A Classe Média quer ser burguesa? O que aprendi com Marilena Chauí #SQN

Posted on 12/09/2016. Filed under: Administração, Finanças, Matemática, Política |

Essa campanha a vereador aqui no RJ, pelo Partido Novo, tem me exposto a ideias MUITO loucas. Está sendo um grande aprendizado, ao menos consigo entender o que passa na cabeça de quem defende um estado máximo, controlador e centralizador, e um regime socialista.

É uma cabeça bem diferente. E interessante, na medida em que acham suficiente um modelo básico de entendimento sociológico e antropológico para debater finanças contra gente que domina o assunto. É divertido, apesar de ser chamado de ignorante, de serviçal do sistema, de burro, de idiota etc., por gente que não diferencia mercado primário de secundário, desconhece a função dos derivativos e acha que a culpa da dívida pública é do credor.

Eu postei um vídeo questionando o’ entendimento de mundo de Marilena Chauí, pensamento esse que influencia CENTENAS de milhares de jovens no Brasil. Ela dizia que: A Classe Média quer ser dona dos meios privados de produção, mas jamais será, por isso é frustrada.

Eu achava que para desmontar essa afirmação bastaria lembrar a Marinela Chauí e à intelligentsia esquerdista que qualquer pessoa consegue comprar ações de companhias abertas e se tornar acionista.

Ledo engano, o nível de deturpação do entendimento sobre o mercado de capitais é bem mais profundo do que eu pensava. Precisamos de outras ferramentas de argumentação para combater essa besteira que amaldiçoa nossa juventude.

Peço aos amigos da liberdade financeira e econômica que acompanhem a leitura para ajudar a desconstruir essa onda de pobreza que assola o país.

Para quem acredita em Marilena e quer continuar acreditando, recomendo que pare de ler. Pode doer.

No entendimento dos que vivem presos à explicação sociológica única da luta de classes, todo o sistema financeiro e o mercado de capitais seriam uma farsa para o capitalista captar recursos SEM perder o controle dos “meios privados de produção”.

Se eu comprei ações lançadas pela VALE, seria dono de um “bebedouro” da sede, mas não da VALE. Se comprei debêntures sou credor, mas não mando nada. Quem manda é o bigode e o olho azul.

Sociedade contratual

É muito aterrador perceber que tanta gente não faz a menor ideia do que seja um contrato. Nossa sociedade é contratual, e o respeito a esses contratos é o que nos aproximará da riqueza.

Ao lançar ações no mercado ou mesmo dívida, o “dono dos meios privados de produção”, o burguês, abre mão de parte significativa de seu poder.

Ele vai se sujeitar a pagar MAIS dividendos para o acionista preferencialista, se sujeitar a não cometer abuso de poder de controle, vai se sujeitar a informar TUDO o que acontece na empresa para toda a sociedade, vai ser obrigado a antecipar o pagamento da dívida se descumprir cláusulas restritivas (covenants). Além de dar prioridade aos acionistas preferencialistas e credores sobre o patrimônio e os resultados da Companhia. Não é pouco.

Quando compro uma ação ou debênture compro um contrato, de 600 páginas, regulado, completo e que traz deveres pesadíssimos que o “dono dos meios privados” não tinha, e que agora tem. Quer meu dinheiro, vai ter que cumprir.

Ninguém está sendo enganado. E se for enganado, os diretores e controladores podem ser processados. Aliás, o que acontece com a Petrobras no Brasil e nos EUA deixa isso bem claro. A punição por abuso ou descumprimento de contrato é SEVERA.

Mas vamos ver o mundo maravilhoso de Marilena, o mundo em que o povo é dono dos meios de produção.

Se o mercado de capitais não permite que as pessoas sejam “donas dos meios privados de produção”, imagino que de uma empresa 100% estatal seríamos TODOS donos, não é?

Imagino isso porque não há outra forma, ou são privadas (e dos burgueses) ou são públicas (e do povo).

Nesse caso, seríamos mesmo donos?

Na verdade estaríamos numa situação bem pior do que na sociedade contratual.

As decisões CONTINUARÃO sendo tomadas em assembleia, de forma colegiada ou direto da autoridade pública. Você manda em quê?

No imaginário esquerdista talvez essa seja uma forma de TODOS participarem dos dividendos, de todos participarem das decisões (pois votaram no projeto de poder) etc.

É super interessante, veja:

Eu “não sou dono” porque tenho que votar com outros 300 ou 400 acionistas em 3 ou 4 assembleias por ano, exclusivamente sobre temas relevantes à empresa, mas meu voto sozinho não vence.

Mas eu “sou dono” quando tenho que votar com outros 120 milhões de eleitores uma vez a cada 4 anos para eleger os representantes do povo que vão gerir a empresa, sendo que os “temas” dessa eleição NADA tem a ver com a gestão dessa empresa. Nessa “assembleia” do povo, não discutimos distribuição de dividendos, plano de gestão, aprovação de contas, remuneração dos executivos etc., mas eu seria DONO da empresa estatal… Que loucura!

Em meados de 2010 eu, com pouco mais de 1.000 ações da Petrobras, demiti toda a diretoria, o conselho e o controlador da empresa. Demiti da minha vida, demiti do meu patrimônio, afastei o risco dela destruir minhas economias.

Como? Ora, vendi todas as ações a R$ 35 cada, pois simplesmente não acreditava no projeto. Simples e rápido. Teria perdido uns 80% de valor real se fosse “obrigado” a continuar.

E o socialista, como faz para se livrar de ações de empresas que drenam o patrimônio público? Como faz para se livrar de uma empresa estatal que quebra e toma recursos dos seus impostos para se manter artificialmente viva?

Não faz. Sucumbe junto com ela. Talvez em 4 anos possa votar em um político inepto e despreparado que vai prometer “salvar a empresa do povo”.

Quem acredita em Marilena e nessa falácia, na verdade, curte mesmo é falta de liberdade individual. Curte mesmo é que ninguém possa ter nada, para que ele tenha a ilusão de ter alguma coisa.

Quem realmente acredita que o acionista de uma companhia aberta NÃO É DONO, mas acredita que o povo seja dono de uma empresa estatal, terá problemas para entender de onde vem a riqueza.

O sujeito vê um regime de liberdade plena, em que divido o poder com outras 300 pessoas em assembleia, em que todos têm que respeitar contratos e leis com 400 anos de refinamento, e que, caso discorde dos rumos, tenho condições de vender imediatamente e sair da sociedade, e acha que é uma farsa montada pelo burguês para me enganar.

E sonha com um regime onde a empresa será integralmente gerida por um grupo de políticos eleitos (se houver eleições) a cada 4 anos, de cuja gestão ele nem chegará perto, nem saberá dos rumos (não há obrigação de publicidade), será obrigado a cobrir prejuízos e jamais poderá sair, mesmo que tenha votado no outro grupo que perdeu as eleições. Você paga MESMO sem “comprar”.

Infelizmente não é só desconhecimento de direito societário e finanças, é deficiência em conceitos básicos da teoria geral dos conjuntos, de lógica trivial e de raciocínio sistêmico. O sujeito vê 1.000 e não diferencia de 10 ou de 1 bilhão. E tem certeza de que está certo.

É triste DEMAIS que tenhamos criado uma juventude tão incapaz de sair do preconceito clássico da “luta de classes”, e não tenha condições de perceber a pobreza intelectual de seu pensamento.

É uma prisão, uma condenação eterna à miséria material, intelectual e até espiritual. Não há espírito que se alimente de ignorância autoimposta. Se você pensa da mesma forma há décadas e não muda, provavelmente não aprendeu nada, apesar de achar que sabe tudo.

Somos pobres e continuamos empobrecendo, essa é a evidência empírica dos erros de pensamento que assolam nosso país.

https://www.facebook.com/pauloportinhoRJ/

 

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2 Respostas to “A Classe Média quer ser burguesa? O que aprendi com Marilena Chauí #SQN”

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Portinho, não li o texto da Marilena, mas já assisti uma palestra dela. Na faculdade de Economia aprendi modelos, teorias, ideologias que ampliaram meu horizonte acadêmico e me ajudaram no meio profissional. Agora, querer reproduzi-los de forma fática no dia a dia é outra historia, haja vista a era Collor que tentou aplicar o MV = PY, no que deu? Tentar alinhar o pensamento clássico das lutas de classes com a realidade do Brasil atual é uma burrice. Concordo com a ideia de que existem classes dominantes e dominadas, porém sou contra a essas afirmações que generalizam que todos somos reféns no sistema capitalista. O sistema está posto devemos conviver com as imperfeições. Não só a esquerda está comentado um erro ao fazer essas afirmações, como a própria classe média brasileira não faz ideia do que seja o mercado de ações. Se eu perguntar para algum engenheiro aqui no trabalho, formado na UFRJ ou UFF, bem nascido, que cresceu sem dificuldades, morador da zona sul, qual a melhor estratégia para operar no mercado a vista, terei sorte se ele souber o que é mercado a vista. E os que sabem em sua maioria respondem: comprar barato e vender caro.
Ficar discutindo pensamento clássico nos dias de hoje é perda de tempo.

É isso Wallace. Esse desconhecimento prejudica muito o país, que só consegue captar poupança privada para financiar o déficit público. É triste.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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