Petrobras em dia de balanço! Será?

Posted on 27/01/2015. Filed under: Finanças |

Para quem acompanha Petrobras há tantos anos como eu, não seria surpresa se o anúncio fosse adiado mais uma vez, agora até o dia 30/01 (limite máximo para não ter que quitar antecipadamente alguns bilhões de dólares).

O que está acontecendo hoje é a apresentação da proposta de demonstrações financeiras, por parte dos diretores da Companhia, ao seu Conselho de Administração (CA).

Como é provável que os números sejam ruins, o CA pode querer algum pequeno ajuste, talvez uma linguagem mais perfumada, para não passar recibo de incompetência, corrupção ou má gestão.

Mas o que é tão sério no balanço?

Quem leu o meu artigo anterior sabe (coisa que é pública, mas nenhum analista falou) que a Petrobras tem cerca de R$ 201 bilhões em “Obras em Andamento”. À época, tanto Abreu e Lima, quanto o COMPERJ e outras sob suspeita estavam nessa rubrica do balanço.

Não é pouco…

Há ainda o trânsito de algumas dezenas de bilhões entre a rubrica de ativo intangível para imobilizado, por conta da declaração de comercialidade de áreas de Cessão Onerosa, aquelas que o governo vendeu à Petrobras logo após a mega-capitalização de 2010.

A realidade em 30/09 (o balanço é do terceiro trimestre) era de dólar mais comportado, melhor acesso a crédito e preço do petróleo nas alturas.

Estima-se que a Petrobras não vá poder lançar mão de revisar o balanço com os parâmetros macroeconômicos e financeiros da época, vai precisar incorporar a realidade atual, que seria de dólar nas alturas, petróleo no buraco e crédito seco.

Mas isso não é certo. Aí reside um subterfúgio para apresentar números “melhores”, considerar dólar, juros e preço do petróleo de 30/09. Seria melhor não usar, mas…

As baixas contábeis…

As estimativas vão de R$ 10 bilhões a R$ 52 bilhões de baixas contábeis. Não é lá um intervalo muito confiável.

Não faz sentido pensar em baixar apenas o que foi pago de propina. O sobrepreço, pelo menos, também deveria ser baixado.

Se a empresa resolver baixar o sobrepreço nas obras, é provável que estejamos mais perto dos R$ 50 bilhões do que dos R$ 10 bilhões.

Mas há também a hipótese de usar regras tradicionais de impairment, que seria calcular o valor justo atual dos ativos.

Se isso for exigido pela PwC (ela não vai auditar agora, mas a Petrobras sabe o que o auditor espera), penso que o limite seja ainda maior que os R$ 50 bilhões.

A leitura dos meus artigos anteriores deixou bem claro que a Empresa, simplesmente, destruiu R$ 500 bilhões de valor nos últimos 6 anos. Os ativos, que deveriam produzir muito mais, atingiram 8% a 10% de elevação da produção nesses 6 anos, após elevação de 700% na dívida bruta e uma capitalização de R$ 120 bi. É muito dinheiro pra pouco resultado!

É improvável que os ativos valham as muitas centenas de bilhões de reais que estão registradas no balanço.

Só para ter uma ideia, quando o COMPERJ foi pensado, seria um grande polo petroquímico, hoje será apenas uma refinaria. E o preço do diesel, lá fora, deve ser menor que o custo de produção da Petrobras, ou seja, talvez seja mais interessante importar do que refinar… Quanto vale a refinaria se for fonte de perda de dinheiro?

Não se sabe, mas não é só isso!

A dívida dolarizada e a contabilidade de hedge

Pela leitura do balanço do terceiro trimestre da VALE, deu pra ver que o dólar médio subiu quase 12% no trimestre. No quarto trimestre, estima-se, serão mais 20%.

A dívida da Petrobras está 80% denominada em moeda estrangeira. Se ela não adotasse a contabilidade de Hedge, certamente sua relação dívida líquida/EBTIDA, e outras, iria se tornar proibitiva. Se não no terceiro trimeste, no quarto com segurança.

Mas a contabilidade de Hedge, que não é algo simples, garante que ela possa compensar parte do aumento da dívida em R$ com expectativas de receita em dólar. Em R$, pois em dólar não aumenta (por força do câmbio).

O problema é que o barril caiu 60%, de forma que as receitas em dólar também cairão.

Não é um trabalho fácil saber o impacto disso no balanço!

O que esperar?

O ideal seria que o balanço de hoje viesse desastroso, ainda mais do que a expectativa do auditor. Se assim for, será o início da retomada da credibilidade na direção da Companhia.

Ficamos sabendo que os covenants (exigência dos credores) da Petrobras não estão ligados à sua dívida, seus índices de endividamento, seu patrimônio etc., apenas exigem apresentação dos balanços.

Só o BNDES exige limite máximo de 5,5x para a relação dívida líquida/EBITDA, mas o BNDES não deve criar problemas.

Se o balanço vier desastroso, não teria maiores consequências, em termos de aceleração das dívidas, e ainda poderia sinalizar ao mercado o “fundo do poço” em termos contábeis.

Mas se vier bonito, cheiroso e bem embalado…

Bom, ninguém no mercado quer ouvir desculpas ou discursos amenos sobre a situação da empresa. Não vai soar bem tergiversar e inventar jargões para mitigar a situação financeira e patrimonial.

Nesse caso, raríssimo é verdade, quanto pior melhor!

 

Aguardemos, mas vou deixar minhas apostas:

 

O que eu acharia “apaziguador”:

  • – Balanço divulgado hoje após o fechamento dos mercados
  • – Perdas contábeis da ordem de R$ 50-60 bi
  • – Dívida líquida de R$ 280 bilhões (há uma estimativa de R$ 261 bi)
  • – EBTIDA em leve queda pelo aumento do serviço da dívida em dólar e registro da propina como despesa.
  • – Necessidade de reduzir o plano de negócios em 30%

 

O que acharia “sincero demais pra ser mentira”:

  • – Balanço divulgado hoje após o fechamento dos mercados
  • – Perdas contábeis da ordem de R$ 75 a 100 bi, com necessidade de ajustes nos balanços desde 2011 (republicação).
  • – Dívida líquida acima de R$ 300 bi
  • – EBTIDA em queda forte
  • – Necessidade de reduzir o plano de negócios em 50%

 

O que acharia triste e perigoso para a empresa:

  • – Balanço divulgado no dia 30/01, após o Jornal Nacional.
  • – Perdas contábeis da ordem de R$ 10 a 20 bi.
  • – Dívida líquida controlada na faixa de R$ 260 bi
  • – EBTIDA em elevação
  • – Manutenção integral do plano de negócios
  • – Um monte de elogios aos resultados, à Companhia etc.

 

Alea Jacta Est

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10 Respostas to “Petrobras em dia de balanço! Será?”

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Portinho,
Já saiu a primeira parcial da pesquisa “Melhores Investimentos em Ações, FIIs e Renda Fixa para os Próximos 4 Anos”
Se você já está participando favor conferir os dados. Se não ainda pode participar, só deixar lá sua opinião.
Muito obrigado e um ótimo feriado!
http://blogdouo.blogspot.com.br/2015/02/melhores-investimentos-em-acoes-fiis-e.html

Portinho, já fiz minha assinatura da ferramenta do Método Sempre no ADFN e achei muito bacana, mas tenho uma dúvida: porque algumas companhias, como a sula3 e wege3, possuem informações sobre Receita Líquida, Lucro Líquido, Dividendos + JSCP, Patrimônio Líquido e Ativo Total, relativas aos exercícios de 2010 a 2014, repetidas? Essas informações ainda serão atualizadas?

Oi Victor,
Vou falar com a técnica da ADVFN, em princípio tem que ser atualizado a cada balanço novo, mas se houver alguma imprecisão, precisa ser corrigida o quanto antes.

Pensando aqui com meus botões: a corrupção na petrobras teria chegado a um nível tão grande a ponto de, depois de todas as multas, ajustes e punições que ela receber, torná-la uma empresa não rentável?

Oi Rodrigo, a operação da Petrobras é rentável, sem dúvida. E o EBITDA mostra isso inequivocamente. O que aconteceu, infelizmente, foi uma overdose de investimentos sem retorno ou com retorno bem menor que o esperado, às custas de uma evolução sem precedentes no endividamento.
Há muitas soluções “de mercado” para a Petrobras, tais como capitalização, conversão de dívidas em ações e até privatização, mas tem que combinar com o controlador (União).
O que é muito difícil é ocorrer uma solução heterogênea, como um aporte extraordinário de algum ente do governo ou uma oferta pública de fechamento de capital. É difícil, pois impactaria de forma muito significativa nas contas públicas e não parece ser razoável mexer nisso agora.

Veio pior do que se esperava.

Conseguiram…

Olá Portinho,
Deveria ter cenário pior que o triste e perigoso:
– Balanço divulgado hoje após o fechamento dos mercados, após o Jornal Nacional
– Sem perdas contábeis.

Que foi o que aconteceu.

Abraços

Boa noite,
Estou lendo seu blog pela primeira vez, e já deixo os parabéns pela clareza e coerência em seus argumentos.
Você vê como um risco a curto prazo, que os papeis da Petro deixem de ser comercializados nos EUA?
Isso costuma ocorrer em outros casos similares investigados pela SEC?
Abraços,
Rogerio

Oi Rogerio, é uma incógnita. É improvável que perca o direito de negociar ações na NYSE, mas não é impossível.
Infelizmente a atitude de ontem não ajuda…


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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