Steve Jobs e o Flamengo

Posted on 14/05/2014. Filed under: Administração, Finanças, Futebol |

Calma, amigos leitores! O post é sobre o Flamengo, mas vai tratar de temas relevantes para se entender o mundo corporativo.

Creio que a maioria deve saber que há cerca de 1,5 ano assumiu uma diretoria no CR Flamengo repleta de executivos e empresários extremamente bem sucedidos. E flamenguistas, claro!

A esperança, exceto em meios políticos contrários, era de que o Flamengo pudesse ter uma administração racional, equilibrada e, mais adiante, vitoriosa no Futebol.

Parece que a racionalidade financeira está, realmente, sendo adotada, mas alguns movimentos, muito semelhantes aos que faziam as diretorias anteriores, colocaram a diretoria na berlinda.

Vamos reduzir as expectativas?

Executivos bem sucedidos VS salvadores da pátria.

Para quem não tem experiência com o mundo corporativo, não participou de conselhos de administração, não participa de assembleias etc., pode vigorar a imagem de que executivos com salário multimilionário são super-homens, que resolvem problemas complexos e transformam negócios medianos em lucrativos e geniais.

Ledo engano. São raros os executivos que têm influência direta no sucesso de um negócio ou de uma ideia. Isso é mais comum em empreendedores, que nem sempre são bons executivos (vide Steve Jobs).

Pela própria estrutura das organizações, com conselhos de administração (que contratam esses executivos) extremamente conservadores e pouco participativos, o profissional é, na maioria das vezes, refém de um supersalário. Na maioria das vezes, espera-se que aplique práticas triviais, insípidas e repetitivas. Exceto quando contratado para tirar uma empresa do buraco (o que raramente conseguem sem ajudas governamentais ou aportes extraordinários).

Demitir, admitir, captar recursos, renegociar dívidas, melhorar relacionamento com stakeholders, com o governo etc. Nada muito inovador ou salvador.

O filme “Jobs” deixa isso muito claro.

Recomendo, não como filme, mas como exemplo clássico do processo decisório nas grandes corporações.

Jobs contratou o melhor CEO do mundo, à época, John Sculley, da Pepsi. O conselho da Apple era extremamente conservador e queria, evidentemente, preservar mais do que inovar. Em pouco tempo a relação entre o CEO (que ficou do lado do conselho) e Jobs se deteriorou, e este último saiu da Apple.

Numa parte emblemática do filme, o presidente do Conselho deixa claro que a Apple deveria seguir os passos da IBM, que seria seu modelo de empresa de tecnologia.

A decisão do conselho e do CEO SEMPRE SERÀ dentro da racionalidade trivial à frente, não acompanharão o visionário.

Se acertaram ao se livrar de Jobs, certamente foi só no curto prazo e apenas atrasaram a deterioração da Apple, que dali em diante só declinaria, beirando a falência.

Mas Jobs voltou, e a empresa é o que é exclusivamente pela genialidade dele e por sua capacidade inventiva. Os executivos, todos eles, inclusive o atual presidente, tocam a bola de lado para não deixar a peteca (a ação) cair.

E é o que se vê mundo afora.

Durante a crise bancária de 2008 quantos se salvaram sem a ajuda dos governos?

Os boards e as diretorias executivas estavam repletos de pessoas bem instruídas, super bem remuneradas e bem relacionadas. Como não viram o (evidente) futuro sombrio, como não o evitaram e salvaram suas próprias empresas?

O episódio Eike Batista talvez seja o mais claro de todos. Ele pagava 5 vezes mais do que o mercado aos executivos, e quando estes hesitavam, Eike desdenhava dizendo que tinham calças curtas.

Uma reportagem da Exame, se não me engano, deixou claro que os executivos não iriam enfrentar a mão que paga demais. É triste, do ponto de vista moral, mas pouca gente recusaria R$ 100 milhões para ficar batendo palmas para a estupidez alheia.

Concordo que o mundo seria melhor se muitos recusassem, mas ainda não chegamos lá.

Isso é só para pontuar o seguinte: executivos bem sucedidos têm limitações normais quando confrontados com situações inteiramente novas e que exigem grande dose de brilhantismo, inovação e risco. Normalmente ficam sem chão, como qualquer um.

Essa não é, nem de longe, uma opinião exclusiva minha. Um dos mais bem sucedidos investidores da história, Carl Icahn, tem uma opinião extremamente depreciativa da administração da maioria das empresas americanas.

Ele chega a firmar que o processo de sucessão de CEOs favorece a subida de pessoas cordatas, bem intencionadas, porém sem capacidade de criticar a direção e impor sua ideia. Esse insípido profissional substituirá, preferencialmente, o CEO quando este se retirar.

E o Flamengo não é trivial!

É claro que o dever de casa nas finanças será feito corretamente. Mas até o presente não houve qualquer brilhantismo, qualquer quebra de paradigma, apenas respeito a contratos e à contabilidade, o que já é um grande avanço em se tratando de Flamengo.

Mas lamento não ouvir propostas arrojadas. Flamengo S/A, securitização de dívidas, fundos de investimento em jogadores com estatuto favorável ao Flamengo etc. Sei que é tudo muito difícil, pode até ser que estejam em pauta, mas não sabemos.

O próprio Sócio Torcedor é apenas a aplicação de modelos disponíveis no mercado. Importantíssimo, porém repetitivo, semelhante, monótono. É difícil ver a maior torcida do mundo competindo cabeça a cabeça com o Cruzeiro e perdendo feio para o Internacional no número sócios. São times da elite brasileira, claro, mas as torcidas são 8-10 vezes menores.

Lembro que critiquei nas redes sociais e para alguns amigos próximos o modelo do ST. O Flamengo só oferecia opções com benefícios pecuniários, ligados à compra de ingressos (principalmente). E a mais barata era extremamente cara para a maioria dos brasileiros, R$ 39,90, dá quase para pagar uma Sky! Nas comunidades pagaria o NetCat, o gás e outros fees milicianos…

Sugeri uma classe sem benefícios pecuniários, apenas com cartão de agradecimento e participação nas comunidades virtuais. Seria o sócio-Apoiador a R$ 9,90 no cartão de crédito ou débito. Esse cara receberia prestação de contas mensais (releases) do trabalho que estaria fazendo a diretoria. Aliás, isso deveria ser feito anyway e para todos.

Agora vi que criaram uma categoria de R$ 29,90, provavelmente para não assumir o erro no pricing.

Há sempre aquele que dirá que os sócios-apoiadores poderiam acabar reduzindo a receita dos STs. Mas é o justo. Não é justo que alguém pague R$ 39,90 e não possa usufruir, pois mora em Rio Branco no Acre. Que apoie apenas, é mais justo. Se quiser e puder pagar mais caro, é uma decisão pessoal, mas não forçada pela estratégia de produto e pricing.

O torcedor do Flamengo não é um “consumidor” do Flamengo. Ele É o próprio Flamengo.

Inaceitáveis decisões

A contratação de Pelaipe como gestor do futebol, faz parte daquelas trivialidades de que falei. Não inova. Tenta ver quem tem histórico de bons resultados dentro de orçamentos apertados e contrata. Isso não está errado, é racional.

Mas o episódio de demissão do Jayme foi patético.

Não é uma questão que se aprende no MBA de Yale ou Harvard, foram nossas digníssimas mães que nos ensinaram.

Se você vai demitir alguém, decida por isso e contate PRIMEIRO aquela pessoa. Você até poderia ter sondado seu plano B, mas é fundamental ter hombridade e falar diretamente para a pessoa demitida o que você pensa. Organizar uma saída honrosa e digna para aquele que lhe ajudou em momento dificílimo (demissão ridícula do Mano).

Agiram exatamente como os antigos dirigentes, e isso é um retrocesso e um sinal de que podemos não estar em boas mãos.

Parecia que a diretoria seria capaz de trazer de volta o “espírito de corpo” do Flamengo. O torcedor quer ter orgulho do clube. E isso é muito mais do que apenas ganhar títulos. É poder respeitar as decisões e as ações de sua própria diretoria.

Zico é ídolo no Flamengo também porque nos identificamos com as atitudes dele, com sua educação e com o seu caráter (apesar das calúnias dos vascaínos…).

Lembro quando perguntaram ao folclórico Margarida, um árbitro homossexual espalhafatoso aqui do RJ, como os jogadores o tratavam. Ele disse que o Zico era um lorde, só o chamava de Senhor Emiliano.

Ayrton Senna é um exemplo claro do que seria essa admiração pela atitude. Não era, de forma alguma, só a forma de pilotar, mas também a imagem correta, predestinada, batalhadora que passava, que o tornaram um ídolo nacional.

Apelo à diretoria

Precisamos de direcionamento ético, de relacionamento transparente, de comunicação adequada e suficiente.

Contratem um RP que ajude a formar e transmitir essa imagem coerente, ética, moral e de esperança que o flamenguista precisa.

É muito estranho, muito incoerente, e muito difícil de defender, ver uma diretoria reformadora demitindo um funcionário humilde do Flamengo em nota pela imprensa. Difícil também é ver que o Flamengo “voltou a investir alto” e contratou Ney Franco a peso de ouro, preço de técnico da Seleção.

Os resultados imediatos são óbvios, estão em todos os jornais. Críticas de todos os lados, a maioria da torcida renegando a contratação de Ney.

Vocês deveriam ter antecipado isso. Não é necessário MBA em Stanford. Não é o Jayme, não é o Ney. É a atitude, é a incoerência.

Conseguiram humilhar as raízes do Flamengo e trouxeram um técnico que, coitado, já começará com incrível antipatia da torcida.

Se Ney Franco perder 2 ou 3 jogos na sequência, o que é perfeitamente possível, a torcida vai pedir sua cabeça.

Será que na demissão teremos que pagar alguns milhões de indenização? Errar em contratos de risco também não é admissível para diretorias racionais e bem sucedidas…

 

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3 Respostas to “Steve Jobs e o Flamengo”

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Não li tudo, mas pra mim os clubes tinham que ter dono, como é nos esportes profissionais americanos, e em muitos clubes na Europa.
Aqui, a cada X anos, muda o dono, digo presidente. O clube não tem um norte, uma política definida do que quer, pois vem outro e muda tudo.
E o presidente e dirigentes, não recebem nada, trabalham por amor ao clube, que coisa bonita.

Parei de ler quando você disse que o Flamengo tem tem 10 vezes mais torcida que o Inter. kkkkkkkkk
Brincadeiras à parte, belo post.
Abraços

Tá feia a coisa…


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    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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