Por que Trump venceu as eleições nos EUA? Esqueça as análises simplistas, a coisa é ainda mais simples do que parece.

Posted on 09/11/2016. Filed under: Filosofia, Política | Tags:, , , , |

Trump tem um conjunto infinito de características que deveriam tê-lo levado a uma derrota fácil. Mas venceu. E não venceu por causa do muro, do racismo, da xenofobia, da misoginia, da bomba na jihad ou pela “burrice” do americano médio. Foi outro o motivo de sua acachapante vitória.

Trump pensa coisas estranhas e fala coisas mais estranhas ainda. Trump parece ter sonegado impostos. Trump parece mentir sobre sua própria fortuna. Trump conta vantagem sobre sua posição social e suas conquistas amoro$a$. Trump parece ter contratado imigrantes ilegais. Trump fala mal de algumas raças e credos. Trump quer bombardear o inimigo que ataca os EUA. Trump conta piadas sem graça. Trump se refere às mulheres de forma vulgar. Trump é hedonista.

Enfim, Trump é o estereótipo perfeito da afronta à agenda globalista e politicamente correta.

Hillary, ao contrário, é o perfeito clichê politicamente correto.

É amiga de Bono, abraça toda e qualquer minoria (e suas agendas), acolhe todas as religiões e suas bizarrices, está do lado dos artistas progressistas, não gosta de armas, é mulher, preocupa-se com os pobres (mesmo vestindo roupas de 50 mil dólares), não comete gafes politicamente incorretas, conta piadas assépticas, discursa para não ofender, é anti-imperialista etc..

O mundo viu os dois como candidatos ao cargo máximo da democracia ocidental, mas na verdade o que aconteceu foi um embate entre uma agenda opressora e a reação a esta.

Não é o que você está pensando. Não é Trump o ponta de lança da agenda opressora de que estou falando.

Antes de continuar é necessário dizer que não pretendo fazer julgamento de valor sobre o futuro papel de Trump, ou o ex-futuro papel de Hillary na presidência. Isso foi secundário na eleição. Quero apenas sugerir, fora das ideias do main stream, o motivo de Trump ter vencido, mesmo quando forçou a barra para ser estridente, histriônico e politicamente incorreto.

Trump não é “o” americano médio. Não cometa esse erro de análise.

É fácil ler na imprensa hoje a explicação de que ganhou o americano médio idiota. O branco pouco letrado e simplório.

Mas Trump é muito mais do que isso. Trump, ou ao menos o personagem que ele encarnou durante a eleição, é o americano médio, mínimo e máximo.

Trump exibiu praticamente todos os pecados morais, intelectuais e até legais que permeiam a sociedade americana (e mundial).

Não é difícil acreditar que 90%, talvez mais, da população americana tenha alguma das características que considera desprezíveis ou reprováveis em Trump.

Sonegar impostos, contratar imigrantes ilegais, se ofender com agendas de minorias, cometer gafes, contar piadas ruins sobre temas sensíveis, ser vaidoso com suas conquistas, querer explodir o inimigo que lhe ameaça, ser grosseiro, rude e xucro, pintar o cabelo com tintura de mau gosto, colecionar rifles, adorar dinheiro e sucesso, vangloriar-se de conquistas sexuais, trocar sexo por dinheiro etc.

Alguns desses tópicos configuram crime nos EUA (sonegação ou prostituição), mas Hillary e sua campanha preferiram atacar as características comportamentais, os valores de Trump.

Ora, não é evidente que ser um idiota vá gerar alguma atividade criminosa no futuro. Muita gente vive com valores confusos durante sua vida inteira e não cria transtornos para ninguém, talvez para si mesmo. Estaríamos a criminalizar a burrice, a idiotice ou a ignorância?

Não se pode mais ser idiota em paz no mundo?

Ora, somos todos idiotas aos olhos de alguém. Todo mundo é o imbecil de alguém. Com certeza alguém que me lê neste momento está pensando “que idiota!”.

Antigamente o “tiozão deslocado no churras” era motivo de piada interna, alguém da família brincava com ele, as piadas sobre as bobagens que ele fazia e dizia nos encontros de família viravam um elemento de integração até para ele, que curtia ser o centro das atenções, mesmo que por motivos pouco nobres.

Hoje, quando a pessoa destoa em público ou em família, minimamente, do que é politicamente aceito, não há mais espaço para ela no debate familiar ou social. Só é menos execrada que o fumante, ou nem isso.

Não há mais piada engraçada no mundo. Não há mais espaço para alguém que personifique conceitos politicamente incorretos.

São execrados socialmente e sua atitude é vista como a representação clara e inequívoca de valores negativos absolutos como o mal, o ódio, a burrice, o erro.

Donald Trump foi massacrado por cada um dos defeitos que fez questão de projetar.

E há, ao menos, um destes defeitos em cada americano, médio, ou 5 estrelas Bono-style.

Até as pessoas que estrelam a agenda progressista e politicamente correta tem vários dos pecados de Trump em seu currículo, mas são alienados o suficiente para só ver bondade, acerto e inteligência em seus atos e pensamentos.

Wagner Moura e Gregório Duvivier têm a certeza de que estão do lado do bem absoluto, do nirvana intelectual e moral, mas são apenas seres humanos carentes de autocrítica.

Donald Trump venceu porque encarnou a libertação para quem não é, não se considera e não quer ser perfeito.

Qualquer americano que tenha, algum dia na vida, se comportado como Trump, nas mais variadas facetas de sua personalidade, se incomodou quando o bilionário foi tratado como a representação do mal absoluto, do erro evidente, do indesejável e do inaceitável.

O uso equivocado da palavra tolerância

Tolerância não é amar, aceitar, desejar ou incentivar. Tolerar é conviver mesmo sem gostar, mesmo sem amar, mesmo sem aceitar e incentivar.

Reproduzo aqui os significados para a palavra tolerância: 1. ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência; 2. tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às adotadas por si mesmo.

É possível ser como Donald Trump e ser tolerante.

Trump se diz contra mexicanos e imigrantes, mas cansou de contratar esses mesmos imigrantes durante décadas, podem até se odiar, mas viveram sua simbiose. Trump trata as mulheres de forma vulgar, mas quem somos nós para criticar sua vida conjugal. É acordo mútuo ou ele sequestrou sua esposa?

Mas é possível ser Wagner Moura e ser tolerante? É possível ser Hillary Clinton e ser tolerante? É possível chamar 25% a 30% do eleitorado americano de “basket of deplorables”, “racist, sexist, homophobic, xenophobic, Islamaphobic…” e ser tolerante?

Aliás, o que isso tem a ver com tolerância? Uma coisa é não gostar de outro grupo, outra é classificá-lo como o mal absoluto, inequívoco e desprezível.

Quem tem um ideal de mudar o outro para só então aceitá-lo pode ser tudo, menos tolerante.

Por definição, só existe tolerância na diferença. Agendas igualitárias são opressivas e intolerantes. Mas é curioso que justamente a blitzkrieg do politicamente correto cobre tolerância, quando, na verdade, quer mesmo é doutrinar e subjugar.

Eu posso não acreditar no que você acredita, não gostar do que você gosta e não compartilhar dos seus valores e ainda assim ser um bom colega de trabalho, parente e até amigo. Mas é impossível ser isso tudo se você me considera deplorável, detestável ou desprezível.

Burrice não é crime, idiotice não é crime, ignorância não é crime. Se o americano é livre, ele pode perfeitamente ser idiota, burro e ignorante. Deveria ser um direito inalienável, cláusula pétrea da constituição, a garantia de poder ser burro livremente.

Não estou chamando os eleitores de Trump, ou ele, de burro. Quem fez isso foi Hillary e a imprensa americana (e brasileira).

Trump criticava características e ações específicas de Hillary e Obama, enquanto os dois preferiram o atacavam por ser “evidentemente” o mal, por estar “inequivocamente” errado. E isso é apenas arrogância intelectual. Deu errado, mesmo contra o pior candidato republicano jamais imaginado.

A perfeição de Jesus Cristo e a perfeição de Hillary Clinton.

Nós aceitamos viver uma ideia de busca da perfeição de comportamento, aceitamos nos penitenciar por fugir da vida em Cristo, em Buda ou em Maomé. Conseguimos depositar nosso sistema de crenças e seguir o misticismo milenar.

Mas qual o critério de superioridade moral e comportamental de Hillary ou do ideário globalista politicamente correto?

Não há, mas mesmo assim Hillary e seus seguidores comportam-se como messias portadores da boa nova, do último código de conduta, do pensamento correto e da ação justa.

É por isso que perderam a eleição contra o perfeito anti-herói.

O maior de todos os idiotas intolerantes não é aquele que acha que está certo. É aquele que tem certeza de que está certo.

E no que tange à certeza arrogante da virtude, Hillary e seus seguidores estão anos-luz à frente de Trump e de seu exército de homens simples, moralmente perseguidos.

Aprendam, engulam a derrota e pratiquem tolerância. Mas a verdadeira, não aquela que pressupõe que eu mude para você me aceitar.

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19 Respostas to “Por que Trump venceu as eleições nos EUA? Esqueça as análises simplistas, a coisa é ainda mais simples do que parece.”

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Incrível sua análise, sem brincadeira, exatamente o que eu pensei ontem ao acordar e ver esse “desastre” ganhar a eleição. O recado obvio que milhoes de eleitores deram na terça feira nas urnas foi: PRO INFERNO COM O POLITICAMENTE CORRETO! QUEM MANDA NO MEU VOTO SOU EU, NÃO A IMPRENSA QUE ME TAXA DE PRECONCEITUOSO, BURRO E INTOLERANTE!
Obs: torcia pra Hillary, por causa da estabilidade que ela representava, mas quem manda é o eleitor, não é mesmo?

Excelente análise, direto e reto no ponto. A sombra do totalitarismo está sempre mudando, como as nuvens, querendo tapar o sol com idéias furadas. Uma hora foram os nazistas, outro hora os comunistas, cada um querendo impor sua agenda, seu “consenso” (palavrinha nojenta urgh!), sua grande verdade eterna que não dura. Agora é o hipocritamente correto que aponta o seu dedo vegano contra o “churras” alheio rsrs Todos santinhos do pau oco, gente que não se enxerga, carentes de autocrítica, como vc disse. Quem já olhou um pouco pra dentro de si mesmo não encontrou nenhum santo, tenho certeza. Mas faz parte do instinto de rebanho querer ser igual a todo mundo. Nessa época de hipócritas massificados, quem fala o que pensa passa por idiota. Só a audácia de pensar por si mesmo já tira do sério os Bonos da vida. Mas precisa muita personalidade para não ter vergonha de ser o “imbecil de alguém”. Somos todos idiotas, mas só os fortes admitem. Trump pode ser um idiota, mas mostrou sua força. Engulam isso. Depois tomem chá verde pra fazer o detox.

blockquote, div.yahoo_quoted { margin-left: 0 !important; border-left:1px #715FFA solid !important; padding-left:1ex !important; background-color:white !important; } É claro que vc não respondeu ao que perguntou… e sobre tolerância… melhor ler o livro do Sponville… Trump é tudo… menos tolerante…

Enviado do Yahoo Mail para iPhone

Eu disse e acredito ter demonstrado que o paradoxo de Popper não se aplica ao caso, pois é apenas uma elucubração intelectual, um exercício lógico. Paradoxos são entidades essencialmente lógicas, não foram pensadas ou criadas para modelar fenômenos pragmáticos e reais. E não se aplica ao meu texto.
Não falei que Trump era tolerante, apenas disse que tolerância é suportar o diferente, ainda que discorde radicalmente dele. Você não faz questão de mudá-lo, desde que ele não tente mudar você.
E acredito ter demonstrado mais, acredito que está evidente que o ideal de igualdade é o mesmo que exterminar a tolerância, também com base no mesmo paradoxo. São ideias super simples, facilmente demonstráveis. Estão à disposição para refutação.
Você pode demonstrar que estou errado usando apenas meu texto e suas ideias, não precisa mandar ler algo que me faria falta.
A capacidade de provar um ponto deve ser demonstrada no espaço disponível, por quem discorda e com argumentação lógica. Não pedi para você ler Dalrymple porque não preciso dele para sugerir meu ponto de vista.
Eu adoro o debate franco e gosto sinceramente quando alguém muda minha opinião com argumentos claros e lógicos. As ideias estão expostas, refute-as com seu próprio repertório intelectual, documental e bibliográfico. Agradeceria o esforço, porque realmente não vi qualquer propósito em invocar o paradoxo da tolerância num texto em que disse com clareza que a intolerância está na agenda de governança global representada por Hillary.

Acredito que ele tenha se referido(sem ser claro, uma vez que apenas indicou um autor) ao limite da virtude ” tolerância “. Essa virtude só existe com limites claros. Ser tolerante abarca intolerância ao sofrimento, injustiça, ameaças à liberdade,paz, sobrevivência da sociedade e ameaças à tolerância desde que não seja apenas uma opinião mas uma restrição à opinião via força. No texto me parece que vc entende a tolerância como uma virtude sem limites. No entanto, falta de limite pode implicar em ultrapassar alguma liberdade alheia.

Na realidade a ideia do texto não tem qualquer relação com o paradoxo da tolerância. O texto tratou apenas de explicar à esquerda que a derrota não foi para Trump. Trump foi apenas o porta-voz de um sentimento de repúdio à ditadura do pensamento politicamente correto.
Os limites claros da tolerância em nossa sociedade estão definidos em lei. Os limites não escritos são bem menos claros. Injustiça, sofrimento, liberdade etc., são conceitos que não são compartilhados, da mesma forma, por todos.
Para um esquerdista, por exemplo, ter liberdade para escolher não é nada, se você não tem dinheiro para fazer a escolha. Para mim é suficiente que eu não seja impedido de escolher por nenhuma ditadura ou estado policial.
Se alguém praticar injúria racial ou racismo propriamente dito, terá que se ver com a justiça. Mas para a agenda progressista isso não basta, ele precisa pensar exatamente da mesma forma que o main stream do pensamento politicamente correto.
Há que se preservar o direito de ser idiota, desde que não invada a liberdade alheia.
A agenda politicamente correta é tudo, menos tolerante. Aos que não seguem os códigos, sobra a repulsa social, a humilhação e o tratamento de desdém.
Isso é preconceito, intolerância e arrogância. É opressivo demais, principalmente com gente simples.
É isso, em essência, que está gerando essa onda de repúdio aos movimentos progressistas.
E não vai parar, aliás, vai piorar, pois o movimento progressista é incapaz de autocrítica.

Quanto à sua opinião, de eu não ter respondido ao que perguntei (Por que Trump foi eleito, ou por que Hillary perdeu), ok. Seria pretensão minha querer que todos entendam e aceitem meu ponto de vista. É só um exercício intelectual, não é para ser um dogma.

Gostei do texto, muito esclarecedor e mostra uma forma de pensar diferente do que a mídia brasileira está nos bombardeando. Me fez pensar muito. Parabéns!

Obrigado Tiago.

Uma infanticida!
Pró TUDO qie não presta…
Louka…
Abti DEUS !
AAnti fsmilia
Anti moral
Pro ideoligia de genero

Nem os negros votsram no candidato do (des)governo Obama !!
53 % das mulheres brancas votaram nele
Nwgros botar nele…
Bem vindo Partido Republicano!!!

Portinho, e o paradoxo de Popper, como você consideraria nesse cenário? Será que a tolerância com os intolerantes não pode levar ao fim da tolerância? Abraços!

Oi Rodrigo, como em todo paradoxo sua evidência acontece nos extremos. Um cara bem xucro, xenófobo, misógino e nacionalista que vive sua própria vida e não impõe agenda alguma a ninguém não me parece intolerante. Ao contrário, se aceita que os outros vivam sua vida, desde que não interfiram na dele, é até tolerante.
Agora, um sujeito progressista com uma agenda doutrinária, esse é bem perigoso. O cara que tem certeza de que está do lado da verdade, do bem e da virtude, e tenta impor sua agenda a todos, esse sim é intolerante.
Na verdade o Trump venceu exatamente por causa da intolerância da Hillary, que preferiu o preconceito (basket of deplorables) ao debate.
O paradoxo da tolerância é aplicável ao Boko Haram, ao Estado Islâmico e ao Talibã, pois tolerá-los significa tolerar a nossa própria destruição (objetivo declarado deles). Mas não ao countryman americano.
Esse countryman nem sabe onde é o Oriente Médio, só quer que ninguém mexa com suas vaquinhas.

Paulo, o que nos separa no pensamento é que o campo ideológio da sua reflexão é conservador, por isso sempre se volta aos argumentos morais e eu tenho dificuldade em lidar com esse argumento no plano academico, acho operacionalmente fraco. A moral não explica nada. Eu, no campo epistemológico, como uma estudiosa de Luhmann faço minhas análises sempre estruturais e analíticas em trabalhos academicos (não resisti em me meter aqui pela provocação do camarada Rodrigo com Popper..rs) . Sei que sua intenção nao era fazer um texto academico..tudo bem, nenhum problema. Porém, tanto seu artigo como a sua resposta são muito esquivocados ao considerar os paradoxos como extremos radicalismos de posicoes morais. Nem poderiam ser, os paradoxos sempre condicionam o sistema, isso significa uma estrutura de dominação moldada pelo entorno em constante movimento. Os paradoxos são os binarismos que definem de forma generalizada, como os sistemas e subsistemas operam direita/esquerda, conservador/progressista, legal/ilegal, coxinha/petralha, bandido/vitima, violencia/paz, odio/amor etc. É dizer que se os sistemas, que estão sempre sendo afetados pelo entorno, é modelado pela estrutura, funcionam sempre e necessariamente dentro desses paradoxos, terceiros são excluidos e assim se reproduzem de forma autopoiética e autorreferenciada ou tautológica. Eu concordo plenamente que Hillary era um desastre completo e não ficaria nada satisfeita com um mal menor. A conjuntura americana está dada na guinada ideológica que Trump representa; um conservadorismo religioso de valores morais judaico cristão, tipo retardamento mental de Olavo de Carvalho (não tenho nenhuma reprovação ao pensamento conservador sério, em sua raiz de fundamental proteção a direitos individuais – inegociáveis na relação do cidadão com o Estado, o que inclui severa limitação do poder de punir, com dininuição do Estado Penal, proteção sistemica da diferença a partir das singularidades- inclusive – existem bons autores conservadores que devem ser lidos) embora não me filie a eles) gosto da leitura. Esse pensamento conservador de reflexoes sérias tem um ponto de concordancia com o pensamento progressista, de proteção aos direitos individuais no ambito penal e proteção de direitos de defesa, justo processo etc etc, mas diferem no método. O Trump representa um pensamento conservador religioso e fanático que acha que a moral, que os valores morais da familia cristã estao sendo destruidos pelo capitalismo globalizado. Eu até acho o capitalismo global ruim em diversos aspectos, mas tb reconheco seu podencial de libertação (o capitalismo tb trabalha com paradoxos). Paradoxos nem sempre podem ser resolvidos. Ou seja é um pensamento conservador que volta a dominar a sociedade americana com medo de ser afetado culturalmente, americanos puros que pedem o fechamento da produção no território nacional. Não sei avaliar isso em termos economicos, confio mais na sua análise, mas em termos sociológicos isso representa uma espécie de um nacional socialismo do sec XXI, – muitas teorias neonazis são pregações de desregulamentação da economia a partir de uma divisão hierarquica social – não movida por raça – mas por divisoes de classe economica – ideias ideológicos de meritocracia, isso pode ser um fascismo de novo tipo. Tenho pra mim que de fato é. O nacional socialismo alemão era de direita, mas o ponto em que se encontrava em perfeita harmonia com o fascismo de esquerda, era, justamente, no aumento do Estado penal, violação de direitos iindividuais ou fundamentais (relativização de direitos humanos, por ex), o ambiente afetivo político de aniquilação do diferente, achatamento da igualdade a partir de premissas morais (tanto em confronto direto entre grupos polarizados – como também em conservação/reforma de pautas políticas). Nesse sentido, nada mais idelógico do que o conceito de tolerancia – não o significado ideologico próprio da linguagem simbolica e disciplinar dos dicionários – (espero que saiba que os significados linguisticos de dicionários são ideológicos e carregam signos de uma estrutura de dominação social) mas por sua análise conceitual. O conceito de tolerancia so é possivel por um regime de igualdade. A igualdade é uma redução de complexidade do sistema, é uma ficção política liberal que estabelece um achatamento das diferenças dentro desse sistema binário. Portanto, conservar o sistema e não deixar que o reformem também pode significar uma intolerancia. E quando isso acontece vc tem esse paradoxo aí que o nosso camarada levantou de forma muito prudente. Aí está o paradoxo do sistema juntamente porque a tolerancia e a igualdade são conceitos que se anulam, por isso não funcionam, são simulacros sociais. Superar a tolerancia não é ser intolerante -quando trabalhamos fora do binarismo- é passar dela para uma filosofia de diferenças, conceber cada um como ser singular (multiplas singularidades) – esse é meu lado deleuziano – é aceitar desigualdades de tratamento normativo (sistêmico) e proteção e a absorção sistemica das diferenças minorias ou singularidades. O eleitorado de Trump é tão parecido com o EI ou o Boko Haram em seu fundamentalismo e sua leitura moral do entorno que estrutura o sistema, quanto a Alemanha nazista ou com a Russia Stalinista ou com a Italia de Mussolini com a questão dos valores morais do trabalho, Estado penal forte, vigilancia e controle militar e policial,discurso anti imigração, nacionalismo, patriotismo, interpretações morais do sistema de justiça. Enfim, esse assunto é enorme…eu acho que dá pra propor um outro debate no circulo de copa. Bjs

Oi Priscila, não vou responder a todos os temas trazidos, mas vou fazer duas críticas simpáticas, antes de endereçar exclusivamente a questão de Popper.
A primeira é quanto à academicidade de um texto. Considero um equívoco achar que textos acadêmicos exigem cargas pesadas de signos de compreensão restrita a algum pequeno grupo inteirado da pesquisa, principalmente quando falamos de temas universais. Quando tratamos de relatividade, não podemos prescindir do idioma de Riemann, mas é possível opinar de forma clara e lógica, íntegra, sem a necessidade de usar arquétipos de terceiros.
Faço isso porque sou professor de matérias bem contra-intuitivas e preciso ser entendido, por isso prefiro usar códigos claros e de conhecimento amplo. E quando endereço questões específicas, explico de forma a torná-las claras.
Essa modelagem é ótima para o discurso e o debate, mas alguns grupos acadêmicos preferem a introspecção.

Os melhores e mais influentes livros de pesquisadores e cientistas, já há umas 3 décadas são leves e fáceis. Suas ideias são transmitidas tanto ao grupo acadêmico quanto aos interessados não iniciados.
Isso é um valor para mim. Gosto de ser entendido.

Outra crítica é quanto ao uso do conceito de paradoxo fora do contexto de Popper. Popper evidentemente estava atuando no campo da lógica e da filosofia da ciência. Seu paradoxo só acontece pelo exercício da impossibilidade lógica de o conceito funcionar de forma pura. A tolerância pura implicaria em tolerar o intolerante, que destruiria os tolerantes e acabaria com tolerância. Não é muito diferente do paradoxo de Deus onipotente criar uma pedra que não pode levantar. Provaria que Deus não é onipotente, a primeira provaria que a tolerância como conceito absoluto não existiria, pois é autodestrutiva.
E a minha resposta ao amigo que questionou foi bem simples.
A proposição de Popper é um exercício intelectual apenas, e só faz sentido na acepção pura e absoluta da ideia de tolerância. Para Kant o imperativo categórico também era absoluto, para ele não havia situação humana ou complexa que justificasse agir fora dessa lógica.
Ela não cabe no que coloquei no texto original. Não se aplica a nada do que falei. Falei de coisa real, não de proposições puras.

É muito complexo que o texto seja desmerecido ou criticado com base em conjecturas ou proposições alheias ao seu objetivo. Meu objetivo foi sugerir um arcabouço lógico e sociológico para compreender a derrota de Hillary para um fanfarrão destemperado. Trump comparou o risco dos soldados no Oriente Médio ao risco de suas aventuras sexuais sem camisinha nos anos 70 e 80. Isso massacraria qualquer candidato nos EUA (até aqui). E principalmente no eleitorado mais conservador. Por que não massacrou? É o que o texto tenta explicar.
Meu entendimento claro é de que a busca pela igualdade (de pensamento, de conhecimento, de qualquer coisa) empreendida por grupos de apoio a Hillary é algo extremamente opressivo para a maioria das pessoas. Para mim é, sou diferente do que seria se não houvesse fronteiras psicológicas, minas semânticos prontas a explodir e destroçar minha reputação ou grupo de relacionamento.
Há muitos temas no seu texto, como a ideia de que a busca pela tolerância é a busca pela igualdade. É tão paradoxal quanto a proposição de Popper, na presença da igualdade plena a tolerância, por definição, não existiria. Aliás, a destruição dos tolerantes é uma forma de atingir a igualdade, pois só sobrariam intolerantes, para que existam será necessário que sejam iguais, dessa forma não se destruiriam.
Há colocações sobre os eleitores de Trump serem parecidos com os seguidores do EI ou do Boko. É uma simplificação. Somos uma sociedade contratual e os Trumpers são os que mais respeitam os contratos, são os mais tementes ao poder instituído, por isso odeiam a leniência com quem transgride as leis. A complexidade do grupo Trumper é de outra categoria. São descendentes do Mayflower, não são imperialistas territoriais, não são cosmopolitas, estão se lixando para o resto do mundo, querem só que não atrapalhem a colheita e não influenciem sua vida. Não querem destruir o Islã. Quem segue a Sharia não é conservador, ao contrário, é reacionário, saudoso de um ideal do passado, destruindo qualquer construção secular.
Mas não vou me estender sobre essas questões.
Entendo ter respondido com propriedade, mostrando que a igualdade é a mesma coisa que a destruição dos tolerantes no paradoxo de Popper.
E é isso que Hillary prega. Por isso ela é intolerante com o “basket of deplorables”. Eles só serão aceitos se mudarem. Isso é opressivo, isso destruiu o partido democrata.
Esse era o ponto.
Beijo!
Ps. Pode marcar!

Portinho, obrigado pela resposta!

Não identifiquei o lado intolerante no meu post pois ambos estavam, na minha opinião, mais preocupados em destroçar seus antagonistas do que propor soluções efetivas para os problemas americanos, embora esta dicotomia seja o padrão em eleições (pelo menos é o que consigo observar, talvez não seja assim em países nórdicos, hehehe…)
Abraços!

Esse texto sobre Trump e sua vitória foi o melhor que li!

Agradeço Fabio!

Foi mesmo, o melhor até agora.
Quando os adversários taxaram o Trump de genocida, racista, xenófobo, predador sexual, sonegador e de todas as práticas penais (os crimes mesmo) relacionados a esses adjetivos, eles entregaram o óbvio, ainda que inconscientemente: o Trump não é (comprovadamente) essas coisas, por que se fosse, eles já o teriam indiciado e apresentado provas para condená lo; mas é de longe o que mais sabe de fato como os caras que cometem esses crimes pensa, e portanto o mais preparado para combatê los.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

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    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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