A Itália e a invenção da “Chamada de Margem” política e social

Posted on 08/11/2011. Filed under: Finanças |

Nobres leitores. Vivemos uma era de rara velocidade.

Dada a perigosa crise fiscal e financeira na Eurozone, não há tempo para digerir os efeitos políticos e sociais das demandas dos mercados globais e das instituições reguladoras supranacionais.

Ontem Portugal recebeu uma missão do FMI para fiscalizar suas contas. Hoje Berlusconi vai enfrentar uma batalha no parlamento que pode lhe forçar ao caminho da renúncia. Veja aqui.

São economias em estágio moderado de putrefação. Já a Grécia, é um quase-cadáver.

Não quero discutir nesse post as culpas históricas, a incompetência dos dirigentes, as festas de Berlusconi com Ronaldinho Gaúcho (será?) e/ou questões óbvias ululantes.

Escrevo, pois acho que vale levantar derivações importantes desses últimos acontecimentos, que passarão despercebidas enquanto houver pressa e medo. Depois, certamente, haverá muita discussão sobre os efeitos inéditos dessa crise na soberania dos países.

“Se Berlusconi cair, pessoas como eu começarão a olhar para a Itália novamente”

A frase acima foi dita por um gestor do ING ao The Hague. Em todos os jornais de economia e finanças, diz-se que é vontade do mercado que Berlusconi saia, para dar lugar a alguém que possa implementar as reformas exigidas pela UE. “The market´s bias is fairly clear”, afirma outro estrategista, agora do RBC Capital Markets.

Assim como na Grécia deve assumir Papademos, homem de confiança do UE, ex-VP do Banco Central Europeu e em Portugal o poder fiscalizatório já não é mais função parlamentar, mas do FMI, na Itália outro egresso de organismos multilaterais europeus, Mario Monti, pode assumir o governo. Para o Brasil, contanto que não seja Paolo Rossi, tudo bem (brincadeirinha…)

O frase título desse subtópico é comum. Imagino que muitos investidores digam isso todos os dias, seja em referência a países ou a empresas. Porém, hoje em dia a pressão do sistema financeiro é mais forte do que a vontade dos povos. Muito mais forte, a ponto de exercer poder de forma quase imediata. Em países democráticos a substituição de um governo pode levar anos e, normalmente, ocorre nas urnas. Já nessa nova era…

Chamada de Margem

Em linguagem de mercado, os PIIGS “venderam” seu equilíbrio fiscal a descoberto, para entrar e fazer parte da Eurozone. Deixaram para “acertar” as contas e “entregar” esse status de equilíbrio nos anos seguintes à instauração da moeda única.

Mas, ao contrário do que ocorre com vendas a descoberto na nossa bolsa, não houve “chamadas de margem” diárias (ou periódicas) para evitar o colapso do investimento (entrada na zona do Euro).

Agora, ao que parece, o mercado exige “chamadas de margem” políticas e sociais.

O país só vai evitar o colapso financeiro se entregar “margens” sociais (queda de salários, demissões no funcionalismo público, corte de pensões, aumento de idade mínima para aposentadoria, repressão a movimentos contrários às medidas etc.) e políticas (indicar e manter em posições de comando, políticos de confiança da UE, do ECB, do FMI e, em última análise, do sistema financeiro internacional).

São tempos notáveis.

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12 Respostas to “A Itália e a invenção da “Chamada de Margem” política e social”

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[…] A Itália e a invenção da “Chamada de Margem” política e social […]

Portinho, já havia adquirido seu livro: “O Mercado de Ações em 25 Episódios” que penso ser definitivo para investimentos em bolsa. Agora, vejo seu outro livro: ” Quanto Custa Ficar Rico”. Sinto que você aborda com propriedade o mundo do investidor, de forma tangível. Espero que se anime compor o rol de palestrantes em finanças.
Parabéns!

Oi Celebrini,
Agradeço as palavras generosas.
Esse segundo livro é realmente importante, pois oferece um “sistema de valores” que permite às pessoas, todas, buscar e atingir a riqueza. É uma “cultura para a riqueza” que o livro propõe.
Não importa se o investidor vai usar todos os instrumentos do livro, mas se ele pensar como proposto no texto, já será um grande passo rumo ao enriquecimento.
Riqueza não é consumo de bens e serviços de luxo. Salário alto não é sinônimo de riqueza. Essas “confusões mentais” atrapalham tanto os que têm muitos recursos, quanto os menos providos. Os primeiros por fazê-los acreditar que são ricos, quando, na realidade, são predadores do próprio patrimônio, os outros por ilustrar como RIQUEZA algo que está fora dos seus planos.
Abraço,
Portinho

Caro Portinho, bom dia!

Você acha que a ingerência do governo na Petrobrás, Vale e Banco do Brasil pode afetar o crescimento destas empresas e, se sim, em que grau, sempre com vistas ao longo prazo?

O BB foi o primeiro (e único) banco a baixar sua taxa de juros, recentemente, num claro exemplo da situação citada.

Seria o caso de começar olhar para seus pares no mercado?

Gostaria, se possível, de saber sua visão desta situação.

Oi Celebrini,
Ingerência governamental sempre existirá, o que varia é o grau e a forma. Ela pode se dar através de leis ou através de política. No caso das leis, é comum a todos os países. No caso da política é ruim, pois o investidor não conhece os bastidores.
Mas o mercado é sábio (algumas vezes, hehehe) e costuma “descontar” essa ingerência política, ou seja, as empresas que sofrem com isso costumam ter múltiplos menores do que os de seus pares.
Nos cursos do Método INI mostramos isso com clareza ao comparar empresas do mesmo setor.
Mas o mais importante é saber que a ingerência sempre há, maior ou menor, aberta ou velada, pois as nações costumam usar sua soberania para definir os rumos da economia.
Se bem que, hoje em dia, a economia é que está ditando o rumo das nações! Vide a Eurozone.

E aí Portinho, td tranquilo?

Me diz uma coisa, vc já analisou o balanço da FJTA? Vc ainda tem ela? Me pareceu muito obscuro os dados apresentados…

Se não fossem R$ 40 milhões via diferimento de impostos, o lucro líquido seria negativo! E não falam nada a respeito de onde veio esse diferimento..

Pelo lado bom, achei o anúncio da descontinuidade da operação Máquinas-Ferramentas.

Abraço, Fabiano

Grande Fabiano!
Escrevi um pouco sobre o assunto. Está muito ruim, mas contornável.
Seria mais prático se fosse vendida ou se algum outro grupo, mas jovem e dinâmico, assumisse o controle.

Boa frase, Portinho, “são tempos notáveis”…

Interessante como nossas projeções podem estar erradas. E como a futurologia pode ser divertida e desastrosa. Há alguns anos atrás, quem poderia imaginar que a Europa entraria numa draga dessas?

Aguardemos os próximos capítulos…

Excelente Visão EuroZone!!!, Paulo Portinho. Os Países Zona do Euro: Portugal, Itália, França e Inglaterra.Tem cair na Real que o seu Status de Exploradores e conquistadores Mundiais. Ficarão arquivado na Gloria do seu passado e nas páginas da suas histórias.Amém!
Portugal sendo o Pai do nosso Brasil. Verás que um filho teu jamais foges a lutas!!!l
Parabéns!

Caro Portinho, sei que são perguntas complicadas, mas, se possível, gostaria de ter sua opinião:

1- Até quando demoraria para a Eurozone se reequilibrar e voltar a crescer, mais precisamente, até quando esta crise segurará as bolsas que têm andado de lado nos últimos anos?

2- Em relação à Bovespa, até que pontuação você pensa que pode cair (qual o fundo do poço) para depois retomar o crescimento e também se você arriscaria algumas ações para o longo prazo?

Abraços e obrigado pela atenção.

Oi Celebrini. São questões difíceis mesmo.
Quanto à Eurozone, a questão fiscal permanecerá por longos anos, mas a questão financeira, de financiamento da dívida, talvez tenha desfecho mais rápido. Nesse caso, quanto mais rápido mais desastroso, porém o retorno também viria antes. Minha opinião é de que vai piorar ainda, antes de melhorar.
O índice Bovespa não costuma me preocupar muito, pois utilizo o método INI para selecionar minhas ações e, para a maioria delas, os lucros estão crescentes. O preço não acompanhou, mas os fundamentos estão legais.
Em termos de múltiplos, fizemos um estudo aqui no INI que indica que os 29.000 que o IBOV atingiu em 2008 seria, em termos de lucros de hoje, algo entre 42.000 e 45.000 pontos. Mas isso não garante que o fluxo não derrube ainda mais.
Nessas horas é importante o investidor tem um método para avaliar as companhias em que investe. Além disso, quanto mais ele se movimenta, mais chance tem de sair chamuscado da crise.

Ok.
Obrigado pelos esclarecimentos que, creio, serve para todos os investidores nesse momento.
Quanto mais estudo, mais vejo que, como você disse no livro, a forma mais sensata (e simples) de sobreviver, tendo bons resultados, na bolsa é mesmo o método INI.
Mais uma vez obrigado pela atenção dispensada.


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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