A salvação de Eike Batista?

Posted on 24/07/2013. Filed under: Finanças |

Infelizmente o artigo não tratará da salvação das empresas de Eike Batista, pois, apesar da presença do Papa, milagres não caem do céu…

Quero comentar a movimentação de Eike em torno do mercado secundário da sua própria dívida que recentemente chegou a 20% do valor de face.

Não estava entendendo bem a ideia de que esse mercado ajudaria a OGX. Esse mercado, evidentemente, não é para a própria empresa operar. Não que não possa, mas não faz sentido.

Se sua empresa está quebrada, sem dinheiro para investir e pagar credores de curto prazo, qual é a lógica de pagar U$ 200 milhões HOJE por uma dívida de US$ 1 bilhão que vencerá em 2023?

Parece um pouco de ingenuidade achar que conseguirá salvar a empresa recomprando sua dívida a 20% do valor de face e cancelando-a no balanço. Esse mercado só existe porque acreditam que você não vá pagar.

Lembra aquela lenda urbana da década de 1980 que dizia que a Souza Cruz iria pagar a dívida externa do Brasil (que também era negociada a centavos por dólar) em troca de não pagar mais impostos.

Esse mercado é um cemitério de dívidas, não é próprio para ressurreição de empresas.

Salvando Eike do exercício da PUT…

Mesmo estranhando as notícias de que Eike estava buscando acesso à recompra da dívida da OGX, tentei entender os movimentos. Hoje consta que a ideia é que parceiros como Mubadala e Petronas comprem a dívida com desconto de 70% a 80% e troquem por ações da companhia.

É evidente que os detentores dos títulos recomprados seriam os parceiros e não a OGX. A operação para “aportar” esses títulos na OGX poderia diluir escandalosamente os minoritários. E ainda seria um prato cheio para acusações de conflito de interesse (sócios aportando dívidas da própria empresa, a que valor?). Provavelmente não seria isso.

Talvez… Eike esteja mirando no próprio bolso.

Triangulando com a EBX…

Suponha que o fundo Mubadala seja capaz de recomprar nesse mercado secundário, por hipótese, US$ 3 bilhões de dívida de maturação longa por US$ 1 bilhão à vista.

Esse US$ 1 bilhão entraria no balanço do Mubadala como um direito contra a OGX.

Suponha que seja interessante ao Mubadala aceitar ações e participações da EBX em outras empresas, tipo IMX, AUX, MPX e até a própria OGX etc., até o valor de US$ 1 bilhão.

Se eles fizessem essa troca, o fundo teria muitas ações de várias empresas de Eike, repassadas por ele mesmo, e a EBX teria US$ 1 bilhão em direitos contra a OGX.

Eike (Leia-se Esteves) tem, então, a brilhante ideia de chamar uma Assembleia de acionistas para propor o pagamento da Put em títulos da própria OGX.

Só para relembrar, a Put é um direito que Eike deu à OGX de chamar até US$ 1 bilhão de capital (aporte) emitindo ações a R$ 6,30. Com as ações a 0,50, estima-se que Eike perderia entre 85% e 90% desse valor (com ajustes de subscrição).

Voltando ao ponto. Em vez de colocar US$ 1 bilhão do próprio bolso (pessoa física de Eike Fuhrken Batista), o que, hoje, significaria perder, torrar, incinerar cerca de R$ 1,8 a 2,0 bilhões, ele transferiria à OGX um ativo no valor de US$ 1 bilhão.

Os acionistas aceitariam?

Bom, considerando que o US$ 1 bilhão de Eike significaria, na verdade, um alívio contábil de US$ 3 bilhões (dívida recomprada), é bem provável que, mesmo uma Assembleia exclusiva para minoritários aceite a troca.

Don´t shoot the messenger!

Esse artigo, evidentemente, é só um exercício intelectual sobre uma forma de Eike evitar ter que tirar do próprio bolso um volume de dinheiro que, muitos acreditam, ele não tem (cash).

E, aparentemente, não prejudicaria a OGX (pelo contrário).

Não sei qual a “forma” contábil de uma operação como essa, mas na “essência” parece fazer sentido.

É claro que há empecilhos:

1. Não é claro que, caso o Mubadala indique interesse em recomprar toda a dívida ela não venha a ser negociada a 50%-60%. Talvez ele tenha que fazer uma oferta mínima de 80% da dívida por 35% de face. Ou 80% ou nada. Talvez funcione.

2. Não estudei implicações legais e tributárias. Talvez não haja, pois a OGX tem estoque de prejuízos.

3. É possível que o Mubadala não tenha interesse em outras ações da EBX, ou que exija relações de troca muito prejudiciais a Eike, e o próprio recuse.

4. Por fim, os acionistas podem negar, dado que, com aporte de R$ 2,25 bilhões em dinheiro, talvez o valuation da empresa melhore mais do que com a redução de R$ 6 ou 7 bilhões de dívida. Só de ajuste teórico da bolsa, a ação chegaria a R$ 1,10.

Mas se ocorrer algo semelhante, o Eike vai ter se livrado de um grande prejuízo…

That´s it Folks!

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6 Respostas to “A salvação de Eike Batista?”

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Isso é uma viagem.

Prezado Portinho,
O texto é muito bom e elucidativo. Mas deste imbróglio, todo concluo que há muita coisa mal explicada. Há uma certa fragilidade moral na forma como a empresa foi anunciada, financiada e ofertada ao pequeno investidor. Sei que existe um esforço na tentativa de tornar todas estas coisas mais transparentes. Mas o inevitável é que a verdade sempre teima em aparecer. Pena que alguém, normalmente o pequeno crédulo, “paga o pato”. Continue o trabalho.

Acho que para os acionistas minoritarios isso realmente parece ser mais interessante do que o PUT original.

Isso mesmo Portinho. Eu havia pensado nessa hipótese e pensei em escrever algo parecido em meu blog. Muito bem, penso da mesma forma!

Também concordo quanto viabilidade: tem que haver várias convergências de interesses para que isso seja viável.

E quanto ao aspecto tributário: se a OGX tiver “eliminada” uma dívida de USD 3 bi, ela teria que pagar IR sobre USD 2,6 bi, porque tem prejuízos acumulados de USD 1 bi (ou seja, a empresa iria contabilizar um ganho). Pode ser um complicador para a viabilidade da operação.

Não é lá exatamente o que os acionistas estariam esperando, mas pode ser mais interessante até do que a PUT. Tem que fazer conta.
[]
Paulo Portinho

Não é lá exatamente o que os acionistas estariam esperando, mas pode ser mais interessante até do que a PUT. Tem que fazer conta.
[]
Paulo Portinho


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  • Disclaimer

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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

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    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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