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Temer e o futuro que não vivemos.

Posted on 05/02/2018. Filed under: Finanças, Política | Tags:, , , , , , , |

Apesar da péssima popularidade do presidente Temer, ainda há muita gente de porte relevante que sai em sua defesa. Há empresários de peso, jornalistas, boa parte dos políticos e, claro, alguns sabujos.

A retórica é sempre a mesma. Que Temer conseguiu fazer a reforma trabalhista e aprovar o teto de gastos, que colocou uma equipe econômica competente que está promovendo mudanças importantes no Brasil.

Quanto às reformas que não conseguiu aprovar, colocam na conta do Janot. Segundo eles, se não tivéssemos o fatídico 17 de maio, o Brasil estaria voando baixo.

Mas essa retórica esconde o futuro que Temer impediu o Brasil de viver.

Vivemos momentos conturbados em que Lula, apesar da condenação, continua forte nas pesquisas, há riscos de volta do populismo, as contas públicas se deterioram rapidamente, a dívida bruta cresce a impressionantes 4% ao ano (em relação ao PIB), além dos vários reveses sofridos na reforma da previdência, adiamento do aumento dos servidores, adiamento da votação contra supersalários, da reoneração etc.

E a retórica insiste que a culpa é do Janot, que se Temer não tivesse que enfrentar a denúncia, estaríamos em um mar de rosas.

Pois é, mas havia várias possibilidades, quem escolheu esse caminho conturbado foi o próprio Temer.

Primeiro, diga-se que quem recebeu Joesley à noite na residência oficial foi Temer, quem ouviu relatos de crimes, compra de juízes e membros do MP etc. e nada fez, foi Temer. Se há um culpado de ser acusado, é Temer. Se Janot não o acusasse, estaria prevaricando. Ainda que se acredite na hipótese de “armação”, a obrigação funcional do Ministério Público era levar adiante.

Segundo, precisamos lembrar que Temer era o vice de Dilma. Não é nenhum reformista liberal, é cúmplice do PT. A aliança PT-PMDB elegeu Dilma em 2010 e a reelegeu em 2014. Temer era a figura proeminente. Sem o PMDB e suas mais de 1.000 prefeituras, o PT não venceria de jeito nenhum. Dilma está na conta do PMDB. Está na conta de Jucá, Temer, Renan etc.

Mas qual é o tal futuro que não vivemos, porque Temer nos impediu?

Temer poderia ter renunciado, ou aceitado a investigação no STF (sem manobrar no congresso).

Se Temer renunciasse, haveria eleição indireta em 1 mês. Se o congresso aceitasse a denúncia, ele ficaria fora por até 180 dias, período em que Rodrigo Maia o substituiria.

Em ambos os casos dependeríamos do congresso. O mesmo congresso que deu todas as tais vitórias de Temer.

A PEC do Teto teve 359 votos na Câmara e 53 no Senado. A reforma trabalhista teve 296 votos na Câmara e 50 no Senado, sendo que foi aprovada em 11 de julho de 2017, quando a história de Joesley ainda estava fervendo no noticiário.

Temer nos fez refém de sua situação criminal, em vez de deixar o caminho livre para as reformas.

Nada de benfeitor, de grande liderança ou de estadista, é apenas um político egoísta que submeteu o Brasil a meses de agruras que poderiam ter sido evitadas com uma simples renúncia, ou com a aceitação da denúncia e consequente julgamento no STF. Quem não deve, não teme.

É ingenuidade crer que um político que teve expressão durante décadas (foi presidente da câmara duas vezes), porém nunca teve substância eleitoral nem para almejar um Senado Federal, e que não traz no currículo nenhuma realização relevante para o país, seja o tal “salvador da pátria” pós-Dilma.

Depois de Dilma bastaria passarmos a presidência para uma porta envernizada para melhorar a economia.

O mal que a falta de grandeza de Temer nos fez ainda vai continuar a vigorar, ao menos até a próxima eleição.

Mas o congresso conseguiria fazer as reformas?

Se tivesse sido afastado, por renúncia ou aceitação da denúncia, teria permitido que os mesmos atores que aprovaram as tais reformas continuassem atuando por elas, dessa vez diretamente na casa legislativa.

É irracional acreditar que Temer, em si, pela figura que é, seja o grande artífice das reformas. Tanto é que por várias vezes o próprio Meirelles o escanteou, afirmando que as reformas seguiriam “não importa quem fosse o presidente”. Em que foi apoiado pelo próprio Rodrigo Maia, à época sendo chamado de traidor pelos apoiadores do presidente.

Se não tivéssemos Temer hoje na presidência, a prisão e os processos contra Geddel, Henrique Eduardo Alves, Rocha Loures entre outros não estariam pressionando o Brasil. Eram pessoas de confiança dele. Basta um deles abrir a boca para o Brasil desabar. De novo.

Temer nos deixou assim, reféns de uma possível delação de seus ex-ministros presos.

Faz sentido acreditar em um presidente que teve tantos ministros e aliados presos, e cujos principais assessores, Moreira Franco e Eliseu Padilha, só estão soltos por terem foro privilegiado?

E o que dizer de Marun e Cristiane Brasil? Que político habilidoso é esse, que é refém do baixíssimo clero?

Acreditar que o legislativo tocaria as reformas MELHOR que Temer não é uma crença em Rodrigo Maia em específico, que é um político pouco expressivo, mas tão somente um reconhecimento de que o legislativo é quem, efetivamente, vota as reformas, até as medidas provisórias, e também um reconhecimento de que, se não fôssemos reféns de uma denúncia que atingiria exclusivamente Temer, uma pessoa apenas, os vários bilhões de toma-lá-dá-cá e o tempo perdido com as negociações no congresso não teriam ocorrido (no que diz respeito à denúncia).

Um desperdício gigante de dinheiro e de tempo, só para salvar um político inepto que recebeu um gângster, ouviu sobre o gangsterismo e nada fez.

Mas o pior legado da teimosia egoísta de Temer é ter dado força ao insuportável discurso do “golpe”.

Se Temer (e Aécio) tivessem sofrido as consequências de seus atos, e aqui incluo a inacreditável performance de Gilmar Mendes no TSE, absolvendo a chapa Dilma-Temer, como ficaria o discurso de Lula et caterva sobre o tal “golpe misógino parlamentar”?

Como justificar que existiu Golpe se Temer TAMBÉM tivesse caído, seja no TSE, seja por renúncia ou no STF?

Como justificar o tal golpe se Aécio tivesse perdido o mandato e estivesse nas mãos de Moro?

Para o povo mais simples (e até para o mais sofisticado), ficou bem estranho ver Gilmar mudar de posição a respeito da cassação da chapa. Fica bizarro ver que Temer, com gravações bem mais comprometedoras do que Dilma, tenha recebido tanto apoio no Congresso, enquanto a “senhora de vermelho” caiu.

Imprensa a favor é propaganda.

E é o que estamos vendo. Jornalistas atolados em retóricas interesseiras, como Reinaldo Azevedo por exemplo, querendo nos fazer crer que a Lava-Jato é a culpada de todos os males brasileiros, desde o fracasso da aprovação das reformas, até a possível ascensão de Lula.

Mas a retórica antilava-jato quer, tão somente, livrar determinado grupo da cadeia e evitar a entrada de um outsider no jogo político. Não duvidem se virem Temer e Aécio unirem-se a Lula em torno de algum projeto político em 2018, é o caminho natural da sobrevivência dos esfarrapados.

O discurso “Azevediano” de que Moro é o maior cabo eleitoral de Lula é tão tosco que se esquece que se o juiz não tivesse liberado os áudios de Dilma, Lula teria sido ministro. E não sairia mais de lá. Seus processos iriam para o STF e ele concorreria, com a mesma aliança PT-PMDB em 2018, possivelmente com Temer de vice. Ou Aécio, em uma grande “união nacional para estancar essa sangria. Incluindo o STF”.

É viesada a visão que não aceita que a Lava-jato nos deu a única ferramenta para derrubar Lula, fazê-lo pagar por seus crimes.

Na lógica Azevediana, o fato de poder colocar Lula na cadeia ainda em abril ou maio, é algo bom para Lula!!!

Fico imaginando o que seria ruim para ele. Ser ministro? Ter seus casos julgados no STF por Tóffoli ou Lewandowsky?

É uma visão que seria limitada, se não fosse interesseira.

Repitamos o óbvio!

A Lava-Jato é uma inimiga de Lula, a única inimiga que pode feri-lo de morte. Já as vitórias de Temer são uma motivação para Lula repetir que pau que dá em Dilma, não dá em Temer.

E o PMDB será aliado de Lula ou de seu preposto (caso este seja preso pela Lava-Jato) em vários estados do Norte e do Nordeste, onde o ex-presidente ainda tem força, com apoios já declarados de Renan e Eunício.

Temer é ruim em escolher prioridades.

Pensa-se que Temer é um craque na política. Mas, em áreas que dependiam só dele e do seu governo para atuar, não foi tão craque assim.

Temer abandonou as MPs com efeito fiscal relevante de curto prazo, para fracassar na reforma da previdência que terá efeito só em alguns anos. A propaganda mesmo diz que a idade mínimo levará 20 anos para vigorar integralmente.

Por conta de sua priorização deficiente, não foram votadas em 2017 as propostas de redução dos supersalários, adiamento do aumento dos servidores + aumento da alíquota (esses então com liminar no STF), a reoneração das folhas e a tributação dos bilionários em fundos exclusivos.

Tudo isso, estima-se, traria um alívio de 20 a 25 bilhões já no próximo ano.

Nada foi votado, nada aprovado, aumentando o buraco para 2018.

Culpa exclusiva do governo, de suas prioridades erradas e de seus erros de cálculo político. Pudera, só pensam em uma coisa: livrar-se da cadeia.

Enfim…

Somos reféns de vários sexagenários e septuagenários com pendências na justiça, que insistem em manobrar a máquina estatal para a manutenção de seus feudos e de seus privilégios.

Não são gênios, não são honestos, não são altruístas e não são a nossa única opção.

E assim vamos, reféns de um grande sequestro coletivo, onde querem nos fazer crer que o rapto foi para o nosso bem. Querem que o sequestrador seja perdoado e incensado só porque alimentou o sequestrado no cárcere.

Está na hora de mudar, de verdade, o comando das coisas por aqui. Se não der no voto, dará, cedo ou tarde, na catástrofe da insolvência fiscal.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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