Dívida Grega: Erros que parecem acertos…

Posted on 17/10/2011. Filed under: Finanças |

Caros leitores,

Acabo de voltar de uma viagem a Moçambique para visitar uma mina de carvão da VALE.

É bom ter contato com a “vida real” da economia, com a perspectiva de desenvolvimento econômico, social e humano que um trabalho competente e bem feito pode trazer.

Nada a ver com CDS, CDO, SIV etc…

A viagem rendeu muitas conversas com analistas experientes, do Brasil e do Exterior, e alguns insights.

Enquanto estive fora a bolsa se recuperou bastante, batendo mais de 55.000 pontos. Nesta segunda feira, primeiro dia útil aqui no Pindorama, já está desabando 2,5%…

Mas fiquem tranquilos, eu não sou o culpado. Se fosse, vocês já estariam comprando minha passagem só de ida para Maputo…

E eu iria!!!

Escrevo esse post para abrir o debate sobre um componente perigoso dessa “nova” crise.

O porta-voz da comissão de finanças do parlamento alemão acaba de dizer que “os bancos precisam aceitar as perdas com títulos gregos de forma voluntária”.

Leiam aqui.

Well, well, well…. Não há nada mais sem sentido do que essa afirmação.

Há uma idéia FALSA de que os bancos deveriam pagar pelo efeito devastador que sua alavancagem exagerada causou ao mundo em 2007-2008, pois os executivos ganharam, e continuam ganhando, rios de dinheiro.

A idéia é falsa porque BANQUEIRO não é BANCO.

Enquanto as potências européias, perdidas como crianças de 8 anos em MBA´s de contabilidade, confundirem essas coisas, não vai funcionar.

Cortar as remunerações multimilionárias, os bônus, aumentar a tributação sobre a renda etc., pode até criar problemas motivacionais, mas não impactam negativamente os balanços dos bancos (não diretamente, nem imediatamente).

Mas pedir à instituição que assuma perdas “voluntariamente” sobre um ativo que os bancos não comprariam se não fosse a exigência dos governos, é uma resposta típica de uma criança de 8 anos explicando o que é “Balanço Patrimonial” ou “Índice de Basiléia”.

Os bancos somos todos nós

Independente da ação dos executivos, por pior que seja ou por mais gananciosa que seja, os Bancos, em última análise, somos nós. É nosso dinheiro, nosso crédito, nosso investimento, nosso seguro, nossa aposentadoria etc.

A saúde dos bancos é fundamental para a manutenção dos sonhos e para a viabilidade da vida dos habitantes de países desenvolvidos e emergentes, da forma como nós conhecemos. Não é possível imaginar até onde iria o retrocesso econômico no caso de um colapso bancário.

Durante a crise de 2008, para evitar o “moral hazard”, Hank Paulson mirou em Dick Fuld, acertou no Lehmann Brothers e espalhou dezenas de bilhões de dólares em baixas contábeis para todo o mundo.

Dick Fuld merecia, mas quando o banco paga, todos aqueles que não mereciam pagam junto!

Bancos não têm a mesma estrutura contábil de Estados

Assumir uma perda de US$ 50 bilhões no balanço funciona para Estados, para Nações e até para empresas operacionais, mas é potencialmente destruidor para os bancos.

Os bancos trabalham alavancados, com um passivo 10, 15, 20 vezes maior que seu patrimônio. Qualquer ação abrupta de write-down (baixa contábil) pode deixar um banco insolvente, ao menos do ponto de vista dos índices de alavancagem recomendados.

Isso não vai longe

Jogar para a torcida e tentar trazer os bancos para “pagar a conta” junto com os Estados, é uma história de vida curta e fim dramático. Os bancos não têm condições de sustentar o Euro, não têm condições de financiar déficits fiscais monumentais. Nunca foi essa a função dos bancos. Isso é função dos governos.

Governos ruins e incompetentes levam a elevados déficits e tornam sua população mais pobre. No caso da zona do Euro, há um encadeamento de nações, ligadas pela moeda única. A solução natural do sistema é o empobrecimento da região. Mas nenhum alemão quer ficar menos rico para que a Grécia não exploda. Esse é o único caminho natural, mas a política vai evitá-lo até o fim, até o colapso.

Por fim… o erro

A prova maior de que a condução está errada é a declaração acima indicada. Ou existe técnica e rigor contábil para os balanços ou existe o “voluntarismo”.

Por que que os bancos deveriam provisionar uma perda de 50% nos títulos gregos voluntariamente, em vez dos atuais 21%? Por que isso não é feito com uma medida de risco amplamente aceita?

Por que 50% e não 60% ou 100%? Ou 32,4%? Que técnica contábil é essa? Lei de Bicks? Lei de Schultz?

Os países estão errando há mais de uma década. As soluções são paliativas, sempre tentando consertar os efeitos e não as causas.

Os ciclos econômicos são naturais e quando o sistema está indicando o empobrecimento de um povo, não adianta lutar contra isso adiando e chegada desse “empobrecimento”. É melhor aceitá-lo, entender suas origens e buscar sair de seus efeitos, ATACANDO AS CAUSAS. Dá para ministrar alguma morfina para reduzir os efeitos, mas não se pode deixar de lado o tratamento da doença em si.

No segundo Oil Shock os países desenvolvidos fizeram severa restrição ao crédito e passaram alguns anos de aperto. Depois foram quase 2 décadas de prosperidade. O Brasil expandiu o crédito e passou quase duas décadas sem crescer.

A natureza é clara. O organismo está doente. E os médicos são formados em Ciência política, não entendem lhufas de medicina, nem de economia.

E nesse caso não adianta chamar o Dr. (White) House!

Como ele diria: Everybody lies!

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9 Respostas to “Dívida Grega: Erros que parecem acertos…”

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[…] conta do meu último post (Dívida Grega: Erros que parecem acertos…), recebi alguns comentários duros, porém honestos e […]

OLÁ PORTINHO,

DENTRO DESSE QUADRO DE MEDIDAS POLÍTICAS PARA RESOLVEREM PROBLEMAS ECONÔMICOS E DE UMA MASSA DE POLÍTICOS EUROPEUS QUE TOMAM DECISÕES CADA VEZ MAIS TARDIAS E POUCO EFICAZES, COMO VOCÊ AVALIA OS RISCOS PARA O SISTEMA BANCÁRIO BRASILEIRO?

UM FORTE ABRAÇO,

MARCELO KASTRUP

Oi Marcelo,
Em termos de contaminação, não vejo grandes impactos. Porém, em termos de queda na bolsa já vimos que os bancos por aqui sofrem menos, mas sofrem.
Tenho preocupações quanto à dívida externa dos bancos. Com essa elevação do dólar, pode ser que alguns bancos registrem queda nos lucros, por conta dessa captação externa. Veja:
http://www.valor.com.br/financas/1016232/divida-externa-sobe-para-us-3042-bilhoes-em-agosto
Também me preocupa o fato de os bancos privados estarem ampliando muito a provisão para devedores duvidosos e os públicos não. É estranho.
Vamos esperar os balanços do 3T11. Já deverá aparecer algum contágio por conta da elevação do dólar. A não ser que os bancos estejam protegidos por hedge.

Os créditos registrados no Balanços dos Bancos em ativo realizável com um retrato de lucros, mas realmente tóxicos induzindo pelos governos, distorções, e agora, como vai resolver ? estatizar os Bancos, ou transferir os créditos p/ o tesouro dos países ?
Na minha opinião, os povos não tem culpa da situação caótica, e sim os governantes irresponsáveis pelas dívidas públicas, e ficam se fazendo de doente e apoiado nos “planos de saúde” ou seja, chama-se países desenvolvidos da Zona Euro com a maioria c/ triple “A” prontos para sustentar os outros governos relapsos e no mínimo incompentente, então cadê o fim ???

Oi Aloíso,
Não é fácil. Infelizmente os bancos se apóiam na idéia de que os governos vão salvá-los a qualquer custo, e é uma idéia que se verifica. Realmente vão fazê-lo. Não é uma idéia moralmente correta, mas é pragmaticamente correta. Não há outra opção.
O Euro espalhou irresponsabilidade em muitos governos, baseados no fato de que os riscos monetários haviam ficado equivalentes. Não é um nó simples.
Se tivesse que fazer apenas uma aposta, diria que em no máximo 20 anos o Euro não mais existirá.
E ficaria torcendo para perder…

Portinho…eu geralmente leio seus post com muita atenção e respeito…e antes de mais nada quero afirmar que não tenho nada de alguém com mente socialista ou revolucionaria …portanto faço parte daqueles que defendem o sistema capitalistas …mas eu teve que reler umas 3 vezes seu post para tentar entender …e fiquei abismado com o que escreveu…vou dizer porque …
Sou Francês e vivo no Brasil ha 35 anos agora , mas fico muito ligado a mãe patria , e venho acompanhando os problemas financeiros enfrentados pelos paises europeus dia após dia .Inutile de dizer que , como você não concordo com a declaração do ministro alemã mas por razões opostas .O que os governos da europa estão dizendo aos bancos não tem nada a ver com o fato dos dirigentes ou traders terem ganhos muito dinheiro no passado ou no presente , tem a ver com a completa irresponsbilidade do setor bancario a nivel mundial , que empreste dinheiro a que sabidamente não podera pagar e depois se voltam para os governos para eles pagarem a conta …é disto que se trata .Só para lembrar , dividas de paises soberanos são refinanciadas por bancos que cobram cada vez mais caro por isto e que depois inundam o mercado de papel de securitizaçao destes emprestimos , e isto a taxa de lucros cada vez mais elevadas .Foi o que aconteceu com os sub prime americanos e é a mesmissima coisa que esta acontecendo com os bancos europeus .Quando a Grecia quis entrar na CEE , a Alemanha foi radicalmente contra pelo fato da Grecia não ter as estruturas economicas capaz de se adequar ao resto da europa …ou seja desde o inicio se sabe que a Grecia não tem condição de , por exemplo , recolher impostos devidos e de controlar a immensa corrupçaõ que assola o pais .Mas apesar disto bancos se permitiram de emprestar cada vez mais dinheiro á Grecia tendo em vista as pulposas remuneração deste tipo de emprestimo…na realidade os dirigentes dos bancos sempre pensaram que na hora H , seria possivel se virar contre os estados da União para cobrir o default do pais .O que os governos estão dizendo é que estão de acordo para ajudar o sistema financeiro , mas na altura de 50% do que este engajou….
Dizer que o dinheiro dos bancos é dinheiro nosso e que os estados devem se responsbilizar por isto , quer dizer que dinheiro pago pelos impostos não é dinheiro nosso ?? Os estados vão tirar o dinheiro de onde se não de impostos …e o que os cidadoes tem a ver com a irresponsbilidade de alguns dirigentes avidos por ganhos facilemente obtidos …e isto não tem nada a ver com regras contabeis ou balanço …tem a ver com responsabilidade ….
Como avaliaria um fabricante de automovel que fabricaria centenas de milhares de carros e os venderia nas favelas a pessoas que sabidamente não tem condiçaõ de pagar ?? pensando que depois , quando as pessoas de fato não pagar , se voltaria para o governo dizendo que se não pagar ,ele , que emprega milhares de pessoas, ira fechar as portas .Ai derepente o governo aceita assumir 50% da conta e alguém dizer que estes governos não entendem nada de balanço porque senão saberiam que 50% é insuficiente , e porque não 31 …etc….??
O fato é que o mundo inteiro esta cansado de ver bancos no mundo inteiro fazer o que bem entender e quando suas operações saem erradas. tentam “socializar ” as perdas …tem que parar …alguém va ter que pagar a conta .O que os governos estão dizendo é que eles estão de acordo para pagar 50% mediante uma revisão do funcionamento do mundo financeiro pelo menos a nivel da Europa…porque falar dos 50% fora do contexto também não vale …alem de ter que assumir 50% do default de seus cleintes os bancos vão ter que respeitar novas regras que tentaram impedir que isto aconteça de novo no futuro…um banco de varejo não é uma hotel de apostas e parece que o mundo financeiro se esqueceu disto….
vamos acompanhar o desenrolar disto , mas pode se antever que o mundo ira viver uma recessão nos próximos anos que sera a consequncia da irresponsabilidade dos dirigentes de bancos em emprestar a quem não pode pagar …tanto nos USA com os sub prime quanto na europa com as dividas soberanas como no Brasil com os emprestimos concedidos por bancos sem a minima avaliação da capacidae de pagamento dos contemplados ….
E isto nada tem a ver com o saber ler o balanço de um banco….
Espero que ira perdeor minha peroração , mas não podia deixar passar o que me pareceu uma visão enviesada da realidade do problema …..
existe mais um ponto que não se pode esquecer …certos governos também emprestaram á Grecia e Portugal …e alèm da conta dos bancos vão ter que arcar com estes emprestimos podres ….muita coisa para assumir …e que sera pago pelos povos destes paises …..e são provavelmente as mesmas pessoas que vaõ pagar os impostos que tem o dinheiro nos bancos em questão….

Oi Roger,
Como sempre seja bem vindo ao blog. Li com bastante atenção suas colocações e acho que estamos falando da mesma coisa, porém com “expectativas” diferentes. Escrevi um novo post sobre isso. Agradeço a visita e o longo comentário. Demonstrou que você realmente gosta do blog e se importa com as coisas que escrevemos aqui.
Obrigado mesmo.

Oi Roger,
Em resposta ao outro comentarista do blog percebi que não deveria ter tratado com ironia as atitudes dos governos europeus. O post inicial, que deveria ser técnico, acabou parecendo opinativo e depreciativo. Não era minha intenção. Continuo acreditando na idéia de que o sistema bancário deveria ser saudável para nos servir, mas compreendo que os dirigentes estão enfrentando, além de sua própria inépcia, um tremendo “moral hazard”. Talvez as atitudes deles, no futuro, melhorem o sistema bancário e tornem a “festa” dos banqueiros mais restrita. Vamos torcer para que acertem. Forte abraço!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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