“A Grécia não é mais um país” ou “Deixe-me ser pobre em paz!”

Posted on 07/11/2011. Filed under: Finanças |

Os episódios recentes ocorridos na Grécia valem por uma viagem no tempo, por décadas, em alguns poucos meses.

Os estudantes de economia, principalmente aqueles que não viveram a fase precária das contas externas brasileiras, têm uma rara oportunidade de ver a deterioração de um país e a entrega quase absoluta de seus instrumentos de soberania a organismos internacionais.

O que resta à Grécia, como instrumento de afirmação de soberania?

  • Política monetária? Isso não é possível num regime de moeda compartilhada.
  • Política fiscal? A única possível é aquela definida pelas exigências do resgate.
  • Democracia e livre escolha de seus dirigentes? Renuncia quem atrapalha o bailout, entre quem estiver afinado com os economistas da zona do Euro.

Como é possível, nesse momento, tratar a Grécia como um país soberano?

Lembram da gritaria “Fora FMI”, nos 494 anos pré-Real, aqui em Vera Cruz?

A interferência do FMI, perto do que ocorre na zona do Euro, se assemelharia a tentar invadir os Estados Unidos com L´Armata Brancaleone. Nem faria cócegas, no máximo mataria dois ou três Mariners e tanto rir.

Branca, Branca, Branca! Leon, Leon, Leon!

O nível de ingerência do “Estado do Euro” no Estado Grego é semelhante ao imposto a nações derrotadas em guerra. Só falta dissolver o exército e cobrar pelos danos em batalha. Bom, a cobrança até que está sendo feita…

A Culpa e o Dolo

Daria para escrever 15.000 páginas para relatar o desleixo e o descaso com que a Grécia conduziu seus primeiros anos de Euro. Um país, outrora pobre para padrões europeus, compartilhava então a mesma moeda dos primos ricos do Norte. Não deveria surpreender que o país não tivesse preparo histórico, econômico e cultural para lidar com essas novas condições.

No caso da Grécia, pelo populismo barato de alguns dirigentes e pela síndrome do “sapo cozido” de seu povo, há culpa e há dolo.

Mas pelo avançado estado de putrefação em que se encontra a economia grega, há também culpa e dolo por parte das instituições “mantenedoras” da estabilidade do Euro. Só a completa ausência de olfato para não sentir o cheiro do azeite apodrecendo ao sol de 400 graus ou do insuportável odor de 120% de relação dívida/PIB ou ainda, se preferir, de 16% de déficit fiscal.

E não foi o caso. Não foi falta de olfato. Foi opção. A crítica maior ao estatutos do Euro diz que criaram ótimas regras, porém não previram punições claras e tempestivas aos membros que não as cumprissem.

Por que chegamos a esse ponto, se os sinais da tormenta sempre estiveram claros?

Ser pobre em Euro é muito difícil!

Era difícil entender que Jorginho Guinle estava pobre, vendo-o todos os dias tomando whisky no Copacabana Palace. É muito difícil ser pobre e Jorginho Guinle ao mesmo tempo!

A natureza da nação grega não é compatível com o Euro. Melhor dizendo, ter a Grécia e a Alemanha com a mesma moeda é uma anomalia econômica que ainda precisa de muito estudo para ter seus efeitos compreendidos.

A riqueza e a pobreza são conceitos relativos. Falando sem cuidados metodológicos, pode-se dizer que a inflação nos torna mais pobres em relação a nós mesmos. A desvalorização do câmbio nos torna mais pobres em relação aos outros.

Essas coisas acontecem quando um país toma medidas econômicas infelizes. Aliás, a Argentina é um bom exemplo. A inflação, que dizem ser maior do que oficialmente falado (e deve ser mesmo, basta voltar lá a cada 2 anos), destrói o poder aquisitivo do Argentino para comprar seus próprios bens e a desvalorização cambial torna os bens importados cada vez menos acessíveis. E isso evita que o colapso chegue rápido. Talvez nem chegue.

As respostas “de sistema”, infelizmente, não estão disponívels para a Grécia. Não há como a Grécia experimentar a “pobreza” que adviria, naturalmente, de suas atitudes perdulárias e fiscalmente irresponsáveis.

Isso porque, ao compartilhar a moeda com outros 16 países, não há como ter inflação exclusiva, nem como ter desvalorização cambial.

Não faz sentido que um litro de coca-cola suba 50% em Euro na Grécia e não na Itália ou na Eslovênia.

A única forma de agir é não-natural. Marretando as fontes de “riqueza”. Salários, benefícios, direitos, pensões e outras rendas da população grega.

É pena que seja assim, mas é o que está acontecendo. Se não é possível ajustar o poder aquisitivo pela inflação alta e câmbio desvalorizado, não há outra alternativa de curto prazo que não seja achatar na marra a renda.

A Grécia deve quase US$ 500 bilhões. Não é problema exclusivo dela, é de todos.

A Grécia será ajudada (deverá ser) se ficar ou se sair do Euro. É caro demais um default desordenado. O ultimato de Sarkozy-Merkel não terá efeitos práticos. A Grécia será ajudada de qualquer jeito. Se sair do Euro, ao menos, não será mais problema no futuro. It´s an one-time bill.

Don´t shoot me. I´m only the piano player!

Sei que o Euro é um sonho para muitos europeus. Um sonho de integração, de unidade, de paz. Sei também que o que escrevi não é muito favorável à moeda única e que isso pode gerar animosidades e deixar alguns leitores valiosos do blog um pouco contrariados. Lamento se o texto causou qualquer mal estar nesse sentido.

A leitura de sites de economia, no Brasil e no Exterior, mostra já um ceticismo muito grande com relação a “soluções reais” para os desequilíbrios na Zona do Euro. Já é comum ver economistas não alinhados (sem compromisso com o main stream, sem medo do erro) indicando que a Grécia não deveria continuar na Zona do Euro. Nos EUA a literatura nesse sentido é farta.

As soluções não naturais estão sendo testadas, mas, acredito, que só se tornarão estáveis por caminhos longos e dolorosos. Longo será o tempo para ajustes fiscais e dolorosas serão as consequências na riqueza das nações e dos povos da Zona do Euro.

São tempos difíceis.

Ps. O Incrível Exército de Brancaleone é um filme imperdível. Se não viram, procurem (R$ 1,99 nas Lojas Americanas, provavelmente). Se já viram, vejam de novo. Mario Monicelli criou o Don Quixote do cinema.

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5 Respostas to ““A Grécia não é mais um país” ou “Deixe-me ser pobre em paz!””

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[…] “A Grécia não é mais um país” ou “Deixe-me ser pobre em paz!” […]

Olá, Portinho.

Boa tarde!

Podemos publicar esse texto na nova ADVFN InvestMais?

Gostaria de continuar contando com a sua colaboração na nova revista.

Um forte abraço,
Francisco Tramujas

Oi Francisco,
Pode sem problemas.
Se precisar de algum texto específico, estamos por aqui!
Abraço,
Portinho

Parabéns pelo texto Portinho. Muito sereno e objetivo. Rafael

Oi Rafael,
Obrigado pela visita!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

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    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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