A Juíza e a meritocracia. Uma verdade dolorosa.

Posted on 14/09/2016. Filed under: Filosofia, Finanças, Política | Tags:, , , , , , , , |

Viralizou o post de uma mulher que passou num concurso para juíza, onde ela atribuía grande parte do seu sucesso ao fato de ser branca, ter família estruturada, ter estudado em bons colégios etc., e estava triste por que o governo não garantia essas oportunidades a todos.

O post viralizou, pois muitos leitores viam nele um reconhecimento de que a meritocracia não funciona, que seria uma farsa ou uma estratégia das elites para se manter no poder.

Pois o que está por trás desse movimento, fortíssimo, anti-meritocracia, é outra coisa.

Um sistema em que você é recompensado por seu esforço é desejado por todos. Não há um só desses contrários à meritocracia que não espera ser recompensado por fazer mais e melhor.

O ponto não é o pobre, não é a justiça social, não é a luta de classes. O ponto também não é a meritocracia.

O ponto é o mérito em si. É o sistema que avalia o mérito. São os valores que a sociedade considera meritórios.

Quem avalia o mérito em uma sociedade capitalista é o mercado. E os valores do mercado são bem claros: produtividade, empreendedorismo, respeito aos contratos, respeito à propriedade privada, respeito às leis etc.

A vitória do indivíduo nessa sociedade EXIGE respeito a esses cânones. Não há garantias de sucesso, de igualdade ou de facilidade, mas é extremamente improvável ser reconhecido por seu mérito sem seguir esses valores no livre mercado.

Em uma sociedade autocrática, o mérito é avaliado pelo grupo que está no poder. E é tão somente a subserviência ao projeto de poder implementado por esse grupo que trará a recompensa.

É extremamente provável que o indivíduo “fiel”, verdadeiramente fiel, ao partido, ao tirano ou ao populista da vez, ganhe espaço na burocracia estatal.

E é isso que vimos nos últimos anos no Brasil, na Venezuela, na Argentina e historicamente na URSS, em Cuba e na Coréia do Norte (entre outros).

Quem indica o mérito é o grupo no poder. Quem recompensa por esse mérito é o grupo no poder.

É por isso que as mesmas pessoas que são “contra” a meritocracia, afirmando que ela é uma farsa e só serve às elites, também não enxergam a roubalheira do PT, a farsa de Lula, os crimes (não só os do impeachment) de Dilma, a destruição da economia etc.

Elas querem, realmente, a recompensa por sua servidão irracional e cega.

Perceba que não é a meritocracia em si que atacam, pois, assim que seu grupo chegou ao poder, eles se esforçaram pela recompensa. Seu esforço foi servir, cegamente, ao projeto.

Qualquer ser humano vive na perspectiva de retorno por seu esforço. Nos EUA ou na Coréia do Norte.

Nos EUA vence quem gera valor para muitos, ainda que apenas como pequena parte de um projeto vitorioso, de uma empresa lucrativa ou até de uma obra espiritual ou religiosa.

Os 2 bilhões de pessoas que usam windows reconhecem diariamente o mérito do Tio Bill. Outros bilhões reconhecem o mérito do Tio Zuckerberg, do Tio Jobs, do Tio Alexander Fleming etc.

Na Coréia do Norte vence quem serve a um interesse particular.

– Ah! Mas os governos têm que dar oportunidades iguais a todos!

Essa é mais uma farsa na história dos contrários à meritocracia. É evidente que em uma sociedade menos desigual, mais pessoas poderiam atingir o sucesso. Mas não é esse o ponto.

A desigualdade em países ricos e empreendedores, onde o mérito é avaliado pelo mercado, é grande. Mas a desigualdade em países autocráticos é ainda maior. É maior e PIOR!

O nível de acesso aos bens e ao consumo por gente pobre nos EUA é infinitamente superior ao nível de acesso dos cubanos ou venezuelanos de classe média ou até ricos. Uma médica cubana terá dificuldade para comprar absorvente íntimo, um industrial venezuelano não conseguirá comprar papel higiênico.

Mas o ditador e sua família, a cúpula da burocracia estatal e do partido, consomem sem restrições. Não ficam “ricos”, pois não é necessário, o Estado está a serviço de seus luxos e seus pecados.

Não se iluda brasileiro, com esse discurso fácil.

A luta dos contrários à meritocracia é outra, é para que um regime autocrático decida quem merece e quem não merece.

Não tem nada a ver com os pobres, nada a ver com justiça social, nada a ver com redução da desigualdade ou luta de classes.

É só interesse de se dar bem, bajulando o déspota da vez.

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7 Respostas to “A Juíza e a meritocracia. Uma verdade dolorosa.”

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Eu sou mais um que passou em concurso público e reconhece que a maior parte do mérito foi a criação, escola, preparação recebida em casa, estrutura em volta e, em grande parte, QI mesmo. Muitos outros colegas que se esforçavam muito mais não chegaram a passar em concurso de mesmo porte.

Ótimo artigo.

Conheci teu blog há poucos dias. Parabéns.

E so reiterando o que tu falou: o mercado premia quem gera valor. Simples.

Portinho, conheço o post ao qual você faz sua crítica. Em nada me encaixo nos padrões que ela estabeleceu como “saudáveis” e que permitiram sua chegada a magistratura. Venho de uma família humilde, moradores do subúrbio com pais que sempre trabalharam em sub-empregos. Não fosse o esforço em trabalhar, estudar noites a fio, trabalhar de 7 às 9 por meses consecutivos, hoje não poderia me orgulhar em dizer que desde 2009, não posso um ano sem viajar nas férias, incluindo outros países, tenho carro, casa própria, poupança e todo o conforto que preciso para viver.
Concordo em partes com o discurso da magistrada, porém discordo totalmente que o ambiente seja definitivo para a ascensão profissional. Tenho experiências muito próximas de pessoas que cresceram com luxo e hoje dirigem Uber para sobreviver.
Me irrito com as alegações de alguns que acham que as coisas caem do céu! Até hoje não entendo na primeira aula sua que participei a mediocridade de certas pessoas que acharam o conteúdo demasiado “difícil”..A concorrência no mercado não enxerga dificuldades. Não consegue entender, estude mais, se esforce mais. Concordo que em alguns casos ser bem nascido ajuda, porém, não é desculpa para não buscar a melhoria contínua. Aqui na empresa estamos vivendo um momento como esse, onde os valores estão distorcidos. Já ouvi comentários do tipo: “os profissionais daquele escritório de advocacia não podem ser ruins, pois usam rolex”. Esse tipo de avaliação, em nada tem haver com a meritocracia, em minha opinião. Eles partem de um conceito, talvez deturpado de produtividade e comprometimento.

É por aí Wallace, não é uma questão de justiça apenas, é uma questão de acreditar que seu esforço será recompensado. Mas perspectiva das possibilidades tem que estar colocada. Por mais que eu me esforce, não conseguirei vencer Usain Bolt nos 100m rasos. Por mais que eu me esforço, é extremamente improvável que seja um novo Bill Gates.
Mas sei que o meu esforço deve melhorar a vida de um certo Paulo Portinho e de sua família. Pelo menos ela deverá ser melhor do que a de um Paulo Portinho que NÃO se esforça.

Concordo plenamente com o que foi escrito, tanto pelo Portinho como Aroldo, aliás acordei um pouco mais nova, nunca votei no PT

Muito lúcido e pertinente seu post.
Outrora fui iludido por essas falácias ditas de esquerda, na verdade retórica para projetos de poder autocrático.
Hoje aos 46 não me iludo mais.
Lula me enganou. Muito pela minha juventude idealista, terreno no qual os discursos deles colam bem. Depois pela maré em que a economia brasileira surfava com commoditties em alta.
Fim da festa, a realidade E´. Sua dureza faz todos os discursos serem só discursos, nada mais.
Palavrório sem fundamento não faz mudar o mundo.
O trabalho é que faz.
Aceitemos todos que a vida é trabalho.
Parabéns mais uma vez Portinho.

Obrigado Aroldo. É importante a gente dar uma guinada nos valores aqui do Brasil. O discurso antimeritocrático não ajuda, tira das pessoas mais pobres a possibilidade de acreditar que seu esforço será recompensado. Se eles não acreditarem nisso, o que farão?


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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