Artigo de Eike Batista em “O Globo” – Uma desconstrução necessária

Posted on 19/07/2013. Filed under: Finanças, Política |

Amigos do blog,

Desde que, em 2010, recomendaram a retirada de alguns artigos sobre as Empresas “X”, tenho evitado tratar do assunto Eike Batista.

É verdade que não resisti a comentar uma entrevista dantesca que ele concedeu à revista Exame, em que dizia estar “sentado” sobre 8 trilhões de dólares de óleo. Veja no link abaixo. É diversão garantida:

https://blogdoportinho.wordpress.com/2012/07/13/mmx-ogx-e-projecoes-na-entrevista-do-eike-a-revista-exame/

Mas o artigo assinado por ele e publicado hoje no jornal “O Globo”, lamento, não poderá passar em branco.

Leia aqui a íntegra. Reproduzirei as partes relevantes ao longo do texto.

As incríveis reservas da OGX

Eike escreve que a DeGolyer & MacNaughton (D&M) divulgou um relatório em 2011, auditado por empresas independentes de renome internacional, indicando que a OGX teria recursos aproximados de 10,8 bilhões de barris de petróleo equivalente (incluídos recursos contingenciais e prospectivos).

O investidor que lê isso pensa o quê?

O óbvio! Que Eike teria 10,8 bilhões de barris na reserva.

Mesmo investidores experientes não teriam discernimento, por exemplo, para diferenciar esses 10,8 bilhões de barris dos 16,4 bilhões (critério SEC em 2012) divulgados pela Petrobras.

É claro que esses 10,8 bilhões significam outra coisa, que eu realmente não saberia dizer qual é, mas acompanhe a história a seguir para ver como essa divulgação e esses números exagerados NÃO eram necessários.

A Vermilion Energy, companhia canadense de energia, opera desde 1994 com números modestos e é um sucesso. A companhia vale US$ 5,5 bilhões, fatura US$ 1,1 bilhão, com lucro líquido de US$ 191 milhões.

Sabe qual a produção diária deles, depois de quase 20 anos?

37 mil barris/dia!!! Eike projetou, para 2015, mais de 700 mil barris/dia. Precisava?

Sabe qual a reserva provada e provável (proved plus probable BOE reserves)?

164 milhões de barris!!! Para quê os 10,8 bilhões, Eike? Qual o propósito dessa divulgação?

Quem perdeu mais?

Eike afirma que quem mais perdeu dinheiro com a OGX foi ele. É, no mínimo, uma imprecisão, pois, proporcionalmente, a maioria dos investidores de longo prazo da OGX perdeu muito mais que ele.

E será que ele perdeu?

Em julho de 2012, Eike falou a Diogo Mainardi, no programa Manhattan Connection, que tinha iniciado seus investimentos no Brasil com o capital de US$ 1 bilhão.

Se isso é verdade, considerando o valor de mercado de suas companhias até o momento, ele não perdeu nada.

As estimativas da “fortuna remanescente” de Eike, após a reestruturação, apontam valores superiores ao investimento inicial.

Controlador vendendo ações?

Afirma em outra parte do artigo que “…poderia ter realizado uma venda programada de 100 milhões de dólares por semestre ao longo de 5 anos. […] teria embolsado 5 bilhões de dólares e ainda assim permaneceria no controle da OGX.”.

Primeiro a conta é estranha, US$ 100 milhões por semestre em 5 anos daria US$ 1 bilhão e não US$ 5 bilhões. Sem trocadilho, parece até os valuations das empresas X…

Mas o que chama a atenção MESMO é a afirmativa de que poderia ter “saído de fininho”.

Não poderia, não! Ao menos, não sem alarde, pois isso seria revelado nos formulários da Companhia ao mercado e, ao menor sinal de fuga do controlador, com certeza outros minoritários teriam feito o mesmo.

Aliás, isso acabou acontecendo recentemente.

Negócio de risco ou negócio à prova de idiotas?

Lá pelas tantas comenta que mineração e petróleo são negócios de alto risco e afirma que isso NUNCA foi escondido… Bom, não é bem assim…

Quem lembra dele falando que só entra em negócios “à prova de idiotas”?

Não existe negócio de alto risco à prova de idiotas.

Negócios à prova de idiotas são aqueles em que, mesmo fazendo bobagem, o retorno é certo.

A megalomania continua lá…

Sem qualquer pudor, afirma que “foi dito publicamente por um membro da Aneel que, graças à MPX, não haveria apagão ou racionamento de energia.”.

Se houve esse comunicado, tão contundente, não lembro e não consegui achar.

Mas realmente teve alguém que associou a entrada em operação das térmicas da MPX à desnecessidade do racionamento.

Sabem quem? Ora, ninguém menos que ele mesmo: Eike Batista.

Veja:

http://exame.abril.com.br/meio-ambiente-e-energia/energia/noticias/duas-termeletricas-da-mpx-adicionarao-680-mw-ao-sistema-2

Empregos gerados ou capital incinerado?

Sempre se orgulhou de “gerar empregos no Brasil”. Disse, no artigo, que chegou a empregar 30 mil pessoas em suas obras.

Well… Se eu puder incinerar US$ 1 trilhão, garanto que consigo pagar o Bolsa família sozinho por mais de 120 anos.

Quando Eike abriu sua OGX teria sido possível comprar 4 vezes a Sadia e quase a mesma quantidade de Perdigão.

Eram empresas que empregavam, já há décadas, 120 mil pessoas. E continuam, e continuarão empregando…

É uma argumentação sem sentido. Não significa nada.

Pagar as dívidas…

Por fim, diz que vai pagar cada centavo que pegou emprestado.

Aqui nesse ponto há outro sério problema de Eike. Ele desconhece o princípio contábil da Entidade.  Realmente acredita que foi ele que contraiu a dívida. Não foi, foi a pessoa jurídica.

A dívida da OGX já vale apenas 16% do valor de face, ou seja, muita gente que tinha os papéis já se desfez ou terá que fazê-lo a preço vil.

Talvez ele esteja falando da Put que concedeu à OGX. Nesse caso a dívida é dele mesmo, na pessoa física. Espero que honre, pois reduzirá o prejuízo dos remanescentes.

Mas aumentará MUITO o prejuízo dele. Nesse caso, a contabilizar no CPF e não no CNPJ.

Por fim.

É um artigo que tenta “explicar” um pouco o lado do Eike. Mas é extremamente impreciso. Não condiz com a realidade dos últimos 5 anos. Não foi esse comedimento que nós vimos.

A única coisa em que ele realmente está certo, remete a outro erro grave. Executivos daquele calibre e com aquela experiência deveriam MESMO ter sido uma proteção contra destruição de capital.

Não que fossem super-homens para garantir os planos de negócios, mas é inaceitável que gente com 30 anos de experiência, em alguns poços que já foram da Petrobras, não tenham evitado o colapso da OGX.

Aqui também Eike tem parcela de culpa, pois retirou gerentes da Petrobras, prometendo salários superiores ao do presidente da Petrobras. Bisonho. Non sense sem limites.

Ele deveria saber que raros são os seres humanos que discutem com US$ 50 milhões. Se você oferece, pouquíssimos abrirão mão, em nome de sua reputação ou de sua consciência, para lhe provar que seus números estão errados.

Acho que essa foi a maior falha.

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11 Respostas to “Artigo de Eike Batista em “O Globo” – Uma desconstrução necessária”

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[…] que trata de tudo que eu queria dizer. Assim, mais fácil lhes recomendar sua leitura (clique aqui para […]

Também não teria recorrido ao BNDS….´ou só ao mercado de ações… Interessante que o cara se capitaliza âs custas da boa fé dos outros, infla o preço de seus ativos, pega dinheiro público sabe que lá com que garantias ( a garantia soy jo ) e o mundo é que é o culpado.

[…] que trata de tudo que eu queria dizer. Assim, mais fácil lhes recomendar sua leitura (clique aqui para […]

Portinho, o que você acha da declaração “Hoje, se pudesse voltar no tempo, não teria recorrido ao mercado de ações”?
Pra mim dá a ideia de que ele não gosta de ser obrigado a divulgar informações das empresas, como toda empresa de capital aberto é obrigada a fazer. Seria outro tiro no pé dele.
E também pode ser muito ruim para o mercado de capitais do Brasil, se outras empresas forem atrás dessa opinião.

Empresas pré-operacionais são arriscadas mesmo. Eike diz isso agora, pois deu tudo errado e ele se expôs exageradamente. Se ele não tivesse entrado no mercado de capitais, as empresas também não teriam dado certo. O fato do poço ser inviável, não mudaria se a origem dos recursos fosse outra.

Muito, muito, muito bom! O Sr. Eike é megalomaníaco. E vamos acompanhando para ver no que isso vai dar…

[]s!

Parabéns! O melhor texto sobre o eike que li nessa derrocada de seu império

Parabéns por elucidar o assunto Portinho, realmente essa entrevista mereceu uma rebatida!
Acredito que muita coisa ainda vai rolar, o Sr. X tem as costas bem protegidas, se ele se arrependeu de abrir as ações da empresa na Bolsa imagina quem acreditou no cara e comprou!

Abraços

Pontual e contundente matéria Paulo. Parabéns. Ainda bem que não embarquei no canto da sereia. Mas continuo desapontado com a performance dos papéis em minha carteira e que (ainda) dou crédito.

Esse sim é um ótimo artigo. Imparcial, transparente e sem malícias. Bem diferente daquele publicado pelo “Sr. X”.

Parabéns!

Excelente artigo, Portinho.
Abraços


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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