Corrigindo outros equívocos: Dollar Cost Averaging x Lump Sum Investing

Posted on 14/07/2011. Filed under: Finanças |

Investir regularmente (Dollar Cost Averaging – DCA) ou de uma só vez (Lump Sum Investing – LSI)

Sempre que posto algum artigo, sempre fundamentado e transparente, pois divulgo a origem dos dados, a metodologia e todas as contas, surgem comentários em blogs e fóruns, alguns bem depreciativos.

A divergência, quando educada e fundamentada, é o que me faz refletir e crescer. E fazer contas.

Aos defensores do investimento em bolsa de uma só vez (LSI) e aos detratores do investimento regular, cabe pontuar as diferenças psicológicas e pedagógicas entre os métodos. Depois volto com as contas e divulgo a planilha com os resultados.

Quais as vantagens que o DCA apresenta em relação ao LSI?

Bolsa não se aprende por teoria, apenas na prática

O iniciante, ao optar por colocar um dinheiro relevante na bolsa de uma só vez, queima muitas etapas necessárias à sua formação como investidor.

Aprender sobre os mecanismos da bolsa e das operações mais simples, tê-los dominados, leva de 3 a 6 meses.

Aprender sobre os ativos em que investe (empresas), ter intimidade com eles, com os números, é coisa para 1 a 2 anos.

Isso sem falar em sofisticações e derivativos etc.

Ao utilizar o DCA ele terá o tempo necessário, sem expor um capital relevante.

Vantagem didática e pedagógica para o DCA.

Leva tempo para descobrir seu perfil

Essa é outra revelação que leva tempo e requer experiência. Qual o seu perfil como investidor? Como pode colocar todo o dinheiro (ou muito) de uma só vez se nem sabe quais serão suas reações às peculiaridades da renda variável?

Mais uma vantagem do DCA, dar-lhe tempo para se descobrir.

Síndrome da perna-trocada

Diz-se em bolsa que o investidor “trocou as pernas” quando compra na alta e vende na baixa. Pois é essa a experiência da esmagadora maioria dos investidores iniciantes que utilizam o LSI (colocam um dinheiro relevante de uma só vez).

E não é culpa do LSI, mas da própria formação psicológica dos indivíduos. O sentimento natural é querer muito entrar na bolsa quando esta está em alta e querer muito vender quando desaba.

Seu amigo ganhou dinheiro, um vizinho ganhou dinheiro, seu cunhado ganhou dinheiro. É nessa hora que todos pensam em entrar. Isso é facilmente verificável pela quantidade de novos investidores entre 2006 e 2008. Mais que dobrou o número de investidores na bolsa.

Quando desaba, todos querem sair e lamentam não ter saído antes. De 2008 até hoje, julho de 2011, a bolsa tem, praticamente, a mesma quantidade de investidores.

Até o investidor conseguir modificar esses valores e essa percepção, ou seja, sentir vontade de entrar quando cai e não quando sobe, lá se vão alguns anos de experiência e, principalmente, de mudança cultural, de valores.

Experiência e cultura que 300.000 novos investidores não tinham quando colocaram dinheiro relevante na bolsa entre 2006 e 2008.

Vantagem psicológica para o DCA!

Formar patrimônio X Gerir patrimônio

Bem, esse último item já separa de forma irreversível as técnicas LSI e DCA.

DCA é adequado para quem quer formar patrimônio ao longo dos anos. Aquela pessoa que não tem recursos relevantes, mas quer, aos poucos, construir patrimônio e ter uma renda para compor sua aposentadoria.

Para esse perfil, que é o perfil da maioria da população brasileira (excluindo devedores contumazes), não existe a opção do LSI. Não existe investir de uma só vez R$ 10.000, R$ 20.000, R$ 100.000. Existe apenas R$ 200, R$ 300, R$ 50 por mês.

Para quem tem dinheiro, a decisão é de gestão e não de formação. Mas mesmo essa pessoa vai precisar pagar todos aqueles “pedágios” de experiência, caso seja iniciante em bolsa de valores.

Fazendo contas sobre LSI e DCA

Partindo da premissa que a bolsa, no longo prazo, tende a subir, o LSI seria melhor do que o DCA, ou seja, colocar todo o dinheiro de uma só vez seria mais lucrativo do que dividir os aportes.

Os sites alegam que isso ocorre em 2/3 dos períodos. Ou seja, em 2/3 dos meses o LSI ganharia e em 1/3 o DCA ganharia.

Fiz as contas e essa realidade também se verificou no Brasil de janeiro de 1998 a junho de 2011. Não dá exatamente 1/3, a divisão é 41% (66 períodos em 162 possíveis) com ganho para o DCA e 59% onde o LSI teria melhor retorno.

Ver resultados completos AQUI.

Sem considerar as vantagens psicológicas e didáticas aos iniciantes, há uma consideração estatística que neutraliza essa vantagem que o LSI levaria sobre o DCA.

A mais simples de todas: RISCO.

O Risco é uma medida baseada na volatilidade de uma variável.

E a regra mais simples das finanças é que a relação entre risco X retorno é diretamente proporcional. Quanto maior o risco, maior deverá ser o retorno.

Ao assumir um comportamento de maior risco, é razoável esperar um retorno maior, mas também há possibilidade de perdas maiores.

Veja o gráfico da rentabilidade do DCA e do LSI ao longo dos 162 meses:

Não há qualquer dúvida de que o risco do LSI é muitíssimo superior ao do DCA.

E a pergunta que resta é: O maior risco, compensa o maior retorno?

A matemática e a estatística podem modelar isso e responder, para um determinado conjunto de dados, se o retorno compensa o risco.

Mas o ponto do artigo não é esse. E, acredito, já deve ter ficado claro o suficiente até aqui.

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7 Respostas to “Corrigindo outros equívocos: Dollar Cost Averaging x Lump Sum Investing”

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[…] Corrigindo outros equívocos: Dollar Cost Averaging x Lump Sum Investing […]

Fale amigo, tudo bem ?

Parabéns pelo artigo. Vc chegou a ler o livro do Prof. Michael Eldleson “Value Averaging” ? O autor propõe um método de acumulação (VA) de resultados um pouco superiores ao DCA, além de colocar algumas dicas para aumentar os retorno das estratégias de DCA e VA no longo prazo.

abç

Oi Sergio, não li. Se você quiser postar aqui nos comentários as dicas do autor, vai ser muito bem vindo.

O livro me pareceu bom, a idéia simples e poderosa: ao invés de uma metralhadora fazendo aportes idênticos em intervalos regulares, mirar no valor total como um alvo móvel onde se deve dar poucos tiros certeiros! 😉
Pretendo rodar algumas simulações para testar a estratégia.
Tb sou do time que gosta de duvidar primeiro para acreditar depois!
Aliás, parabéns pela iniciativa de publicar estudos na linha Damodaran, com dados reais, parâmetros plausíveis e hipóteses testáveis. A postura científica de apresentar trabalhos com a intenção de submetê-los a crítica é raríssima por estas bandas, quase um sacrilégio. Coisa de gringo!
Incrível como todos gostam de lançar hipóteses a torto e a direito mas ninguém se dá ao trabalho de verificar. O ditado por aki devia ser “Pra que prevenir se remediar é mais legal?” ou então “Como posso apagar incêndios se o circo não pegar fogo?” 😉
Brasileiro não gosta ciência, prefere o achismo; despreza a determinação, prefere a sorte.
Afinal, ganhar o torneio por antecipação com um placar de “110 X 55” é um insulto, uma humilhação, falta de humildade, fim de papo!
Coisa mais sem graça!
Legal é fazer gol de canela e impedido aos 18 minutos do 2º tempo da prorrogação contra a melhor campanha depois de ter se salvado na repescagem pelo saldo de gols! Isso sim é que mostra a sua malícia e a sua raça!

O livro me pareceu bom, a idéia simples e poderosa: ao invés de uma metralhadora disparando aportes idênticos em intervalos regulares, mirar no valor total como um alvo móvel onde se deve dar poucos tiros certeiros! 😉
Pretendo rodar algumas simulações para testar a estratégia.
Tb sou do time que gosta de duvidar primeiro para acreditar depois.
Uma planilha com dados do mercado brasileiro seria legal!
Aliás, parabéns pela iniciativa de publicar estudos na linha Damodaran, com dados reais, parâmetros plausíveis e hipóteses testáveis. A postura científica de apresentar trabalhos para serem refutados é raríssima por estas bandas, quase uma ofensa. Daí talvez as respostas mal-criadas daqueles que não gostam de atacar argumentos, mas pessoas, não acha?
Incrível como todos gostam de lançar hipóteses a torto e a direito mas ninguém se dá ao trabalho de verificar. O ditado por aki devia ser “Pra que prevenir se remediar é mais legal?” ou então “Como posso apagar incêndios se o circo não pegar fogo?” 😉
Brasileiro não gosta ciência, prefere o achismo; despreza a determinação, prefere a sorte.
Afinal, ganhar o torneio por antecipação com um placar de “110 X 55” é um insulto, uma humilhação, falta de humildade!
Coisa mais sem graça!
Legal é fazer gol de canela e impedido aos 18 minutos do 2º tempo da prorrogação contra a melhor campanha do campeonato depois de ter se salvado na repescagem pelo saldo de gols! Isso sim é mostrar toda a sua malícia e a sua raça!

um abraço

KKKK. Ótimo comentário.
Concordo com você, o que mais recebo por aqui são críticas com base em premissas que o próprio crítico nem testou. É sempre assim: se fizer isso dá certo!
Só que para testar a premissa do cara leva 40 horas! E ele não testa!
Agradeço pelas palavras de apoio.
Abraço,
Portinho


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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