Sugestão de Livro: Sussurros – A Vida Privada na Rússia de Stalin

Posted on 15/04/2011. Filed under: Política |

Caros amigos,

Sei que recomendar um livro de 800 páginas não é lá coisa que se faça! Mas considero, para algumas pessoas, obrigatória a leitura.

O livro Sussurros de Orlando Figes é um dos melhores exemplos de trabalho histórico-científico que já li. O autor transita por atrocidades inomináveis sem fazer qualquer julgamento de valor, sem ideologia e sem críticas políticas.

Na Europa, por experiência própria, e nos EUA, por propaganda, a grande maioria da população tem “anticorpos” contra o totalitarismo comunista, a ditadura do pensamento etc.

Aqui na América do Sul, por força de termos vivido ditaduras militares que foram combatidas por todos, inclusive por militantes comunistas, esses anticorpos só funcionam contra o totalitarismo “evidente” do nacional-populismo ou do militarismo.

Não temos defesa contra a ideologia marxista-leninista ou gramscista.

Josef Stalin foi o Josef Mengele da sociologia

Enquanto o “colega” alemão fazia experiências fisiológicas atrozes, sem qualquer sentimento de culpa, o russo implementou experimentos semelhantes, mas do ponto de vista sociológico.

Não é possível entender a profundidade da destruição dos tecidos que formam uma sociedade sadia sem ler os relatos de centenas de famílias e pessoas que viveram sob o domínio de Stálin.

Um pequeno teaser do livro…

Transcrevo a seguir uma pequena parte do livro, para que o leitor do blog possa se decidir se tem ou não estômago para lê-lo.

Desaconselho a leitura para quem tem filhos. Sinceramente.

Sussurros, página 420, baseado nas memórias de Hava Volovich, no livro “Till my tale is told: Women´s memoir of the GULAG” (bloomington 1999):

A Necessidade de amor, ternura e carinho era tão desesperadora que chegava ao ponto da insanidade, de as pessoas baterem com a cabeça na parede, do suicídio. Todas desejávamos ter um filho – a pessoa mais querida e próxima de todas, alguém por quem daríamos a própria vida. Resisti durante um tempo relativamente longo. Mas necessitava e ansiava tanto pela mão de alguém que pudesse segurar, algo em que pudesse me encostar durante aqueles longos anos de solidão, opressão e humilhação.

Hava teve um caso com um homem não identificado (“Não escolhi o melhor deles”) e teve uma menina com cachos dourados a quem deu o nome de Eleonora. O campo não tinha instalações especiais para mães. No alojamento em que Hava deu à luz, três mães estavam confinadas em um quarto minúsculo.

Percevejos caíam do teto e das paredes como areia; passávamos a noite toda tirando-os de cima das crianças. Durante o dia éramos obrigadas a sair para trabalhar e deixávamos os bebês com qualquer senhora idosa que encontrássemos que tivesse sido liberada do trabalho – essas mulheres comiam tranquilamente a comida que deixávamos para as crianças.

A maternidade deu a Hava um novo propósito e fé na vida:

Não acreditava em Deus e nem no demônio. Mas enquanto estive com minha filha, desejei com todo fervor, violentamente, que existisse um Deus… Eu rezava a Deus pedindo que prolongasse o meu sofrimento em 100 anos se isso significasse que não seria separada de minha filha. Rezava para ser libertada com ela, mesmo que apenas como mendiga ou aleijada. Rezava para ser capaz de educá-la até a maturidade mesmo que precisasse rastejar aos pés das pessoas e implorar por esmolas para isso. Mas Deus não respondeu às minhas preces. Meu bebê mal começara a andar, eu mal escutara suas primeiras palavras, a palavra maravilhosa e comovente que é “mamãe”, quando nos vestiram com trapos, apesar do frio do inverno, colocaram-nos em um veículo de transporte e nos transferiram para o “campo das mães”, onde meu anjo pequeno e atarracado, com cachos dourados se transformou em um fantasma empalidecido com sombras azuladas sob os olhos e os lábios cobertos de aftas.

Hava trabalhou em uma brigada cortando árvores e depois foi transferida para uma serraria. Subornando as enfermeiras do orfanato teve a permissão para ver a filha fora do horário de visita normal, antes da chamada matutina e durante o intervalo de almoço. O que descobriu era perturbador:

Vi as enfermeiras acordando as crianças de manhã. Forçavam-nas a sair da cama com empurrões e chutes. Empurrando as crianças com os punhos cerrados e xingando-as rispidamente, tiravam suas roupas e as lavavam com água congelante. Os bebês nem ousavam chorar, apenas fungavam como velhos e davam gemidos fracos. Aquele som horrível dos gemidos vinha dos berços durante dias. Crianças já com idade de se sentar ou de se arrastar ficavam deitadas sobre as costas com os joelhos apertados junto à barriga, fazendo sons estranhos como um pio de pombo abafado.

Uma enfermeira, responsável por 17 crianças, descobriu maneiras de acelerar o trabalho:

A enfermeira trazia da cozinha uma tigela com mingau fervente e servia porções em pratos separados. Pegava o bebê mais próximo, prendia seus braços nas costas, amarrava-o com uma toalha e começava a enfiar-lhe garganta abaixo uma colherada atrás da outra, sem tempo para o bebê engolir, exatamente como se estivesse alimentando um filhote de peru.

As enfermeiras só cuidavam apropriadamente dos próprios filhos, os quais, alega Hava, “foram os únicos bebês a sobreviverem para ver a liberdade”. Eleanora adoeceu. Seu corpo pequenino ficou coberto de hematomas.

Jamais me esquecerei de como ela agarrou o meu pescoço com as mãozinhas magrinhas e gemeu: “Mamãe, quero casa!”. Ela não tinha esquecido do cortiço infestado de percevejos onde vira pela primeira vez a luz do dia e estava ao lado da mãe…

A pequena Eleonora… logo percebeu que os pedidos por sua “casa” eram em vão. Ela parou de esticar os braços para mim quando a visitava, apenas se virava em silêncio. No último dia de vida, quando a peguei, olhou fixamente com os olhos bem abertos para algum lugar a distância e começou a bater em meu rosto, com os punhos pequenos e fracos, arranhando e mordendo meu seio. Depois apontou para sua cama. À noite, quando retornei com meu fardo de lenha, o berço estava vazio. Encontrei-a deitada nua no necrotério entre os corpos de prisioneiros adultos. Ela tinha vivido um ano e 4 meses neste mundo e morreu em 3 de março de 1944.”

Um, entre milhares de relatos…

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9 Respostas to “Sugestão de Livro: Sussurros – A Vida Privada na Rússia de Stalin”

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É chocante demais pra mim.
Usei da liberdade de enviar esse pequeno texto para amigos e familiares meus. Espero que conheçam um pouco da realidade dos difíceis tempos de Stalin.

Obrigado!

Sérgio

Caro Sérgio, é muito triste mesmo. Mais triste é saber que ainda há muitos que admiram Stálin, Hitler e outras figuras nefastas.
O livro é impecável como documento sociológico e psicológico. Documenta o maior experimento social da história, maior até do que o da Alemanha Nazista.
As pessoas eram tratadas como massa de manobra política. Qualquer capricho de Stálin poderia ser atendido com centenas de milhares de mortos. Há pouca comida para tanta gente? Elimine 10% da população. Nesse nível.
Precisamos manter a atenção, pois o mundo não está livre desses movimentos totalitaristas.
Abraço!

Pavoroso….não tenho filhos nem sou casado, mas fui as lágrimas…

É terrível. O livro é fantástico, mas é muito triste.

Portinho,
Parabens por estar novamente em posicao de maior destaque no INI. Torco pra que vc seja em breve o presidente do INI, pois em termos praticos e vc que vejo defendendo regularmente a analise fundamentelista, e o conceito de poupanca sem magica em nosso pais e muito pouco valorizado. Paraiso perdido, mito ancestral do eterno retorno as origens, bonus sem onus = almoco gratis , e isso nao existe.
Eu acredito e’ no trabalho
Atenciosamente.
Aroldo

Oi Aroldo, agradeço imensamente pelas palavras de apoio.
Vou tentar costurar os apoios necessários para que o INI amplie sua atuação e para que nossa mensagem de “trabalho” e “disciplina” chegue aos ouvidos de milhões de brasileiros, e não só de alguns milhares como até hoje.
Abraço,
Portinho

Heavy Metal, hein?

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    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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