Balanceamento de Carteira – Dúvidas.

Posted on 08/01/2014. Filed under: Finanças |

Esse post segue o de ontem, sobre gestão de um portfólio com dois ativos (renda fixa e renda variável).

Aos que ainda não leram, sugiro primeiro que acompanhem no link abaixo o post original, pois esse só pretende tirar dúvidas mais profundas dos leitores.

Balanceamento de Carteira – Evitando a Síndrome da “Troca de Pernas”.

Vamos às dúvidas…

Um leitor atento, que também tem um blog de finanças, fez várias simulações com a gestão proposta (rebalanceamento de carteira), mas não obteve resultados que justifiquem o uso do método.

Para quem quiser ler em seu blog, aí vai:

http://di-finance.blogspot.com.br/2012/04/asset-allocation-novo-estudo.html

Com relação ao balanceamento, alguns pontos são importantes:

  • Ele depende SIM do perfil dos ativos e também dos valores iniciais. É claro que, se começarmos num ponto em que a bolsa está na mínima, deve reduzir os benefícios do método.
  • Ocorre que nunca sabemos qual é a mínima ou a máxima, por isso o método não é para “acertar”, mas para aproveitar, ao menos, parte das oportunidades que surgem.
  • Em períodos curtos, os benefícios não aparecem, ou são bem reduzidos.
  • Em períodos longos, mesmo quando o aporte inicial favoreceria a bolsa (ver 1996 na planilha abaixo), o método teve resultado superior.
  • O método se aproveita de oscilações, portanto, será mais funcional em períodos longos, onde os períodos de alta (Bull) e de baixa (Bear) tendem a acontecer (ciclos econômicos, bolhas infladas e furadas etc.).

Não se pode aplicar a teoria Risco e Retorno para o caso

Pela lógica da teoria de risco e retorno, o método, como tem menos risco do que a RV e mais do que a renda fixa, deveria, no longo prazo, posicionar-se entre ambos, no que diz respeito ao retorno.

Mas isso só faria sentido, se deixássemos o portfólio imutável. Ele deveria reduzir o risco e também o retorno, mas isso não se aplica ao caso.

Como é gestão ativa, provavelmente o método, para períodos longos (superiores a 10 anos) acabou vencendo qualquer estratégia passiva usando os dois ativos (RV e RF), por força do Dollar Cost Averaging (DCA).

Sobre o assunto (DCA), dois posts importantes que publiquei com a apresentação do DCA e resposta às críticas dos adeptos do LSI.

Como bater o mercado sem nem mesmo tentar? Dollar Cost Averaging.

Corrigindo outros equívocos: Dollar Cost Averaging x Lump Sum Investing

Pois bem, como compramos ações só quando caíram bastante, é claro que compraremos mais “quantidade” pelo mesmo volume de dinheiro. R$ 1.000 comprariam 20 ações de R$ 50,00, porém, se a ação cair a R$ 25, os mesmos R$ 1.000 comprarão 40 ações.

Talvez isso explique o motivo do método ter batido os dois ativos individuais, em períodos mais longos.

Testando para períodos desde “1995-2013” a “2009- 2013”.

Veja o resumo dos resultados:

tabela2

De todos os períodos testados, o ano de 1996 é especial. Isso porque dá uma grande vantagem à renda variável, pois seu início, com 4.299 pontos, é o menor da série histórica (de fim de mês). O segundo menor Ibov é 15% superior a esse.

Em tese, como “comprou-se na mínima”, a renda variável deveria ganhar com grande frente dos outros métodos. Mas não aconteceu isso. Em 96 meses, o método teve resultado melhor do que a RV (que também esteve na frente em 95 meses). Em dez/2013, o valor aplicado pelo método, teria chegado a R$ 1.423 mil, contra R$ 1.198 mil da RV (18,7% maior).

E isso, MESMO com a grande sorte de ter comprado na mínima.

Em 15 períodos:

  • O método teria valor maior em dezembro de 2013 em 10 anos, a Renda Fixa em 4 anos e a RV só em um.
  • O valor máximo atingido seria oferecido pelo método em 4 períodos, pela Renda Variável em 9 e pela Renda Fixa em 2. O que faz sentido, pois os picos de alta só acontecem com a RV.
  • O método teve mais meses vencedores em 1995,1996, 1997, 1998, 2001 e 2007, a RV teve mais meses vencedores em 1999, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2009, e a RF em 2000 e 2008.
  • Vale ressaltar que o ano de 1999 é muito atípico, pois a bolsa caiu de 10.479 em jan/1998 para 6.784 em jan/1999, favorecendo muito a RV.
  • Pode-se dizer que, em média, o balanceado foi amplamente superior nos períodos iniciados entre 1995 e 2001, e cumpriu seu papel (reduzir risco e retorno) nos anos seguintes.

Em resumo…

Para aqueles que querem acumular patrimônio em prazos mais longos (acima de 8-10 anos) o método deve cumprir mais do que seu papel, podendo até bater os investimentos individuais.

Mesmo que o use para períodos mais curtos, o que se espera dele deve acabar ocorrendo. Perceba que no período iniciado em 2008 a Renda Fixa ganha amplamente, mas o método reduz a perda na bolsa. Já em 2009, quando a renda variável vence, o método consegue capturar um pouco desse ganho e vencer a renda fixa pura.

Em suma, no médio prazo, deve servir como redutor de risco (e, naturalmente, de retorno), mas no longo prazo, tem chance de bater as carteiras individuais.

Pelo menos é o que se verificou nos últimos anos.

Pessoalmente, não consigo antever algum perfil de oscilação de bolsa (para o futuro) que possa derrubar o método no longo prazo.

Supondo que não há bolsa sempre em alta, nem sempre em baixa, desde que haja oscilações entre otimismo e conservadorismo, as oportunidades para o método devem aparecer.

Planilha

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10 Respostas to “Balanceamento de Carteira – Dúvidas.”

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Portinho, descobri seu blog há não muito tempo e gostei do que tenho lido. Sou um investidor iniciante mas estou buscando conhecimento para saber garimpar empresas em crescimento e que apresentem perspectiva de rentabilidade dos seus papeis. Foi justamente isso que vi o método INI prometer de forma didática e simples. Entretanto, como fiquei sabendo, o INI fechou as portas. Diante disso, gostaria de saber onde posso aprender o sistema de investimento em renda variável aplicado pelo antigo INI. Existe algum livro que ensine a metodologia, algum curso ou palestra?

Agradeço desde já a sugestão e o parabenizo pelo site.

Oi Fábio,
Pretendo lançar um método para seleção de carteira em abril. Peguei os 10 anos de experiência com o Método INI e fiz os ajustes necessários para facilitar o aprendizado e adaptar à realidade brasileira.
Avisarei pelo blog.
Abraço!

Portinho, você deve conhecer muito melhor que eu o livro “Investindo em Ações no Longo Prazo” de Jeremy Siegel, que é muito respeitado. Nele o autor defende que o investimento apenas em ações supera qualquer outro. Isso contrasta um pouco com sua metodologia.

O que acha a respeito do livro de Siegel?

Parabéns pelo seu trabalho, que acho excelente.

Oi Anderson, conheço sim, mas estamos falando de coisas diferentes.
O Prof. Siegel calcula que o investimento em ações, como ativo sozinho, bate todos os outros ativos também sozinhos. E isso, realmente, ocorre.
O rebalanceamento não foi testado no livro, apenas os retornos das carteiras únicas (bonds, stocks).
Eu gostaria de ver o rebalanceamento por DIFERENÇA de valorização (e não por tempo) testado no mercado americano. Apelo aos leitores que tiverem acesso, para postar por aqui ou indicar algum estudo/livro.
Tendo a achar que, para prazos suficientemente longos (mais de 10 anos) há forte chance do rebalanceamento vencer ambas as carteiras individuais.
Mas em resumo, o livro do professor não contradiz o método do rebalanceamento, apenas afirma que ações foram o melhor investimento nos últimos 200 anos.
O rebalanceamento USA essa realidade. Pode-se encarar o investimento em renda fixa, mantido para rebalancear, como aquele que garantirá o aproveitamento das oportunidades (baixas excessivas, altas exageradas).

O investidor que faz aportes mensais, deve alocar em qual proporção? Na alocação original ou na proporção que deixa a carteira o mais próximo da alocação original? Por exemplo, caso eu decida investir 2mil por mês e minha carteira for de 50%/50%. Em alguns meses a carteira estará com a proporção 49%51%. Devo colocar sempre mil em Renda Fixa e mil em Renda Variável, ou deveria colocar um pouco mais em renda fixa para aproximar da alocação ideal. Em momentos de queda da bolsa faria aportes mensais em Renda Variável. Qual é a estratégia mais adequada? Abraços

Oi Guilherme, isso é particularmente relevante nos primeiros anos de alocação. Após 3, 4 anos, o valor alocado já é suficientemente maior do que o novo aporte.
Matematicamente falando, a lógica EXIGE que se coloque dinheiro novo EXATAMENTE na mesma proporção que o portfólio estiver apresentando no momento. É a única forma de não “mascarar” o gap entre os ativos. Se você estiver, por exemplo, com 55%-45% e aportar 50%-50%, vai rebalancear o portfólio por motivos diferentes do que estabelecemos (quedas ou altas significativas).

este estudo americano diz exatamente o contrário, se é que podemos comparar os dois países…

http://gbr.pepperdine.edu/2010/08/using-asset-allocation-strategies-to-recover-from-a-bear-hug/

Acho que seu email postado não é real, mas vou responder da melhor forma possível, pois pode ser a dúvida de outro leitor.
O estudo postado não tem relação com o meu e, mesmo assim, na minha opinião os resultados que ele apresenta são favoráveis ao portfólio balanceado. Diria até MUITO favoráveis.
O estudo dele não pode ser comparado ao meu por alguns motivos bem simples: ele rebalanceia o portfólio ao final dos anos, eu rebalanceio em quedas ou altas significativas, além disso, ele usa dívida privada, que não tem o mesmo perfil dos títulos públicos.
Esse rebalanceamento por tempo, a meu ver, é obtuso. Não tem justificativa matemática, nem lógica financeira. É só para facilitar o estudo.
Em um ano, por exemplo, a bolsa pode cair 40% até o meio do ano e recuperar. Ele não aproveitará esse momento.
Por fim, o estudo, ao contrário do que o autor conclui, não desfavorece o portfólio. Ao contrário, mostra que ele atinge valores muito maiores do que a renda fixa e 50% menos do que a bolsa, porém com muito menor risco.
E, ainda, o período do estudo é longo demais para fazer sentido para um investidor (74 anos). Deveria repartir em períodos menores (20, 25 e 30 anos).
Em resumo, o estudo não tem relação alguma com o método do rebalanceamento, pois o trigger dele é tempo (fim do ano) e do meu é variação do preço (altas ou baixas significativas).
E, mesmo com os dados dele, eu julgo que deveria, pelo menos, calcular o desvio padrão para medir o risco dos investimentos.

portinho, qual a conclusão do seu estudo? você diz que o balanceamento da carteira com renda fixa e variável tem, no longo prazo, um retorno maior que um investimento somente em ações, é isso?

Não.
A conclusão é que isso aconteceu, e aconteceu com muita relevância estatística para períodos longos.
Para fazer uma “inferência” a respeito do futuro, eu teria que trabalhar com ferramentas mais sofisticadas, as quais não disponho no momento.
Mas para professores que acompanham o blog, é bem simples a metodologia.
Basta fazer testes com diferentes perfis hipotéticos de evolução da renda variável. Para isso será necessário programar um excel ou um SPSS para medir em diferentes períodos o efeito dos diferentes perfis (altas, baixas, oscilações, volatilidades diversas etc.).
Minha intuição matemática, entretanto, diz que para períodos de 12 anos ou mais, se houver volatilidade significativa em, digamos, 1 período a cada 3 anos, estimando-se a necessidade de ajuste em 1 operação a cada 1,5 ano, e com tendência, mesmo que leve, de alta na bolsa, PROVAVELMENTE, a alocação 50%-50% vai trazer resultados melhores. Talvez não “nominalmente” melhores, mas considerando a redução de risco.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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