Como acabar com o capitalismo…

Posted on 22/01/2014. Filed under: Finanças |

Calma meus amigos… o título é só uma provocação…

O assunto é esse, mas o foco é outro.

A inesperada (e bem-vinda) inserção do discurso liberal nos grandes meios de comunicação e nas redes sociais, em contraponto ao hegemônico discurso socialista/dirigista, esquentou o debate sobre qual seria o melhor regime político/econômico para o Brasil, se o socialismo-dirigista ou o capitalismo-liberal.

Esse post é uma tentativa de contribuição para essa nova era do debate político e econômico no Brasil.

Ainda incipiente, é verdade, e com ampla vantagem numérica dos dirigistas. Vamos reduzir essa vantagem?

Para entender o capitalismo: os precedentes

Afirmo que o capitalismo surgirá de forma natural em qualquer sociedade humana razoavelmente grande e complexa, em que se verifique: liberdade, respeito à propriedade privada e escassez.

Liberdade aqui entendida de forma simples, ou seja, poder decidir seu próprio caminho sem influência coercitiva de terceiros.

Os marxistas entendem que não há liberdade no capitalismo, pois você não poderá ter tudo o que quer, é escravo da mercadoria etc.. Esse conceito de liberdade não está em debate aqui.

É por demais óbvio que todas as suas ações, mesmo as que não envolvem dinheiro diretamente, tem restrições ou condições de contorno. Você pode, por exemplo, se separar de sua mulher/marido, com quem tem 3 filhos. Essa decisão terá, SEMPRE, fatores que a favorecem e que a dificultam, mas, em tese, você é livre para decidir, levando em consideração essas condições de contorno (o que é óbvio).

O respeito à propriedade privada, também entendido de forma simples. O que você conquista sem infração legal (por trabalho, compra, herança etc.) é seu e você poderá manter, ao longo dos anos.

E escassez significa a não disponibilidade de todos os bens de interesse, ao preço (condição) que se poderia ter. Em resumo, não poder ter tudo o que se quer ter. Atenção: não estou falando de subsistência, mas de TUDO o que, eventualmente, se deseje.

Os Marxistas discordam…

Para os marxistas o capitalismo é transmitido de geração a geração através da cultura. Não o consideram uma resposta natural das sociedades humanas, às suas próprias necessidades e desejos. Nesse ponto, inclui-se até o conhecimento científico ocidental. Consideram o racionalismo newtoniano-cartesiano como um instrumento de dominação e de disseminação do capitalismo. Esse pensamento é facilmente encontrado na internet.

Há mérito intelectual em Marx, mas a tentativa de tratar o capitalismo como uma estrutura de dominação e não como uma resposta natural a questões estruturais precedentes, carece de evidência empírica.

Alegar que o capitalismo perpetua os privilégios dos ricos é mirar no vilão errado. Não é o capitalismo que faz isso, mas o ser humano. Ele fará isso em qualquer organização humana (manter o status quo para os seus). Basta ver a nomenklatura soviética e a elite do partido comunista chinês.

A divisão desigual de trabalho, a diferenciação explicita e autodeterminada dos homens, a vontade expressa etc., são elementos básicos para a formação de sociedades capitalistas, e estão presentes em organizações humanas muito rudimentares. Não são criações do próprio capitalismo.

Aliás, é evidente até no comportamento de mamíferos mais desenvolvidos. Veja o vídeo abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=vQIeCmHohhs

Os macacos fazem o mesmo trabalho, mas um recebe pepinos e o outro recebe uvas. O que recebe pepinos fica enfurecido!

Enquanto alguns esquerdistas entendem isso como uma evidência do desequilíbrio do capitalismo, eu vejo como uma evidência de que a demanda por um bem que você QUER existe mesmo em sociedades primitivas. E esse QUERER é inaceitável para Marx, é uma imperfeição do ser humano (ver Fetichismo da Mercadoria).

Em tribos não influenciadas pelo homem branco, há divisão de trabalho. Há líderes, há os que têm aptidões físicas e caçam 10 vezes mais, há os que não têm e ficam em outro tipo de trabalho. Há importância hierárquica. Há interesse pessoal, gosto, escolha, rito, cultura etc. Não são formigas que não tem qualquer interesse nem questionamento (será?).

A Nova Política Econômica de Lênin (NEP)

A experiência Leninista na URSS mostra como o sistema capitalista acaba surgindo quando se verificam: liberdade de decisão e associação, respeito à propriedade privada e escassez (essa última, em 1921, era quase “perfeita” na URSS).

Em pouquíssimo tempo, a liberdade para produzir e comercializar, a devolução das terras à iniciativa privada e a extrema carência de bens, acabou criando um sistema dinâmico de produção, de distribuição e de trocas.

O ponto não é discutir se “deu certo” ou não, mas mostrar que, na presença desses elementos, o capitalismo aparecerá naturalmente. Mesmo na URSS, que nunca tinha sido, mesmo antes da revolução, propriamente capitalista.

Como acabar com o capitalismo?

A receita de Marx (ou de seus seguidores) parece completa.

Extermínio à liberdade de associação e decisão.

Não se pode decidir o que produzir, não se pode produzir o que quiser (ou o que precisar), não se pode buscar associação com outros detentores de recursos (capital, trabalho, terra etc.), não se pode (ou não se deve) nem desejar diferente do que o Estado pode produzir.

Extermínio à propriedade privada.

Esse ponto é delicadíssimo, pois não se está falando apenas de bens materiais. A sua opinião, sua ação, sua história, sua produção intelectual etc., também são propriedades privadas e, na experiência marxista, deveriam ser abolidas. Stálin levou isso quase à perfeição e Orwell retratou esse combate à propriedade privada “pessoal ou intelectual” com maestria no livro 1984.

Mas o fato é que, como nada do que se produz será seu e nenhum fruto poderá ser guardado ou acumulado, fica realmente impossível o desenvolvimento do capitalismo. O capital, assim como o trabalho, espera remuneração pelo seu emprego. Não remunerar o capital é semelhante a não remunerar o trabalho, apesar de os Marxistas considerarem isso uma heresia.

Por fim, a escassez.

A escassez acaba gerando uma crescente demanda por bens e serviços, o que é particularmente nocivo para economias dirigistas, que notoriamente e historicamente têm baixíssimo nível de produtividade e diversidade.

A forma de neutralizar os efeitos nocivos da sensação de escassez, carência, penúria, é trabalhar o conceito como oriundo do “pecado original” do capitalismo, que é o “desejo infinito de consumo” (ver Samuelson sobre a escassez). É verdade que não se pode atribuir esse discurso diversionista diretamente a Marx.

A partir da demonização do comportamento capitalista, busca-se reduzir o ímpeto pelo consumo, normalmente reforçado pela escassez extrema. Lavagem cerebral, novilíngua, duplipensar e outros verbetes orwellianos são estratégias para esse fim.

Em resumo, nas sociedades dirigistas nem a escassez extrema levaria ao surgimento do capitalismo, pois o “conceito” de escassez é distorcido e empresta-se um valor absoluto negativo à necessidade ou ao desejo pelo bem escasso. Quer comer 1.400 calorias? Você é um homem imperfeito, escravo de seus desejos!

Acabando com o capitalismo pelo lado da escassez…

Se os 3 elementos estiverem presentes, a organização natural é o capitalismo. Isso não é um julgamento de valor, apenas o reconhecimento de evidências empíricas e uma conclusão básica de lógica formal. É bem trivial mesmo.

Mas isso tudo leva a uma conclusão interessante: o capitalismo, tal qual conhecemos, não deveria existir em uma sociedade onde não há escassez.

Mesmo em sociedades onde a escassez é pouco relevante, pois a maior parte dos bens e serviços estaria acessível e com qualidade satisfatória, fica complicado manter o capitalismo, ao menos o capitalismo liberal puro.

Esse “laboratório” já existe hoje.

Recentemente a Suíça quis votar uma renda mínima de cerca de 6.000 reais. A ideia dos políticos seria garantir um mínimo de renda (mínimo???), dando liberdade ao cidadão para, em tese, adotar qualquer caminho profissional que desejar, sem pressão.

Num país (há alguns poucos) onde o nível dos serviços públicos, ou de serviços de interesse público, é elevado a ponto de serem considerados efetivamente satisfatórios e, na relação custo-benefício, até superiores aos serviços semelhantes pagos, pode-se considerar que a escassez é algo pouco relevante ou percebido.

É claro que são países onde o imposto sobre a renda (mais alta) chega a 68%. Sobre ganho de capital ultrapassa 50%. E não são “baratos” como os EUA (o que é óbvio).

Vale ressaltar que o povo suíço, ao que parece, é contra essa renda mínima.

Faz ele muito bem, pois ninguém pode afirmar categoricamente que as pessoas iriam trabalhar, produzir, caso tivessem “de graça” suas necessidades mais sofisticadas atendidas. E não são poucas, já se atende razoavelmente as necessidades em saúde, segurança, transporte, educação e previdência, se ainda tiver um tico-tico pra comprar um vídeo game… sei não…

O Brasil não é a Suécia

Não é mesmo. Ah, vale enfrentar os patriotas, também não é melhor. No máximo, mais quente.

Aqui o sujeito da classe média tem tributação Sueca. Se ganha R$ 10.000, só leva R$ 7.500 depois do IR. A cada R$ 1,00 que gasta, deixa R$ 0,40 de imposto sobre consumo. Se gastar os R$ 7.500 restantes, terá pago mais R$ 3.000 de impostos. Resumindo… só ganha (tax free) R$ 4.500 de R$ 10.000.

Tributação sueca. Mas paga escola, plano de saúde, seguros caríssimos e, às vezes, segurança privada.

Aos que pregam o socialismo no Brasil, e usam países nórdicos como exemplo, seria bom atentar para um fato evidente: no Brasil, a escassez é gritante, desesperante.

O mulato inzoneiro do coqueiro que dá coco ainda não tem riqueza suficiente para tornar-se socialista pelo extermínio da escassez.

Pelo cerco à propriedade privada e redução de liberdades individuais dá, mas pelo lado “nobre”, resta evidente que não.

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4 Respostas to “Como acabar com o capitalismo…”

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Fala Portinho, como vai?

Tenho saudades dos seus posts sobre bolsa, ações, e afins, sempre muito sensatos e esclarecedores. Depois do dia de hoje na Bovespa, lembrei-me ao menos em partes, com 2008, e seus emails quase que on-line sobre o mercado.

Manteve sua carteira, ainda tem acompanhado de perto o mercado? O que me diz dessa crise agora aqui no nosso quintal?

Grande abraço,
Fabiano

Oi Fabiano.
E não é que acabaríamos considerando aquele 2008 como “bons tempos”… Veja a Petrobras e a própria Vale.
Eu, por força da profissão e da fase de vida (2 filhos) estou prestigiando yield. Fundos imobiliários, prioritariamente. Acompanho as ações e mantenho as análises, agora usando meu próprio método (lanço, se tudo correr bem, em abril).
Meu nobre, já não estou pensando em 2014. 2014 pode até repetir 2002. Meu ponto é se 2015 repetirá 2003 (forte austeridade) ou se repetirá 2014…

Show. Muito bons!
Que loucura a gente lutar em pleno século XXI por liberdade de pensamento e associação e por garantias à propriedade privada. Como se a opção distributiva tivesse sido vitoriosa em algum momento. Pode funcionar quando a riqueza está presente. É o caso de países nórdicos e até de países árabes estáveis. Riqueza abundante pode até gerar distribuição na marra, mas distributivismo na pobreza… só vai gerar mais pobreza, para mais gente e por mais tempo.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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