Lições da Islândia. A ressurreição de um país.

Posted on 02/12/2011. Filed under: Finanças |

Nobres leitores,

Tenho lido bastante sobre os desdobramentos do colapso econômico da Islândia, sempre na intenção de escrever sobre a história notável desse país. Mas não estava conseguindo.

Acabo de descobrir o motivo!

É que os últimos 5 ou 6 anos da história econômica da Islândia merecem um tratado de economia. Poucos posts num blog não fariam justiça ao episódio mais fértil para estudos econômicos de que se tem notícia.

A islândia passou por, praticamente, todos os eventos econômicos possíveis em curto espaço de tempo. Alavancagem excessiva, controle de capitais, nacionalização de bancos, acordos com o FMI, congelamento de poupanças, brigas judiciais com outros países etc.

Um pouco de história.

Sendo breve, a Islândia oferecia contas de poupança a estrangeiros, com rentabilidade muito boa em EURO. Muitos ingleses, alemães e holandeses aproveitaram essa rentabilidade, colocando suas economias nos bancos islandeses.

Mas a moeda da Islândia é a coroa… A falta de controle fez com que a dívida dos bancos islandeses superasse em muitas vezes o PIB do país. Com a crise de 2008 houve corrida aos depósitos (e outros fatores) e o país colapsou. Principalmente por questões monetárias (falta de EURO).

Há uma série de posts sobre essa época no Blog. Apesar da tristeza do episódio, eles são bem humorados. Para quem tem tempo, quer conhecer um pouco da história e dar algumas boas risadas, seguem os links:

Venezuela por um dia!

Novidades da Islândia (1)

Novidades sobre a Islândia (2)

Por que um tratado de economia?

Bom, a Islândia aplicou controle no câmbio, congelou o pagamento da dívida externa, reteve os depósitos de estrangeiros, submeteu-se ao FMI, nacionalizou bancos e… está conseguindo sair dessa!

É evidente que o país entregou muito de sua riqueza e que, provavelmente, não conseguirá recuperá-la tão cedo, porém a situação da Islândia, HOJE, é muito menos preocupante do que a de Portugal, Grécia e Espanha.

Isso porque já está em processo de solução há alguns anos, enquanto que os PIIGS ainda não entraram no processo de solução. Aliás, ainda estão na fase de “construção” do problema. Suas ações e principalmente as ações de seus pares menos endividados continuam empurrando a zona do Euro para o buraco.

Iceland Prepares First $3.3 Billion Depositor Claims Payment

Iceland May Take Next Step in Capital Liberalization Program Within Weeks

As notícias acima mostram que o país vem reorganizando sua economia e já está preparado para iniciar o pagamento das dívidas com correntistas estrangeiros. Além disso, está próximo de iniciar o processo de liberação do câmbio e de capitais, hoje controlados para evitar oscilações indesejáveis.

Alguns números interessantes:

  • Segundo o FMI a economia da Islândia deverá crescer mais do que a da zona do Euro em 2011 e 2012
  • O desemprego está em 6% contra 9,9% da média da Zona do Euro
  • A Islândia está com superávit nas contas públicas, já a Zona do Euro…

O curioso dessa história é que o FMI fez severas imposições à Islândia, porém compreende questões antes proibidas como controle do fluxo de capitais e do câmbio.

As lições da Islândia

Há muito o que estudar ainda, mas alguns pontos, em minha opinião, ajudaram a Islândia a se recuperar, ainda que parcialmente, do maior colapso financeiro que um país já sofreu:

  • Ausência total de influências ideológicas e políticas nas decisões econômicas islandesas. Ninguém fica discutindo se o câmbio será controlado para sempre ou se deve-se ou não aceitar as imposições fiscais do FMI. Não se perdeu tempo com isso.
  • O seguro contra default da dívida (CDS) da Islândia é bem menor do que o da média da zona do Euro.
  • Disciplina e um povo altamente educado.
  • Imperativo de respeito aos contratos. Mesmo sem dinheiro, a Islândia mostra querer honrar as dívidas, principalmente com os investidores individuais de outros países. Acionistas e detentores de títulos devem perder tudo, ou quase tudo, mas estavam em mercado de risco.
  • Ter moeda própria. Ter instrumentos de política monetária.

O país é muito pequeno, o que talvez favoreça a existência desses fatores, dessa homogeneidade.

Infelizmente os países sul-americanos, durante suas fases agudas de crise monetária, não podiam contar com os pontos acima, só com o último. Mas o que faziam também não ajudava.

Por isso (e por outros motivos) levamos décadas para conseguir fazer o que a Islândia pode conseguir em 5 anos (pretende abandonar o controle de câmbio e capitais em 2013). A Argentina, infelizmente, ainda não conseguiu fazer isso. Aliás, a Argentina se acerta no remédio erra na dose, se acerta na dose erra no remédio. Que pena.

Continuo torcendo para a Islândia sair dessa! Afinal, será uma saída baseada em virtudes: ética, respeito a contratos (palavra escrita) e defesa da soberania.

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6 Respostas to “Lições da Islândia. A ressurreição de um país.”

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[…] Lições da Islândia. A ressurreição de um país. […]

Obrigado Portinho,

Eu pergunto pois a diferença entre PNs e ONs está absurda, muito longe da média histórica. No caso do não acionamento do tag along para esta situação, a queda das ações ONs deverá ser grande, de modo a se aproximar novamente das ações PN.

Dessa forma, pra quem conseguir se antecipar a este movimento, poderá ter um bom ganho…

Abraço,

É um grande risco. Tanto para ON quanto para PN.

Portinho,

Tem acompanhado os desdobramentos em relação à USIM5/USIM3?

Semana passada a CVM abriu um processo para investigar a compra de 27,7% de participação do bloco de controle da Usiminas pela Ternium.

Essa investigação pretende analisar se houve mudança na estrutura de comando da empresa que obrigue a nova acionista a cumprir o tag along.

Vc chegou a analisar esta transação? Acha que caberia o tag along, ou não, como a própria diretoria da Usiminas já se manifestou dizendo que como não houve a troca de dois dos acionistas controladores do antigo bloco de controle, não tem motivo para o acionamento do tag along.

Grato,

Fabiano

Oi Fabiano,
Conversei com alguns amigos com conhecimento jurídico sobre o tema e eles disseram que o tag along não pode ser acionado.
Se for à decisão de um juiz é provável que a CVM dê parecer contrário ao tag along, por não reconhecer mudança de controle.
Em minha opinião houve mudança no bloco controlador. Não saberia dizer se, juridicamente, isso dá direito ao tag along. Mas a mudança foi substancial.
Se o juiz tiver esse mesmo entendimento, o comprador vai se dar muito mal.


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    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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