Por que estamos tão ricos, mas não sentimos isso?

Posted on 10/01/2014. Filed under: Finanças |

Volta e meia aparece um político brasileiro na TV para celebrar nossa riqueza. Ontem foi a governadora do Maranhão a dizer que o estado está mais violento porque está mais rico.

Em todos os cantos só se diz que a renda subiu muito no Brasil, que o salário mínimo é de 300 dólares etc.

E o pior é que isso aconteceu MESMO!

Digo que é o “pior”, pois deveríamos sentir isso em nosso poder de compra. E não é o caso.

Antes, um parêntese…

Os brasileiros na linha do salário mínimo, principalmente aposentados, sentiram realmente evolução no poder de compra, ao menos de itens básicos.

Há também os beneficiados pelo capitalismo risk free. Como o governo entupiu a economia com crédito barato e forçou um monte de obras, sem limite de gasto, houve uma forte inflação de custo de mão-de-obra. Algumas profissões nessas áreas devem ter observado crescimento salarial muito maior do que a média.

Voltando aos motivos de nossa evidente riqueza e aparente pobreza…

Além de usar o salário mínimo como parâmetro, vamos usar também o salário médio, divulgado mensalmente na PME. O salário médio NOMINAL, em tese, deveria refletir a renda média do brasileiro e incluir a maioria da população economicamente ativa.

Em suma, ao usar esse parâmetro (renda média), nosso estudo deverá refletir a realidade de mais brasileiros.

O estudo é simples.

Poderia ser mais completo se houvesse estatísticas padronizadas por aqui, mas, infelizmente, nem a evolução nominal do preço da gasolina eu consegui. Consegui em vários países, mas nadica de nada por aqui.

Vamos aos resultados (divulgo a planilha ao final), atentando para o fato de que TODOS OS DADOS são nominais. Isso porque a inflação será medida de outra forma.

Salário médio x salário mínimo

Em Dez/1997 o salário mínimo (SM) brasileiro era de R$ 120,00 e o salário médio (RMN – renda média nacional) de R$ 744,11. No salário médio do brasileiro “cabia” 6,2 salários mínimos.

Em Nov/2013, o SM era R$ 678,00 e a RMN 1.965,20. Ambos cresceram bastante, mas em 2013, o salário médio do brasileiro representava 2,9 salários mínimos, uma queda de 53%.

Ambos subiram, mas é evidente que o SM subiu muito mais.

Cesta básica e itens avulsos

O salário médio do brasileiro, em 1997, 1998 e 1999 comprava, respectivamente, 7,83, 8,06 e 7,51 cestas básicas, enquanto o salário mínimo nos mesmos anos comprava, 1,26, 1,38 e 1,35 cesta básica.

Em 2011, 2012 e 2013, a coisa muda de figura. O salário médio comprava, respectivamente, 6,28, 6,40 e 6,20 cestas básicas, menos do que no final dos anos 90, porém o salário mínimo comprava 2,07, 2,21 e 2,14 cestas básicas.

Consegui acesso a uma pesquisa da UFJF com preços dos itens da cesta básica desde 1994.

Ao comparar por item, a perda de poder aquisitivo da classe média (que ganha o salário médio) e o ganho do salário mínimo fica ainda mais evidente.

Índice Big Mac…, digo… pão francês.

O salário médio perdeu cerca de 32% de poder de compra neste item, entre 1998 e 2013, enquanto o poder de compra do salário mínimo aumentou 46%.

Carne de 2

O salário médio perdeu cerca de 49% de poder de compra neste item, entre 1998 e 2013, enquanto o poder de compra do salário mínimo aumentou 8,7%.

Feijão

O salário médio perdeu cerca de 41% de poder de compra neste item, entre 1998 e 2013, enquanto o poder de compra do salário mínimo aumentou 24,8%.

Arroz

O salário médio perdeu cerca de 28% de poder de compra neste item, entre 1998 e 2013, enquanto o poder de compra do salário mínimo aumentou 53,3%.

É evidente que a classe média deve ter sentido perda de poder aquisitivo, porém isso não deve ter ocorrido para quem ganha salário mínimo (considerando APENAS esses itens).

Custo de moradia

Esse é um ponto onde todo mundo perde, e perde feio.

Como não há histórico suficiente no Brasil (o prof. Robert Shiller deu uma leve humilhada no Brasil, dia desses, por conta disso), não nos resta outra opção a não ser usar o índice FIPEZAP (do RJ) para medir o poder aquisitivo dos diferentes “salários”.

Nesse ponto temos que partir de Dez/2007 e Jan/2008, pois não há dados anteriores.

E aqui a coisa aperta SIGNIFICATIVAMENTE.

Entre Dez/2007 e Nov/2013, a perda de poder aquisitivo do salário médio, em relação a COMPRA de moradia própria, foi de 49,5%. Em relação ao custo de ALUGUEL a perda foi mais modesta, mas ainda grande, de cerca de 27%.

Entre Dez/2007 e Nov/2013, a perda de poder aquisitivo do salário mínimo, em relação a COMPRA de moradia própria, foi de 46,5%. Em relação ao custo de ALUGUEL a perda foi de cerca de 22,5%.

Queria ter acesso aos dados de 1998-2007, pois lembro dos preços aqui do RJ, mas não posso considerar minha lembrança como “dado”. Só sei que um apto modesto em Ipanema, de 1 ou 2 quartos em 1995 saia por algo entre 50.000 e 70.000. Em 2002, com certeza, era possível comprar um quarto e sala em copa, bem localizado, por 90.000-100.000 e um 2 quartos em Botafogo por 140.000. Disso eu lembro bem.

Aliás… nem precisa ir tão longe. Em 2007 era possível comprar um 3 quartos excelente em Botafogo por 300.000. Hoje… 1,5 milhão…

Nesse aí, tá todo mundo sofrendo…

Considerações sobre outros custos

Queria que fosse fácil achar dados no Brasil. Mas infelizmente não é.

Aparentemente há outros itens que subiram muito mais do que os salários (tanto médio quanto mínimo).

Com certeza o “serviço de juros” deve ter crescido bastante no orçamento das famílias, uma vez que o endividamento é recorde e as carteiras de crédito dos bancos só crescem. Até onde sei, os juros do cheque especial e do cartão de crédito continuam muito altos.

As mensalidades de escola, pré-escola (essa então…) e graduação, também parecem ter subido significativamente.

Os preços controlados como pedágios, gasolina, luz, gás etc., mesmo não estando baratos, poderiam estar reforçando mais ainda nossa realidade de “riqueza” e sensação de “pobreza”. Mas o governo vem segurando os mesmos há algum tempo.

Eu não sei há quanto tempo o pedágio da ponte está congelado em R$ 4,90 e da Dutra em R$ 10,10. Talvez uns 3 anos.

Produtos de maior valor agregado, variações invisíveis na quantidade dos produtos (e aumento mascarado no preço) etc., são outros itens que devem ter reduzido o poder aquisitivo dos salários.

Bom, acho que é meio evidente que, para quem não está naqueles empregos mais beneficiados pela onde de crédito subsidiado e capitalismo risk free, a sensação é de ganhar muito mais e de gastar muito mais ainda!

Um apelo ao bom senso

Nós não temos controle, individualmente, sobre os preços, mas façamos nossa parte. Não compre o que julgue ter alta abusiva. Mesmo que possa pagar.

É uma questão de “pertencimento”. Você não está sozinho na sociedade. Não deixe que sua abundância de renda prejudique seu próximo. Às vezes é seu vizinho, seu amigo ou seu irmão.

Os liberais e libertários devem me detestar ao ler algo assim, mas é importante incluir na equação econômica o sistema de valores das pessoas. Aqui é a lógica do “posso-pago”, mas não é esse o comportamento em economias desenvolvidas.

Ah… esse presunto de Parma a R$ 400 o quilo e cerveja em lata a R$ 2,39… se depender de mim… terá que voltar aos R$ 79 o quilo e aos R$ 1,49. Senão, é presunto sadia a R$ 18,90 e Cintra a R$ 1,29 (ou Devassa a R$ 0,99, hoje no Guanabara!!!!)

Planilha

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12 Respostas to “Por que estamos tão ricos, mas não sentimos isso?”

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Oi Portinho. Acompanho seu blog há um tempo e estou iniciando um novo projeto. Você poderia adicionar o meu link na sua lista de blogs? (www.itradesys.com.br)

Obrigado.

Acho que eu não tenho lista de blogs. Mas fica aqui nos comentários. Tem muitos seguidores de comentários.

Excelente pesquisa e análise. Parabéns. Todo mundo deveria ler isso.

Seu “apelo ao bom senso” é perfeito!
Minha mãe sempre fala, o item que tem maior aumento de preço em determinada época, é o que mais as pessoas vão comprar no mercado…
Este é o Brasil, país onde tudo é ao contrário…

Excelente matria Portinho ! Com relao ao extinto INI, existe alguma inteno de reativ-lo ? Participei do 1 Congresso do INI no RJ e acompanhava as aes do Instituto que era muito importante para a educao do investidor de longo prazo. Abrao e parabns. Vanilson.

Date: Fri, 10 Jan 2014 19:17:01 +0000 To: vanilson.mota@hotmail.com

Oi Vanilson,
Eu pretendo lançar um método aprimorado e abrasileirado… ainda nesse semestre. O livro está pronto e nas mãos da editora. Em parceria com um grande provedor de dados, quero tentar disponibilizar acesso ao público do INI em breve.
Avisarei aqui no blog.
Abraço!

depois da festa do arrombo… a lucidez e o bom senso vao ser o principais itens para a sobrevivencia nesse pais cuja “inflacao” parece nao estar controlada. e para uma geracao iinteira que nao sabe o que significa inflacao…. vao precisar de mestres. Espero que possa postar os itens de sobrevivencia.. rs

Como liberal da ala mais radical eu posso dizer que o seu apelo ao bom senso é mais que correto. Provavelmente os liberais socialistas (da social democracia) que de fato ficariam de cabelo em pé ao ler pedidos de poupar dinheiro.

Excelente texto, Portinho!!!!

Claro que a verdade por trás deste aumento nas mazelas do brasileiro nada tem a ver com aumento da riqueza. E sim com aumento do cinismo destes políticos. Desconfio que estamos no pior momento de toda a história da política brasileira e, pior, sem perspectiva de melhora.

É Márcio, preciso concordar com você. Não tenho visto bons valores emergindo de nossa sociedade não. Esse “rolezinho” nos shoppings de SP, que agora está sendo coibido na justiça. Não vou entrar no mérito do assunto, de quem tem ou não razão, mas é lamentável ver que SÓ O BRASIL precisa regular o comportamento dos frequentadores de shopping. Nem em países muito mais pobres ou bagunçados isso é necessário.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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