Memórias da crise de 2008: Irracionalidade no Mercado

Posted on 11/05/2011. Filed under: Finanças |

Reproduzo a seguir um artigo que escrevi no auge da crise de 2008. A leitura traz importantes indicadores para medir a “irracionalidade” do mercado, em alguns momentos. Vale também como relato histórico:

COMPRAR UMA EMPRESA PELO VALOR QUE ELA TEM EM CAIXA? EM OUTUBRO DE 2008 ISSO FOI POSSÍVEL.

O mês de outubro de 2008 foi um dos piores de todos os tempos para a bolsa brasileira. As quedas de ações, motivadas pelo pânico mundial, pela enorme crise de crédito e pelo receio da exposição de companhias brasileiras aos derivativos cambiais, fizeram com que empresas tradicionais fossem negociadas a múltiplos que há muito não se tinha notícia. O presente artigo vai explorar algumas curiosidades derivadas desse tsunami vendedor que assolou as bolsas mundiais.

Imagine o seguinte:

Você quer comprar uma empresa no setor têxtil. Daí recebe em mãos a análise de uma companhia, com os seguintes dados referentes a 31/10/2008:

  • Ativo circulante AC – R$ 1.807 milhões em ativos circulantes (caixa ou conversíveis em caixa em até 1 ano)
  • Passivo circulante PC – R$ 689 milhões em passivos circulantes (a pagar em até 1 ano)
  • Patrimônio Líquido: R$ 1.468 milhões
  • Capital de giro líquido R$ 1.118 milhões (AC menos PC)
  • Vendas R$ 3.359 milhões acumulado até o 2T08
  • Resultado Acumulado Prejuízo de R$ 150 milhões de reais.
  • PREÇO DE MERCADO em 31/10/2008: R$ 378 milhões

Daí você pensa: Eu posso comprar essa empresa, pagar com o capital de giro, e ainda vai sobrar R$ 740 milhões OU eu posso comprar essa empresa e encerrar seu negócio, recebo tudo o que tem a receber, pago todos os compromissos e liquido os ativos, sobrará quase R$ 1,1 bilhão (patrimônio líquido menos o valor de mercado).

Agora está imaginando: Isso existe? Se existir deve ser alguma empresa bem desconhecida.

Bom, os números acima se referem à conhecidíssima Coteminas. E, realmente, parecem não fazer muito sentido.

Mesmo a empresa de petróleo OGX, que ao abrir capital parecia ter múltiplos fora da órbita racional, em outubro de 2008, com a grande depreciação dos meses anteriores, encontrava-se em situação bem mais confortável. Vejam:

OGX Petróleo

  • Capital de Giro Líquido: R$ 6,7 bilhões
  • Patrimônio Líquido: 8,8 bilhões, sendo 2 bilhões em ativos intangíveis (direitos de exploração)
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 8,88 bilhões
  • Isso significa comprar a empresa pelo valor que ela captou mais o valor das concessões.

Outro exemplo é a empresa de energia do mesmo grupo. Vejam:

MPX Energia

  • Capital de Giro Líquido: R$ 1,56 bilhão
  • Patrimônio Líquido: 2,0 bilhões
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 799 milhões

Outro exemplo de empresa conhecida, com bons resultados e com histórico sólido é a Sul América seguros. Vejam:

Sul América

  • Capital de Giro Líquido: R$ 1,7 bilhão
  • Patrimônio Líquido: 2,15 bilhões
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 1,5 bilhão

Outros exemplos:

Usiminas

  • Capital de Giro Líquido: R$ 6,5 bilhões
  • Patrimônio Líquido: 14,4 bilhões
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 13,5 bilhões

Guararapes

  • Capital de Giro Líquido: R$ 475 mi
  • Patrimônio Líquido: 1,34 bi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 950 mi

Gerdau Metalúrgica

  • Capital de Giro Líquido: R$ 8,3 bi
  • Patrimônio Líquido: 5,28 bi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 7,84 bi

Fertilizantes Heringer

  • Capital de Giro Líquido: R$ 270 mi
  • Patrimônio Líquido: 589 mi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 224 mi

Forjas Taurus

  • Capital de Giro Líquido: R$ 208 mi
  • Patrimônio Líquido: 334 mi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 326 mi

Indústrias ROMI

  • Capital de Giro Líquido: R$ 480 mi
  • Patrimônio Líquido: 687 mi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 518 mi

Marcopolo

  • Capital de Giro Líquido: R$ 648 mi
  • Patrimônio Líquido: 674 mi
  • Preço de mercado (31/10/2008): R$ 792 mi

É importante notar que não se está tratando de lucros, perspectivas para o negócio, crise, mercados etc. É só um cálculo indicando que, em alguns casos, uma empresa poderia ser comprada por menos do que o seu capital de giro e/ou seu patrimônio líquido, ao final de outubro de 2008.

Lembremos que a bolsa ainda atingiu patamares 20% menores na segunda, dia 27/10/2008. Se tivéssemos feito essas avaliações utilizando o valor de mercado daquele dia, provavelmente os valores seriam ainda mais disparatados.

A avaliação acima dá conta de que muitas empresas brasileiras estão sendo vendidas por seu valor patrimonial, sem qualquer prêmio.

Encontrar empresas nessa situação não significa encontrar barganhas, pois o que conta para o pequeno investidor e para muitos analistas é fluxo de lucros e fluxo de dividendos (valuation). Significa apenas que o mercado não está calibrando com precisão suas análises. Os movimentos tendem a ser mais guiados pelo pânico, pelo short selling e pela especulação do que pela lógica dos balanços.

Em informativos passados já havíamos tratado das relações entre os múltiplos P/L e os retornos com dividendos. Agora, fica claro que, seja nos resultados das companhias, seja em suas contas patrimoniais há um bom número de empresas subavaliadas. Bear market é isso. Mesmo o que está subavaliado, não tem qualquer garantia de que vá se apreciar.

Enquanto isso, vamos conhecendo outras formas de avaliar a situação financeira e patrimonial de uma empresa. São importantes balizadores para uma tomada de decisão mais consciente.

Mas não custa torcer para o vendaval passar!

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    Este blog é um ambiente privado para expor opiniões, estudos, reflexões e comentários sobre assuntos ligados a finanças, bolsa de valores, economia, política, música, humor e outros temas.

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  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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