mostram que para os meses de Março, Abril e início de Maio os dados de óbitos por data foram maiores do que os informados pela imprensa. Mas isso acontece porque tínhamos poucos óbitos confirmados e um backlog grande de casos e óbitos a confirmar.

A hipótese mais provável para isso ter acontecido não é que “apareceram milhares de óbitos que ninguém sabia”, mas outras mais simples como:

  • Falta de testes no início dos períodos. Até 20 de Abril tínhamos feito 130.000 testes, hoje temos 3.227.000 (sem contar testes rápidos)
  • Todos sabem que as curvas de SRAG no final de fevereiro cresceram exponencialmente, atingindo um topo em Abril, exatamente a época em que não tínhamos testes suficientes.
  • Na falta de testes preferencialmente testamos profissionais de saúde e pessoas com sintomas que devem ser isoladas e deixamos o resto para depois.
  • MAIS IMPORTANTE: tínhamos poucas mortes confirmadas até o início de maio (menos de 6.000), obviamente o “estoque” de óbitos não confirmados faz mais diferença sobre uma base de 6.000 do que sobre uma base de 60.000.

Os óbitos em investigação eram muito mais relevantes quando o número era de 2.000 – 3.000 e não tínhamos testes do que agora, com 60.000 mortos quando temos milhões de testes.

Essa evidência de que os óbitos informados pela TV foram menores do que os reais é função do estágio da Pandemia, com a curva crescente e atraso nos testes isso acontece, a tendência agora deve ser justamente contrária, que é exatamente o que está acontecendo nos estados com mortalidade mais elevada.

O caso do Rio de Janeiro

Para quem ainda não acredita na lógica apresentada, basta ver o caso do Rio de Janeiro, que é um dos estados que apresentam diariamente os dados por data efetiva de óbito.

Em 10 de junho o gráfico do RJ por data de evento mostrava um número máximo de óbitos de 172 em 04 de maio. Em 17 de junho o recorde foi para 28 de Abril, com 225 óbitos. Em 02 de julho esse recorde foi para 30 de Abril com 248 óbitos.

Quanto mais o tempo passa no RJ, mais a curva se inclina para a esquerda, se parecendo com as curvas de outros países muito afetados.

O prefeito disse que o número de sepultamentos em junho de 2020 será menor do que em junho de 2019. O número de internações cai desde o início de maio. O número de óbitos em investigação era de cerca de 1.000.

Se olharmos os dados data da confirmação positiva dos exames, veremos o RJ com recordes recentes. Quem estiver acompanhando por esse indicador, vai achar que ainda não chegamos ao pico da pandemia.

E essa realidade deve ser a mesma em estados com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes. Aliás, tem sido a mesma em países com mais de 50 óbitos por 100.000 habitantes.

Fonte: http://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html

Mais dados é sempre melhor do que menos dados.

Com menos dados, ou com dados selecionados de acordo com o interesse do órgão que controla a divulgação desses dados (governo, estado, município, órgão de imprensa etc.), é mais fácil manipular a opinião pública. Não acho que seja esse o objetivo, me parece mais pouca afinidade com planejamento estatístico do que má-fé. Vamos pensar o melhor das pessoas.

Em vez de ficarmos brigando sobre qual modelo apresentar, devemos apresentar os 3:

– Por data da confirmação do exame positivo.

– Por data do registro efetivo do óbito.

– Por potencial de óbitos/casos por data efetiva (somando confirmados + em investigação).

Vamos ficar com imprecisões de poucos dias, relacionadas com atrasos no registro de óbitos nos sistemas dos cartórios, mas é muito melhor do que ficar sujeito a atrasos de 2 meses.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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