Ibovespa x Renda Fixa – Corrigindo injustiças

Posted on 12/07/2011. Filed under: Finanças |

As tradicionais comparações entre o Ibovespa e a Renda Fixa têm um erro metodológico sério

Sempre que a bolsa (leia-se Índice Bovespa) passa por maus bocados, surgem as comparações depreciativas com a renda fixa brasileira.

Este breve estudo pretende demonstrar que as comparações entre o Ibovespa e a Renda Fixa são inadequadas e imprecisas, transmitindo uma visão distorcida do investimento em bolsa.

Ressalve-se aqui que os profissionais que fazem essa comparação não tem qualquer culpa nem dolo por utilizar uma metodologia imprecisa.

É a própria falta de conhecimento da dinâmica do mercado de ações que leva ao erro metodológico.

Metodologia do estudo

O estudo compara investimentos em bolsa (RV) e renda fixa (RF) entre janeiro de 1998 e junho de 2011.

Para equilibrar os números são simulados dois fundos, um atrelado ao Ibovespa e outro à Selic mensal. Não serão considerados custos e impostos, pois em fundos de longo prazo, pela regras de hoje, as alíquotas seriam iguais. Não há taxas de administração para quaisquer dos fundos.

A planilha com os dados completos está aqui: RFxRV2012.

Primeiro e principal erro: Método de Acumulação de Patrimônio

Os estudos que aparecem na mídia, demonstrando que o investimento em RF foi melhor que o investimento em RV nos últimos anos cometem um pecado metodológico sutil, mas decisivo para viciar os resultados.

Por “viciar” os resultados entenda-se que a metodologia utilizada tende, na maioria das vezes, a beneficiar a RF. É como se, ao jogar um dado, o resultado fosse 90% das vezes um número par, por exemplo.

As comparações sempre levam em consideração um investimento único, feito no início do período, tanto para RF quanto para RV.

Esse método é correto para RF, mas errado para RV.

Não há qualquer dúvida de que migrar uma grande quantidade de dinheiro de uma só vez para RF seja uma atitude prudente ou correta, mas colocar todo o dinheiro em bolsa de uma só vez é jogo, é aposta.

Resumindo: a metodologia de estudo tradicional compara uma atitude de investimento INDICADA para a renda fixa e CONTRA-INDICADA para a bolsa.

O leitor deve estar imaginando se isso é tão grave assim. É gravíssimo.

Pois imagine que o estudo fosse feito com atitudes de investimento INDICADAS para ambos os casos.

No estudo que gerou esse artigo, simulou-se a compra regular de R$ 1.000 em cotas de um fundo de índice (RV) e mais R$ 1.000 em cotas de um fundo atrelado à SELIC (RF), ao longo de 162 meses.

Entre janeiro de 1998 e junho de 2011, os resultados:

  • R$ 163.000 investidos em cada fundo (contando aporte inicial período ZERO)
  • R$ 522.304 no fundo atrelado ao Ibovespa (RV)
  • R$ 485.744 no fundo atrelado à SELIC

Mas não é isso que demonstra com clareza o viés negativo que acaba quase sempre deixando a renda variável em situação desfavorável nas comparações.

A demonstração do viés metodológico

Na metodologia utilizada tradicionalmente, que aqui se quer demonstrar que tem viés amplamente favorável à RF, simula-se um único aporte no início do período, tanto para RF quanto para RV.

Usando essa metodologia, nos 162 meses do estudo, em quantos a RF estaria em vantagem em relação à renda variável?

O patrimônio em renda fixa estaria maior em 143 meses, contra apenas 13 meses, nos quais a renda variável estaria com patrimônio maior.

Mas na metodologia correta, que compara bolsa e renda fixa utilizando uma modalidade de investimento adequada para ambas, o resultado seria AMPLAMENTE diferente.

Usando a metodologia livre de tendências, nos 162 meses do estudo, em quantos a RF estaria em vantagem em relação à renda variável?

O patrimônio em renda fixa estaria maior em 72 meses, contra 90 meses, nos quais a renda variável estaria com patrimônio maior.

Creio que esse cálculo simples demonstra com rigor matemático o enorme viés favorável à renda fixa que a metodologia utilizada pela maioria dos meios de comunicação e de pesquisa carrega.

Além disso, a divulgação acaba estimulando a idéia errônea de que bolsa é “hora certa“. Na simulação que acumula patrimônio ao longo do tempo os resultados da bolsa teriam sido melhores na maioria dos períodos. E o investidor não precisou procurar a hora certa de entrar ou de sair, apenas seguir a regra básica número do investidor consciente: investir regularmente.

Por fim…

Ressalve-se que esse estudo nada diz sobre o futuro e nem tem por objetivo dizer qual foi ou será o melhor investimento, muito menos quer demonstrar que bolsa é melhor do que renda fixa.

Seu objetivo é simplesmente demonstrar que o método utilizado pelos principais meios de comunicação e de pesquisa é inadequado para indicar qual teria sido o melhor investimento nesses últimos anos.

Isso porque utiliza uma sistemática de investimento correta para a renda fixa e inadequada para a bolsa.

Aliás, totalmente equivocada. Hora certa para entrar ou para sair nada tem a ver com o buy-and-hold (atitude própria da RF) ou do Dollar Cost Averaging (método do custo médio).

A demonstração deixou claro que, em situações equânimes, em que os investimentos regulares mitigam a “chance” de escolher pontos especialmente ruins ou bons para a bolsa, a bolsa apresentou-se, na maioria das vezes melhor do que a renda fixa.

Ah… e com uma renda fixa, às vezes, superior a 40% ao ano (alguns meses de 1999).

Por fim, dois gráficos para demonstrar a diferença entre investir regularmente (comparação de patrimônios) e investir de uma só vez (comparação de cotas):

Método tradicional (adequado para RF e inadequado para RV)

Método de aportes regulares (adequado tanto para RF quanto para RV)

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11 Respostas to “Ibovespa x Renda Fixa – Corrigindo injustiças”

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Olá Portinho,

Encontrei mais um depoimento interessante relacionado ao tema.

Se é que você ainda não esbarrou nele:

Renda fixa é mais rentável que a bolsa há 17 anos, diz FGV
http://veja.abril.com.br/noticia/economia/fgv-renda-fixa-e-mais-rentavel-que-variavel-ha-17-anos

Abraços,
Éverton

Oi Everton,
A renda fixa do Brasil era, e ainda é, uma âncora para o crescimento do país. Dificulta o crédito, pois a captação é caríssima, leva as empresas a buscar dinheiro no exterior e, principalmente, acostuma o pequeno poupador a um dinheiro fácil com poucos riscos.
É pena que seja assim.
Esses estudos que comparam o IBOV com a RF ponto a ponto prestam um desserviço ao mercado produtivo brasileiro, principalmente porque estimulam as pessoas a continuar apostando tudo em renda fixa, o que significa, na prática, uma aposta CONTRA a economia do próprio país.
O governo bagunçou um pouco essas “certezas” ao baixar os juros recentemente.
Vamos ver onde vai dar. Estou entre aqueles que acreditam que o Brasil precisará eliminar o “rentismo” para dar espaço a um crescimento sustentável. Mas para isso, terá que mexer na poupança… Quem tem coragem?
Abraço e obrigado pela indicação dos artigos.
[]
Portinho

Portinho, outra possibilidade de comparação é utilizar o PIBB11 entre 15/julho/2004 e 6/set/2011, período em que a Selic acumulada ficou em 2,38x, correspondendo a uma taxa bruta de 12,90% a.a., enquanto a cota do PIBB11 pulou de R$ 27,31 para R$ 80,09, produzindo taxa bruta de 16,24% a.a. Não sei quanto aos aportes regulares, mas a RV ganharia com aporte inicial único. Considero esse caso interessante porque o PIBB11 parece-me muito mais amigável a um investidor amador do que a alternativa de escolher um fundo ativo de RV para permanência no longo prazo. Abraços, Éverton

Oi Everton,
Agradeço pelo comentário.
Aproveito para reforçar que o objetivo principal do post é mostrar que a metodologia é muito dependente de “hora certa” ou “hora errada”. Se utilizarmos os aportes regulares, essa dependência acaba e teremos um quadro mais “correto” do ponto de vista de metodologia da pesquisa.
Com relação ao passado, realmente o PIBB foi uma boa alternativa aos fundos atrelados ao índice (que também funcionam, mas com custos mais elevados). Porém, com a entrada no mercado dos ETFs o brasileiro já tem opção de investir em diversos índices a custo bem acessível.
Abraço!

Portinho,
é possível realizar uma terceira opção de renda variável com reinvestimento
de dividendos?

Obrigado.

Oi Gustavo,
Sim, seria, mas teríamos que ter um histórico de dados muito extenso e complicado de trabalhar.
Os dados utilizados já trazem bastante luz ao tema. Amanhã posto uma extensão do artigo.

Para mim aporte regular e aporte único não são métodos, mas sim situações distintas. Explicando:
1) quem está apto a um aporte único é que tem o que aportar (já tem uma poupança relevante formada)
diferentemente de
2) quem faz aporte regular, que seria aquele que poupa um pouco por mês (está na formaçao da poupança)

O raciocínio do artigo “Ibovespa x Renda Fixa – Corrigindo injustiças” é perfeito p/ quem está na situação 2.

Já quem, por exemplo, tem R$ 1 milhão p/ investir e poupa R$ 3 mil por mês, precisa decidir uma alocação em renda variável X renda fixa, até podendo fazer esse aporte de forma gradual.

Concordo integralmente Alexandre. Escrevi um artigo para o INI sobre o tema. Amanhã vou adaptá-lo para postar aqui.

Mais uma vez você consegue abordar um assunto com precisão e conhecimento, como sempre faz!
Excelente artigo!

Olá Portinho! Mais um post interessante e que corrobora e dá crédito ao B&H (Método de aportes regulares). Parabéns! Um abraço, Rafael

Oi Rafael, agradeço apoio!


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  • Disclaimer

    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

    Seus objetivos são educacionais ou recreativos, não configurando sob nenhuma hipótese recomendação de investimento.

    O investidor consciente deve tomar decisões com base em suas próprias crenças e premissas. Tudo que lê ou ouve pode ser levado em consideração, mas a decisão de investimento é sempre pessoal. Tanto na escolha de ações para carteira própria, quanto na escolha de gestores profissionais para terceirização da gestão.

    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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