Conhecimento Googliano e as Viúvas do Decoreba

Posted on 05/04/2016. Filed under: Filosofia, Humor, Matemática, Política | Tags:, , , , , , , , , , |

Fiz uma prova há alguns dias, sobre Fundos de Investimento, no Ibmec. Sem consulta.

Eis que surgiram questões que exigiam o tradicional “decoreba”. Não faço uma prova que precisa decorar desde o colégio. Nem na engenharia, nem no Mestrado precisei “decorar” qualquer coisa para fazer uma prova.

Uns dias antes dessa prova, um amigo de longa data não quis nem escutar minhas ideias a respeito da situação do Brasil, porque eu não tinha lido um livro do Raimundo Faoro, e não era qualquer edição, tinha que ser das primeiras.

Esses dois eventos me levaram a escrever esse texto, para demonstrar que o Google nos libertou para sermos, de fato, inteligentes. Veremos.

 

Conhecimento Googliano x Conhecimento Real

No tempo das enciclopédias de 50 Kg e 10.000 reais era uma grande vantagem a erudição e a capacidade de armazenar grande quantidade de informações para poder utilizá-las em seus trabalhos científicos, artigos ou até conversas de bar. Era caríssimo ter esse conhecimento à mão.

Mas hoje não faz tanta diferença ser capaz de responder questões diretas como definições, fórmulas ou trechos do pensamento de alguém.

Lembro de um dos filmes de terror da série Demian, em que o garoto, filho daquele de quem não se fala o nome, começou a ser desafiado pelo professor a dizer a data precisa de vários eventos históricos. Acertou todas. Como o Google acertaria. E sem ser filho do tranca-rua. Aos novos, o nome do tranca-rua não é Valdemort.

É claro que a erudição é desejável, mas é só 1 dos instrumentos para análise da realidade. E, com o advento do Google (e outras ferramentas) e com a inacreditável facilidade para se dispor da informação imediatamente, a custo praticamente zero, creio que há caminhos e instrumentos mais dinâmicos para o desenvolvimento do trabalho científico (ou corriqueiro) e de pensamento relevante.

 

Pensamento linear-mecanicista-newtoniano

Sempre ouvimos falar que o conhecimento do complexo precisa do conhecimento do básico. Isso nos guiou em nossa jornada nas escolas e universidades, desde sempre. Faz parte do método científico.

Mas não é assim que aprendemos ou produzimos. É inegável que o conhecimento, em praticamente todas as áreas, é construído de forma orgânica, múltipla, multidisciplinar, holística e não de forma mecânica. Se o leitor discorda dessa premissa, talvez não se interesse pelo que vem a seguir.

É claro que há ferramentas basilares, como a lógica formal (teoria geral dos conjuntos), os idiomas como o português e a matemática (que é linguagem), mas aprendemos a falar com lógica muito antes de aprendermos lógica formalmente.

Quem tem filhos pequenos deve ter percebido que a formação lógica das frases e do comportamento, o significado do não, do sim, a identificação das diferenças e das combinações lógicas surgem de forma natural. Nenhum pai ou mãe precisa explicar. A própria convivência com o idioma, que é um arcabouço lógico-matemático, organiza a ideia da criança.

Digo isso para ressaltar que o aprendizado é um organismo complexo e provém, basicamente, da necessidade.

Observe o trabalho de Einstein, Newton, Mendel, Darwin etc. Não havia nem cálculo diferencial para Newton trabalhar sua física. Ele construiu essa matemática. Ao mesmo tempo, Leibniz criava, praticamente, a mesma matemática sem ter contato com Newton e com necessidades diferentes.

O trabalho científico realmente inovador surge de hipóteses que não estavam disponíveis exclusivamente à erudição.

Einstein chegou a um impasse sem solução na teoria geral da relatividade, até se deparar com a geometria de Riemann, que a desenvolveu por puro desafio lógico. Einstein não conhecia a ferramenta. O verdadeiro caminho do conhecimento não é linear. Ainda que seja útil ter vasto conhecimento, não necessariamente vai lhe garantir relevante produção científica, filosófica ou política. Einstein não conhecia a geometria Riemanianna. E ela foi imprescindível.

Precisaremos ler Marx no original em alemão, para iniciarmos um estudo econômico crítico ao capitalismo? Por que um livro de 150 anos deveria ser o início da trajetória do conhecimento, se temos, talvez, 3 ou 4 livros escritos nos últimos 15 anos, por gente séria e competente, debatendo, apresentando e discutindo as ideias de Marx, reconhecidos como especialistas ou intérpretes do filósofo prussiano?

Não faria mais sentido que a investigação começasse pelo mais recente e que, posteriormente, desencadeasse um conjunto de outras leituras necessárias para aprofundar o conhecimento?

Não é assim que aprendemos quase tudo na vida? A partir da necessidade, a partir da experiência cotidiana, a partir das demandas que as próprias perguntas que fazemos a nós mesmos vão indicar, a partir da nossa capacidade de perceber lacunas em nosso conhecimento e do nosso talento (ou esforço) para preenchê-las?

Há 30 anos seria uma grande vantagem partir de uma bibliografia parruda, extensa, exaustiva, para formular uma questão científica relevante.

Hoje, me arrisco a dizer, pode mais atrapalhar do que ajudar.

Para escrever um parecer jurídico em 1985 o advogado enciclopédico valia ouro. Hoje, me parece muito mais razoável que, a partir do conhecimento que se tem, se construa a argumentação após a visita a dezenas de sites ou fontes online confiáveis que não só ajudarão na construção da narrativa, mas indicarão algumas dezenas de livros, artigos, pareceres, doutrinas e caminhos úteis à elaboração do parecer.

Essa é a dinâmica que não tem volta. Os jovens serão assim. Aliás, é bem provável que nossa “memória erudita” seja armazenada em HD externo em breve, à disposição ao piscar de um olho num Google glass ou Google brain-cloud.

Se aparecer esse brand “brain-cloud”, vocês leram aqui primeiro… Opa… verifiquei no Google e brain-cloud já é uma expressão amplamente utilizada, para inteligência artificial, para bandas de rock, para armazenamento à distância etc.. Quanto tempo levaria para saber isso em 1984? Capisce? Uau! Quanto tempo levaria para saber a grafia correta de capisce em 1971? É até difícil saber quantas inserções eu fiz no Google para construir esse texto…

40 dias. É o tempo que levaria pra escrever esse texto, com a mesma investigação bibliográfica e documental, em 1991, quando estava na PUC.

Ainda bem que ainda não preciso do Google para saber onde estava em 1991. Já os novinhos, saberão pelo facebook onde estavam em 2010…

 

O que é preciso para não escrever besteira?

Mesmo os eruditos e acumuladores de informações não estão livres de escrever bobagem, de pecar na lógica, de chegar a conclusões erradas ou mistificadoras.

O que garantirá a higidez do texto e do discurso NÃO é, em essência, a erudição, mas a metodologia do pensamento, a perspicácia de descobrir o que não se sabe e a humildade para reconhecer que a “verdade” não está disponível como fato, apenas como caminho.

Na prática é fazer ciência. O cientista de fato é aquele que preza a lógica formal, evita ao máximo a polarização e reconhece erros em seu trabalho com certa facilidade e até com alívio, dado que é muito desagradável publicar algo com erro. Não se agarra às premissas ou a um resultado ainda não revelado que considera “superior” aos outros. Desconfia das próprias premissas.

O tema “Capitalismo de Estado no Brasil”, por exemplo, poderia ser investigado a partir da observação crítica dos últimos 10 anos, ainda que o interessado não tenha lido todos (ou muitos) livros sobre o assunto.

É desejável que tenha lido 300 livros sobre o assunto? Não dá para responder. Pode ser (e normalmente é) contraproducente esperar até que o background bibliográfico seja vasto para se partir à investigação do fenômeno, principalmente pela atualidade deste fenômeno. Ele muda a toda hora. Tanto o homem da ciência muda, quanto o método que ele usa muda. Se muda tudo, por que deveríamos aceitar, sem questionar, que é imprescindível ler o que se falava do tema em 1978?

Fosse assim, não teríamos genética, teologia, física, química, evolucionismo etc. A maioria (se não todos) dos reais avanços da ciência se deu por caminhos nunca dantes navegados, com conhecimento original sendo criado. Não raro, os únicos ferramentais relevantes eram a lógica formal e a capacidade de fugir dos grilhões da erudição engessante da época.

 

O Google (e outros) como árvore do conhecimento necessário

Fica aqui um parêntese. É meio óbvio que não estou discutindo aqui se o Google é fonte confiável, até por que isso seria uma bobagem, uma vez que o Google não é fonte, apenas meio, ferramenta. Só digo, e isso é um pouco óbvio, que é uma ferramenta relevante para preencher o vazio inicial de um trabalho inovador.

É evidente também que o vazio inicial para quem é capaz de produzir um trabalho não é um vácuo intelectual, mas sim um terreno adubado, à disposição do plantio.

É importante também dizer que o investigador precisa ser correto e honesto intelectualmente. Como já disse, eruditos ou não eruditos com viés, jamais serão cientistas, apenas serão manipuladores de opiniões.

Crio que meu artigo sobre ideologia e ciência poderá ajudar a elucidar esse aspecto. Clicando aqui.

Se fôssemos começar a escrever seriamente sobre “Capitalismo de Estado no Brasil Atual”, me parece que o status quo seria o ponto de partida mais provável. Raimundo Faoro e até Roberto Campos (um erudito bem mais significativo em economia brasileira), poderiam ser acessórios. Luxuosos acessórios, mas não seriam a fonte primária a aguçar o interesse do pesquisador e, provavelmente, não serão os questionamentos de outrora os relevantes para hoje.

Ainda que os mundos se pareçam, acreditar que são sempre iguais é apenas resquício de nossa linearidade newtoniana. Nenhum mundo é igual. Nem no segundo seguinte.

Ao investigador sério, honesto e metodologicamente preparado, as pesquisas via internet podem trazer: dezenas de artigos recentes, teses e dissertações, opiniões, livros relacionados, críticas aos livros, definições, reflexões, aulas, PDFs etc., e até a opinião de um barbudo estoniano, que ninguém leu ou se importou, que trará a luz necessária ao breakthrough científico. Whoever the hell seja esse barbudo.

Pensem comigo queridíssimos leitores que me acompanharam até aqui. Não faz muito mais sentido percorrer esse caminho sugerido no texto? Um caminho direto ao ponto, sem a necessidade de uma “bibliografia imprescindível”, intimidante, para compreender como o fenômeno era visto no século XIX?

Será que é necessário ler Raimundo Faoro, Celso Furtado ou Sérgio Buarque de Holanda para se vir apto a discorrer sobre um fenômeno que assola o país em 2016?

Aí é que meu ponto fica mais eloquente: você NUNCA saberá de antemão.

Os trabalhos relevantes e recentes incorporam à base do conhecimento dos autores clássicos, 100, 200, 400 anos de vivência e história que esses escritores não conheceram.

Ler os livros de Schumpeter é algo engraçado, pois ele mesmo corrige as premissas que basearam seus trabalhos anteriores, e reformula suas teorias. Para quê você leria os livros que ele mesmo considera equivocados? Leia os outros!

Por que leria os livros que Fernando Henrique Cardoso escreveu, não concorda mais e faz questão de que todos esqueçam?

Pode ser que, durante a investigação, você considere razoável ler esse material, mas, repito, de antemão, você NUNCA saberá se ajuda ou não no caminho da sua investigação séria e honesta.

 

Charles Chaplin e Henry Ford. Paulo Portinho e Larry Page.

Entendedores entenderão. Mas eu vou parar o texto, com uma vergonha avassaladora por ter o atrevimento de me inserir nesse subtítulo.

Pelo impeachment de Paulo Portinho da frase que associa a libertação do trabalho mecânico à libertação do conhecimento enciclopédico!

Companheiros, uni-vos!

Atualização após 24 horas de críticas inteligentes!

Pelos comentários em redes sociais, percebi que o texto pode sugerir a “desvalorização” dos clássicos. Não é isso, e o experimento a seguir demonstrará com clareza:

Imagine uma pessoa capaz, bem formada, com ótima interpretação de texto, lógica formal impecável, porém sem qualquer background na filosofia da ética e da moral. Considere 2 estratégias:

  1. Inicia a investigação pela web, lê por 4 ou 5 semanas vários artigos, críticas, blogs, aulas online, apresentações de powerpoint, opiniões, livros recentes, enfim, lê o equivalente a 3.000 páginas sobre sobre Kant e sua filosofia da moral. Após essa investigação, decide ler a Crítica da Razão Pura, a Crítica da Razão Prática e a Metafísica da Moral.
  2. É aconselhado a estudar os mesmos 3 livros imprescindíveis de Kant, os lê e depois procura acesso às críticas, opiniões, aulas, artigos, livros recentes, etc., dedicando também várias horas e páginas para formar seu conhecimento.

A não-linearidade ensina a entender que os resultados, em termos de conhecimento sobre a filosofia moral de Kant, NÃO serão idênticos.

E, entendo, não há como asseverar categoricamente que é melhor, mais profícuo, mais interessante, mais correto etc., começar dos clássicos ou terminar por eles (se necessário).

Conhecer Kant de fonte primária, após conhecê-lo profundamente de fonte secundária, não é um procedimento didático/pedagógico inferior a seguir o pressuposto clássico linear de ir da fonte primária para a secundária.

É um procedimento diferente. E, por experiência própria, é sensacional ler fragmentos de Marx depois de ler as críticas e as defesas que fazem de seu pensamento. Você tem mais interesse. Tem outro tipo de capacidade intelectual para entendê-lo com a profundidade que a modernidade exige. É mais divertido também.

É uma ideia super simples, mas robusta e aderente aos pressupostos libertadores que física das partículas nos trouxe nos últimos 100 anos.

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3 Respostas to “Conhecimento Googliano e as Viúvas do Decoreba”

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Só uma correção “marginal”: FHC nunca disse para esquecerem o que ele escreveu. Isto é uma “invenção” dos detratores alegando que a prática de FHC como Presidente estaria em desacordo com o que ele escreveu… como essa “ideia” sobre FHC acabou virando “uma frase por ele dita” eu não sei (mais ou menos como “os fins justificam os meios” síntese teoricamente nunca dita por Maquiavel), mas é fato que FHC nunca a disse e nem teve essa intenção.
Também, FHC nunca chamou aposentados de vagabundos, distorção grotesca e intencionalmente baixa do que ele efetivamente disse.

Portinho, muito legal ler seus posts! da prova de finanças do IBMEC até questionamentos sobre a forma de aprender e “aprender a aprender”! No final, põe a gente a pensar. A lógica do crescimento gradativo intelectual (ou seja, leia os “clássicos” ) foi questionada de uma forma que me deixou balançado, afinal, os cássicos são os clássicos até hoje não é a toa! Citar os barões do conhecimento sempre foi chavão dos consultores de plantão. Por outro lado, como vc assertivamente colocou, o conhecimento é captado de forma multimidia e extremamente difusa (seja de fontes confiáveis ou de uma simples mensagem do whatsup); vai ficar da capacidade analítica de cada um separar o joio do trigo e daí construir suas próprias teorias, sejam elas embasadas ou não nos eruditos… Valeu!

É isso aí Aloysio! Acho que não tem mais volta, nós continuaremos a ler os clássicos, mas muitas vezes eles virão em complemento à questão científica levantada por outras leituras. Pense comigo. Se alguém interessado em ética e moral começasse a ler sobre o trabalho de Kant em artigos modernos, releituras, críticas, blogs etc., e só após grande carga de leitura fosse ler a Crítica da Razão Pura, como seria o entendimento das ideias de Kant?
Não faz sentido eu achar que o caminho inverso (do livro original para as análises modernas) é melhor, ou mais correto, ou mais profícuo do que a leitura inversa. Não há qualquer justificativa pedagógica que me “garanta” que a linearidade é melhor!
Abraço e obrigado pela visita!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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